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GRATIA

DA ELEIÇÃO E DA GRAÇA

Prefácio de Sédir

  • O vocábulo graça apresenta-se no Novo Testamento sob duas acepções principais, caracterizando a obra de Cristo em oposição à lei mosaica e, sobretudo, a benevolência divina manifestada por um dom gratuito para a salvação da criatura.
    • Relação de graças que incluem a revelação divina, a encarnação do Verbe, o ensinamento de Jesus e os efeitos na alma dos crentes como a fé e a perfeição.
    • Necessidade da graça para o conhecimento da verdade e para a execução do bem.
    • Ensinamento da teologia católica sobre a concessão de graças suficientes para os justos cumprirem os mandamentos e para os pecadores crentes se converterem.
    • Oferta de auxílio suficiente de Deus para a salvação inclusive dos infiéis que jamais conheceram a revelação cristã.
    • Definição da graça como força para o cumprimento dos deveres e como princípio de sobrenaturalização.
    • Desconsideração das distinções teológicas entre graça incriada e criada, de Deus e de Cristo redentor, externa e interna, santificante e as concedidas para a salvação alheia.
  • As diversas classificações teológicas estendem-se a conceitos como graça atual, habitual, operante, cooperante, preveniente, subsequente, excitante, adjuvante, suficiente e eficaz, inseridas em uma redenção que se realiza pelo homem conforme a doutrina evangélica.
    • Oposição da doutrina evangélica à perspectiva fatalista dos fariseus.
  • O pensamento de São Paulo é guiado pelo sentimento da graça incondicional de Deus que o converteu no caminho de Damas para torná-lo cristão e apóstolo.
    • Visão do apostolado como fruto de uma coação interior decorrente do amor superabundante divino.
    • Caracterização da graça não como decisão celestial escrita, mas como dinamismo divino atuante no coração humano.
    • Compreensão da doutrina do apóstolo dos gentios na Epístola aos Romanos (IX, 10—13 e 20—24) a respeito da predestinação de uns para a salvação e de outros para a perdição.
  • A doutrina paulina da predestinação não exerceu influência na Igreja primitiva, período no qual os doutores apenas destacavam a graça e o livre-arbítrio como os dois fatores do salvamento, sem fixar rigidamente o vínculo entre eles.
  • Clemente de Alexandria e Orígenes sustentam com precisão a participação da liberdade e da responsabilidade humana, definindo que Deus auxilia o homem, mas não o coage.
  • No século V, Pelágio nega o pecado original e a necessidade da graça, defendendo que o ser humano mantém a liberdade irrestrita e possui capacidade de se tornar justo por forças próprias.
    • Concepção pelagiana de que Deus está sempre pronto a ajudar a criatura e de que a graça atua unicamente como assistência (adjutorium) ao livre-arbítrio.
  • Santo Agostinho contrapõe-se ao pelagianismo a partir de sua experiência religiosa, sustentando que o pecado original é um fato, o homem tornou-se escravo (massa perditionis) e o livre-arbítrio para o bem desapareceu após a queda de Adão.
    • Atribuição da fé a um ato divino para realizar a graça, vista como transformação radical da natureza moral e renovação da vontade, proveniente de Deus e não do homem.
  • Agostinho defende que os escolhidos por Deus não decaem da graça, ponderando que o inconvertido não deve ceder à falsa segurança e o discípulo de Cristo não deve relaxar, pois a eleição se realiza pelo espírito de santidade e vida.
  • A predestinação em Agostinho é mencionada somente acerca dos resgatados, evitando-se o termo para a condenação.
  • A inexistência de predestinação para a danação fundamenta-se na ideia de que Deus escolhe alguns indivíduos para manifestar sua graça e abandona os demais na perdição.
  • A aprovação oficial da doutrina de Santo Agostinho ocorre por meio dos papas Inocêncio I, Zosime (418), Celestino I (431) (cf. De gratia Dei indiculus) e pelo Concílio de Orange (529), ocorrendo a condenação de Pelágio nos concílios de Cartago (416 e 417) e Éfeso (431).
  • O triunfo agostiniano mostra-se apenas oficial e aparente, visto que a Igreja manifesta-se, na realidade, mais favorável à perspectiva de Pelágio.
  • Jean Cassien formula uma proposta conciliatória denominada semipelagianismo, a qual preconiza o concurso mútuo de Deus e do homem no processo de salvação e rejeita a teoria da eleição agostiniana.
  • O semipelagianismo é condenado no Concílio de Orange (529), porém recebe uma sanção implícita no Concílio de Trento ao condenar tanto o pelagianismo (Sess. VI. De justificatione. can. 2) quanto a teoria de Agostinho (Sess. VI, can. 4).
  • A dependência da salvação em relação ao homem gera incerteza devido à imperfeição do trabalho humano, justificando o papel do sacerdócio e dos sacramentos na Igreja católica.
  • Os reformadores protestantes reagem contra o eclesiasticismo e o ritualismo católico mediante o retorno ao agostiniano rígido.
  • Luther enfatiza a grandeza de Deus como autor de tudo e proclama de forma absoluta a escravidão atual do homem.
    • Concepção de que a natureza humana está essencialmente viciada desde o pecado de Adão e inevitavelmente sujeita ao pecado, dependendo da graça divina para a justificação (De servo arbitrio).
  • Mélanchthon afasta-se da doutrina inicial de Luther (Loci communes, ch. VIII) em seu Comentário sobre a Epístola aos Colossenses, aderindo ao sinergismo.
    • Definição de sinergismo como a coexistência de duas ações concomitantes, a de Deus e a do homem, na obra da salvação.
  • Zwingli e Calvin sustentam a eleição e afirmam que Deus desejou a queda de Adão (Zwingli: De vera et falsa religione; De providentia; Calvin: Institution chrétienne, III, 23-7).
  • Calvin estabelece tanto a predestinação dos eleitos quanto a dos réprobos, apontando que Deus salva uns sem mérito e pune outros por seus pecados (Ins. chrét. III, 21-7).
    • Atribuição de duas vontades a Deus em face do texto de I Timóteo II, 3—4, que diz: Deus quer que todos os homens sejam salvos.
    • Divisão entre uma vontade aparente de salvação universal e outra oculta de predestinação soberana, cujo caráter absoluto é atenuado, com alguma inconsequência, pela doutrina da justificação pela fé.
  • O ensinamento de Molina indica que Deus deseja salvar todos os seres humanos sob a condição de que eles próprios queiram se salvar.
    • Fornecimento a todos do auxílio necessário e suficiente, tornando-se eficaz pelo consentimento e cooperação humana, ou ineficaz pela resistência do homem.
    • Localização da eficácia da graça no ato de fé realizado pelo livre-arbítrio.
    • Presciência divina sobre as ações humanas com relação à graça, resultando na predestinação de uns para a glória eterna e de outros para o infero (concordia).
  • Suarez e Vasquez reformulam a vertente molinista para afastar a dependência da eficácia da graça ao livre consentimento humano.
    • Definição de que a eficácia resulta da própria natureza da graça, sendo consequência de um decreto individual anterior ao nascimento e fixado pela presciência divina.
  • A obra Augustinus, de Jansénius, expõe ao longo de vinte e dois anos de trabalho a heresia de Pelágio e as teses de Santo Agostinho sobre a natureza humana, a graça e a predestinação.
  • As oscilações de opinião do bispo de Hipona evidenciam-se nos embates teológicos travados contra diferentes oponentes.
    • Importância conferida à liberdade e às faculdades humanas quando o combate se dava contra os maniqueístas.
    • Insistência na total incapacidade da criatura para fazer ou querer o bem quando a disputa ocorria contra os pelagianos.
  • A liberdade humana no pensamento agostiniano restringe-se ao ato de pecar, não havendo salvação fora da graça incondicionada de Deus.
  • Jansénius acrescenta que o homem em estado de natureza corrompida nunca resiste à graça interior.
    • Constatação de que a ausência do bem decorre da falta da graça necessária e de que Cristo morreu apenas pelos predestinados e não pela totalidade dos homens (Augustinus, t. III; De gratia Christi, III, 1).
  • A eleição em sentido estrito pertence genuinamente ao sistema calvinista, desaparecendo onde o homem decide sua vida por ato livre.
  • A exigência de cooperação humana na salvação pode conduzir ao desânimo diante das imperfeições ou ao rebaixamento da vida divina ao nível das próprias capacidades, como professava Pelágio.
  • A conciliação lógica mostra-se inviável entre a predestinação agostiniana à santidade, que ruma ao calvinismo, e a tese de que Deus escolhe os que obedecerão por presciência, que conduz ao pelagianismo.
  • A declaração de São Paulo em Efésios, I, 4—5 indica que a separação ocorre unicamente em Jesus Cristo.
    • Significado de que a eleição atinge somente os crentes, tornando o discípulo membro de um organismo celeste do qual só se desliga se renegar a graça recebida.
  • Uma objeção possível a São Paulo reside em que as almas humanas não constituem argila e Deus não atua como um oleiro que dispõe arbitrariamente da matéria.
  • A existência de um decreto de perdição apresenta contradição em face do ensinamento evangélico a respeito da paternidade divina.
  • A inclusão da liberdade humana no determinismo de partida e de destino configura uma inconsequência.
  • A formulação da doutrina da predestinação visa fundamentalmente à salvaguarda da própria graça.
  • Deus planeja a salvação universal e coordena os acontecimentos com vistas à consumação final de sua graça.
  • O auxílio divino estende-se à aproximação do homem, ao agir conforme a vontade de Deus e à perseverança, ciente São Paulo de que o ser humano constitui o objeto da piedade, do amor e da graça divina.
  • A experiência do amor divino, mesmo que vaga no homem, constitui a fonte de sua vida.
  • A aparente concessão diferenciada de bens a uns ocorre para que estes auxiliem os demais a atingirem a verdade e a vida.
  • Jacob Böhme apresenta uma proposta de solução considerada interessante para tais antinomies, embora expressa de forma laboriosa.
  • A análise da obra de Jacob Böhme exige o afastamento do modo de pensar próprio da teologia tradicional.
  • O perfil do sapateiro afasta-o dos filósofos e metafísicos, enquadrando-o como um visionário.
  • A percepção visual de Böhme direciona-se aos meios e estados onde evoluem as entidades vivas, e não às entidades concebidas pela metafísica como pensamentos.
  • A distinção de Böhme em relação ao teólogo e ao místico reside na visualização de forças em movimento e seres vivos como anjos, demônios e espíritos humanos.
  • A linguagem de Böhme assemelha-se à de um físico do invisível, estruturando fenômenos, estados de alma e leis em um sistema de ondas que vibram em ritmos discordantes ou concordantes segundo a inclinação dos germes volitivos.
  • Uma teoria alternativa indica que todos são chamados, conforme Jesus, mas os eleitos revelam-se de forma progressiva ao longo de períodos marcados por pequenos julgamentos parciais anteriores ao veredito definitivo.
  • A boa vontade humana detém a prerrogativa de abreviar o tempo da Criação ao apressar a aptidão dos seres para ingressarem no céu.
  • A má vontade do homem possui o poder de retardar a felicidade universal, considerando os laços de fraternidade humana e a imposição paterna de repetir lições existenciais não aprendidas.
  • A escolha entre as variadas explicações teológicas compete ao próprio pesquisador, conforme exige a dignidade da inteligência.
    • Ausência de valor espiritual no campo do pensamento ou da ação quando há coação na escolha.
  • A incapacidade para concluir tais especulações faz-se patente.
  • A atitude dos combatentes na guerra ilustra o escárnio direcionado aos estrategistas de café que moviam exércitos simulados com fósforos e pedaços de açúcar sobre mesas de mármore.
  • A conduta dos personagens doutos que debatem os planos providenciais e os destinos da alma assemelha-se à dos estrategistas de paletó.
  • A sabedoria prática recomenda a entrega total à solicitude do Pai em vez de discussões infindáveis.
    • Justificativa na bondade divina que visa apenas a felicidade humana, cabendo o cumprimento por meio da obediência e do amor aos desígnios tutelares.
  • Dados de encerramento do documento indicam o ano de 1925 e a autoria de Sédir.
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