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Bom e mau servo

Antonio OrbeParábolas Evangélicas em São Irineu

Capítulo 20: À margem de duas parábolas

I. O bom e o mau servo (Mt 24,45-51; Lc 12,41-48)

  • Na Igreja, existem bons “presbíteros” que sucedem os apóstolos e receberam o carisma da verdade segundo o beneplácito do Pai, opondo-se aos hereges que se afastaram da sucessão autêntica.
  • Entre uns e outros, movem-se aqueles que são tidos por muitos como “presbíteros” mas são escravos de suas paixões.
  • O Verbo repreenderá aqueles que, inchados pelo cargo, servem aos próprios prazeres, ultrajam os outros e agem ocultamente, semelhantes aos velhos ímpios de Daniel.
  • O servo infiel de Mateus 24,48ss representa os presbíteros ou bispos que merecem a repressão aplicada por Daniel aos dois juízes impuros.
  • Esses presbíteros infiéis esquecem o temor do Senhor, imaginam que Cristo não virá em sua segunda vinda e ultrajam os companheiros, como está escrito: “Se, porém, o mau servo disser em seu coração: Meu senhor tarde vem, e começar a ferir os servos e as servas, e a comer, beber e embriagar-se, virá o senhor daquele servo no dia em que não espera e na hora que não sabe, e o punirá severamente e lhe porá a sua parte com os infiéis”.
  • Os verdadeiros presbíteros, dignos do nome, conformam a vida com a dignidade da ordem e oferecem uma palavra sã e uma conduta irrepreensível, dóceis à exortação divina mediante os profetas.
  • A Igreja nutre tais presbíteros, dos quais o profeta diz: “Darei os teus príncipes na paz e os teus bispos na justiça”.
  • O Salvador os retrata no servo fiel da parábola: “Quem será, pois, o ator fiel, bom e sábio, a quem o Senhor pôs sobre a sua família para dar-lhes o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo a quem o Senhor, quando vier, achar fazendo assim”.
  • O ecônomo ou servo fiel corresponde, no Novo Testamento, às dignidades do Antigo, pois nele repousam os carismas de Deus, sendo depositário da verdade e sucessor dos apóstolos no governo da Igreja.
  • A leitura “ator” presente em Irineu latino, onde outros leem “dispensador”, não altera o sentido, representando o ecônomo ou servo um sucessor dos apóstolos, indivíduo qualificado de rango presbiteral ou episcopal.
  • O Senhor é o Salvador, que pode vir na segunda vinda quando menos se pensa, e a parábola aplica-se ao intervalo entre a vinda humilde “in forma servi” e a vinda gloriosa “in forma Dei”.

O livre-arbítrio e a graça divina

  • O livre-arbítrio do homem é perfeitamente compatível com a graça de Deus, com o bom conselho e com o bem divino, como demonstram as exortações dos profetas.
  • Deus, em sua bondade, sempre deu um bom conselho por meio dos profetas e, mais tarde, pelo próprio Senhor.
  • Irineu enumera uma série de testemunhos evangélicos sobre a liberdade, incluindo Lucas 12,47: “O servo que sabe a vontade do seu senhor e não a faz, receberá muitas vergastadas”, e Lucas 12,45-46.
  • O servo ou ecônomo da parábola, neste contexto, não tem o sentido qualificado de presbítero ou bispo, mas representa o simples indivíduo, dotado de liberdade e movido internamente ao bem divino, sendo capaz de fidelidade ou infidelidade.
  • Marção acolhia em seu Evangelho a versão suavizada de Lucas 12,46: “Vendrá o amo daquele criado no dia em que menos espera… e o apartará e porá a sua parte com os infiéis”, substituindo o verbo “dividir” por “apartar”.
  • Tertuliano combate o pensamento de Marção, mas não o verbo “apartar”, mostrando que mesmo essa separação constitui um juízo.
  • Orígenes, diferentemente, aplica o verbo lucano “dividir em dois” à escatologia dos condenados, separando a psique (com o corpo) destinada ao fogo do espírito que se reabsorve em Deus.
  • Para Orígenes, a dicotomia entre psique e pneuma baseia-se na noção de que o anthropos é a alma, e a separação equivale a uma secessão entre a substância humana e a substância divina.
  • Os gnósticos valentinianos, por sua vez, ensinavam uma tricotomia final (corpo, alma, espírito) como meio indispensável para a salvação, obedecendo a leis físicas inexoráveis.
  • Irineu deixa passar a dicotomia de Lucas 12,46, afirmando que o homem, composto de alma e corpo, experimenta entre os condenados o apartamento do espírito, o que afeta mais o corpo que a psique.
  • O santo cita duas vezes Lucas 12,48: “A quem muito se dá, muito se lhe reclamará, e a quem muito encomendaram, mais abundantemente lhe pedirão”, aplicando aos cristãos do Novo Testamento uma responsabilidade maior do que àqueles do Antigo.
  • A morte do Senhor foi remissão para os pecadores do Antigo Testamento, mas para os que pecam agora, Cristo já não morrerá, vindo o Filho na glória do Pai para exigir contas, e a quem mais deu, mais exigirá.
  • Irineo inspira-se no “presbítero” para humilhar os cristãos diante dos justos do Antigo Testamento, lembrando que os pecadores do AT tiveram a pregação de Jesus no Hades, enquanto os pecadores do NT talvez não encontrem ocasião semelhante.
  • O juízo final será feito pelo Filho, e as graças segundo as quais Ele julgará são menores antes de Cristo e maiores depois, sendo a primeira vinda um fator decisivo.
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