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Abraão
Pour commenter la Genèse. Paris: Payot, 1971
NOSSO PAI ABRAÃO
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A aparição de Abraão é um dos maiores fatos históricos e religiosos, tornando-se o ancestral de Israel, ao contrário da visão científica que dilui sua figura em migrações de clã.
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A Escritura restitui a Abraão sua dimensão religiosa: ele é o homem que ouve o chamado de Deus e obedece, submetendo-se a múltiplas provas e sendo o primeiro a aceitar uma aliança, discutir com o Senhor e implorar por outros.
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Ele é o apoio inabalável da ponte suspensa sobre as vicissitudes humanas, sendo o outro apoio o Messias do fim dos tempos.
O caráter histórico de Abraão não anula o interesse pelo contexto das regiões onde viveu (Ur, Harran, Canaã, Egito), mas a ideia fundamental é a recusa dos bens materiais em favor de um ideal abstrato de sobrevivência em sua descendência.-
Canaã representa a prova do deserto, e Abraão deve deixar seu país para começar pelo começo, assim como os hebreus passarão quarenta anos no deserto para que velhos hábitos morram.
Ur era uma cidade próspera na época de Abraão, com agricultura irrigada controlada pelo estado, muros, templos e uma zigurate dedicada ao deus-lua Sin.-
O templo era o centro econômico, onde os sacerdotes distribuíam justiça, cobravam impostos e conduziam negócios, com prostitutas sagradas hierarquizadas.
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A vida social em Ur testemunhava um desenvolvimento considerável da indústria, artesanato e comércio, com uma estrita hierarquia de nobres, cidadãos e escravos.
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O código de Hamurabi legalizou as antigas práticas, regulando o casamento, o divórcio, a adoção e a herança.
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Abraão abandonou Ur para sempre para se dirigir a Canaã, não esquecendo as lições de sua juventude, assim como Moisés não esqueceu os ensinamentos do Egito.
A localização de Ur-Kasdim é contestada, com alguns situando-a na Baixa Mesopotâmia e outros na Alta Mesopotâmia, perto de Harran, baseando-se na tradição judaica que considera o hebreu vindo do outro lado do Eufrates.O Senhor disse a Abrão para sair de sua terra para um país que lhe seria mostrado, prometendo fazê-lo uma grande nação; Abrão partiu com Sarai, Ló e seus bens para Canaã.-
Uma fome o obrigou a emigrar para o Egito, depois ele retornou a Canaã e se separou de Ló.
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Após uma guerra, Abrão libertou Ló, e Deus lhe prometeu uma posteridade inumerável.
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Como Sarai era estéril, deu sua serva Agar a Abrão, que gerou Ismael.
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Aos 99 anos, Deus mudou seu nome para Abraão, estabeleceu a aliança da circuncisão e mudou o nome de Sarai para Sara, prometendo um filho.
Deus apareceu a Abraão nos carvalhos de Manre, anunciando o nascimento de Isaac; Abraão intercedeu por Sodoma, barganhando para que a cidade fosse poupada se houvesse ao menos dez justos.-
As cidades da planície foram aniquiladas pelo fogo, mas Ló foi salvo.
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Sara deu à luz Isaac, que foi circuncidado aos oito dias.
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Abraão expulsou Agar e Ismael a pedido de Sara, com o consentimento de Deus.
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Abraão fez uma aliança com Abimeleque em Bersabéia.
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Deus testou Abraão, pedindo-lhe que oferecesse Isaac em holocausto; quando Abraão ia fazê-lo, um anjo o deteve, e ele ofereceu um carneiro em lugar do filho.
A primeira revelação de Deus a Abraão ocorre aos 75 anos; antes disso, nada é dito sobre sua vida, porque antes da descoberta de Deus não se vive.-
A lenda (sobre a descoberta do Deus único na juventude, o conflito com Ninrode, a fornalha ardente) é menos inspirada que o texto sagrado; a vida de Abraão só começa quando Deus lhe fala.
A solidão de Abraão durante os longos anos em que nada acontece é na verdade uma preparação ativa e uma busca ininterrupta, sendo ele o homem da exigência absoluta.-
A exigência fundamental absoluta engaja toda a pessoa em sua profundidade (até a raiz do ser) e em sua totalidade (sem exceção), e tal era nosso pai Abraão.
Nos primeiros versículos da história de Abraão, o Senhor é apenas uma voz (como para Adão, Caim e Noé); Abraão obedece à voz, e por isso Deus lhe aparece (12.7).-
Antes de partir de Harran, apenas a voz e a promessa de ser uma bênção; em Canaã, a aparição e a promessa da terra à posteridade; após o Egito, a promessa de que toda a terra será de sua posteridade.
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Após a guerra dos reis, a promessa de uma posteridade numerosa como as estrelas e a posse da terra; Abraão pede um sinal para a posse da terra (obra humana), mas não para a posteridade (obra divina), recebendo o pacto dos animais partilhados.
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Mais tarde, Abraão recebe o segundo pacto (descendência), materializado pelo sinal da circuncisão.
Abraão é o fundador que sentiu a solidão fundamental do homem, sua culpa, angústia e fragilidade, assumindo plenamente seu destino de homem livre com aceitação do risco total.-
Ele sabe que pode escolher seu caminho e que, se os homens não se entendem, ele os compreende e pode uni-los por sua presença.
O “Vai-te” é uma prova em si mesmo; ao obedecer à voz, Abraão se torna o que será, e o projeto divino se estende pela terceira vez a toda a terra, mas nas profundezas do tempo.-
As três articulações do primeiro versículo (“da tua terra, da tua pátria, da casa de teu pai”) correspondem às três promessas do segundo (“farei de ti uma grande nação, abençoar-te-ei, engrandecerei teu nome”), referindo-se respectivamente ao povo, ao país e à santidade.
Abraão não parte sozinho nem para a solidão; ele leva tudo o que lhe pertence e é acompanhado por outros homens (as almas que fizeram), convertendo os homens e Sara as mulheres.O milagre não é Deus ter falado ao homem, mas o homem ter aceitado ouvir a palavra divina; não é Deus ter aparecido, mas o homem ter se tornado digno e capaz de vê-lo.Abraão é o primeiro homem a quem Deus aparece como pessoa, porque ele próprio aparece a Deus como pessoa, sendo capaz de se pensar fora da natureza, da vida e da humanidade.-
Desse fato decorre que Abraão é o primeiro a quem Deus promete algo diferente do que prometia aos homens anteriores (confundidos com a natureza, os seres vivos ou a massa humana não individualizada).
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A promessa “multiplicar-te-ei ao infinito” significa que doravante cada homem será um indivíduo, uma pessoa, digno de entrar em relação pessoal com Deus, se quiser.
O privilégio de ver aparecer o Senhor foi reservado a Abraão três vezes (em Siquém, após o diálogo da aliança, após a circuncisão), e sua missão é primeiro obedecer, depois aceitar a aliança pela circuncisão, e finalmente tornar-se colaborador de Deus, guardando a via do Senhor para praticar a virtude e a justiça (18.19) – missão de todo o povo de Israel.O relato da viagem ao Egito (12.10-20) é interpretado como uma realidade histórica (onde Abraão, para salvar-se, entrega Sarai ao faraó), uma alegoria (prefigurando o que acontecerá a Israel no Egito) e uma narrativa simbólica das núpcias de Deus e Israel, da separação cruel e da reunião após a prova.-
Toda a história de Israel repete esse movimento perpétuo: Sarai torna-se escrava, mas Deus a liberta e a devolve a Abrão; pelas nações, Israel aprende a adorar o Deus vivo.
A frase “os cananeus estavam então no país” (12.6) e “os cananeus e ferezeus habitavam então no país” (13.7) foi usada pelos biblistas para argumentar que Moisés não pôde ter redigido o texto, pois os cananeus ainda estavam no país em sua época.-
A intenção do autor pode ter sido diferente: na primeira vez, quando Abraão chegou, havia apenas cananeus; no retorno do Egito, um outro povo se juntou, e a vida em comum tornou-se impossível, levando à separação.
Após a separação, Ló escolheu a planície do Jordão (cidade de Sodoma, cujos habitantes eram maus e pecadores); feito prisioneiro na guerra dos reis, foi libertado por Abraão.-
A tradição acusa Ló de ter escolhido voluntariamente uma região idólatra, e por isso seus descendentes (moabitas e amonitas) foram hostis a Israel e desapareceram.
Após a guerra, aparece Melquisedeque, rei de Salém (antiga Jerusalém), sacerdote de El Elyon (o Deus Altíssimo), que oferece pão e vinho e abençoa Abraão, que lhe dá o dízimo.-
A diferença crucial é que Abraão responde ao rei de Sodoma retomando a fórmula de Melquisedeque (“Deus Altíssimo, mestre do céu e da terra”), mas com a adição do verdadeiro nome divino: Senhor (14.22).
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A epístola aos Hebreus (Novo Testamento) usa Melquisedeque para demonstrar a superioridade do sacerdócio de Jesus sobre o levítico, mas a argumentação é frágil (a bênção de Melquisedeque a Abraão não prova superioridade, e o autor ignora que o rei de Salém era um idólatra).
A ruptura entre o cristianismo e o judaísmo (obra de Paulo) foi inevitável para atrair as massas pagãs, abolindo a santidade, a observância, a circuncisão e as obras; o cristianismo pôde conquistar o mundo, tornando-se seu escravo e cúmplice.O pacto dos animais partilhados (animais cortados ao meio) significa que Deus passará no meio deles para confirmar a aliança, mas também para avisar Abraão de que sua posteridade será escravizada por quatrocentos anos (15.13).O versículo “Ele creu no Senhor, e Ele o imputou como justiça” (15.6) pode ser interpretado de três maneiras:-
Interpretação clássica: Abraão creu nas promessas, e Deus lhe imputou isso como justiça (base para a teoria paulina da justificação pela fé, dispensando as obras).
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Segunda interpretação: Abraão imputou a justiça a Deus por lhe ter feito a promessa, vendo-a como um ato de misericórdia.
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Terceira interpretação: o sujeito do primeiro verbo é a posteridade (que crerá no Senhor, e isso lhe será imputado como justiça).
Como Sarai não dava filhos, ela deu sua escrava Agar a Abraão, que gerou Ismael; treze anos depois, Deus aparece pela segunda vez a Abraão, muda seu nome para Abraão, estabelece a aliança da circuncisão e muda o nome de Sarai para Sara.-
A circuncisão é o sinal da aliança perpétua, e o incircunciso será suprimido (kareth – retrancamento, que a tradição interpreta como morte prematura ou desaparecimento da descendência).
A terceira aparição de Deus a Abraão (nos carvalhos de Manre) anuncia o nascimento de Isaac e a destruição de Sodoma.-
Deus diz que escolheu Abraão para que ele ordene a seus filhos e sua casa depois dele que guardem o caminho do Senhor, praticando a virtude (tsedaka – misericórdia) e a justiça (mishpat – direito rigoroso).
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Abraão, então, intercede por Sodoma, perguntando: “Farias perecer o justo com o ímpio?” e barganha para que a cidade seja poupada se houver ao menos dez justos.
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Pela primeira vez, a questão fundamental da justiça se coloca: os maus serão perdoados pelo mérito dos justos que vivem entre eles? Abraham ensina que o amor supera a justiça.
Toda a história de Abraão se concentra em torno de sua posteridade; ele rejeita sucessivamente Ló, Eliezer e Ismael, até que Deus lhe promete Isaac como filho da aliança, nascido de Sara, a esposa legítima e parente próxima.-
Também se concentra em torno da terra prometida, que é dada a Abraão e sua descendência como posse perpétua.
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Além da terra e da descendência, a história de Abraão é a de uma fé total, expressa pela palavra “hinéni” (“eis-me aqui” ou “estou pronto”), dita em resposta ao chamado de Deus antes mesmo de saber o que lhe será pedido.
Deus diz: “Toma teu filho, teu único, aquele que amas, Isaac”; a liberdade de Abraão é absoluta (o verbo hebraico tem uma partícula que indica uma prece, não uma ordem), mas ele já respondeu “hinéni”, indicando que na alma conquistada pelo divino não há hesitação.-
A narrativa do sacrifício de Isaac é um dos pontos culminantes da Escritura, onde Abraão vai além do amor humano, alcançando a “crainte de Deus” (tradução inadequada para um sentimento que não é medo, mas a relação inumana do místico com o divino).
O livro do Gênesis nunca aplica o verbo “amar” à relação do homem com Deus, usando-o apenas para o amor humano (Abraão ama Isaac, Isaac ama Rebeca, Jacó ama Raquel).-
O termo usado para a relação de Abraão com Deus é a “crainte” (yir’ah), que expressa a experiência mística de solidão e deslumbramento.
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O amor de Deus (introduzido a partir do Êxodo) é uma representação social da relação homem-divindade, típica do pagão e do cristão, que necessitam de um ídolo ou símbolo.
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A “crainte de Deus” é o termo que qualifica a fé absoluta dos patriarcas e profetas, e só pode ser compreendida pelos santos de Deus.
O dilema de Abraão (sacrificar Isaac e perder a posteridade, ou recusar e perder Deus) é um falso dilema, pois a recusa seria a inação, e não um verdadeiro livre arbítrio entre duas ações positivas.-
Abraão escolhe sacrificar Isaac porque, mesmo sem descendência, Deus continuaria sendo seu Deus (Deus pessoal), o que é mais precioso do que uma posteridade.
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O ato de Abraão não é um dever moral ou religioso, mas um ato livre que obedece a uma necessidade interior absoluta; sem ele, nada pode subsistir no mundo.
Isaac caminha com seu pai em silêncio, sabendo que ele é a vítima; sua aceitação total é expressa pela frase repetida “e eles caminhavam ambos juntos”.-
O casal Abraão-Isaac representa o extremo limite do homem: o sacrifício total e a aceitação total.
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