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ESPAÇO

Alexandre Koyré — Místicos, espirituais e alquimistas do século XVI alemão

Weigel e o espaço

  • Outra proposição que desempenhou um papel importante na filosofia de V. Weigel e que ele desenvolveu especialmente em seu livro Vom Orth der Welt pode resumir-se nesta tese: todo “lugar” está no mundo, e o mundo não está em nenhuma parte (omnis locus est in mundo e mundus non est in loco).
    • V. Weigel, Vom Orth der Welt, capítulo XIV, páginas 60 e seguintes (ed. 1705, s. l.): “Antes da criação deste mundo não havia lugar, mas o Abismo da infinitude (Abyssus infinitudinis), a eterna extensão… onde o mundo ainda está… no tempo há lugares e posições, sítio e espaço… mas fora do mundo não há lugar”.
    • Isso quer dizer que é absurdo aplicar categorias espaciais ao mundo considerado em sua totalidade, porque carecem de valor metafísico absoluto.
    • Com muita insistência e à base de repetições infinitas, Weigel explica que racionalmente não se pode perguntar “onde está o mundo” nem “por que o mundo não cai”.
    • Com efeito, todas essas questões carecem de sentido: o mundo não pode “cair”, porque teria que cair ao mesmo tempo à direita e à esquerda, acima e abaixo.
    • As direções espaciais, como as diferenças de lugares, não têm sentido mais do que quando se aplicam a objetos intramundanos.
    • No mundo, pode-se dizer que uma coisa está ali ou acolá, que cai ou se eleva, que muda de lugar, etc., mas tudo isso carece de aplicação ao mundo inteiro.
  • Como no caso da afirmação da subjetividade do conhecimento, com demasiada frequência, em sua opinião, viu-se na doutrina de Weigel uma antecipação do kantismo.
    • Com efeito, seus argumentos e seus raciocínios não podem ser interpretados no sentido da subjetividade das categorias espaciais a menos que se interprete ao mesmo tempo a doutrina do caráter ativo do conhecimento em um sentido idealista.
    • Se se faz assim, deve-se ver igualmente em sua definição do tempo, “medida do movimento”, um intento de afirmar a subjetividade dessa última categoria, dado que o movimento implica o lugar e o espaço.
    • A subjetividade do movimento resultaria da do espaço e implicaria a do tempo.
    • De fato, V. Weigel adota simplesmente uma definição clássica de Aristóteles; cf. Física, IV, XI, páginas 219 e 220 a.
    • De fato, semelhante interpretação foi tentada: por um lado, censurou-se a Weigel não ter sabido extrair todas as consequências das premissas de seu sistema, e, por outro, censurou-se aos historiadores da filosofia ter descuidado o estudo desse pensador, cujo sistema oferecia semelhanças surpreendentes com os sistemas do idealismo alemão.
  • Se se atém aos textos e se devolve ao ensinamento de Weigel seu verdadeiro sentido, essa doutrina aparece uma vez mais formada por elementos puramente tradicionais (o que em nada diminui seu interesse) e — coisa que parece do maior valor — formulada e construída para tirar conclusões de ordem não metafísica, mas religiosa.
    • Weigel parte da definição tradicional do lugar e da concepção medieval do mundo.
    • Seu universo é o conjunto formado pela terra e pelos céus, o mundo sublunar e as esferas dos planetas e dos fixos.
    • A terra está no centro desse universo: em torno da terra estão dispostas as esferas dos planetas e tudo se acha englobado no firmamento dos fixos.
    • Esse universo é uma bola redonda, plena e finita.
    • Fora desse mundo não há nada, ou, se se preferir, há o vazio, o abismo, o Abismo da infinitude (Abyssus infinitudinis), mas esse abismo, ou esse vazio, não é, não existe, ou ao menos não é real.
    • É o Nada.
    • O mundo (real) nada nesse abismo infinito como uma pluma no vento ou uma bolha de ar na água.
    • O mundo é, além disso, infinitamente pequeno em comparação com esse abismo; comparativamente é mais pequeno que um grão de areia com respeito a uma montanha, mais pequeno ainda que o grão de areia comparado com o mundo inteiro.
    • Cf. V. Weigel, Vom Orth der Welt, página 52: Scholasterium Christianum, página 171: Abyssus infinitudinis non est locus (O abismo da infinitude não é lugar).
  • Não se pode dizer que o mundo esteja “no” abismo do vazio.
    • O termo “em” designa uma relação real entre dois termos reais: o continente e o conteúdo.
    • O continente é precisamente o lugar (real) onde uma coisa se encontra.
    • Ora, o abismo do vazio não é nada real, nem pode ser o “lugar” do mundo, e não se pode, portanto, situar o mundo “neste” abismo no mesmo sentido em que se situa um corpo no mundo.
    • Para demonstrar precisamente a inanidade do desejo de “realizar” esse vazio, V. Weigel se entrega à tarefa de ver a impossibilidade de lhe aplicar as categorias espaciais.
    • Estas, com efeito, não se aplicam mais do que ao real; e o vazio, o abismo, está fora da realidade.
  • Eis o sentido exato da doutrina de V. Weigel.
    • Como se pode ver, nada tem de revolucionário.
    • Weigel não admite sequer o sistema de Copérnico; permanece, portanto, fiel ao ensinamento de seus mestres, e ainda que tenha lido as obras de Nicolau de Cusa, não adotou sua concepção do espaço.
  • Examina-se agora o objetivo que persegue o filósofo ao desenvolver essa doutrina do “lugar intramundano”.
    • Com efeito, não se compreende em primeiro lugar por que a questão de saber se o mundo tem ou não “lugar” lhe pareceu tão importante.
    • De fato, para ele, tinha um sentido religioso e aí é precisamente onde, em sua opinião, se encontra a originalidade de V. Weigel.
    • Com efeito, para ele, o fato de que o mundo (este mundo) contenha todos os “lugares” implicava necessariamente que nem o Paraíso nem o Inferno podiam ter “lugares”, isto é, que tanto o Paraíso como o Inferno não eram lugares que estariam em alguma parte “fora” deste mundo, nem sítios onde as almas, depois da morte, deveriam chegar após uma longa viagem.
    • Essa doutrina descarta a ideia de um além e de um Deus colocados em alguma parte fora da abóbada celeste e “exteriores” ao mundo.
    • O Paraíso e o Inferno não são lugares; isso quer dizer que não são regiões, mas estados, ou, se se preferir, que o Paraíso e o Inferno são regiões não no espaço, mas no ser.
    • O além está em toda parte, está aqui mesmo, e aplicando à alma a definição de lugar que acabava de dar, V. Weigel deduz que, se a alma está no Paraíso ou no Inferno, correlativamente Paraíso ou Inferno estão na alma.
    • Trata-se de “lugares” espirituais, e toda a discussão filosófica conclui no texto: “O reino de Deus está em vós.”
  • Assim, a ausência de lugares extramundanos serve para provar a imanência divina no mundo.
    • Deus está em toda parte no mundo, e o mundo está em Deus; as almas estão em Deus e Deus está nas almas.
    • V. Weigel, Γνῶθι σεαυτόν, livro I, página 21: “Esta é uma grande arte, saber que o reino de Deus está dentro de nós, e por isso não devemos correr para fora de nós mesmos, e que devemos nos ater ao mestre dentro de nós, que nos ensina todas as coisas, e não esperar o reino dos céus lá fora na extensão”.
    • V. Weigel, Studium universale, E. 4r: “No conhecimento sobrenatural, o juízo está no e junto ao objeto ou objeto (Gegenwurff), que é Deus ou sua palavra; ainda que tal conhecimento sobrenatural venha do objeto, não vem, no entanto, de fora para dentro, pois Deus, o Espírito e a Palavra estão em nós e, assim, o conhecimento flui de dentro para fora”.
    • Cf. ibidem, E. 4 v-E 5r: “Aqui, no conhecimento sobrenatural, o homem não é ele mesmo o conhecimento ou o olho; mas Deus é ele mesmo o olho e a luz no homem, e por meio do homem… Por isso, Deus se vê e se conhece a si mesmo, em seu nascimento e imagem, em, com e por meio do homem, como por meio de seu filho e instrumento obediente”.
    • Ele é o único lugar verdadeiro dos espíritos.
    • Além disso, se se tem em conta a definição de lugar e de corpo, isto é, do continente e do conteúdo, ver-se-á que a mesma relação se repete por toda parte.
    • Em primeiro lugar, é o superior o que “contém” o inferior, e nesse sentido não é a alma que está no corpo, mas o corpo que está na alma, da mesma forma que não é Deus quem está no mundo, mas o mundo quem está “em Deus”.
    • Mas se se tem em conta a reversibilidade da relação entre os termos locus e locatum, pode-se dizer que Deus está no mundo como o mundo está em Deus, da mesma forma que se pode dizer que a alma está no corpo e que o corpo está na alma.
    • Por último, há que admitir que, quando Deus está “na alma”, a alma, ao mesmo tempo, se encontra em Deus.
  • Essa extensão do conceito de lugar permite considerar a destruição deste mundo material.
    • Criado do nada, estando no nada, tendo o nada por matéria, necessariamente voltará ao nada.
    • Então não haverá mais lugar no sentido espacial do termo, não haverá tampouco corpo material.
    • Deus será tudo em tudo; será o único “lugar” dos espíritos e das almas; estará “neles” e eles “nele”.
  • Tal é, a seu entender, o sentido da relatividade do tempo e do espaço em Valentin Weigel, e não parece que se possa relacionar essa doutrina com a de Kant, mas sim com a do Apocalipse segundo São João e as Epístolas de São Paulo.
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