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Análise do Cenário e da Dramaturgia Espiritual nas Homilias de Orígenes

OHCC

  • Conclusão da Teologia da União Mística
    • A alma só se une ao Verbo de Deus após a dissipação completa do inverno das paixões e da tempestade dos vícios.
    • União requer que a alma não seja mais agitada por todo vento de doutrina.
    • Quando as paixões e desejos se retiram, as flores das virtudes começam a florescer na alma.
    • Então ouve-se o arrulhar da pomba, símbolo da sabedoria divina oculta no mistério, comunicada entre os perfeitos.
    • Esta é a etapa suprema onde a alma, inteiramente liberta, vive na terra sua vida de Esposa.
  • O Cântico Explicado pelas Homilias: Estrutura Dramática e Personagens
    • Doutrina espiritual está encaixada no próprio drama sugerido pelo Cântico.
    • Orígenes distingue quatro tipos de personagens no drama:
      • O Esposo (Cristo/Verbo).
      • A Esposa (Igreja/Alma fiel).
      • As jovens que seguem a Esposa (fiéis menos avançados, que receberam a salvação com medida).
      • Os companheiros do Esposo (os mais avançados, que chegaram à estatura de homem perfeito).
    • A alma é convidada a cantar o Cântico identificando-se com a Esposa em diálogo com o Esposo.
    • Se não for capaz desse grau, pode associar-se a um dos dois coros (das jovens ou dos companheiros).
  • O Público das Homilias e seu Tema Subjacente
    • Embora todo o Cântico seja objeto da percepção dos sentidos espirituais e convenha aos perfeitos, Orígenes concede explicações para os iniciantes nas homilias.
    • Reserva as exposições mais profundas para o grande comentário.
    • Acredita que mesmo quem só tem lugar entre as jovens pode aspirar a um dia ouvir o que foi dito à Esposa.
    • Este é o tema central das duas homilias: falar para os menos perfeitos.
    • Seu público incluía catecúmenos, a quem chama frequentemente de jovens ou crianças de peito.
    • Insiste em encorajar os principiantes, aqueles que ainda não têm a segurança da Esposa.
    • A Esposa é símbolo da humanidade arrependida, em contraste com a reprovação do povo judeu que perdeu seu título de noiva.
    • Adverte sobre os perigos da infidelidade para o avançado, do risco de tornar-se lama.
    • Relembra com alegria o sono do Esposo, símbolo de sua paixão, e a fé daqueles que querem ser salvos por sua vigília.
    • Convida para a ordenação da caridade, precavendo contra os inconvenientes que nela deixamos subsistir.
    • Distingue entre montanhas (os perfeitos) e colinas (os fiéis simples), incentivando todos a crescerem.
    • Sua alma apostólica incansável exorta e corrige suas ovelhas para que se tornem dignas do Esposo.
  • Método Exegético e Doutrina Espiritual
    • Orígenes varia constantemente seus ricos desenvolvimentos doutrinais, sem citar formalmente a Escritura a cada passo, mas entrelaçando-a em todo seu discurso.
    • Seu estilo está repleto de citações implícitas das palavras sagradas, que formam a trama essencial de seu pensamento.
    • Faz jorrar do texto sagrado uma doutrina espiritual que enriquece a inteligência dos mistérios e a prática da vida cristã.
    • Utiliza o método alexandrino de suscitar, em torno das palavras inspiradas, alusões ideológicas ou verbais contidas em outras passagens da Escritura.
    • Este método, também usado por São Bernardo, permite construir pequenos conjuntos doutrinários através de evocações inesperadas.
    • Tudo parte de sua visão do mundo: o visível é sombra fugaz do invisível, e a Escritura é o guia principal para esta busca, que requer a graça de Deus.
    • O Cântico dos Cânticos é esboçado e anunciado pelos cânticos inferiores que a ele conduzem.
    • Seus conteúdos, eminentemente espirituais, devem ser compreendidos de modo espiritual pelo homem espiritual, mediante sentidos e amor espirituais.
    • Compreendidos de outro modo, constituiriam um perigo para a alma.
  • Conteúdo Doutrinal do Drama Espiritual
    • A Igreja é a Esposa de Cristo; a alma santa é a Esposa do Verbo.
    • As aparências de jogos de amor entre os personagens são aspectos da doação mútua e total.
    • O tratado é, simultaneamente, uma eclesiologia e uma teologia mística.
    • Elementos sensoriais do poema tornam-se realidades sacras simbólicas:
      • Beijos, perfumes, seios, nome, aposento do Esposo.
      • Ovelhas e cabras, carros do Faraó, enfeites de prata e ouro, ramo de mirra, cacho de cipreste, vinhas de Engadi.
      • Olhos da Esposa, ferida de amor, abraço, aparições e chamados do Esposo.
    • Cada imagem é um pequeno quadro que revela aspectos do Amor divino inesgotável que se derrama nas almas.
    • Princípio paulino orienta a interpretação: omnia munda mundis (Tudo é puro para os puros).
  • Cenário e Estrutura Dramática das Homilias
    • Orígenes determina o cenário e a sequência do drama, embora se eleve constantemente para a doutrina.
    • Cenário campestre da idílio: vai da morada do Esposo (com seu aposento secreto) a um adega, próximo a uma vinha e a um muro com janelas.
    • Há pastos por onde o Esposo vagueia.
    • Aparições e desaparecimentos do Esposo são vagos, fugidios e misteriosos.
    • A Esposa é seguida por um grupo de jovens; o Esposo, por um grupo de jovens.
    • O fragmento do drama comentado (apenas dois capítulos) pode ser vivido em oito cenas.
    • Os dois coros (jovens e companheiros) permanecem frequentemente em segundo plano.
    • Sequência das oito cenas:
      • Cena I: A Esposa, após longa espera, dirige-se ao Pai do Esposo, pedindo seus beijos.
      • Cena II: O Esposo surge; primeiro abraço e elogio da Esposa aos seus seios e perfume.
      • Cena III: Aparecem as companheiras da Esposa; ela as apresenta ao Esposo; elas declaram seu amor e o seguem.
      • Cena IV: O casal entra no aposento nupcial; as jovens ficam fora e cantam; a Esposa declara sua beleza negra, explicando sua provação.
      • Cena V: O Esposo desaparece. A Esposa, aflita, o procura. A Voz do Esposo a repreende suavemente e depois a elogia. O Rei entra em repouso.
      • Cena VI: Enquanto o Esposo dorme, seus acompanhantes consolam a Esposa. Ela monologa sobre as doçuras do Bem-Amado.
      • Cena VII: O Esposo reaparece; diálogo de admiração mútua; intervenção dos jovens; convite do Esposo para entrar na casa do vinho (adega); súplica da Esposa por sustento, pois está ferida de amor.
      • Cena VIII: Nova desaparecimento e súbita reaparição do Esposo atrás do muro, na janela. Convite final e poético para a Esposa levantar-se e vir, pois o inverno passou e é tempo de florescimento.
    • O texto comentado por Orígenes nas homilias termina com este convite do Esposo.
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