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Cizânia (1)
Antonio Orbe — Parábolas Evangélicas em São Irineu
Capítulo 9 — A Cizânia (Mt 13,24—30.36—43)
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O Evangelho apresenta primeiramente a narrativa da parábola da cizânia e, em momento posterior, expõe a sua autêntica declaração por meio da boca de Jesus.
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O texto é recolhido unicamente pelo primeiro evangelista.
O Salvador propõe o símile do reino dos céus a um homem que semeou boa semente em seu próprio campo.-
Enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo e semeou por cima cizânia em meio ao trigo e retirou-se do local.
A erva ruim manifestou-se visualmente no campo assim que a boa plantação brotou e produziu o seu respectivo fruto.-
Os servos constataram a aparição da cizânia junto ao trigo.
Os servos apresentaram-se ao pai de família para indagar sobre a origem da erva má e questionar se a semente lançada não era boa.-
O pai de família respondeu que um homem inimigo realizou tal ação maliciosa.
Os trabalhadores ofereceram-se para ir recolher a cizânia, mas o dono da plantação barrou a iniciativa imediata.-
Não, não seja que, ao recolher a cizânia, arranqueis juntamente com ela o trigo.
O proprietário ordenou que ambas as sementes crescessem juntas no campo até que chegasse o tempo determinado da colheita.-
Deixai-os crescer juntamente um e outro até a ceifa, e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: Recolhei primeiro a cizânia e atai-la em feixes, para queimá-la, mas o trigo recolhei-o no meu celeiro.
Os discípulos aproximaram-se de Jesus em momento posterior para suplicar a explicação detalhada sobre o sentido do texto.-
Declarai-nos a parábola da cizânia do campo.
O Salvador respondeu individualizando cada um dos componentes que integravam a estrutura da narrativa desenvolvida.-
O que semeia a boa semente é o Filho do homem.
O campo de sementeira e os frutos gerados recebem uma identificação precisa dentro do esquema da história da salvação.-
O campo é o mundo; a boa semente são os filhos do reino; a cizânia são os filhos do maligno.
O semeador da erva má é identificado com a figura do diabo, enquanto a colheita projeta o término da dispensação.O destino final da cizânia serve de modelo para ilustrar o desfecho que aguarda os transgressores no término dos tempos.-
Assim, pois, como se recolhe a cizânia e se lança ao fogo para que arda, assim será na consumação do mundo.
O Filho do homem exercerá o juízo final por intermédio do envio de suas potências angélicas ministeriais.-
Enviará o Filho do homem seus anjos, os quais recolherão do seu reino todos os escândalos e todos os que praticam a iniquidade.
Os praticantes da iniquidade sofrerão o castigo da perdição ao serem lançados no ambiente do suplício definitivo.-
E os lançarão no forno de fogo; ali haverá choro e ranger de dentes.
Os justos alcançarão a glorificação e a bem-aventurança eterna no seio do reino de Deus Pai.-
Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, que ouça.
A parábola conta com um número expressivo de citações na literatura cristã antiga desde as obras de Hermas, prestando-se a investigações longas.-
A exposição divide-se em três grandes seções: antes de Irineu, nos eclesiásticos imediatos e no bispo Irineu de Lyon.
Parte Primeira — Antes de São Irineu
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A primeira subseção organiza-se em três grupos específicos compreendendo os Padres Apostólicos, os Apologistas e os pensadores heréticos.
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A subdivisão visa conferir maior clareza metodológica à análise dos documentos remotos.
Os Oráculos Sibilinos registram uma passagem pouco específica que ecoa o desfecho judicial descrito na narrativa de Mateus.-
De todos sairá lamento e haverá ranger de dentes.
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O verso evoca simultaneamente múltiplos outros lugares dos evangelhos sinóticos.
O livro apócrifo da Ascensão de Isaías apresenta trechos sobre o fogo do juízo que guardam escassa afinidade com o texto evangélico.-
Então, a voz do Amado advertirá colérica a este céu e a esta terra, e às montanhas e às colinas, e às cidades, e ao deserto, e às árvores, e ao anjo do sol e ao da lua, e a tudo aquilo onde se manifestou Belial e atuou publicamente em meio a este mundo. E a ressurreição e o juízo terão lugar entre eles, naqueles dias, e o Amado fará subir de si um fogo e consumirá todos os ímpios, e serão como se não lhes tivessem criado.
O documento apócrifo de Isaías afasta-se de Mateus ao professar o aniquilamento e a destruição absoluta dos ímpios no fim do mundo.-
No texto evangélico, os anjos lançam os pecadores em um forno preexistente para o suplício e não para a cessação da existência.
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A obra Pistis Sophia e os valentinianos também sustentavam a dissolução final dos homens hílicos e dos psíquicos de má vida.
A obra apócrifa do quarto livro de Esdras conserva um diálogo com o anjo Uriel que manifesta ressonâncias profundas com a parábola.-
Porque o século se apressa apressadamente a passar, pois não pode suportar o que foi prometido nos tempos justos. Porque este século está cheio de tristeza e enfermidades. Pois o mal foi semeado, sobre o qual me perguntas, e ainda não veio a sua destruição. Se, portanto, não for medido o que foi semeado, e se retirar o lugar onde o mal foi semeado, não virá o campo onde o bem foi semeado. Porque o grão da semente do mal foi semeado no coração de Adão desde o princípio, e quanta impiedade gerou até agora e gerará até que venha a eira! Considera, pois, contigo mesmo o grão da má semente, quanto fruto de impiedade gerou: quando forem semeadas as espigas, cujo número não tem fim, quão grande eira começarão a fazer!
As alusões convergentes do quarto livro de Esdras indicam que a doutrina sobre a semente do mal confina com o pecado original de Adão.-
Os comentadores eclesiásticos posteriores necessitaram de poucos acréscimos para vincular a cizânia à queda original da humanidade.
O Pastor de Hermas introduz a investigação em bases documentais seguras através de relatos parabólicos dotados de contornos explícitos.-
O amo ordenou ao servo predileto que levantasse um cercado em torno da vinha que acabara de ser plantada no campo.
O servo de Hermas ultrapassou as ordens recebidas e executou a monda voluntária das ervas daninhas que ameaçavam sufocar a cultura.-
Assim que se houve marchado, foi o servo e cercou a vinha, e terminada a cerca viu que a vinha estava cheia de ervas. Discorrendo para si, disse: 'A ordem de meu amo está cumprida. Agora, no tempo que falta para sua volta, vou cavar a vinha; estará assim mais formosa, e sem ervas, dará fruto mais abundante, não sufocada pelas ervas'. Foi-se, pois, e cavou a vinha e arrancou todas as ervas que havia na vinha; e a vinha aquela se pose formosíssima e frondosa, sem ter ervas que a sufocassem.
O dono da propriedade regressou e recompensou o trabalho do servo concedendo-lhe a liberdade e a dignidade de co-herdeiro do filho.-
As duas exposições teológicas de Hermas movem-se em horizontes distintos daqueles que caracterizam o texto de Mateus.
A declaração dos componentes da visão em Hermas apresenta pontos isolados de contato literário com o Evangelho.-
O campo é este mundo; o amo do campo é aquele que tudo criou, dispôs e dotou de vigor; o filho é o Espírito Santo; o servo, o Filho de Deus; a vinha, o povo que ele plantou; as estacas da empalizada, os santos anjos do Senhor, que protegem o seu povo; as ervas arrancadas da vinha são as iniquidades dos servos de Deus…; finalmente, a viagem do amo, o tempo que falta até sua vinda.
A designação do campo como o mundo estabelece a dependência literária estável de Hermas em relação a Mateus treze.-
O uso repetido do verbo grego para denotar sufocamento acusa a influência secundária da parábola do semeador.
O Pastor de Hermas introduz uma segunda visão focada em árvores desfolhadas e em aparência secas durante o período do inverno.-
Então, senhor — disse —, por que estão como secos e são todos iguais? Porque, me respondeu, nem os justos nem os pecadores se manifestam no que são durante este século, mas todos parecem iguais. O século presente é inverno para os justos, e não se manifestam, habitando como habitam em companhia dos pecadores. Pois, como no inverno as árvores, desfolhadas, são semelhantes, e não se vê quais estão secas e quais vivem, assim tampouco no século presente se revelam os justos nem os pecadores, mas assemelham-se todos.
O século presente funciona como o inverno que iguala exteriormente a condição dos justos e dos pecadores na sociedade.-
A chegada da primavera e do verão cósmicos desvelará a verdadeira qualidade de cada árvore no século vindouro.
O verão representa o mundo futuro e opera a discriminação definitiva entre as árvores verdes e as estéreis.-
Mostrou-me outra vez muitas árvores, umas verdes e outras secas… As árvores que germinam — me disse — são os justos que habitarão no século futuro. Porque o século vindouro é para os justos verão, e para os pecadores inverno. Quando brilhar a misericórdia do Senhor, se revelarão os que servem a Deus, e todos se manifestarão. Pois como no verão se mostram os frutos de cada árvore e aparece a sua qualidade, assim se mostrarão também os frutos dos justos, e todos se deixarão ver viçosos naquele século. Pelo contrário, os gentios e pecadores que vias como árvores secas, secos e sem fruto se encontrarão naquele século, e como lenha serão abrasados. E ficará patente que sua conduta foi má em vida deles. Os pecadores, com efeito, irão ao fogo, por terem pecado e não se terem arrependido. E os gentios serão abrasados, por não terem conhecido aquele que os criou. De tua parte, procura frutificar, a fim de que naquele verão seja conhecido teu fruto…
O contraste das estações do ano assume o papel de baliza para dividir o tempo do mérito e o tempo da retribuição final.-
A alegoria de Hermas omite o papel dos anjos e mantém as árvores fixas em suas respectivas comarcas terrenas.
Inácio de Antioquia emprega com frequência a metáfora das ervas más para designar o perigo das correntes heréticas.-
Apartai-vos das más ervas, que não cultiva Jesus Cristo, por não serem eles plantação do Pai. … Esforcemo-nos por ser imitadores do Senhor… a fim de que nenhum entre vós resulte erva do diabo, mas que vos mantenhamais em toda pureza e temperança, corporal e espiritualmente em Jesus Cristo. … Exorto-vos… a que useis de só alimento cristão e vos abstenhais de erva alheia, isto é, a heresia.
A oposição entre a plantação do Pai e a erva do diabo aproxima a teologia inaciana das balizas conceptuais de Mateus.-
O termo técnico de erva substitui as palavras trigo ou cizânia no vocabulário do bispo de Antioquia.
A Epístola dos Apóstolos alude brevemente ao texto evangélico ao responder às dúvidas sobre a execução do juízo divino.-
Pecam os que aborrecem a quem os corrigiu? — E Ele respondeu e nos disse: Por que então se levará a cabo o juízo? A fim de que depositem o grão nos seus celeiros e arrojem a palha no fogo.
O surgimento de doutrinas fatuas e heréticas assemelha-se à sobrevinda da cizânia sobre a boa semente da palavra.-
Ele nos disse: Virá outra doutrina e luta. E amigos de sua própria honra e inventores de uma doutrina fatua; um escândalo de morte virá com eles e ensinarão, e até aos que em mim creem os desviarão do meu mandato e os apartarão da vida eterna. Mas ai daqueles que empregam por pretexto esta palavra e mandamento meu! Ai também de quem os ouve e dos que se afastam da vida da doutrina! Serão castigados com eles para sempre.
Justino Mártir agrupa os versículos finais da parábola em sua primeira Apologia como um argumento de caráter eminentemente moral.-
A salvação dos discípulos encontra-se vinculada à prática efetiva das obras e dos mandamentos ensinados por Cristo.
O filósofo assevera que a repetição verbal das doutrinas é ineficaz se a conduta desmentir o caráter cristão do indivíduo.-
Mas aqueles que se veja não vivem como Ele ensinou, sejam declarados não cristãos, por mais que com a língua repitam os ensinamentos de Cristo. Pois, segundo Ele disse, salvar-se-ão não os que se contentam em falar, mas os que fazem também obras.
A demonstração eclesiástica apoia-se em uma cadeia de testemunhos evangélicos que culmina com os sinais de retribuição.-
Disse, com efeito, assim: 'Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas o que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. 'Pois quem me escuta a mim e faz o que eu digo, ouve aquele que me enviou. 'Muitos me dirão: Senhor, Senhor, acaso não comemos e bebemos e fizemos prodígios em teu nome? E então lhes contestarei eu: Apartai-vos de mim, praticantes da iniquidade'. Então haverá choro e ranger de dentes, quando os justos brilharem como o sol, e os injustos forem enviados ao fogo eterno'. 'Porque muitos virão em meu nome vestidos por fora com peles de ovelha, mas que são por dentro lobos vorazes; por suas obras os conhecereis; mas a toda árvore que não dá bom fruto a cortam e lançam ao fogo'.
Os justos constituem a boa semente no esquema de Justino, ao passo que os injustos encarnam os filhos do maligno.-
O autor efetua uma inversão consciente na ordem dos versículos quarenta e dois e quarenta e três de Mateus treze.
O Diatessaron de Taciano incorporou a totalidade da parábola em sua harmonia, conforme as reconstituições clássicas.-
Senhor, não semeaste tu a semente da santa semente no teu campo; donde vem então a cizânia? E respondeu, ser essa obra do inimigo, não porém sua… a cizânia estava semeada no campo, e o senhor da semente não permitiu a seus servos que arrancassem a cizânia do trigo até o tempo da ceifa… Aquele que semeou a semente do santo grão é o Filho do homem, e a semente dos bons são os filhos do reino.
O epíteto de trigo santo ou grão santo atesta a equivalência siríaca para denominar a boa semente do Filho do homem.-
Taciano insere alusões ao caráter da semente do mal em suas exortações contidas no tratado Aos gregos.
A natureza do mal assemelha-se às sementes mais miúdas que ganham robustez no interior humano com a menor oportunidade.-
Uma vez compreendidas estas coisas, quero, como as crianças pequenas, desnudar-me. Pois sabemos que a natureza do mal é semelhante à das sementes mais miúdas. Com a menor ocasião se robustece esta; mas de novo se desfaz, se obedecemos ao Verbo de Deus e não nos dissipamos a nós mesmos. Mediante um tesouro oculto se apoderou de nós. Ao desenterrar, enchemos-nos de pó, mas damos-lhe ocasião de se consolidar. Quem recebe em dom, por inteiro, a posse dele, tem à mão o poder das riquezas mais preciosas.
O autor contrapõe o crescimento da cizânia interna à posse do tesouro oculto que representa a iluminação do Verbo.-
A renúncia às vestes das paixões corporais assemelha-se à nudez inocente das criancinhas.
O cristão assume a tarefa de limpar a lama e a cinza do mundo sensível para evitar o sufocamento da centelha do espírito.-
O despojamento voluntário reconecta o indivíduo ao parentesco primitivo com o Criador antes da tragédia do paraíso.
O manuscrito herético do Evangelho de Tomás conserva uma versão modificada que atende de preferência à trajetória do mal.-
Disse Jesus: O reino do Pai se parece a um homem que tinha uma semente. Seu inimigo veio de noite e semeou cizânia entre a boa semente. O homem não deixou que eles arrancassem a cizânia. Ele lhes disse: Não seja que vades arrancar a cizânia e arranqueis com ela o trigo. Porque, no dia da ceifa, se manifestarão as cizânias e irão arrancadas ao fogo.
O anônimo de Nag Hammadi manipula e abrevia o texto de Mateus para adequá-lo às suas próprias opções teológicas.-
O conceito de reino do Pai substitui a expressão tradicional de reino dos céus.
A manifestação visível da cizânia ocorrerá de modo inevitável por ocasião do dia da colheita cósmica.-
O uso de uma fórmula verbal impessoal deixa em aberto a identidade dos agentes encarregados de lançar a erva ruim ao fogo.
O Senhor poupa os seus servos de atuar diretamente contra o incremento do mal durante o estágio intermediário do mundo.-
A própria transição temporal do cosmos operará a maturação e a consequente destruição do erro.
Os Atos de Tomás aplicam os componentes da parábola à atividade de pregação e conservação exercida pelo apóstolo.-
O santo eleva uma súplica ao céu para que o fruto de seu trabalho nas almas não seja suplantado pelas forças contrárias.
O apóstolo atua como o semeador terreno da boa semente que é a doutrina viva e o Evangelho de Cristo.-
Que minha esperança em ti não seja confundida, nem o muito trabalho meu resulte vão, nem minhas fadigas venham a dissipar-se. Não se percam minhas orações e meus jejuns constantes e toda minha diligência para ti. Não se mude a semeadura minha do trigo, da tua terra. Não o arrebate o inimigo e misture com suas cizânias. Porque a tua verdadeira terra não acolhe suas cizânias, e tampouco podem tuas casas recebê-las em depósito.
A comarca da verdadeira terra do Senhor identifica-se na exegese do manuscrito com a Igreja dos cristãos perfeitos.-
Os indivíduos dotados de gnose autêntica situam-se acima da corrupção e barram a inserção de ensinamentos perversos.
O paraíso eclesial dos perfeitos não tolera o sono ou a introdução de espinhos decorrentes do império da matéria.-
Os fiéis maduros caminham para ser depositados como trigo limpo nas moradas celestes do Pai.
Os Atos de João celebram o descanso do trabalhador eclesial após o recolhimento da semente multiplicada nos celeiros.-
O lavrador que encomendou à terra as sementes, e muito se cansou no cuidado e defesa delas, só então toma descanso das fadigas quando deposita nos celeiros a semente multiplicada.
A Epístola de Tito sobre a disposição da santidade deforma a narrativa para estruturar uma violenta condenação ao matrimônio.-
Recebe, pois, em teu coração os conselhos do bem-aventurado João, que quando foi chamado às núpcias só teria vindo por causa da santidade, e o que disse? 'Filhinhos, enquanto vossa carne ainda é pura… sabei pois mais plenamente o mistério da união: é experiência da serpente, ignorância da doutrina, injúria da semente… sobresemeadura do inimigo, insídias de Satanás…'
O ato da união conjunta entre o homem e a mulher é equiparado à sobrevinda noturna do diabo no campo do mundo.-
A sementeira da cizânia representaria a própria conjunção carnal inaugurada por Adão e Eva sob a sedução da serpente.
O manuscrito do Martírio de Pedro e Paulo compara as heresias de Simão Mago ao verbo maligno espargido pelo adversário.-
Eu, porém, o verbo do diabo que por meio deste homem vejo difundir, com os gemidos do meu coração procedo com o Espírito Santo, para que cedo possa mostrar o que é. Pois quanto pensa ser exaltado aos céus, tanto será imergido nos infernos inferiores onde há choro e ranger de dentes.
O erro de doutrina espalha-se pela eira terrestre imitando o dinamismo de crescimento do trigo eclesial.-
O arconte da falsidade sofrerá a submersão no abismo onde impera o choro e o ranger de dentes.
As Homilias pseudo-clementinas recorrem ao versículo trinta e nove de Mateus para atestar a existência real e pessoal do diabo.-
Pedro argumenta contra Simão Mago demonstrando que o Maligno constitui uma entidade verdadeira e ativa na história.
O Salvador atestou em múltiplas ocasiões a iminência e os ataques perpetrados pelo arconte da iniquidade no cosmos.-
Muitas vezes o Mestre, que em tudo dizia verdade, havia ensinado a sua existência. Confessava, com efeito, que já em seguida o tentou em diálogo durante quarenta dias. E sei que em outra ocasião afirmou: 'Se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si. Como, pois, está de pé o seu reino?' E declarou ter visto o Maligno caindo do céu como um relâmpago. E em outra parte dizia: 'Mas o que semeia a má semente é o diabo'. E de novo: 'Não deis ocasião ao Maligno'. Igualmente, aconselhava: 'De vós seja o sim, sim e o não, não. O que sobra disso, vem do Maligno'. Igualmente, na oração que nos encomendou temos dito: 'Livra-nos do Maligno'. E em outro lugar prometeu aos ímpios: 'Apartai-vos para as trevas exteriores, que dispôs o Pai para o diabo e seus anjos'.
A fórmula pseudo-clementina altera a redação de Mateus ao introduzir a expressão de má semente em substituição ao vocábulo cizânias.-
O termo inimigo desaparece do oráculo citado nas disputas do manuscrito.
Os grupos valentinianos de Heracleon desenvolvem a leitura do texto a partir de seu comentário ao Evangelho de João.-
A colheita dos campos brancos apontada por Jesus na Samaria vincula-se ao destino final do trigo de Mateus treze.
Orígenes preserva o comentário de Heracleon focado no amadurecimento e na colheita das almas dos crentes.-
Heracleon, porém, como a maioria, ficava-se na letra, não pensando no seu mais alto sentido. Diz, pois: '(Cristo) fala da ceifa dos frutos, como se esta tivesse ainda quatro meses bem definidos, e a ceifa a que pessoalmente aludia já houvesse chegado'. E não entendo como declarou a ceifa, ao dizer: 'Já estão maduras e dispostas para a ceifa, e aptas para ser congregadas no depósito isto é, no descanso, mediante a fé, quantas estão dispostas; porque não todas. Umas, com efeito, estavam já — diz — preparadas; outras a ponto; outras estão dispondo-se; outras, por fim, estão já semeando'. Tais coisas disse aquele.
O valentiniano congrega os dois textos para discernir entre o ato de ceifar e o recolhimento nos celeiros celestes.-
Já estão maduras e dispostas para a ceifa e idóneas para ser congregadas no depósito…
O processo de sementeira e maturação das almas espirituais realiza-se de forma assíncrona ao longo do tempo do mundo.-
Os seres racionais dividem-se em grupos de acordo com o estágio de prontidão em que se encontram perante o Logos.
O termo idôneo aponta para a conquista da saúde e do descanso final, enquanto a prontidão orienta-se para a ação imediata da colheita.-
A colheita cumpre-se no ambiente histórico do cosmos, e a recolha consome-se nos celeiros espirituais do Salvador.
O mestre Ptolomeu utiliza o vocábulo preparado no trecho em que Heracleon preferia a menção ao indivíduo idôneo.-
A semente espiritual é depositada na alma para crescer e dispor-se a receber o perfeito Logos.
Irineu de Lyon confirma a terminologia adotada pela escola de Ptolomeu a respeito do crescimento e formação da razão perfeita.-
O sêmen divino necessita atingir a maturidade na matéria sensível para legitimar a sua própria história no cosmos.
O indivíduo espiritual morre para a existência anterior e desperta para a vida definitiva assim que recebe a iluminação da gnose.-
Heracleon projeta os dois estágios da colheita e da recolha sobre a totalidade do corpo eclesial dos eleitos.
A disposição para a colheita situa-se na eira terrena e prepara o acesso à gnose salvífica outorgada pelas potências celestes.-
Os seres não amadurecem de forma simultânea, registrando-se a primazia dos espirituais do Antigo Testamento.
O Salvador manifestou-se aos vates antigos por ocasião de sua descida às regiões do Hades subterrâneo ou aos céus planetários.-
A pregação presencial de Jesus amadureceu de golpe os germes dos justos hebreus que aguardavam a redenção.
Os crentes do Novo Testamento alcançam a gnose individual de acordo com o ritmo de sua aparição na carne e no mundo material.-
Os anjos satélites de Jesus operam a colheita arrancando os indivíduos um a um do ambiente da matéria.
A alma do gnóstico desliga-se do cosmos e recolhe-se temporariamente na Ogdóada que constitui o céu e o vestíbulo de Sofia.-
Os membros da Igreja humana aguardam na comarca intermediária que se complete o número total dos escolhidos.
A consumação final ou synteleia unificará os bem-aventurados para a entrada coletiva no Pleroma e no tálamo nupcial perante o Pai.-
O intervalo situado entre a ressurreição do Salvador e o banquete das bodas celestes abarca o tempo de custódia intermediária.
Heracleon cala sobre a sorte final dos homens materiais e animais por considerá-los estranhos à colheita do depósito paterno.-
Os seres hílicos são por natureza incapazes de amadurecer para Deus, e os psíquicos puros não alcançam os celeiros da Luz.
O fragmento trinta e três de Heracleon corrobora a vinculação mística entre a colheita joanina e o oráculo sobre a escassez de operários.-
Dirá Heracleon, e quiçá também algum eclesiástico o acompanhe nesta exegese, que tais coisas se disseram com significado semelhante ao daquelas: 'A seara é muita, mas os obreiros poucos'. estariam prontas para a ceifa e idóneas para ser já recolhidas no celeiro — no descanso, mediante a fé — e idóneas para a saúde e para acolher o Logos. Segundo Heracleon, pela constituição e natureza delas; segundo o eclesiástico, a causa da boa disposição do pronto para a perfeição. E, por isso, para serem também ceifadas.
O mestre valentiniano consolida as variantes textuais ao detalhar os contornos do descanso alcançado por meio da fé.-
O descanso identifica-se com a saúde plena e com a recepção do Logos encarregado de desvelar a gnose do Pai.
A vinda presencial do Salvador rompeu o tempo de ocultação dos germes e inaugurou a economia nova da iluminação.-
A grande seara abarca a multidão de espirituais espalhados pelo campo que se dilata diante dos olhos de Jesus.
Orígenes aponta o abismo soteriológico que separa a antropologia eclesiástica das propostas da escola valentiniana.-
Heracleon fundamentava a prontidão do trigo na própria constituição física e na natureza essencial das almas eleitas.
Os eclesiásticos situavam a idoneidade na determinação livre e meritória da parte racional da alma voltada para a perfeição.-
O discípulo da Igreja constrói o seu acesso à salvação por meio do exercício pessoal e do cumprimento dos mandatos.
O pensador gnóstico aceitava a existência de uma disciplina livre aplicável ao estágio psíquico e ético do indivíduo no mundo.-
O processo racional baseado no decálogo prepara o homem e oferece ao Salvador um ser psiquicamente perfeito na eira terrena.
A gnose opera como o golpe de foice que deifica o trigo constitutivo e introduz o espírito no vestíbulo da glória do Pai.-
A cizânia segue um crescimento paralelo ao do trigo, mas, sendo má semente por natureza, acaba fatalmente destruída no fogo.
A matéria funciona em relação ao espírito de forma análoga ao papel que a palha exerce no amadurecimento do grão.-
A dispensação corpórea revela-se indispensável para assegurar a multiplicação e o desenvolvimento do germe no cosmos sensível.
O fragmento trinta e quatro de Heracleon identifica a figura do ceifeiro evangélico com a própria pessoa do Salvador.-
Crê Heracleon que o de: 'o ceifeiro recebe o seu salário' se disse 'porque afirma o Salvador chamar-se a si próprio ceifeiro'. E supõe que o salário de nosso Senhor é a saúde e restituição dos ceifados, por descansar Ele neles. E o de 'e recolhe fruto para a vida eterna' se disse ou por ser o recolhido fruto de vida eterna, ou por ser ele mesmo vida eterna.
O Salvador assume o título de ceifeiro porque a colheita e a salvação constituem operações características de seu ministério.-
Jesus delega a execução material da colheita aos seus anjos satélites e guarda para si a retribuição do descanso.
O bem-estar dos remidos converte-se no próprio salário de Jesus, gerando o descanso mútuo entre o trigo e o ceifeiro.-
O fruto recolhido nos celeiros assume uma dupla significação na exegese ambígua desenvolvida pelo valentiniano.
O trigo é considerado fruto de vida eterna porque o Salvador reengendra para o seio de Deus os seres que a mãe Sofia gerara para a morte.-
A regeneração espiritual inverte o curso vergonhoso da geração carnal e introduz os infantes na maturidade do Varão.
Os espirituais formados pelo Salvador abandonam a amorfia da fêmea e convertem-se em filhos legítimos do Esposo e do tálamo.-
Pois enquanto éramos filhos da só fêmea, como de matrimônio vergonhoso, éramos filhos da mulher, imperfeitos, infantes, amentes, débeis e informes. Mas uma vez formados pelo Salvador, viemos a ser filhos do Varão e do tálamo.
O sêmen amorfo transforma-se em fruto masculino e perfeito, subtraindo-se ao império dos elementos mundanos visíveis.-
Até então dizem o esperma é ainda amorfo, é filho da fêmea. Mas uma vez formado, mudou-se em varão e se faz filho do Esposo. Já não é débil nem sujeito aos mundanos, visíveis e invisíveis, mas mudado em varão se faz fruto masculino.
O trigo recolhido identifica-se com a própria vida eterna porque os espirituais convertem-se em varões iguais aos anjos masculinos.-
Os eleitos recebem por crase a vida do Salvador e dão subsistência pessoal à imortalidade característica do Pai.
O fragmento trinta e cinco de Heracleon detalha o gozo simultâneo que une o semeador e o ceifeiro na eira do mundo.-
Aquilo de 'para que o semeador se alegre junto com o ceifeiro' declarou-o assim Heracleon. Com efeito, diz, alegra-se o semeador porque semeia e porque se congrega já uma parte de suas sementes, tendo também a mesma esperança para as restantes. E o ceifeiro, de modo similar, porque também ceifa. Mas um começou primeiro a semear, e o outro logo a ceifar. Pois não podiam ambos começar ao mesmo tempo. Uma vez que deixe o semeador de semear, ainda ceifará o ceifeiro. Mas no presente, exercitando ambos o próprio trabalho, alegram-se ao mesmo tempo, tendo por gozo comum a madurez das sementes. A propósito daquilo: 'Nisto resulta verdadeiro o provérbio: um é o semeador e outro o ceifeiro', diz: Porque o Filho do homem, situado sobre o lugar, semeia. Mas o Salvador, por ser Ele também filho de Anthropos, ceifa e envia ceifeiros, os anjos, significados mediante os discípulos: um por um à sua alma respectiva. Mas não expôs com toda clareza quem eram os dois filhos do homem de quem um semeia e o outro ceifa.
A sementeira e a colheita operam em momentos distintos para um mesmo grão, mas o gozo unifica-se em razão de sementes diversas.-
O espetáculo da granação perfeita estimula o semeador a perseverar na sementeira enquanto testemunha a colheita parcial.
O gozo comum assume matizes essenciais irredutíveis de acordo com a natureza psíquica ou espiritual de cada agente.-
O amigo do Esposo, que representa o deus demiurgo Javé, experimenta uma alegria de caráter puramente psíquico diante do tálamo.
O arquitriclino e paraninfo de bodas alegra-se em fé ao escutar a voz do Esposo, alcançando uma plenitude relativa de descanso.-
Quanto ao arquitriclino e paraninfo das bodas alude em símbolo a Javé, o demiurgo, 'o amigo do Esposo que está em pé diante do tálamo, ao ouvir a voz do Esposo, se alegra com alegria' [Jo 3,29]. Tal para ele a plenitude do gozo e do descanso.
O Salvador e as suas potências angélicas celebram a colheita de modo pneumático e gnóstico no seio da syzygía pleromática.-
A eclesiologia valentiniana desvela a identidade dos dois filhos do homem silenciada no texto de Heracleon.
O Filho do homem semeador configura o Messias judeu ou Cristo psíquico que atua como instrumento e primogênito do demiurgo.-
A sua comarca de atuação situa-se no sétimo céu da hebdomada, sendo qualificada como sobre o lugar ou ὑπὲρ τὸν Τόπον.
O Filho do homem ceifeiro representa o Salvador Jesus, rebento do Anthropos celeste e encarregado da colheita espiritual.-
O Cristo psíquico espalha no mundo corpóreo os germes invisíveis que Sofia depositara originalmente nas almas.
O Salvador intervém quando os germes atingem a prontidão, enviando as potências angélicas para extrair as almas em direção ao descanso.-
O dinamismo da parábola de Mateus repete o antagonismo entre as duas funções complementares dos dois filhos do homem.
O versículo trinta e sete de Mateus foca na sementeira executada pelo Cristo psíquico desde os dias do primeiro homem Adão.-
Os versículos trinta e trinta e nove concentram-se na colheita e referem-se estritamente à missão do Salvador espiritual.
Os Excerpta ex Theodoto citam a parábola da cizânia para ilustrar o estado de ignorância que afetava o Criador antigo.-
O demiurgo realizava a fabricação do cosmos sensível acreditando operar por virtude própria e espontânea.
O Apóstolo atesta que o Criador foi submetido de mal grado à vaidade do mundo em benefício das sementes divinas.-
E como não conhecia o demiurgo à que mediante ele atuava, na crença de fabricar por própria virtude e por ser naturalmente amigo de trabalhar, disse a propósito o Apóstolo: 'Foi sujeito à vaidade do mundo, não de bom grado, mas por causa daquele que o sujeitou, com a esperança de que também ele se liberte', quando as sementes de Deus se congreguem.
O Unigênito movia os fios da economia arcontíca para direcionar as ações de Javé em benefício dos fins pleromáticos.-
O Criador perseverou na inconsciência a respeito das realidades do Espírito até que ocorreu o advento presencial do Salvador.
Ao deparar-se com Jesus, o demiurgo aprendeu os mistérios da dispensação e acolheu com alegria o seu posto subalterno.-
Tendo vindo, porém, o Salvador, dizem que ele aprendeu tudo com ele, e que com alegria lhe cedeu com toda a sua virtude, e que ele é aquele centurião no evangelho, dizendo ao Salvador: 'Pois também eu tenho sob a minha autoridade soldados e servos, e o que ordenar, fazem'. Mas que ele completaria aquela criação do mundo que lhe corresponde, até o tempo que convém, principalmente por causa da diligência e cuidado da Igreja, e por causa do conhecimento da recompensa preparada, porque passará para o lugar da Mãe.
O Criador permanece encarregado de governar a estrutura do cosmos sensível até que soe o tempo determinado da colheita.-
O seu ministério de proteção e cuidado esgota-se com o recolhimento do último espírito escolhido na eira terrena.
A colheita final das sementes de Deus assinala o momento em que o demiurgo ingressará no descanso da Ogdóada.-
O término do trabalho servil liberta o Criador para passar definitivamente ao local ocupado pela mãe Sofia.
Um segundo fragmento dos Excerpta analisa os componentes da parábola a partir do contraste entre o homem hílico e o espiritual.-
O indivíduo material é definido como a cizânia que brota e cresce entrelaçada à alma do homem psíquico.
A semente do diabo partilha da mesma substância corrupta de seu gerador e atua como o mordedor do calcanhar humano.-
Este chama-se cizânia, com a alma com a boa semente. Este também 'semente do diabo', enquanto consubstancial com ele; e serpente e 'mordedor do calcanhar, e que espreita a cabeça do rei'.
O inimigo de Mateus converte-se na figura do diabo que espalha um sêmen homólogo à sua própria essência no cosmos.-
Os valentinianos conectavam o texto evangélico ao vaticínio do Gênesis sobre a inimizade das duas sementes.
A sementeira da cizânia corpórea realizou-se historicamente nos dias do paraíso terrestre sob a ação da serpente.-
O trigo da narrativa assume o papel de representação simbólica da alma racional ou do homem psíquico meritório.
O homem hílico brota acoplado ao psíquico para tentar arrastá-lo à corrupção e desorganizá-lo em sua caminhada.-
A colheita final operará a separação triádica das sementes de acordo com a essência constitutiva de cada indivíduo.
A cizânia material terminará lançada no fogo, e a semente espiritual de Sofia alcançará a saúde plena do descanso pleromático.-
A alma psíquica receberá o acesso ao seu próprio descanso se tiver pautado a conduta pelos mandatos da moral.
A alma que se deixou corromper pela simbiose com a cizânia hílica murchará sob o império do fogo destruidor.-
Os heresiarcas dispunham de duas exegeses distintas para harmonizar a antropologia triádica ao dualismo monetário de Mateus.
O trigo simboliza o homem psíquico no esquema dos Excerpta e encarna o pneuma espiritual nos fragmentos de Heracleon.-
A maleabilidade dos símbolos facilitava a decodificação dos mistérios de acordo com as necessidades da escola.
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