Catarismo
Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.
A relação entre o catarismo medieval e o bogomilismo balcânico é analisada a partir de novas descobertas documentais, buscando estabelecer a realidade dos contatos entre os dois movimentos e o papel do bogomilismo na formação do catarismo ocidental.
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O objetivo do estudo é determinar até que ponto as relações entre o catarismo e o bogomilismo permitem explicar a formação do primeiro pela ação do segundo, indicando questões ainda em aberto.
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Apesar das diversas teorias sobre a origem do catarismo (como sobrevivência do maniqueísmo, derivação do priscilianismo ou cristianismo arcaico), a hipótese de sua relação com o bogomilismo não é nova.
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Trabalhos recentes, como os de A. Dondaine, A. Borst e D. Obolensky, fornecem novos documentos e fatos que enriquecem o conhecimento e renovam as concepções tradicionais sobre o problema.
Evidências históricas e documentais das relações entre catarismo e bogomilismo
A possibilidade de relações entre o catarismo ocidental e o bogomilismo balcânico é historicamente viável, dada a existência de comunidades paulicianas na Bulgária e os incessantes contatos comerciais e militares entre o Oriente e o Ocidente.
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O bogomilismo surgiu na Bulgária em meados do século X, sob o reinado do imperador Pedro (927-969), sendo pregado pelo pop Bogomil, em um contexto de agitação social e anticlericalismo.
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Já existiam comunidades paulicianas na Bulgária desde o século VII, com intensa atividade missionária, o que torna plausível a influência destas sobre os primeiros bogomilos.
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A carta de Everwin de Steinfeld (c. 1143) já mencionava hereges em Colônia que diziam que sua heresia se mantivera oculta desde os tempos dos mártires, permanecendo na Grécia e em outras terras.
O nome “catharos”, de origem grega, aparece aplicado a hereges renanos entre 1152 e 1156, e novos documentos como o Tractatus de hereticis e o De heresi catharorum in Lombardia, descobertos por A. Dondaine, fornecem provas concretas da transmissão da heresia.
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O Tractatus de hereticis narra que franceses (francigenae) foram a Constantinopla em 1147, durante a Segunda Cruzada, e ali adotaram a seita dos bogomilos, constituindo um “bispo dos Latinos”.
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De volta à França, esses cruzados do norte da França pregaram e constituíram um bispo para a França, sendo a heresia chamada de “bulgares” em toda a França.
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Os hereges do Midi (provinciales) teriam sido contaminados pelos franceses do norte, constituindo os quatro bispados de Carcassonne, Albi, Toulouse e Agen.
A história posterior do catarismo languedociano e italiano está em estreita dependência com influências vindas da Europa Oriental, como demonstram a missão do pope Nikétas (Papaniquinta) e os Atos do concílio de Saint-Félix de Caraman.
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O pope Nikétas, bispo dos hereges de Constantinopla, veio à Lombardia e a Saint-Félix, perto de Toulouse, onde converteu Marco, coveiro de Cologna, ao dualismo radical.
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Toda a história do catarismo é marcada pela intervenção prestigiosa e preponderante da heresia bogomila, tanto na edificação quanto nas crises das igrejas ocidentais.
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Os grupos cátaros da Itália e do Sul da França mantinham relações com as comunidades balcânicas, especialmente com as Ecclesias Bulgariae e Drugunthiae, de onde tiravam sua origem.
Evidências internas: comparação doutrinária e práticas comuns
A comparação entre as doutrinas, práticas e atitudes religiosas do bogomilismo e do catarismo revela analogias impressionantes e elementos singulares que são comuns exclusivamente a esses dois movimentos.
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Ambos compartilham o dualismo em geral, atribuindo as coisas espirituais ao Deus Bom e as materiais a Satanás, além de rejeitar o casamento, a procriação, os alimentos de origem animal, o culto à cruz e às imagens.
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O uso dos mesmos apócrifos, como a Interrogatio Iohannis (o segredo trazido da Bulgária por Nazário, bispo de Concorezzo), a Visão de Isaías e o Livro dos Segredos de Enoque, é uma prova da dependência.
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O raciocínio idêntico para rejeitar o culto à cruz, comparando-a a uma forca onde um pai teria sido enforcado, e os mesmos dias reservados para o jejum (segunda, quarta e sexta-feira) são traços comuns.
A cronologia do bogomilismo e a questão das origens do catarismo
A objeção cronológica de que o bogomilismo seria posterior à primeira aparição do catarismo no Ocidente é invalidada por novos documentos que recuam a data de nascimento do bogomilismo para meados do século X.
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O Slovo do padre Cosmas (após 972) e o Sínodo do imperador Boril (1211) atestam que a heresia de Bogomil começou a ser pregada sob o imperador Pedro (927-969).
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A data de nascimento do bogomilismo (meados do século X) é anterior à aparição dos primeiros traços de heresias no Ocidente, permitindo que sua influência tenha se exercido a partir de então.
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A grande expansão do bogomilismo para o Ocidente ocorreu entre 1140 e 1180, coincidindo com a Segunda Cruzada (1147-1149) e com o surgimento dos primeiros grupos claramente identificáveis como cátaros.
A análise leva à conclusão de que o bogomilismo conferiu ao catarismo sua armadura, estrutura e forma, constituindo-o como tal, de modo que o catarismo stricto sensu só existe a partir dessa influência.
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A ação do bogomilismo não criou o catarismo do nada, mas renovou e metamorfoseou movimentos heterodoxos preexistentes no Ocidente, que buscavam um cristianismo puramente evangélico e ascético.
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As diferenças entre catarismo e bogomilismo são explicadas pelas distintas mentalidades religiosas do Ocidente e pela adaptação da mensagem bogomila às aspirações primitivas ocidentais.
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O drama interior e as variações das igrejas cátaras explicam-se pela disconveniência entre os elementos heterogêneos (dualismo bogomilo e cristianismo evangélico) que suas sínteses doutrinais esforçavam-se por combinar.
Conclusões sobre a origem do catarismo e questões em aberto
A posição adotada é que os movimentos heréticos do Ocidente nos séculos XI e início do XII não eram dualistas ou propriamente dogmáticos, mas sim seitas de tipo ascético e espiritual, de inspiração principalmente evangélica.
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Os textos da primeira metade do século XI invocados para provar a influência bogomila não apresentam traços característicos ou específicos o suficiente, como o dualismo de princípios, que só aparece claramente após 1150.
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A imposição das mãos, citada nesses textos, é um rito de emprego muito geral e não pode ser identificada com o consolamentum cátaro sem mais provas.
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O catarismo medieval resulta, a partir de uma data bem determinada (meados do século XII), da “assunção” pelo bogomilismo das esboços de heresia que o século XI oferece.
Diversas questões permanecem em suspenso, como a relação do catarismo com o paulicianismo e com o maniqueísmo autêntico, ou a possibilidade de sua filiação a um gnosticismo antigo.
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O problema das origens do catarismo parece remeter ao problema da genealogia do bogomilismo, sem que se possa afirmar que o primeiro se confunde totalmente com o segundo.
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Ainda é difícil decidir se o dualismo da Igreja da Bósnia era mitigado ou radical, embora sua introdução pareça datar de meados do século XII.
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A investigação futura deverá se concentrar na crítica sistemática dos testemunhos sobre os pretensos maniqueus da Alta Idade Média, atenta às fontes literárias e aos processos da antiga heresiologia.
