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Evangelho de Judas

Madeleine Scopello. Les évangiles Apocryphes - Nouvelle édition Revue et Augmentée. 1st ed ed. Québec: Presses de la Renaissance, 2017.

  • O Evangelho de Judas é um texto altamente provocador que, na ficção literária, faz de Judas o confidente de Jesus e depositário dos mistérios celestes, com intenção polêmica em relação à Igreja dominante que, com base nos evangelhos canônicos, havia feito de Judas a personificação do traidor — embora ao final do tratado ele ainda traia Jesus em troca de dinheiro.

A história do manuscrito

  • Em março de 2006, os meios de comunicação deram grande destaque a um apócrifo copta em papiro intitulado Evangelho de Judas, publicado pela National Geographic Society em seu site com transcrição e tradução, apesar de ter sido descoberto no Médio Egito nos anos 1970 e permanecido inacessível aos pesquisadores.
    • O códice passou por uma história rocambolesca entre vários compradores, sofrendo danos gravíssimos que o tornaram quase ilegível
    • Possui sessenta e seis folhas, e a análise por carbono 14 situa sua datação no século IV — período de confecção dos códices de Nag Hammadi e dos de Londres, Oxford e Berlim
    • Os quatro escritos que formam o Códice Tchacos — Carta de Pedro a Filipe, Tiago, Evangelho de Judas e O Estrangeiro — são traduções coptas de escritos gregos dos séculos II e III
    • Foi graças à última compradora, Frida Tchacos, que o códice pôde ser confiado aos coptólogos R. Kasser, M. Meyer e G. Wurst, aos quais se juntou Florence Darbre, para sua difícil restauração
    • Em maio de 2006, R. Kasser, M. Meyer, G. Wurst e B. D. Ehrmann publicaram nas edições da National Geographic, em Washington, a obra The Gospel of Judas, com introdução, tradução e notas de comentário
    • Irineu de Lião, em Contra as Heresias (I, 31, 1), redigido por volta de 180, deplora a existência de um “evangelho de Judas” lido em um grupo “cainita” — gnósticos que tinham Caim em alta estima por sua oposição ao deus bíblico

Um quadro narrativo

  • Ao contrário da maioria dos evangelhos gnósticos, o Evangelho de Judas possui um quadro narrativo — à semelhança do Evangelho de Maria —, relatando um diálogo ocorrido entre Cristo e seus discípulos na Judeia, três dias após a celebração da Páscoa, prolongando-se por uma semana.
    • O diálogo é composto de perguntas breves dos discípulos ou de Judas individualmente, e de respostas explicativas de Jesus apresentadas como revelações da doutrina gnóstica setiana
    • O gênero do diálogo é atestado na literatura gnóstica também fora dos textos intitulados “evangelho” — na Sabedoria de Jesus Cristo, no Diálogo do Salvador (Nag Hammadi, códice III) e em textos intitulados “apocalipse”, como as duas Apocalipses de Tiago e a Apocalipse de Paulo (Nag Hammadi, códice V)
    • Nos diálogos gnósticos, um discípulo sempre se distingue dos outros por compreender melhor as palavras do Senhor — é o caso de Judas, cujas primeiras palavras a Jesus revelam que ele apreendeu a verdadeira natureza do Mestre: “Sei quem és e de onde vieste. Provens do reino imortal de Barbelo. E não sou digno de pronunciar o Nome dAquele que te enviou” — Evangelho de Judas 35:14-21
    • Jesus responde: “Afasta-te dos outros e te direi os mistérios do Reino, não para que vás a esse lugar — o mundo superior —, mas para que tua sofrimento se torne grande” — Evangelho de Judas 35:23-27
    • Em relação a Judas, os outros apóstolos são lentos na compreensão, ainda ligados às práticas religiosas do deus bíblico, e convictos de que Jesus é filho do criador — e não do Deus transcendente
    • A ignorância dos discípulos é um dos grandes temas do tratado, já presente no Evangelho de Marcos
  • Vendo os discípulos renderem graças sobre o pão, Jesus ri, sinalizando que pela eucaristia que celebram adoram não o Deus transcendente, mas o criador maligno.
    • Os apóstolos narram a Jesus uma terrível visão noturna — Evangelho de Judas 37:20-39, 5 — na qual doze sacerdotes realizam oferendas e sacrifícios ímpios diante de um altar, sacrificando filhos, mulheres e entregando-se a práticas ilícitas, pronunciando o nome de Jesus diante do altar
    • Jesus interpreta a visão: os doze sacerdotes são os apóstolos, os animais sacrificados são as pessoas que conduziram ao erro, e eles maculam o nome de Jesus ao render graças ao criador do mundo — Evangelho de Judas 39:6-40, 26
    • Trata-se de uma violenta polêmica contra o valor do sacrifício apreciado pela Igreja dominante — o Jesus dos gnósticos não veio expiar os pecados do mundo, mas trazer o conhecimento
  • Judas apresenta a Jesus a visão que teve, na qual contempla uma casa celeste de grandeza incomensurável rodeada de grandes personagens, pedindo ao Mestre que o conduza até elas.
    • “Judas lhe disse: Na visão, vi os doze discípulos que me apedrejavam e me perseguiam severamente. Depois me dirigi ao lugar onde […] após ti. Vi uma casa e meus olhos não podiam apreender sua grandeza. E grandes pessoas a rodeavam […]. Ele disse: Mestre, conduz-me até essas pessoas. Jesus respondeu e disse: Tua estrela te conduziu ao erro. Nenhum homem de nascimento mortal é digno de entrar na casa que viste, pois esse lugar é reservado aos santos; nem o sol nem a lua reinam lá, nem o dia, mas a santidade permanecerá sempre no eon com os santos anjos. Olha, expliquei-te os mistérios do Reino” — Evangelho de Judas 44:24-45, 26
    • A casa de dimensão extraordinária que Judas vê é uma alusão ao templo celeste, ao palácio onde reside o Deus transcendente — tema sobre o qual a mística judaica da literatura da Merkabah e dos Hekhaloth especulou
    • Os “homens muito grandes” que rodeiam a casa são anjos de estatura descomunal — forma de nomear anjos presente em documentos judaicos como o Testamento de Abraão V, o romance de José e Asenete e 2 Enoque 1
    • A expressão “anjos santos” ou “anjos de santidade” é típica da literatura de Qumran, do Livro dos Jubileus e do 1 Enoque
    • A recusa de Jesus é categórica: Judas permanecerá fora do Templo do alto, será maldito e reinará sobre as gerações mundanas, sem ascender à geração santa — Evangelho de Judas 46:18-47, 1

O conteúdo gnóstico do Evangelho de Judas

  • A teologia do Evangelho de Judas é construída sobre a oposição entre o Deus transcendente e perfeito — chamado Grande Espírito Invisível — e um demiurgo responsável por uma criação defeituosa, realizada por imitação mal-sucedida do mundo divino.
    • Em posição de subordinação ao Grande Espírito Invisível encontra-se o Autoengendrado, por meio do qual vêm à existência luminares, eons e miríades de anjos a serviço do divino
    • Adamas — figura primordial do que será o Adão terrestre — se manifesta, seguido de Seth, protótipo do que possui o conhecimento
    • O cosmos foi criado por uma entidade chamada El, que convoca doze anjos para reinar sobre o caos; entre eles se destaca Nebro — “rebelde com um rosto de fogo e sangue” —, chamado também Yaldabaoth; Saklas também aparece, acompanhado por acólitos que, embora nomeados anjos, são na verdade demônios
    • O nome El é uma referência polêmica evidente ao deus da Bíblia
    • Eva e Adão vêm à existência acorrentados à vida e às gerações; o Deus transcendente, porém, transmitiu a Adão e seus descendentes o conhecimento para que “os deuses do caos e do mundo subterrâneo não tivessem poder sobre ele”
  • Ao descrever o momento em que advirá a geração eterna, Jesus ordena a Judas que contemple uma nuvem luminosa rodeada de estrelas, indicando que a estrela-guia é a de Judas — que se apressa a entrar na nuvem, a qual pertence não à esfera celeste, mas ao âmbito planetário dos maus governantes do universo.
    • Judas permanece, como na tradição cristã oficial, o símbolo do apóstolo maldito, mesmo tendo recebido revelações de Jesus
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