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Infância e juventude

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

  • A origem carnal de Jesus a partir de Maria e a unção no Jordão sob o espírito virginal sublimam o elemento hílico de sua carne em favor da eficácia salvífica.
    • A fecundidade virginal de Maria anuncia a fecundidade também virginal do espírito masculino na iluminação do Jordão.
    • A maternidade física importa não pela substância corruptível, mas porque a limpeza livre de concupiscência dispõe a carne de Jesus para a vestição da virgindade essencial do espírito.
    • A diferença entre as fórmulas per Mariam e ex Maria perde relevo entre os sectários, assim como a substância da carne em si diante do caráter virginal ou espiritual dela.
  • Os gnósticos admitiram os quatro evangelhos em sua integridade e não encontravam conflito na infância de Jesus, embora tenham descuidado os anos anteriores ao batismo.
    • Os mistérios diretamente salvíficos a partir do Jordão atraíam a atenção, fazendo com que os anos em Belém, Egito e Nazaré fossem praticamente omitidos.

Nascimento

  • Belém não figura entre as notícias gnósticas diretas ou indiretas, situando—se a aparição terrena de Cristo de modo genérico nos tempos de Herodes.
    • Os peratas e os setianos rememoram os tempos de Herodes, sendo que os setianos apontam a aparição em forma de homem e feito a imagem de José.
  • O gnóstico Justino prolonga o governo de Herodes até os doze anos de Jesus, momento em que o anjo Baruc o encontra em Nazaré.
    • Jesus é descrito como filho de José e de Maria, um menino de doze anos que apascentava ovelhas.
  • Na escola de Basílides, alguns determinavam o nascimento do Salvador no dia 24 ou 25 do mês de Farmuzi, correspondente a meados de abril.
    • Epifânio, por outro lado, menciona que os basilidianos celebravam o batismo no dia 11 de Tibi, equivalente a cinco de janeiro.
  • Os gnósticos ignoram as tradições sobre a caverna como lugar do nascimento e sobre a parteira que comprova a virgindade de Maria.
    • Atos de João e o Livro de Tomás relacionam o antro ou caverna com a matéria e o corpo, origens da ignorância.
    • Cláusulas de coloração gnóstica na Ascensão de Isaías e nos Atos de Pedro com Simão indicam o nascimento a partir do Espírito Santo sem que a mãe conheça varão, recorrendo à fórmula de que deu à luz e não deu à luz.
  • Os valentinianos sintetizam a obra pacificadora do Salvador a partir da mensagem angélica aos pastores, afirmando que o Senhor desceu para trazer a paz aos seres celestiais e não aos terrenos.
    • O texto valentiniano baseia—se em uma leitura de Paulo, provavelmente Efésios, indicando que a paz é destinada aos homens espirituais e psíquicos vindos de cima, e não aos homens terrenos.
  • Os anjos que assistiram ao nascimento em Belém pertenciam à categoria dos espirituais, satélites do Salvador, e não aos arcontes planetários ignorantes do descenso do Filho.
    • Gabriel atuou no lugar do Logos do Pleroma segundo o valentiniano Marcos, ou foi a própria figura adotada pelo Logos para introduzir—se em Maria de acordo com a Pistis Sophia.
    • Os anjos espirituais, procedentes da Ogdoada, nasceram junto com o Salvador, servindo como seus cortesãos e atendendo exclusivamente ao plano salvífico, diferentemente dos psicopompos herméticos voltados à demiurgia.
  • A distinção entre anjos animais pertencentes ao demiurgo e anjos espirituais pertencentes ao Filho soluciona a objeção de Irineu quanto ao louvor dos pastores.
    • Os pastores de Israel, ao receberem o anúncio da parusia do Filho unido ao Cristo animal, glorificaram o criador anunciado pela Lei e pelos profetas e, implicitamente, o Deus supremo a quem o universo obedecia.
  • O Salvador pacifica os homens celestes nascidos de cima para reintegrá—los à pátria de origem por meio da gnose e da fé, enquanto os homens terrenos, filhos de Caim e do diabo, são destinados à corrupção e à morte.
    • Fórmulas sacramentais valentinianas registradas por Irineu confirmam essa destinação ao desejarem paz àqueles sobre quem descansa o Nome ignoto.

Circuncisão

  • Os maniqueístas e Marcion pronunciaram—se decididamente contra a circuncisão, enquanto Cerinto e os ebionitas urgiam a validade da Lei mosaica.
    • Os maniqueus consideravam os sexos e o corpo humano como obras do princípio mau, recusando que o Filho de Deus assumisse a marca do demônio.
    • Um fragmento atribuído aos estoicos por Orígenes reflete a ideologia marcionita, questionando a bondade de um Deus legislador que ordena ferir a infância inocente em partes obscenas para corrigir um erro de sua própria criação.
  • As seitas gnósticas sabiam justificar o fato da circuncisão de Jesus, muito embora condenassem o regime da Lei como decadente a partir do Evangelho.
    • O Evangelho segundo Tomás e o Pensamento da Magna Dynamis sugerem uma mentalidade contrária à circuncisão carnal, propondo que o conhecimento de Deus se estende tanto ao menino de sete dias quanto ao ancião.
  • Ptolomeu, na Carta a Flora, explica a circuncisão da carne como um símbolo da circuncisão espiritual do coração ou da alma, que se perpetua no Evangelho após o desaparecimento da prática material.
    • O Evangelho de Tomás registra o questionamento dos discípulos sobre a utilidade da circuncisão, ao qual Jesus responde que a verdadeira utilidade reside na circuncisão em espírito.
  • Os gnósticos ensinaram o fato histórico da circuncisão em respeito à letra das Escrituras, combatendo a ideia de um Cristo puramente aparente.
    • O tratado Melquisedeque afirma que o Salvador nasceu, comeu, bebeu, foi circuncidado, veio em carne, submeteu—se ao pathos e ressuscitou, contra os que afirmavam o inverso.
  • Orígenes atesta que os valentinianos enfrentavam dificuldades para explicar a circuncisão de um corpo de natureza espiritual por um ferro terreno.
    • A escola oriental defendia o corpo espiritual de Jesus, ao passo que a escola itálica optava pelo corpo animal.
    • A Caverna dos Tesouros resolvia a questão comparando a circuncisão a um ferro que passa pela chama do fogo sem dividi—la, mantendo o corpo do Mesias intacto.
  • Alguns valentinianos publicaram livros sobre o prepúcio de Jesus para demonstrar que essa porção carnal havia se transformado em substância espiritual.
    • Sem sofrer mudança substancial, a akrobystia perpetuou—se como elemento espiritual ao abrigo da corrupção, pensamento que encontra paralelo em teses de Hilário de Poitiers sobre a transformação da carne em glória espiritual.
  • A circuncisão ganha um sentido místico entre os naassenos sob o mito de Átis, representando a separação original entre o Adão e a Eva celestes.
    • O Anthropos andrógino das alturas foi apocopado devido a um pecado mítico, e sua parte feminina — a futura igreja terrena — caiu no mundo para dar início à economia da salvação.
  • Os valentinianos viam na circuncisão ao oitavo dia a manifestação da Ogdoada superior, aplicando o conceito à separação entre o reino do Espírito e o império do demiurgo animal.
    • Sophia Achamot, situada fora dos muros de Deus, deu à luz o Cristo superior, o qual se recolheu imediatamente ao Pai, cortando e abandonando fora a sua sombra ou apêndice, que constituía a essência animal e a raiz do mundo infradivino.
  • Os mitos da apotomia do Cristo Adão para originar a Igreja e do apócope da sombra demiúrgica justificavam o mistério da circuncisão de Jesus aos oito dias como um paradigma anterior à história.
    • O mito de Adão luminoso no tratado Sobre a Origem do Mundo diverge ao propor que o Salvador não corta a deficiência, mas constrói o universo a partir dela.
    • Exegeses neoplatônicas e órficas por Porfírio e Proclo sobre a castração de Saturno e do Céu guardam parentesco com a visão naassena da divindade obrigada à geração e à disseminação de formas através do deleite.
  • A peritome de Lucas representa tanto o sinal visível de pertença ao povo de Abraão quanto o símbolo da separação entre o Cristo superior e a Igreja terrena.
    • Celso denunciava eflúvios de uma igreja terrena e de circuncisão entre os ofitas, o que Orígenes interpreta como a igreja terrena sendo eflúvio da Jerusalém celeste e eon superior, funcionando a circuncisão como purificação no Horos.
    • Filão teorizou sobre o Logos divisor e o cuchillo do sacrifício, imagem que se alinha à concepção do Verbo que opera a divisão entre o espírito e a alma, justificando a origem do demiurgo.

Apresentação de Jesus

  • A apresentação de Jesus no templo aos quarenta dias encontra um paralelo mistérico nas linhas do tratado Sobre a Origem do Mundo a respeito do corpo de Adão.
    • Os sete arcontes formaram Adã sem espírito, depositando—o em um vaso com a forma de um aborto.
    • O Grande Arconte abandonou o plasma sem alma por quarenta dias, período em que Sophia Zoe enviou seu alento ao interior de Adã antes de sua colocação no paraíso.
  • Os quarenta dias de Adã significam a animação do corpo humano e a consagração do homem a Deus, estabelecendo que o templo foi para Cristo o que o paraíso foi para o primeiro homem.
    • O Salvador prefigura aos quarenta dias de nascido a sua ascensão definitiva ao Pai, ocorrida quarenta dias após ressurgir dentre os mortos.
    • O Pseudo—Anástacio Sinaíta registra que os hebreus, baseados no não canônico Testamento dos Protoplastos, apontavam a entrada de Adã no paraíso no quadragésimo dia, harmonizando o fato com a ascensão de Cristo.
  • O simbolismo dos velhos Simeão e Ana assume grande importância na exegese valentiniana, onde Simeão representa o demiurgo e Ana personifica Sophia Achamot.
    • Simeão, ao tomar Cristo nos braços, representa o deus animal que compreende sua futura mudança para a Ogdoada e dá graças ao Bythos pelas promessas cumpridas.
    • Ana, como profetisa viúva, figura a Sabedoria que descobriu o Salvador em seu descenso e permanece na mediedade aguardando a consumação final para restituir—se ao matrimônio eónico.
  • O demiurgo, sujeito à vaidade do mundo por obra do Salvador, encontra sustentação na esperança da libertação definitiva quando as sementes de Deus estiverem maduras.
    • A bênção do sábado e o gozo do descanso após os seis dias de trabalho atestam a submissão não voluntária do criador, cujo labor cessa com a colheita final dos filhos da Igreja pelos anjos de Jesus.
  • Simeão também fala em pessoa da Lei de Moisés, indicando uma continuidade pacífica entre a antiga Lei e o Evangelho, ao contrário da ruptura total pregada por Marcion.
    • As palavras do Nunc dimittis expressam que a Lei cessou sem violência para ceder o posto ao Evangelho do Deus Pai, exegese que reaparece na obra de Efrém da Síria.

Desterro e volta do Egito

  • O Himno de la perla guarda importância ao narrar o protagonista enviado do Oriente para o Egito, de onde se liberta após perder—se, guardando analogia com a trajetória de Jesus.
    • Não se constata influência direta das narrativas de Mateus sobre o hino, sendo provável que os autores gnósticos tenham especulado de forma livre sobre a noção de Egito como o mundo sensível ou o corpo material.
  • A economia salvífica compendia—se no duplo movimento de descida do homem do céu para o Egito e de retorno do Egito ao lugar de origem por obra de Jesus.
    • Os naassenos interpretam o salmo sobre os deuses e filhos do Altíssimo como o imperativo de fugir do Egito e cruzar o mar Vermelho, significando a saída da mistura inferior em direção à Jerusalém de cima, a Mãe dos viventes.
    • O grande Jordão representa a torrente que corria para baixo estorvando a saída, a qual Jesus fez correr em direção inversa, significando a regeneração superior imortal contra a gênese inferior mortal.
  • Os peratas aplicam a narrativa do Êxodo aos homens espirituais que nascem do Oriente para o Egito, formam—se no mundo e, uma vez iluminados, retornam da terra ao céu.
    • Moisés, embora divino, caiu como simente no Egito e viveu em cativeiro até a vinda de Jesus, o verdadeiro Josué, que fez reverter o curso das águas do Jordão para guiar o retorno à Jerusalém celeste.
    • O Menino Jesus sintetiza essa trajetória ao descer ao Egito para fazer—se homem e retornar à pátria divina como paradigma do homem que se torna deus.

Jesus em Nazaré

  • Os gnósticos utilizam o epíteto o Nazareno e estabelecem a equação mística entre Nazara e a verdade, conforme o Evangelho de Felipe.
    • Jesus o Nazareno simboliza o Salvador vindo do Pleroma, a região da verdade, utilizando a cidade como símbolo de uma região incógnita e desconhecida, não revelada na Lei ou nos Profetas.
    • Os trinta anos de vida oculta em Nazaré simbolizavam os trinta éons do Pleroma, representando o mistério da cidade ignota.
  • A pessoa do Filho se revela em formas variadas de infante, jovem ou ancião, destacando—se a clássica aparição do Logos a Valentim sob a figura de um recém—nascido.
    • O Logos infantil justificava uma revelação humanamente acessível para homens espiritualmente infantes, não se manifestando no esplendor da majestade divina.
    • Irineu confirma esse aspecto ao mencionar que o Verbo de Deus se fez infante com o homem, adaptando—se à pequenez humana.
  • O mestre marcosiano Marcos relata a aparição da Tétrada suma ou Aletheia em figura de mulher, pela impossibilidade de o mundo tolerar a sua glória masculina.
    • Marcos descreve uma doxologia proferida pelas sete potências do Pleroma cujo eco na terra gerou os seres humanos, de modo que o choro e o som emitido pelos recém—nascidos glorificam o Logos em cumprimento ao salmo de David sobre o louvor dos infantes.
  • As epifanias do Logos em idades imaturas baseiam—se na constituição polimorfa do Filho, oposta à simplicidade do Pai, permitindo—lhe revelar—se segundo a capacidade do vidente.
    • Essa paradosis da transfiguração e da revelação conforme a dignidade de cada um era comum a Orígenes e aos gnósticos alexandrinos, distanciando—se da linha de Irineu.
    • Os naassenos invocavam o Evangelho segundo os Egipcios para ilustrar as complexas mutações da alma, que não permanece no mesmo modo ou forma.
  • Os gnósticos aceitavam a realidade evangélica de que Jesus se ateve à economia humana desde a concepção no seio de Maria, mas jamais erigiram em norma que o Salvador devesse passar por todas as idades para santificá—las, contra a tese de Irineu.
  • Os naassenos confirmavam suas teorias sobre a natureza oculta e manifesta com um logion do Evangelho de Tomás, que aponta a busca do mestre entre os párvulos a partir dos sete anos e sua manifestação aos quatorze.
    • Hipólito oferece uma exegese fisiológica baseada em Hipócrates para afirmar que a semente primigênia do universo se manifesta na puberdade aos quatorze anos.
    • Se associada às ideias primordiais dos Oráculos caldaicos, a Ennoia ou semente de Deus se manifestaria apenas na idade crítica da puberdade.
  • Macróbio e Solão atestam a lei psicofísica dos setênios, apontando que aos quatorze anos move—se a força da geração nos homens e a purgação nas mulheres.
    • O logion evangélico denota a revelação do Logos aos espirituais, havendo paralelos sobre o décimo quarto eon de luz nos Livros de Jeú e nos Kephalaia maniqueus.
  • Uma exegese bíblica ligada aos naassenos via nos septenários uma alusão ao serviço de Jacó para possuir Lia aos sete anos e Raquel aos quatorze.
    • Jacó representa o homem espiritual que encontra o Logos na menor, Raquel, que simboliza a Igreja de Cristo, após a insuficiência de Lia, tipo da Sinagoga.
  • A explicação mais provável para o logion de Jesus reside na ausência de concupiscência carnal na idade crítica dos quatorze anos, diferenciando—o de todos os nascidos de mulher.
    • Até os doze ou quatorze anos, as crianças são livres do movimento carnal; a partir da puberdade, os profetas e heróis foram corrompidos pelo fogo do maligno e pelo engano de Afrodite.
    • Jesus permaneceu oculto até a idade crítica e manifestou—se como Verbo livre de concupiscência, vindo a destruir as obras da fêmea.
  • O gnóstico Justino corrobora essa visão no diálogo em que o anjo Baruc instrui Jesus aos doze anos, alertando—o sobre a corrupção dos profetas anteriores.
    • Jesus, o pastor de ovelhas em Nazaré, permanece fiel a Baruc e vence as seduções de Naás, o qual, irado por não conseguir corrompê—lo, promove a sua crucificação.
    • No Pensamento da Magna Dynamis, assinala—se o oposto com o anticristo, que ao atingir a melhor idade recebe o espírito êmulo para operar milagres a serviço dos arcontes.
  • A Pistis Sophia apresenta um relato da Virgem Maria sobre a visita de um Espírito idêntico a Jesus quando este era pequeno e estava com José na vinha.
    • Maria, pensando ser Jesus, interrogou o Espírito que pedia pelo irmão, prendendo—o ao pé da cama por temê—lo como fantasma.
    • Ao avisar José e Jesus na vinha, o Menino alegrou—se e retornou para liberar o Espírito; ambos se abraçaram, beijaram e fundiram—se em uma só coisa.
  • O relato dá forma sensível ao salmo sobre o encontro da graça e da verdade e o beijo da justiça e da paz.
    • A graça e a justiça representam o Espírito vindo do alto pelo primeiro mistério para remissão dos homens; a verdade e a paz representam a virtude saída de Barbelo que se tornou o corpo material de Jesus nascido de Maria.
    • O encontro e o beijo simbolizam a união das dimensões divina e terrena no Salvador, mostrando o Espírito como a dimensão celeste e o filho de Maria como o instrumento material da salvação.
  • A união do Espírito atado à cama com o Jesus da vinha distingue o que a carne do Salvador precisava receber do céu para iniciar o ministério, despida de valor histórico pelo próprio autor da Pistis Sophia.
    • O artifício assemelha—se a exegeses eclesiásticas que identificavam o arcando Gabriel como a forma visível do próprio Logos encarnado.
    • A Pistis Sophia ensina que Gabriel era o Salvador, que falou com Maria sob forma angélica e depois encarnou como virtude derivada de Barbelo e de Sabaot o Bueno.
  • O desenvolvimento de Jesus até o batismo seguiu as leis normais do crescimento humano em tamanho e alimentação, revelando—se em cada etapa conforme exigido.
    • Justino afirma que Cristo nutriu—se de alimentos comuns e permaneceu oculto por trinta anos até a chegada de João Batista.
  • Para Marcion e Apeles, Jesus rejeitou a natividade humana, a educação e a indignidade da carne, apresentando—se adulto e descido do céu de forma súbita.
    • Marcion eliminava de Gálatas 4,4 a menção de que o Cristo foi feito de mulher e sob a Lei, defendendo um espírito e virtude manifestado de golpe.
  • Um anônimo valentiniano da escola itálica utiliza os textos de Lucas para distinguir a pessoa do Salvador das substâncias por Ele assumidas.
    • As afirmações sobre ser a vida, a verdade e um com o Padre referem—se à pessoa do Filho, detentor da gnose imutável.
    • O crescimento do menino e o progresso em sabedoria referem—se às substâncias assumidas, pois o elemento espiritual requer sabedoria para crescer, enquanto o elemento animal cresce em magnitude física.
  • O Filho assumiu as três ousias do universo — espiritual, psíquica e hílica — de modo que cada uma cresceu segundo leis próprias em Cristo.
    • Os docetas de Hipólito dividem o universo em três eons ou logos de Deus, e afirmam que o Salvador cresceu pouco a pouco em magnitude a partir do princípio da gênese até atingir o número perfeito dez.
    • A igualdade em perfeição dos três eons resultou em trinta eons no Pleroma, número que corresponde aos trinta anos de Jesus como homem perfeito.
  • Ao longo da vida oculta, as três substâncias primiciais de Jesus cresceram em paralelo até atingirem a maturidade do número dez antes do batismo.
    • O elemento hílico atuará no eon material, o psíquico no mundo animal e o pneumático no espiritual, ordenando—se o esquema do autogenes triádico comum a naassenos, peratas e basilidianos.
  • Os valentinianos itálicos negavam a ousia hílica em Jesus e explicavam o crescimento do Nazareno a partir da semente de Sofia ou homem espiritual.
    • O Evangelho da Verdade menciona que o espiritual é formado na sua pequenez por meio da gnose, e não pouco a pouco, marcando diferença em relação à semente animal.
    • O valentiniano acomoda Lucas ao aplicar o crescimento em magnitude ao elemento psíquico corporal e o progresso em sabedoria ao pneuma.
  • O incremento quantitativo aplica—se ao corpo sensível de Jesus, dotado pelo demiurgo de propriedades materiais fictícias que cresciam pelas etapas normais da gestação, infância e juventude.
    • Tertuliano defendia que a carne e a alma crescem simultaneamente por regras distintas: a carne em módulo e hábito, a alma em engenho e sentido, sem que a substância da alma mude quantitativamente.
  • O alma racional recebe aumentos inteligíveis por meio da erudição e dos exercícios que despertam a capacidade do intelecto, conforme Orígenes.
    • A mente não pode receber essa disciplina na natividade devido à imprecisão dos membros corporais que funcionam como seus órgãos de exercício.
  • Nemésio e Orígenes asseveram que o alma se nutre de ensinamentos incorpóreos e os anjos se alimentam da sabedoria de Deus.
    • Os valentinianos estendiam o progresso do homem espiritual ao saber prático, citando Matias sobre o dever de dar incremento ao alma mediante a fé e a gnose.
  • O elemento espiritual de Jesus necessitava da assistência contínua de sua mãe Sophia para dispor—se à gnose, não por via racional ou por gnose perfeita.
    • O influxo pneumático de Sophia manifestou—se nas respostas de Jesus aos doze anos no templo e na pergunta sobre a letra alfa ao mestre de escola, imitando as inspirações do Antigo Testamento.
  • Os ofitas de Irineu esclarecem que Sophia adaptou previamente a Jesus a fim de que o Cristo superior encontrasse nele um vaso limpo ao descer no Jordão.
    • O corpo de Jesus ex Maria trazia a imperfeição física própria da matéria mundial; a intervenção de Sophia purificou o elemento espiritual de limites físicos para torná—lo receptáculo digno do Espírito de Deus.
    • A adaptação também habilitava a alma de Jesus para que a Primeira Fêmea fosse anunciada por Cristo por meio das primícias de seu filho Jaldabaot.
  • O Evangelho de Felipe vincula o incremento espiritual ao espírito da caridade, dentro dos quatro elementos do cultivo divino: fé, esperança, caridade e gnose.
    • A fé é a terra, a esperança é a água, a caridade é o vento pelo qual se cresce e a gnose é a luz da madurez final.
  • Os indivíduos espirituais dependem da mãe Sophia antes de receberem a iluminação de Deus, purificando—se das contaminações terrestres através de jejuns e penitências que preparam o batismo.
    • Por meio da gnose cessa toda educação e progresso, unificando os pneumáticos sob a forma do Filho.
  • Teódoto afirma que o próprio Jesus teve necessidade de redenção para não ser retido pela Sophia do Hysterema em que fora colocado, abrindo caminho através dela.
    • A exegese aplica—se ao impulso do Cristo superior ao abandonar sua mãe Sophia para adentrar—se no Pleroma.
  • Sophia permanece vinculada ao Hysterema como Sabedoria do universo para fundar a Igreja terrena, enquanto Cristo atua na mediação e deve olhar exclusivamente ao Pai.
    • Ao nascer como primogênito de Sophia, o Salvador livra—se dos preliminares da demiurgia mundana; o imperfeito fica com a mãe e o perfeito com o Filho.
  • O Filho de Deus progrediu através de Sophia para penetrar no Pleroma e redimir—se da dispersão do Hysterema, assim como o Salvador homem progrediu através da Sabedoria para dispor—se ao batismo do Jordão.
    • O versículo de Lucas sobre o progresso de Jesus alude ao mito do Cristo superior que viaja da mãe Sophia ao Pai, separando o elemento masculino que olha a Deus do elemento feminino voltado à dispersão cósmica.
    • Os anos de Nazaré dão corpo ao Hysterema onde atua Sophia, e o Jordão assinala o ingresso no reino da luz e da gnose pura.

Conclusão

  • Os gnósticos utilizam muito pouco as narrativas da infância e juventude de Jesus, concentrando—se no advento da mensagem celeste e nos mistérios da vida pública.
    • Apenas o mistério da encarnação recebeu estudo detalhado, restando aos críticos colher alusões dispersas para recuperar a doutrina subjacente às ráfagas de história.
  • Os basilidianos fixaram as datas do nascimento, batismo e paixão, mas as circunstâncias de Belém permanecem vagas ou restritas à natureza e residência dos anjos anunciadores.
  • O mistério da circuncisão revelou—se rico em doutrina, abrangendo desde tratados sobre o destino do prepúcio de Jesus até conexões com mitos pagãos de Átis, Saturno e Júpiter sobre a secessão de Eva.
  • A apresentação aos quarenta dias relaciona—se ao paraíso de Adã como imagem de uma economia superior à de Iavé, somando—se o papel de Simeão como o demiurgo e de Ana como Sophia Achamot.
    • As palavras de Simeão indicam a comunhão pacífica dos dois Testamentos; o criador aceita o termo de sua dispensação e cede o posto ao Evangelho de Jesus.
  • A vida oculta em Nazaré simbolizava a região da verdade pleromática onde o Salvador passou seus anos entre os trinta éons.
    • As histórias do Menino na escola desqualificam a falsa ciência de Moisés e ensinam o Evangelho do Deus sumo por meio da letra alfa.
    • A visita de Baruc a Jesus aos doze anos manifesta a dignidade do Filho de Deus imune às misérias carnais, preparando—o para o Jordão.
  • As palavras de Jesus na infância atestam a consciência de sua filiação única antes do batismo, agindo Sophia por sua boca através de inspirações temporárias.
    • Os trinta anos de vida privada encontram paralelo nos trinta séculos do Verbo no seio do Pai, importando apenas a mensagem de saúde enviada pelo Deus ignoto.
    • Jesus, como mediador, não orienta a atividade para si ou para os éons que o constituem, mas sim para o conhecimento pleno de Deus Pai.
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