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Nascimento da Lei
Bíblia Aberta II. EISENBERG, Josy; ABÉCASSIS, Armand. Et Dieu créa Ève. Paris: A. Michel, 1979.
E YHVH Elohim ordenou
ao Adam, dizendo:
de todas as árvores do jardim,
podes comer.
Mas da árvore
do conhecimento do Bem e do Mal,
não comerás,
pois, no dia em que dela comeres,
morrerás.
Gênesis, II, 16-17.
«Amarás o Senhor teu Deus
com todo o teu coração, com toda a tua alma
e com todas as tuas forças.
As palavras que te ordeno
estarão no teu coração. »
Deuteronômio, VI, 5.
Comentário de Rashi:
«E o que é, afinal, o amor?
Que as Minhas palavras estejam no teu coração.»
A primeira palavra de Deus como Lei
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A primeira palavra que Deus dirige a Adão é uma palavra de Lei, a chamada lei do fruto proibido, que se subdivide em uma permissão e um interdito.
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A permissão (Gênesis II, 16) afirma: “de toda árvore do jardim, comer, tu comerás”.
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O interdito (Gênesis II, 17) afirma: “da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, pois no dia em que dela comeres, morrerás”.
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Quando Deus se revela, ele o faz por meio da Lei, e cada vez que Deus se revela a um indivíduo ou a Israel, sua palavra traz uma Lei.
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A revelação significa a vontade de Deus de encontrar alguém que se alie a ele, comprometendo-se a realizar seu projeto segundo as modalidades da Lei.
O discurso de Deus a Adão é surpreendente porque Deus não revela nada de si mesmo, não se apresenta nem narra a criação.-
A ideia que emerge é clara: Deus só pode ser conhecido pelo homem através da Lei.
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O mesmo ocorre com Israel no Sinai: Deus se apresenta como legislador e como aquele que intervém na história (Êxodo XX, 2).
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Toda palavra é moral não apenas por seu conteúdo, mas como palavra que busca comunicar com o outro, separando e ligando ao mesmo tempo.
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A palavra própria é sempre uma aliança com o outro, um dever de estar junto para o bem dos interlocutores.
A primazia da moral (da Lei) é a intenção mais autêntica do texto bíblico, e é universal, dirigindo-se à humanidade inteira através de Adão.-
O apego de Israel a esse discurso moral foi frequentemente criticado, mas a história de Adão prova que o povo de Israel ainda não existia quando o primeiro discurso foi dado.
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A primeira lei é universal, pois o homem é talhado no tecido moral, sendo a forma da Lei eterna, embora seu conteúdo varie.
“Goza”: é uma ordem
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A leitura corrente do texto enfatiza o interdito, mas a formulação da primeira Lei é tanto permissiva quanto proibitiva, combatendo a representação de um Deus tentador ou castrador.
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A Lei é dupla e seus dois aspectos estão ligados como anverso e reverso.
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O primeiro aspecto (Lei positiva) é “comerás de todas as outras árvores”, cobrindo um princípio de gozo: o homem está na terra para gozar e ser feliz.
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O segundo aspecto é a limitação, a fronteira: “não comerás da árvore do conhecimento”.
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A tradição judaica lê “de toda árvore do jardim, deves comer”, tratando-se de uma ordem, não de uma licença.
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O Talmude conta a história de um rabino que comprava cada novo fruto para cumprir os mandamentos divinos, e afirma que, no Dia do Juízo, o homem prestará contas dos prazeres lícitos que recusou.
A expressão “Deus viu que era bom” (seis vezes repetida) indica que o mundo foi criado para o bem e para a felicidade do homem.-
O primeiro lembrete da humanidade não é o fruto proibido (como afirmou Bergson), mas a vontade de gozo, com o interdito vindo em segundo lugar.
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Os psicanalistas ensinam que o princípio do prazer é anterior ao princípio da realidade, e o interdito põe um limite a um desejo que lhe pré-existe.
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O homem está no mundo para gozar, e é nesse contexto que existe uma Lei.
É permitido interditar
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Não se pode dizer que no princípio era a frustração, pois a “situação-modelo” de Adão é primeiramente uma situação de satisfação, com todas as árvores dadas ao homem para seu prazer.
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É preciso recusar o supérfluo apenas quando todos os homens gozarem do necessário, e o interdito só faz sentido se os frutos das outras árvores são dados a todos.
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Na aventura de Adão, o interdito é uma restrição, mas não uma contestação da legitimidade do prazer.
O comentarista Ibn Ezra (Idade Média) afirma que, se apenas o interdito fosse imposto sem a permissão, a vida teria sido impossível e Deus não teria manifestado sua divindade.-
A sociedade só pode interditar se permite, ou seja, se dá aos homens os meios de respeitar o interdito.
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Só se pode impor deveres se forem concedidos direitos (as condições de realização desses deveres), como o direito de ganhar a própria comida para que o roubo seja proibido.
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O interdito só tem sentido sobre um fundo de autorização e de dom.
Para a Bíblia, é permitido interditar, contrariando o slogan “é proibido proibir” de maio de 1968.-
No jardim do Éden, lugar de paz, felicidade e realização, existe uma Lei que não pode ser contornada ou negada senão em uma utopia louca.
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Se mesmo no Paraíso há uma Lei, não se pode imaginar nenhuma situação em que o homem viveria “fora da lei”.
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A Lei é insuperável: relativa em seu conteúdo, arbitrária em seus limites, mas eterna e absoluta em sua existência.
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O progresso da humanidade e a evolução do judaísmo podem questionar esta ou aquela lei (regra), mas não a Lei em si.
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O interdito é decretado não contra o homem, mas em vista de sua felicidade.
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