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CRISTO
Alexandre Koyré — Místicos, espirituais e alquimistas do século XVI alemão
Weigel e Cristo
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Para Weigel, como para todos os espiritualistas, resulta difícil conceber o papel e a ação de Cristo segundo as fórmulas tradicionais de expiação e de justificação.
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Seria, no entanto, inexato opor, como fez A. V. Harless, a concepção do Cristo em nós à do Cristo para nós e dizer que os espiritualistas tratam de suprimir o segundo em benefício do primeiro.
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Na realidade, do ponto de vista espiritualista, é impossível separar ou mesmo opor o Cristo em nós ao Cristo para nós.
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Antes, é sua identidade mística que permite ao homem participar da justiça essencial de Deus.
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O homem nasce em Deus quando Cristo nasce em sua alma e é esse duplo nascimento que o faz reviver toda a História de Adão e Cristo, que o reconcilia com Deus.
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A História de Adão e Cristo é uma história simbólica.
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Mas não é menos uma história real, e Weigel não quer de modo algum atacar o papel histórico de Jesus.
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Se não reconciliou Deus com o homem “pagando” por este último — com efeito, Deus não tem necessidade de ser aplacado dessa maneira —, ou expiando sua falta — porque Deus, que é a bondade e o amor, não exige expiação —, reconciliou os homens com Deus.
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Revelou a verdadeira natureza de Deus e mostrou aos homens o caminho que poderá levá-los ao Pai celestial, do qual como Adães se afastaram e que podem alcançar mediante Cristo, participando em sua vida, encarnando-o e expressando-o.
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Aí reside a autêntica “reconciliação”.
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É evidente: Weigel não nega o papel — nem a importância — da História de Cristo.
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E menos que a Schwenckfeld a noção da participação mística — à qual se adiciona a da participação pela fé nos sacramentos — não o leva ao monofisismo.
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O Cristo-Logos é o Homem-Deus, expressão essencial e perfeita da natureza divina.
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Como tal, é — como já Schwenckfeld havia ensinado por razões análogas, ainda que não idênticas — um ser espiritual e divino, superior a toda “criatura”.
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Não é, no entanto, um espírito puro, porque possui essa “carne espiritual” e divina que nós “comemos” na eucaristia e da qual “se alimenta” nosso corpo espiritual.
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É ela que proporciona uma “participação essencial” na divindade, e quando Weigel defende o valor do sacramento da eucaristia, o faz por razões que, deixando mesmo um equívoco subjacente, não o aproximam, mas o afastam da ortodoxia luterana.
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Essa será também a atitude de J. Boehme.
Portanto, para Weigel, Cristo foi muito mais do que a mensagem divina que traz à terra a “boa nova” de um Deus bom.-
No fundo, não havia quase necessidade de uma mensagem semelhante.
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Teria-se podido passar sem ele, como, evidentemente, fazem os pagãos e os turcos.
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Cristo é o Filho que, desde toda a eternidade, se achava revestido da natureza humana.
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Em certo modo, já se achava incorporado em Adão na semente da mulher (Weibes-Samen), que, como proclama o famoso texto da Escritura, citado por todos os místicos e todos os espiritualistas, tinha por missão “esmagar a cabeça da serpente”.
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Desde toda a eternidade era a imagem cabal e perfeita de Deus, era Deus feito “homem” e o laço necessário entre o homem e a divindade.
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E nos deu a revelação suprema não apenas com sua vida e seus ensinamentos, mas também com sua morte.
Em todas as obras de Weigel, ele enfatiza a morte de Cristo, e na obra de regeneração, da conversão e da salvação, é a morte espiritual que lhe parece, se não o momento principal, ao menos a fase de maior importância do processo.-
É preciso morrer em si mesmo, eis o conteúdo da doutrina religiosa de Weigel.
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Morrer em vós mesmos, Deus se encarregará do resto, porque Deus só espera isso.
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Para assinalar o papel da morte, prelúdio necessário e inevitável da nova vida, V. Weigel não se limita a repetir as parábolas do grão e da planta.
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Em seu Dialogus, é a Morte que aparece como representante de Cristo, e que julga em última instância, enviando o Auditor à luz do Paraíso e mergulhando o Concionator nas trevas do Inferno.
É preciso morrer em si mesmo, repete Weigel incansavelmente, e quer dizer com isso que a Gelassenheit, que esse abandono de si, no duplo sentido do termo, deve ser algo real, uma destruição real do homem velho, que é o homem carnal, ou Selbstheit.-
Como dizem Tauler e a Teologia germânica, é preciso fazer o vazio na alma para que Deus a encha.
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Só então estará ele em nós como nós nele.
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Precisamente por buscar uma vida própria e independente caíram Lúcifer primeiro e Adão depois.
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Além disso, essa vida que haviam conseguido não é, na realidade, mais do que a negação e a limitação egoísta da vida verdadeira.
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O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus precisamente para revelá-lo e representá-lo.
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V. Weigel, Γνῶθι σεαυτόν II, 1: “Para que o bem eterno se derrame… fez e criou para si uma semelhança e imagem, a saber, a criatura racional, para que esta possuísse e tivesse dentro de si tudo completamente e perfeitamente, como ele mesmo”.
V. Weigel, Soli Deo Gloria, Newenstadt, 1618, página 32: “…pois se Deus não desse ao homem tal escolha e vontade, não seria nenhuma imagem divina, não haveria salvação, mas o homem seria como um boi e um animal”.-
A liberdade foi dada ao homem para fazer dele uma verdadeira imagem e um verdadeiro representante de Deus.
O homem, portanto, faltou à sua missão ao separar-se de Deus, e só apartando-se de si mesmo pode, não salvar-se, mas dar a Deus a possibilidade de santificá-lo e salvá-lo.-
E, é claro, nesta vida não se pode alcançar essa justificação essencial que é uma purificação e uma santificação completa.
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Mas ao menos se deve tender para esse fim, e toda a vida deve ser uma morte de si mesmo para que, na alma purificada pela morte espiritual, possa acender-se a luz do Cristo-Logos.
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