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Organon

2. A metafísica vital organológica

O personalismo criador do jovem Agostinho não era uma forma apropriada para que nela pudesse Erígena dar expressão à sua maneira peculiar de sentir a vida. Sua interioridade nórdica e sua vitalidade gentílica propendiam desde um princípio para o fundamento escuro e substância de todo ser, para o em-si, sutilmente vislumbrado, das coisas, do qual brota sua explicatio, seu desdobramento. Tudo o que neste desdobramento se conhece fenomenicamente, não é em sua clareza e legalidade o fundamento e o em-si mesmo, senão apenas a manifestatio, a manifestação da organização da vida que obra oculta e inconscientemente no fundamento. Assim, em lugar do espírito passa a vida a ser a constante autêntica da realidade.

Este deslocamento e situação do ponto de partida no fundamento encontrou casualmente, porquanto Erígena era helenista, uma inesperada correspondência na Patrística grega. Aristóteles não era acessível ao mundo cultural da época carolíngia ou o era somente através dos escassos fragmentos de sua categoriologia; e sua filosofia tampouco podia alcançar-se agora sem um amplo conhecimento da ciência natural. Havia, pois, que descobri-la em sua repercussão sobre la Patrística grega; e um espírito genial, mais antes construtivo que simplesmente reconstrutivo, reedificou, baseando-se unicamente em umas poucas indicações, o conjunto que buscava. Pela tradução de Rufino e a Expositio in Lucam, de Santo Ambrósio, conhecia Erígena o que Basílio e Gregório Nazianzeno haviam conservado em ponto a conhecimento de filosofia natural. Mais importante foi, contudo, a antropologia, metade mítica, metade naturalista, de Gregório Nissenno, cuja obra De opificio hominis traduziu Erígena para seu uso pessoal, assim como os escritos do Pseudodionísio e os Ambigua de São Máximo Confessor. Aqui, na teologia negativa, encontrava-se já a buscada escuridão do fundamento fixada em forma aparentemente ortodoxa. Só agora pôde Erígena superar o personalismo de Agostinho e elaborar seu consequente naturalismo racionalista da substância vital. A este fim teve de deixar de lado os predicados personalistas de Deus e do homem, e esboçar, em seu lugar, sua dialética e categoriologia, ao começo de sua obra fundamental. Sua obra é uma concordância radical de todas as contradições e oposições, em quanto aplica alternadamente os predicados de existente ou inexistente aos diversos modos de ser. Desta maneira eliminam-se com toda facilidade todas as contradições; mas, por isso mesmo, com farta frequência resulta também difícil reconhecer onde recai propriamente o acento da realidade; e só considerando o sistema em seu conjunto, pode-se evitar o tachar o autor de contínuas contradições consigo mesmo. Erígena aceita cinco ou, respectivamente, dez modos e denominações ontológicos. 1. O sensível-espiritual ou fenomenológico-noumenal do acidental, do fundamentalmente inexperimentável, segundo o qual, os acidentes que só entram no fenômeno podem ser denominados como inexistentes o existentes, igual que a substância, Deus e a matéria, segundo a maneira de considerá-los. Isto é exatamente a distinção kantiana entre o fenômeno e a coisa em si. A organização, que há que aceitar, da vida de cada ser em si, de cada quid, portanto, também a do homem e Deus, é inexperimentável. 2. O modo ontológico da escala hierárquica dos seres. Este modo permite denominar existente ou inexistente a cada ser segundo se lhe considere desde um extremo ou outro da gradação. O que é o um não é o outro. Visto desde o ser superior o inferior tem ser, isto é, é cognoscível por ele; visto desde o inferior o superior carece de ser, pois não é cognoscível. 3. A designação corrente e a filosófica do ser. O fenômeno chama-se correntemente existente, mas o filósofo o chama inexistente; ao passo que o noumenon, a causa radical, o seio misterioso da natureza, se designa correntemente como inexistente, mas o filósofo lhe chama existente, sendo, naturalmente, esta a denominação justa. A oculta força da semente é o verdadeiro existente, o crescimento e devir externo do orgânico é o inexistente, é só fenômeno. 4. O modo ontológico comutável e incomutável da visão intelectual da razão pura. Segundo este modo, é verdadeiramente existente o imutável, as constantes eternas, ao passo que o mutável, os corpos, são inexistentes. 5. O modo soteriológico do homem. Segundo este modo, os salvados e reinstaurados no estado primigênio são propriamente existentes, em mudança, os pecadores estão mortos.

Com esta ofensiva inesperada e radical para um criticismo dialético faz-se também necessário o avanço para uma nova categoriologia, a única totalmente independente entre Aristóteles e Kant, a qual se situa sistematicamente entre um e outro, entre o realismo ingênuo do descobrimento dos modos de ser e denominar e o mero criticismo fenomenologista. Erígena conhece as categorias aristotélicas; mas as utiliza unicamente com o fim de estabelecer uma nova relação crítica entre substância e acidente, de tal sorte que a substância passa a ser o em-si fundamentalmente inexperimentável da vida, e os acidentes, como aparências da substância, devêm o fenomenologicamente cognoscível. Substantia in-comprensibilis ex circunstantiis intelligitur existere. Este conceito existencial da substância metafísica viva abre a perspectiva sobre uma doutrina da vida que pretende recalcar o personalismo e realismo agostiniano com uma concepção natural da causa primitiva, mas que, de fato, e pese à ampla conservação da terminologia, o transforma em puro naturalismo. Frente à substância finita como sujeito dos acidentes deve alçar-se a infinita essentia universalis, a qual em sua incomutabilidade não sofre mudanças nem acidentes e é, por tanto, la causa primitiva, incognoscível para si mesma por sua infinitude, e o fundamento absoluto da vida, o non apparens que, sem dúvida, é susceptível de acidentes em quanto causae generationis em suas subdivisões até os indivíduos, mas que, em si, permanece simples e incomutável. O sentimento vital da vinculação gentílica no laço da comunidade de sangue acha aqui sua fórmula. O fundamento vital é o seio escuro de todos os indivíduos, que, mediante a generatio, isto é, a suscepção de acidentes, se multiplica a si mesmo até o infinito em progresso real, dialético e ôntico, através dos gêneros e espécies. Todas as substâncias acham-se contidas no gérmen primitivo virtualmente e como protótipos incomutáveis, igual que todos os homens na única e real natureza humana. O inotus generalissimus da evolução do mundo, mediante o que todas as coisas passam do nada ao ser, constitui a primeira divisão do universo, e o status generalissimus, no qual todos os movimentos encontram seu limite, a segunda divisão. Mas como o status dos princípios prototípicos é ao mesmo tempo a causa final, as quatro causas aristotélicas, a causa ex quo, per quod, in quod e ad quod do desenvolvimento universal, foram redescobertas em um sentido hiperrealista completamente novo.

Esta dialética e diferenciação analítica do ser, que se completa mediante uma síntese igualmente realístico-conceitual, constitui o conceito de filosofia de Erígena (I, 46). Certo que externamente não se supera nunca por completo a fórmula ternária agostiniana; mas também é certo que cabe sempre transformá-la facilmente na fórmula universal quadripartida do naturalista. Esta fórmula universal de Erígena é, primeiramente, uma transformação de uma fórmula realista agostiniana: causa itaque rerum quae facit neo fit Deus est; aliae vero causae et faciunt et fiunt, corporales causae magis fiunt quam faciunt (De civitate dei, V, 9). Mas com igual genialidade que a conhecida fórmula platônica com suas correlações caracteriológicas, gnoseológicas e metafísicas, esta se converte em fundamento de todas as formulações, de sorte que surge uma metafísica totalmente fechada em si mesma e estritamente arquitetônica:

1. natura, quae creat et non creaturex quoessentia universalisesseessentiaDeus absconditusPai
2. natura, quae creatur et creatper quodstatus generalisfacerevirtuscausae primordialesFilho
3. natura, quae creatur et non creatin quomotus generalisperficereoperatiomundusEspírito Santo
4. natura, quae non creat et non creaturad quodfinis omniumperficiperfectioreditusDeus, tudo em tudo

As correspondências desta fórmula total na metafísica do conhecimento dão por resultado, a despeito de conservarem-se externamente as fórmulas ternárias agostinianas, a antropologia metafísica e a teleologia ou escatologia, em que agora queda dissolvido o cristianismo de maneira naturalista:

Docta ignorantiaincognitum circumvehitur deumvitaanimusespírito
Sapientiamotus crica principia rerumvitalis motusratioautoconsciência
Analysismotus scientia circa effectuscorpussensus int.ciência
Synthesisstatus naturae puraerestauratioamorfelicidade

Como quer que tampouco na história da filosofia se está acostumado ao pensar sistemático e universal, esta fórmula totalizadora da realidade, comparável em genialidade à fórmula platônica, aparece como uma “curiosidade abstrusa”. Em realidade, constitui uma obra prima na tarefa de dominar o mundo, sobretudo, se se a confronta com os opostos ternários do agostinismo contra os quais Erígena teve de lutar e que aparentemente conservou inclusive com frequência, mas sem confiar-se nunca seriamente à segurança de sua arquitetônica. Só considerando-o em seu conjunto, aparece o sistema de Erígena como uma formulação clássica do vitalismo hiperrealista, tal como no-lo apresentaram mais modernamente Schelling, Eduardo von Hartmann e Max Scheler. A consideração e exposição do conjunto do sistema tem de arrancar desta fórmula e, precisamente, daquele passo em que o mesmo Erígena descobre com toda clareza seu simbolismo (III, 23) e descreve a Deus não já como a visão criadora, sino como o Deus que devém na evolução do mundo. A mesma e única natureza, isto é, a divina, deve ser considerada, desde o ponto de vista do princípio, como incriada, como anarchos, como incausada, sem causa nem princípio, e ao mesmo tempo como o fundamento criador do universo; mas desde o ponto de vista da causa final, deve ser considerada como nem criada nem criadora. Ao observador filosófico aparece a natureza divina como criada e criadora, isto é, devém criada em si mesma nas causas primigênias, se cria a si por si mesma, isto é, começa a aparecer nas teofanias, nos protótipos dos seres quando estes surgem do fundo oculto, do seio da natureza, que, como infinito, é desconhecido para si mesmo e está situado, sobrenatural e sobreeterno, por cima de toda experiência sem poder converter-se em experimentável, mas que descendo nos protótipos das coisas, criando-se a si mesmo, por dizê-lo assim, começa a ser em algo. Ao observador científico-analítico a natureza divina aparece nos efeitos ínfimos dos protótipos, nos quais se denomina só criada, não criadora. O descenso da natureza até seus últimos efeitos, os corpos concretos, é o fim do desdobramento de fenômenos e análises, a última pegada sensivelmente experimentável da natureza divina, que só é conhecida por muito poucos sábios, como o foi já na Idade da Lei natural por Abraão, e na Idade da Lei escrita por Moisés, e na terceira Idade por Cristo no monte, e esotericamente se pode conhecer por todos aqueles que são iniciados nos divinos segredos mediante símbolos visíveis. A despeito da maneira de falar simbólica, não há dúvida alguma que nos enfrentamos aqui com uma doutrina da imanência pura e que se ensina a identidade do Absoluto com o mundo, segundo a qual o Absoluto, em seu desenvolvimento para sua perfeição e fim, é o Deus que devém e que, só ao fim do mundo, se completa em e com a natureza humana no processo de deificação, e só então é o verdadeiramente eterno, na perfeição definitiva, depois de cerrado o processo do mundo. Temos, pois, aqui um pancosmismo do desenvolvimento da força prototípica da Vida Eterna, que certamente pode chamar-se também um panteísmo da vida coeterna com la natureza eterna do homem e do mundo eterno.

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