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Gnosis e Cultura
QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica, judaica, catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.
- Etimologia e Definição Histórica de Gnose
- A derivação do termo grego Gnosis a partir da raiz indo-europeia gno, significando conhecimento, e sua utilização na Antiguidade Tardia para designar uma apreensão intuitiva de mistérios ocultos, em oposição ao conhecimento discursivo e analítico.
- O uso original de gnostikos como adjetivo na era clássica e sua transformação em substantivo por uma escola de judeus rebeldes em Alexandria no início da era cristã, que se autodenominavam conhecedores.
- A cristianização superficial destas visões judaicas em escritos como o Apócrifo de João, venerando o Deus Desconhecido além de deus e relacionando o eu humano a este Fundamento do Ser.
- A persistência contemporânea destas visões entre os Mandeus no Irã e Iraque, cujo nome significa Gnósticos.
- A Problemática da Terminologia Moderna
- A invenção moderna do termo Gnosticismo para agrupar correntes heterogêneas não católicas da Antiguidade, como o cristianismo judaico e o encratismo, gerando confusão conceitual.
- A necessidade de limitar a designação às escolas e religiões ostensivamente dependentes do mito do Apócrifo de João, nomeadamente os Valentinianos, os seguidores de Basilides e os Marcionitas.
- A universalidade do fenômeno gnóstico para além do cristianismo, incluindo as origens do cabalismo judaico na judiaria heterodoxa de Alexandria e a gnose islâmica dos Ismaelitas no sul do Iraque.
- A refutação da tese de Hans Jonas sobre o desprezo excessivo do mundo; a desvalorização da matéria era comum a platonistas e católicos, enquanto a maioria dos gnósticos via o mundo como uma catarse para o espírito, visando tornar consciente o eu inconsciente.
- O Maniqueísmo e a Gnose Medieval
- O Maniqueísmo como realização e cumprimento do Gnosticismo, originado na comunidade judaico-cristã dos Elkesaites na Mesopotâmia, onde Mani rejeitou a monolatria do bem e do mal em favor de um dualismo radical revelado por seu Gêmeo ou Espírito Santo.
- Citação da revelação do Gêmeo a Mani: Eu o reconheci, que ele era o meu Eu do qual eu havia sido separado.
- A sobrevivência da Gnose na Idade Média através dos Cátaros ou Albigenses, uma contra-igreja fundada em 1167, cujas ideias derivavam dos Bogomilos, Paulicianos e Barbeliotas.
- A distinção entre os Messalianos (carismáticos da Mesopotâmia) e os Paulicianos (gnósticos belicosos da Armênia); a fusão destas correntes no Bogomilismo e sua transmissão ao Catarismo.
- A crença Cátara de que o criador deste mundo, Satanael, usurpou o nome de Deus, ecoando a argumentação dos escritos de Nag Hammadi sobre o demiurgo ignorante.
- Citação de Joseph Campbell sobre esta visão: O problema com Jeová é que ele pensa que é Deus.
- A Gnose como Terceiro Componente da Cultura Europeia
- A identificação da Gnose como o terceiro pilar da cultura ocidental, ao lado da fé (Jerusalém) e do racionalismo (Atenas), caracterizada pela experiência interior e pensamento imaginativo.
- O ressurgimento espontâneo da Gnose na era moderna com Jacob Boehme em 1600, cuja visão da união dos opostos influenciou William Blake, Isaac Newton e o transcendentalismo americano.
- O impacto da obra de Gottfried Arnold, A História Imparcial da Igreja e dos Hereges (1699), que reabilitou os hereges como verdadeiros cristãos e influenciou profundamente Johann Wolfgang von Goethe através dos círculos pietistas.
- A Dimensão Gnóstica na Obra de Goethe
- A estruturação do Fausto de Goethe segundo um sistema gnóstico de processão e retorno: início no céu, desenvolvimento na terra e reintegração final no céu.
- A salvação de Fausto não como ato de graça externa, mas como um processo de necessidade inerente à sua natureza espiritual.
- Citação sobre a salvação de Fausto: Salvo do mal está o nobre membro do mundo espiritual.
- A concepção do Eterno Feminino e da Mãe como máscara de Deus, inspirada na Sophia de Boehme e Arnold.
- Citação final do poema: O eterno feminino nos eleva a si mesmo.
- Crítica às Interpretações Contemporâneas da Gnose
- A refutação das teses de Denis de Rougemont em L'amour et l'Occident, que culpava os Cátaros pela veneração do adultério na literatura ocidental; inexistência de provas ligando os trovadores ou o romance medieval ao catarismo.
- A crítica à interpretação política de Erik Vögelin, que associava a essência da gnose à destruição do mundo e ao assassinato de Deus, ligando-a a movimentos totalitários modernos.
- A constatação de que o Gnosticismo histórico, ao contrário do milenarismo, era apolítico e não violento, buscando a descoberta do eu inconsciente e não a destruição da realidade.
- A correção das visões de Emmanuel Le Roy Ladurie em Montaillou, que ignorava a natureza da gnose como filosofia perene e contra-igreja, erroneamente associando o Catarismo à Reforma Protestante ou a influências maniqueístas diretas (impossíveis cronologicamente).
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