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MANDAMENTOS

Yvan Amar: Les Dix Commandements intérieurs

Deus fala. “Eu Sou” fala. E Moisés, o “homem-humanidade”, o homem que vale para Israel, “escuta”. Isto se reconhece: “Shema Israel, Adonai Eloenou, Adonai Ehad”. Escuta Israel, o Eterno nosso Deus, o Eterno é Um. E no coração deste reconhecimento, no coração desta revelação, Deus lembra um pacto, selado desde a origem, um contrato que estabelece uma eterna e mística relação entre Deus e Sua criação, entre Deus e o homem, entre o homem e a criação. Uma relação de responsabilidade recíproca, uma aliança pela qual devem fazer do homem e da criação o Lugar de Seu advento. E este pacto será renovado a cada vez que isto seja necessário. E Ele se lembrará por um homem à lembrança dos homens.

Na Aliança passada com Moisés, Deus dá os Dez Mandamentos. Para Deus, ordenar, é ao mesmo tempo “comandar”, e “aportar ordem”. Os Mandamentos são dados ao homem para, a eles se submetendo, levar ordem em sua vida, e levar a ordem de Deus no mundo, no espírito do pacto de origem. O homem, em guardando, em cumprindo estes Mandamentos, vai contribuir conscientemente ao advento de Deus em Sua criação. Vai “tornar retas as vias do Senhor” (v. João Batista.

Isso é possível para o homem, pois a ordem de Deus é ao mesmo tempo Sua força, e o testemunho de Sua confiança. Através deste pacto, pela responsabilidade que lhe é confiada, o homem sente nascer nele uma confiança que se confirma finalmente não ser a sua, mas aquela que Deus nele tem. E sentir isto desperta a força (dynamis) e a coragem (andreia) de cumprir os Mandamentos. A confiança de Deus é a força do homem; isso é a bendição. Não somente o Mandamento, a “ordem”, e a confiança, a “força para cumprir”, se revelam ser “um”, mas ainda mais, no coração desta confiança. o homem toma consciência de maneira evidente do sentido da vida, da Lei da qual estes Mandamentos são os avalistas no mundo e pel qual ele se torna servido consciente, guardião.

O Mandamento é a força bendizente de Deus. Sua ordem e Sua bendição são “um”: a Berakah. Seja a ordem do “crescer e multiplicar” dada a Adão e Eva, as diretivas dadas a Noé, o rito de circuncisão dado a Abraão, ou os Mandamentos transmitidos a Moisés, todos estão na bendição. Assim portanto, estas ordens, estes Mandamentos, são divinos.

Eles são a Kether Torah, “coroa da Lei”. Eles são, não somente o que deve ser constantemente relembrado, estudado, mas também sobretudo o que, tendo sido recebido e reconhecido pelo povo de Israel no Sinai, deve ser de novo por cada um; receber significando aqui os entender verdadeiramente. A tradição dirá: “Ver a voz de Deus”. Reconhecer a verdade no mais profundo de si, e aí buscar a força necessária para poder aí obedecer, em os encarnando em nossa vida de todos os dias.

Trata-se certamente de um contrato, Emoun, onde Deus Ele mesmo, em ordenando e bendizendo, se engaja inteiramente, e onde o homem, se apoiando na certeza da palavra dada, sobre a certeza, Emounah, de uma aliança tida e renovada, pode, por um assentimento da inteligências à verdade, dizer: “Sim, em verdade, é assim, Amem”. O contrato está selado, a relação de origem revivificada. E é assim que, desde sempre, faz-se girar a roda da Lei, é assim que se perpetua a tradição.

DEZ MANDAMENTOS

EU SOU O SENHOR TEU DEUS

Eu sou… o Senhor teu Deus… que te fez deixar a terra de Egito, que te fez sair da casa de servidão…

Segundo Yvan Amar (Les Dix Commandements intérieures), este primeiro mandamento não nos comanda nada! Ele não nos diz para fazer algo. Comandar, para nós, significa que se dever fazer algo!

Não, Ele afirma… Ele afirma a princípio e antes tudo a Realidade. Ele afirma: «Eu sou». Pois se trata de ser, antes de se engajar no que quer que seja, antes de fazer o que quer que seja…

Podemos entender, portanto, que o chamado primeiro mandamento é a afirmação da lembrança primordial de Deus. Da relação única e primal que temos com Deus, por ser Aquele que nos fez deixar o Egito Interior e assim iniciou nossa libertação da servidão a este mundo.

O que poderia me fazer sair do Egito Interior, senão este reconhecimento mais íntimo? A nostalgia do Real. No AT é dito: «Tu não Me buscarias, se tu já não Me conhecesse…».

NÃO TERÁS OUTROS DEUSES DIANTE DE MIM

«Não terás outros deuses diante de Mim». Que deuses?… Vindo depois do primeiro mandamento, aquele que afirma «EU sou este Deus-aí, «Eu Sou». Assim não terás outro deus que este Eu Sou que nos libera de todo e qualquer apego, de todas as falsas identidades. Os outros deuses dependem do olhar de seus adoradores; recebem poder daqueles que os adoram. És tu que alimentas os deuses que adoras, e não somente aqueles que pões em altares exteriores mas que veneras em teu íntimo altar interior.

Eu Sou não precisa do olhar de outro para Ser. Não tira seu poder dos adoradores., não pode ser reconhecido senão por seu próprio olhar, pelo olhar do Uno. Assim não terás outros deuses que Eu Sou; todos os outros escravizam.

NÃO PRONUNCIAR O SANTO NOME EM VÃO

Quantos nomes pronunciamos cada dia, quantas palavras?… Quem quer que tenha praticado um pouco de silêncio foi surpreendido frequentemente por descobrir não a qualidade do silêncio, mas o valor da palavra. Quantas palavras, quantos nomes, e qual qualidade de atenção, qual qualidade de vigilância, qual consciência nestas palavras?

Tu não pronunciarás o Nome do Senhor teu Deus em vão, levianamente (la-shav), em falso.

Seu Nome, eu O pronuncio então com minha boca; eu enuncio, eu digo Seu Nome. São sempre as verdades mais evidentes que são cegantes. Sim, falamos todo tempo, todos os dias. E se, por trás deste Mandamento de respeitar Seu Nome, já não há: tomar em consideração como falamos?… Se Seu Nome é a Palavra das palavras, se esta Palavra deve ser respeitada mais que qualquer outra, como posso respeitar esta Palavra das palavras se já não respeito minha palavra? Portanto, como falo?…

E se este Mandamento, esta injunção fossa a injunção à consciência do «falar», à disciplina da palavra de verdade, à «palavra-consciência», à lembrança de não falar levianamente? Qual é o peso em nossas palavras, por trás de nossas palavras, naquele que fala? Quem fala? Há, assim parece, uma tal distância entre a palavra pronunciada, o que ela quer dizer, de onde ela vem, e quem a pronuncia; há uma tal irresponsabilidade da palavra!

Me é pedido: «Respeita o Nome do Senhor», o Nome dentre os nomes. Sem mesmo saber por instante de que nome se trata, o Nome dentre os nomes me demanda de respeitá-Lo. Mas não é presunção, não é arrogante de minha parte dizer: «Sim, pretendo que vou respeitar o Nome do Altíssimo, enquanto não tenho o domínio de minha própria palavra? Até onde minha palavra é palavra de verdade? Até onde não é expressão de uma divisão entre o que eu digo e o que eu sou?

A palavra indivisa, a palavra que vem Disso, onde não há divisão entre «Eu sou» e «Dizer», esta palavra é a Palavra de Verdade entre todas, é esta Palavra que criou o mundo; é esta Palavra que nos pronuncia constantemente.

Não somo nós que pronunciamos o Nome de Deus. É esta Palavra que, infinitamente, eternamente nos pronuncia, nos diz o «Grande Dizer Verdadeiro», nos conduz à vida, e nos desdobra. É um Nome impronunciável, porque Ele pronuncia tudo. Só podemos ser pronunciados por Ele, e somos constantemente chamados por nosso nome, por esta Palavra de vida.

Deus nos chama por nosso nome. Ser pronunciado, ser chamado por seu nome, isso não pode ser reconhecido senão quando em nós não há mais a divisão entre «ser» e «dizer», onde o «dizer», é o «fazer», é o Fiat. Ser palavra de verdade, é ser o «fazer» de verdade, é o ser o «agir verdadeiro». Não se trata mais de pronunciar o nome de algum outro em respeitando este Nome. Quando entro na consideração profunda deste Mandamento, não se trata de «Dizer» em respeitando o nome de Deus. O Cristo disse, judeu ortodoxo entre os judeus, servidor autêntico da Escritura, o judeu Jesus, Ieshoua, disse: «Foi dito a vossos ancestrais», e Ele citava a Escritura: «Tu não perjurarás, tu não pronunciarás o Nome de teu Senhor em falso; tu não perjurarás, tu darás conta de teus juramentos diante de teu Senhor. Assim, eu, eu vos digo, não jurarás de todo». E Ele adiciona, maravilha das palavras entre todas as palavras, Ele disse (Não jureis): «Tu não jurarás; que teu sim seja sim, que teu não seja não. Todo o resto vem do Maligno».


Gregório de Nissa: MISTÉRIO DOS MANDAMENTOS

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