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Basilides

QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica , judaica , catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.

NOTA SOBRE “BASILIDES”

Uma epístola proveniente da escola valentiniana ensina: “…… quando no princípio o Autopator (= Deus) continha em si mesmo todas as coisas, que estavam nele em estado de inconsciência (en agnosiā) etc.” (Epifânio, Panarion 31,5, p. 390 Holl).

Parece que se reencontra uma concepção semelhante em Marcos o Gnóstico: “Quando no princípio o Pai……que é desprovido de consciência (anennoetos) e de substância, aquele que não é nem masculino nem feminino, quis etc.” (Hipólito, Refutatio VI, 42,4, p. 174 Wendland).

É possível que a famosa descrição de Deus antes da criação do mundo, que seria da mão de Basilides, não seja senão uma amplificação da mesma ideia de Deus.

O autor diz:

Ora, quando não existia nada, nem matéria, nem substância, nem o que é desprovido de substância, nem o que é simples, nem o que é composto, nem o que é perceptível (aistheton segundo a conjectura de Jacobi), nem o que é imperceptível, nem homem, nem anjo, nem deus, nem em geral nada do que pode ser nomeado ou apreendido pelos sentidos ou ser compreendido pela inteligência, mas quando todas as coisas estavam assim e de um modo ainda mais sutil simplesmente designadas (perigegrammenon), o Deus não existente……quis criar o mundo anoetos, anaisthetos, sem vontade, sem intenção, sem paixão (Hipólito, Refutatio VII, 21, p. 196 Wendland).

Ora, é muito notável que o autor do nono tratado hermético combata a opinião daqueles que por um excesso de reverência supõem que Deus é anais-thetos e anoetos (Corpus Hermeticum IX, 9, p. 100, 1. 3 e 4 Nock). Poder-se-ia traduzir essas duas palavras por “inconsciente”, porque aisthesis tem os dois sentidos de percepção sensível e de percepção intelectual e equivale ao termo geral de “consciência” (ver a nota 4 na p. 34 do comentário admirável do Padre Festugière sobre os escritos herméticos). É portanto possível que “Basilides” tenha querido dizer que Deus criou o mundo inconscientemente e que tenha suposto, do mesmo modo que o escritor da epístola valentiniana, que antes da criação do mundo todas as coisas repousavam em Deus em estado de inconsciência. Se essa interpretação é correta, ela nos ajudará talvez a explicar uma passagem bastante obscura do mesmo “Basilides”. Quando esse autor descreveu como as duas naturezas espirituais se separaram do caos primitivo, produzido por Deus, e se lançaram para o alto, declara: speudei gar… panta katothen ano, apo ton cheironon epi ta kreittona; ouden de outos anoeton esti ton tois kreittosin, hina me katelthe kato (Hipólito, Refutatio VII, 22, p. 200 Wendland). Quis-se corrigir esse texto. Bunsen propõe: akineton em lugar de anoeton, Wendland prefere: akinonetos. Não se poderia, remetendo ao que precede, conservar o texto transmitido e traduzir simplesmente: “Pois todas as coisas se apressam de baixo para cima, do mundo inferior para o mundo superior. E nenhuma das coisas no mundo superior é de tal modo inconsciente (em Deus) que não tenha descido para baixo?”. Admite-se que se poderia traduzir também: “E nenhuma das coisas no mundo superior está a tal ponto além da consciência (humana) que não tenha descido para baixo.” Mas as coisas espirituais não sendo inconhecíveis segundo os basilidianos, que creem ter recebido a gnosis ton hyperkosmion, (Hipólito, Refutatio VII, 27, p. 207 1. 5 Wendland), hesitar-se-ia em aceitar essa explicação.

NOTA ADICIONAL

Em 1948 escreveu-se este breve artigo em nossa revista Vigiliae Christianae e submeteu-se um separata dele ao Dr Carl Gustav Jung. Em consequência, ele publicou o único ensaio sobre Gnosticismo que jamais escreveu: “Gnostic Symbols of the Self,” Collected Works 9, 287–346, reimpresso em Robert A. Segal, The Gnostic Jung, Princeton 1992. Nesse estudo Jung cita a passagem do valentiniano Marcos o Mago de que Deus é inconsciente (anennoetos) e afirma que essa divindade simboliza o inconsciente em seu estado primordial, indiferenciado; o demiurgo inferior simboliza o ego, que pensa que não há nada além dele; o Anthropos, identificado com Cristo, é um símbolo do Self. Jung apressa-se em admitir que essas imagens sempre em todas as religiões expressaram o Fundamento Universal do Ser, a própria Divindade, sobre a qual, no entanto, a psicologia não pode afirmar nada. O físico teórico Wolfgang Pauli retomou a palavra grega e identificou o conceito subjacente com a Vontade inconsciente de Schopenhauer. Para Pauli essa era uma imagem adequada de Deus.

Recentemente, Winrich A. Löhr, Basilides und seine Schule, Tübingen 1996, negou que Hipólito transmita a doutrina autêntica de Basilides (130 Alexandria), cujos fragmentos provam que ele era um pensador talentoso (“Não sendo Deus produziu não sendo mundo a partir do nada”, Hipólito). É, no entanto, implausível que um discípulo anônimo tenha pensado uma ideia tão brilhante.

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