Filho da Geena
Bíblia Aberta II. EISENBERG, Josy; ABÉCASSIS, Armand. Et Dieu créa Ève. Paris: A. Michel, 1979.
Aquele que se pergunta:
o que há lá em cima,
o que há lá embaixo,
o que havia antes,
o que haverá depois,
seria melhor para ele
não ter sido criado.
Talmud, tratado de Hagigah, 11b.
Ele profanou o altar de sacrifício
do vale de Ben-Hinnom,
para que ninguém
mais passasse
seu filho ou sua filha
pelo fogo
em honra a Moleque.
II Reis 33, 10.
Todos aqueles que descem à geena
voltam a subir, exceto três:
aquele que comete adultério,
aquele que humilha o próximo em público
e aquele que lhe dá um apelido.
Talmud, tratado Baba Metsia, 58b.
O melhor dos médicos, para a geena.
Talmud, tratado Kiddushin, 82a.
O silêncio da Bíblia sobre o paraíso celestial
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A Bíblia não fala do Paraíso no sentido corrente do termo, permanecendo muda sobre o destino das almas e a sobrevivência.
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A mensagem bíblica parece circunscrita aos dois paraísos terrestres: o de onde se partiu (início da aventura humana) e o para o qual se vai (tempos messiânicos).
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O silêncio bíblico não é fortuito e teve consequências para o pensamento religioso judeu, que privilegia a existência terrestre como tendo valor de absoluto.
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É preciso ter sucesso na vida sem se preocupar em excesso com o que pode vir depois, pois a angústia metafísica pode impedir o cumprimento do dever.
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Um texto do Talmude (tratado ‘Hagigah, 11b) afirma que seria melhor não ter sido criado para quem se pergunta sobre o que há em cima, em baixo, antes ou depois.
Apesar das reservas, os rabinos não puderam silenciar totalmente sobre o que espera o homem após a morte, devido às injustiças e desigualdades da vida.-
As injustiças aparentes (maus que triunfam, justos que sofrem) exigem a ideia de um julgamento, recompensa e sanção após a morte.
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No pensamento rabínico, a alma é julgada e prometida ou ao paraíso celestial (chamado Gan Eden ou Eden) ou à Geena.
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O termo Geena deriva de “gey bené hinom”, um vale nos arredores de Jerusalém onde se praticavam cultos pagãos com fogo.
Profissões perigosas e o fogo da Geena
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Os textos rabínicos fornecem listas daqueles que escaparão do fogo da Geena e daqueles que não poderão evitá-lo.
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A Geena é um lugar de julgamento e castigo pelo fogo, símbolo da discórdia e do castigo na Bíblia.
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A categoria dos que não escaparão inclui primeiro os hipócritas, os orgulhosos e os que cometem adultério.
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Também estão incluídos aqueles que humilham o próximo em público ou lhe dão apelidos, sendo que humilhar o próximo é considerado um pecado capital.
Existe uma lista de profissões que fazem correr grandes riscos a quem as exerce, tornando provável a prática do pecado.-
Os médicos são citados, havendo a afirmação de que “o melhor dos médicos é para a Geena”.
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A hostilidade dos rabinos se dirige à atitude megalomaníaca de certos médicos que excluem a oração e têm uma visão mecanicista da vida, como o rei Asa (Crônicas XVI, 12).
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O institutor (professor) e o açougueiro (que faz o abate ritual) também devem frequentar a Geena.
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Os açougueiros estariam expostos ao amor da violência, que poderia se estender dos animais aos clientes.
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Os institutores corriam o risco de cometer adultério por estarem mais em contato com as mães dos alunos do que com os pais.
O inferno na terra
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Quatro categorias de pessoas não conhecerão a Geena: os pobres, os que sofrem de problemas intestinais, os que exercem o poder e os mal casados.
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Essas quatro categorias são consideradas “preservadas” porque suas dores na terra já expiaram todas as faltas.
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Os pobres têm uma vida que não é vida, sendo considerados como mortos.
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Os doentes intestinais padecem de doenças consideradas as mais difíceis de curar na época.
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Os homens públicos (políticos) se expõem a graves reveses, críticas e ultrajes, sendo preferível o artesanato e o amor ao trabalho com ódio à autoridade.
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Os mal casados vivem o dilaceramento dentro do casal, um inferno cotidiano semelhante às doenças intestinais.
A Geena pode ser vivida e sofrida neste mundo, não sendo necessário um lugar ou tempo fora da terra e da história cotidiana.-
A doença e a dor física são um inferno no corpo.
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Os maus casamentos e problemas conjugais são o inferno na expressão social e psíquica.
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Os políticos (que dirigem) e os pobres (que sofrem as consequências do sistema) representam os extremos sociais do inferno.
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Assim como o jardim do Éden se desdobra aqui, a Geena queima na terra, no corpo, na família e na sociedade.
Se quiser escapar da Geena
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A Geena não é um lugar com supostos de Satanás, mas sim o lugar do julgamento, assemelhando-se mais ao purgatório do que ao inferno.
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O julgamento na Geena é limitado no tempo: doze meses, segundo o Talmude (tratado Roch Hachanah, 17a).
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O período de luto por um pai ou mãe é de um ano, recitando-se o Kaddish (santificação do nome de Deus) na sinagoga.
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Os rabinos determinaram que o Kaddish cesse no final do décimo primeiro mês, para não sugerir que a alma do falecido era ímpia.
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O Midrach ensina que quem responde “Amém” ao Kaddish é salvo dos sofrimentos da Geena.
Existem muitos mandamentos e atitudes graças aos quais o homem pode esperar escapar do fogo da Geena e do julgamento após a morte.-
As obras realizadas aqui na terra tornam o julgamento inútil, pois o homem já foi julgado e justificado na terra.
A história do Rabi Zéra ilustra os limites da tentativa de anular o poder do fogo e da Geena.-
Rabi Zéra tentou tornar as chamas inofensivas estudando a Torah encostado em um fogão quente.
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Ele conseguiu, em certa medida, vencer o inferno, anulando o efeito destrutivo do fogo.
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Ao ser surpreendido pelos alunos que entraram sem avisar, distraiu-se e suas coxas queimaram profundamente.
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A história significa que uma moral sem sanção é legítima na solidão, mas que, na presença do outro, responsabilidade e sanção estruturam as relações.
A ideia da Geena não é a de tortura infligida por um Deus sádico, mas a ideia de julgamento, sem a qual a moral não teria existência própria.-
Os rabinos falaram mais da Geena do que do Eden, e o essencial está num texto poético do Talmude (tratado Bera’hot, 17a).
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No mundo vindouro não há comer nem beber; os justos estão sentados com coroas na cabeça, gozando do esplendor da Presença Divina.
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As bem-aventuranças são puramente espirituais, sendo difícil imaginar um gozo sem participação do corpo.
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