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Preâmbulos doutrinais
OHCC
Antecedentes e Fundamentos da Exegese de Orígenes no Cântico dos Cânticos
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Emergência da Interpretação Alegórica do Cântico
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Citações explícitas e interpretação sistemática começam com Hipólito de Roma.
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Hipólito estabelece leitura do Cântico como alegoria do amor entre Cristo e Igreja.
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Orígenes, tendo ouvido Hipólito em Roma, provavelmente conheceu suas ideias mestras.
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Em ambos, aplicação cristológica e eclesiológica é constante.
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Em Orígenes, porém, aplicação à alma fiel é inseparável da tipologia eclesial.
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Afirma que o Verbo não é compreendido sem a alma criada à sua imagem, assim como sem a Igreja.
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Convoca a alma a cantar o cântico com o esposo, elevando-se do sentido universal ao mais alto.
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Identifica Cristo como esposo e a Igreja como esposa imaculada.
Limitações da Interpretação Pré-Origeniana-
Em Hipólito, alusões à alma individual são fugazes e ligadas a figuras como Maria Madalena.
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Referências a buscar e não encontrar no Cântico são associadas às mulheres no túmulo de Cristo.
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Tais alusões são mais produto de similaridade textual que intenção doutrinal de significar cada alma fiel.
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Tradição comparava essas santas mulheres à própria Igreja, reforçando o sentido coletivo.
Orígenes como Ancestral da Tradição Exegética-
Comentário de Hipólito perdeu-se e só foi recuperado em versões georgiana e eslava.
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Orígenes consolida-se como fonte para todos os comentadores posteriores.
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Sua interpretação condensa dados dispersos da tradição anterior numa síntese original.
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Expõe teologia espiritual completa: Igreja, Cristo, alma e Logos no diálogo do Cântico.
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Personagens do poema representam categorias de fiéis em diferentes graus de conhecimento (gnose).
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Aproveita recursos da filosofia grega do amor e da alegoria alexandrina aplicada aos múltiplos sentidos da Escritura.
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Edifica doutrina rica e exuberante que se tornará clássica na tradição da Igreja.
Pressupostos Doutrinários para a Compreensão das Homilias-
Doutrina dos sentidos espirituais é central para apreender os mistérios do Cântico.
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Compreensão requer preâmbulo sobre a dupla concepção do mundo e do homem.
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Os Dois Mundos e a Escritura
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Cristianismo é essencialmente anagógico, orientado para o éon futuro onde Cristo reina.
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Orígenes, profundamente cristão, distancia-se dos filósofos gregos com os quais é comparado.
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Adota dualidade entre mundo visível (imagem) e invisível, mas com ênfase distinta.
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Concede valor teológico superior às realidades deste mundo tocadas pela Escritura.
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A BÍBLIA é a fonte única de explicação, revelando uma harmonia profunda instituída pelo Autor divino.
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Objetos e narrativas do Antigo Testamento (pastor, cordeiro, templo, etc.) são profecias que apontam para arquétipos misteriosos.
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Apenas o homem espiritual pode perceber as realidades transcendentes comunicadas pela Palavra divina.
Os Dois Homens-
Interpretação do duplo relato da criação em Gênesis (Gn 1-2).
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Filão de Alexandria já explicava em chave platônica: homem celeste (imaterial) e homem terrestre.
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Orígenes reinterpreta, interiorizando os dois homens à luz da antropologia paulina.
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Cita II Coríntios 4:16 e Romanos 7:22 para distinguir homem exterior (que se corrompe) e homem interior (que se renova).
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Estabelece estruturas duplas para a existência: vida carnal versus vida espiritual.
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Estende o princípio a sentidos, alimento e cântico: carnal versus espiritual.
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Toda a gama de operações humanas sofre esse desdobramento, espelhando a teologia do visível e do invisível.
Sentidos Corpóreos e Sentidos Espirituais-
Doutrina dos sentidos espirituais é esboçada por Orígenes, embora sem sistematização rígida.
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Sensações materiais são sombras de uma apreensão superior de objetos transcendentes (mistérios, Cristo, Pessoas divinas).
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Linguagem bíblica sensorial (gosto, odor, abraço, beijo) adquire intensidade máxima, podendo levar à embriaguez da alma.
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Orígenes remete a Provérbios 2:5, atribuindo a Salomão o conhecimento de dois tipos de sentido: mortal/corruptível e imortal/espiritual/divino.
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Enumera espécies do sentido divino: vista para o supra corpóreo, audição para vozes não aéreas, paladar para o pão vivo, olfato para o bom odor de Cristo, tato como o de João que apalpou o Verbo da vida.
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Base psicológica encontra-se na distinção neoplatônica entre psyche (alma) e noûs (espírito/inteligência).
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Noûs é o domínio da vida contemplativa (theória), do lógos e da gnose.
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Psykhé é o domínio da vida ativa (práxis) e da luta moral.
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A alma (psyche), por meio do noûs (imagem do Verbo nela), deve tornar-se Esposa do Logos.
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Paralelo entre trajetória da Igreja (purificação histórica para as núpcias com Cristo) e da alma (purificação ascética para as núpcias com o Verbo).
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Percepção plena dos sentidos espirituais só se manifesta no perfeito (teleios).
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Antes da perfeição, revelam-se progressivamente, conduzindo a alma à contemplação.
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Sentidos espirituais são faculdades superiores do noûs, que permitem apreender realidades do espírito.
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Doutrina torna-se chave da mística origeniana, desenvolvida por discípulos como Evágrio e Pseudo-Macário.
Experiência das Coisas Divinas-
Orígenes é pioneiro ao expor a doutrina dos sentidos espirituais, ligando-a a um conhecimento experimental das coisas divinas.
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A alma é cativada pelos perfumes do Verbo e atraída a Ele.
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Quando o Verbo ocupa todos os sentidos espirituais, a alma rejeita todo objeto caduco.
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Exorta-se à mortificação dos sentidos carnais e ao despertar dos sentidos divinos do homem interior.
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Centralidade do conceito de homem interior e do processo de interiorização.
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A união ao Lógos realiza-se no interior mais profundo da alma.
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Teologia da imagem: o homem é renovado à imagem de Cristo, que é a imagem de Deus.
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Conformidade crescente com o Verbo permite a união e o deleite espiritual.
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Doutrina dos sentidos espirituais opera uma interiorização do cosmos: transpõe objetos sensíveis para o domínio espiritual.
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Objetos espirituais, por sua vez, pertencem à ordem do noûs.
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Eco do médio platonismo: a fonte do bem está no interior, a ser descoberta por escavação contínua.
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A sensibilidade espiritual da própria Escritura guia esta busca interior.
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Orígenes incentiva a ter poço e fonte próprios para extrair inteligência das Escrituras do próprio fundo.
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Aplica princípio ao cosmos: tudo o que há no mundo está também dentro de si.
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Elementos materiais do Cântico pertencem simultaneamente aos mundos corpóreo e espiritual.
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São apreendidos pelo homem espiritual via sentidos espirituais, povoando a inteligência do gnóstico em sua jornada para as regiões interiores da alma.
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