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ZUM-BRUNN & LIBERA

Misticismo Renano-Flamengo — ZUM BRUNN, Émilie; LIBERA, Alain de. Maître Eckhart: métaphysique du verbe et théologie négative. Paris: Beauchesne, 1984.

O contexto da intenção de Mestre Eckhart é explicado pela necessidade de examinar suas próprias declarações explícitas para evitar mal-entendidos frequentes.

  • Ser “totalmente desapegado na intenção” é considerado um pré-requisito difícil para a compreensão do mestre.
  • O próprio Eckhart afirmou que, se um ouvinte pudesse compreender a comparação entre o olho e a madeira, entenderia o fundo de toda a sua intenção e pregação.
  • Na percepção sensorial, como a visão de um pedaço de madeira, ocorre uma união real entre o percebente e o percebido, a ponto de se poder dizer “olho-madeira”.
  • Se a madeira fosse completamente espiritual e a visão do olho também, então, na realidade da visão, a madeira e o olho constituiriam um único ser.
  • No nível superior da pureza (imaterialidade), que é o do ser original das coisas antes da criação, o conhecido e o conhecedor formam um único ser, segundo a doutrina herdada de Aristóteles.

A força da conhecimento é destacada por separar para unir, estabelecendo uma identidade no ser entre o espírito e seu objeto.

  • O objetivo fundamental de Eckhart é levar os ouvintes a conhecer Deus, despojando-se de tudo nesse conhecimento e tornando-se um com Ele.
  • A abordagem possui um aspecto ascético e epistemológico indissociável, sendo ao mesmo tempo noética, mística e anagógica.
  • O propósito único de Eckhart responde ao propósito único de Deus: a divinização do homem pelo conhecimento de Deus, conforme uma interpretação máxima do Evangelho de João (“A vida eterna é conhecer-te a ti, só verdadeiro Deus”).

O comportamento humano necessário para a “perceção” (Durchbruch) é simbolizado pelo conhecimento que separa a madeira de seus elementos grosseiros.

  • A “perceção” permite que a alma nasça em Deus, para além da casca das coisas criadas.
  • Toda a obra de Eckhart é ordenada a esse propósito único, incluindo seus ensinamentos em Paris sobre o “homem nobre” ou “homem humilde” (o homem separado).
  • O homem separado conhece e é em si mesmo todas as coisas em sua pureza original, porque se despojou de suas envoltórias criadas e de seu eu individual, tornando-se um com Deus.

A relação entre razão e visão intuitiva é estabelecida, mostrando que o uso da razão é indispensável para alcançar a intuição suprarracional.

  • A inteligência começa com o exercício da razão discursiva até que, purificada, ela atinja a visão do intelecto intuitivo, chamado de “ponta da alma” ou “alma da alma”.
  • O caráter fundamental do pensamento de Eckhart consiste na união íntima de uma metafísica rigorosa com uma mística ardente.
  • A perspectiva de Eckhart se inscreve na tradição platônica e agostiniana do intelecto que se volta para o Princípio com “a alma toda inteira”, onde as condições da salvação são indissociáveis das condições do conhecimento.
  • O aprofundamento da noção de ser nunca é separado da experiência ou mesmo da “loucura” mística, e a parte mais especulativa de sua obra é a reconstrução racional de uma visão metafísica original.

A especulação teológica e o ensinamento espiritual são indissociáveis, pois os temas fundamentais da teologia são também princípios para o ensino espiritual.

  • Uma imagem tira seu ser diretamente daquilo de que é imagem, tendo o mesmo ser que ele, e o ser humano deve viver dessa maneira: ser para Deus e não para si mesmo.
  • O objetivo do dominicano thuringiano era permitir que seus ouvintes perfurassem a brecha através do criado por meio da separação (abgeschaidenhait) ou abandono de todas as coisas e de si mesmo, para “ser formado no bem simples que é Deus”.

A concepção de Deus como comunicabilidade constitutiva é afirmada por Eckhart, indo além da simples transcendência.

  • Eckhart afirma que a Deidade (Dêté) depende de Deus poder se comunicar a tudo o que lhe é receptivo; se não se comunicasse, não seria Deus.
  • O mestre formula uma lei segundo a qual Deus não pode deixar de se dar totalmente a quem abandona tudo por Ele, pois, se agisse de outra forma, não seria justo nem seria Deus.
  • Fiel à tradição dominicana (escola colonial inspirada por Alberto Magno), Eckhart defendeu uma concepção de transcendência e comunicação divina expressa em termos de vida intelectiva, contra a visão franciscana (Duns Scot) que afirmava o primado da vontade arbitrária em Deus.

A defesa de Eckhart contra críticas e sua abordagem pastoral são evidenciadas por sua resposta sobre como instruir os ignorantes.

  • Eckhart rebateu a crítica de que doutrinas elevadas não deveriam ser ensinadas aos ignorantes, afirmando que, se não se instrui os ignorantes, ninguém jamais será instruído.
  • Ele comparou seu papel ao de um médico que está ali para curar os doentes, citando São João que anuncia o Evangelho a crentes e incrédulos para que se tornem crentes.
  • O mestre demonstra preocupação constante em dissipar a ilusão sentimental e a tentação do quietismo, bem como a tentação do “forçamento” entre aqueles que interpretam a promessa do reino dos céus aos violentos de maneira demasiado humana.
  • Eckhart aconselha que não se alcança Deus impetuosamente, mas com doçura, fiel humildade e abandono de si mesmo, deixando-se conduzir por Deus.

A especificidade do propósito único de Eckhart é a meta de fazer Deus nascer na alma e a alma nascer em Deus.

  • Mestre Eckhart é considerado “mestre de vida” (lebemeister) tanto ou mais que “mestre de leitura” (lesemeister), comentador da Escritura.
  • O mestre expressa espanto de que certos clérigos instruídos interpretem mal a passagem de João (“Tudo o que ouvi de meu Pai, eu vos revelei”) como se fosse apenas o necessário para a beatitude, quando, na verdade, Deus se fez homem para que o homem fosse gerado como o próprio Deus.
  • Eckhart afirma que há algo acima da natureza criada da alma que é da parentela de Deus, algo que é “um” em si e não acolhe nada exterior, sendo todo o criado estranho a isso.
  • A união com Deus se realiza numa potência ou num “algo” acima das potências da alma, chamado de sindérese, faísca, castelo-forte, essência ou fundo da alma, que é definido negativamente como “não misturado” e “não tendo nada em comum com coisa alguma”.
  • O ser humano deve recuperar esse “algo” separando-se do nada das criaturas, que é o nada de sua diferença separadora.

As influências e interpretações da obra de Eckhart são consideradas, abrangendo tanto fontes místicas quanto filosóficas.

  • A mística de expressão germânica e flamenga (Mechtilde de Magdeburg e Hadewijch de Antuérpia) parece ter exercido influência sobre o thuringiano, explicando a evolução em sua obra da união intelectual para algo que transcende a própria inteligência.
  • O tema do “fundo da alma” é, em grande parte, derivado do contato com comunidades de religiosas e beguinas.
  • Há um retorno atual ao estudo atento das fontes filosóficas de Eckhart, particularmente de Dietrich de Freiberg, para demonstrar que na origem da mística eckhartiana está uma doutrina filosófica sobre a função constitutiva do intelecto humano.
  • Se se chama Eckhart de filósofo, deve ser no sentido agostiniano e antigo, para quem o fim da filosofia era a busca da vida feliz (beata vita), alcançada na conversão ao Intelecto, onde a pesquisa especulativa e o fim prático não são dissociados.
  • O objetivo final do ensinamento de Eckhart é o mesmo propósito divino que preside a Criação, a Revelação e a Redenção: que Deus nasça na alma e que a alma nasça em Deus.
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