LOGION 99
EVANGELHO DE TOMÉ — Logion 98 ⇔ Logion 100
Os discípulos lhe disseram: Teus irmãos e tua mãe estão fora. Ele lhe disse: Os que estão aqui, cumprem a vontade de meu Pai; estes são meus irmãos e minha mãe. Eles são os que entrarão no Reino de meu Pai. (Roberto Pla)
Disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e procuram falar contigo. Ele, porém, respondeu ao que lhe falava: Quem é minha mãe? e quem são meus irmãos? E, estendendo a mão para os seus discípulos disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Pois qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe. (Mt 12,47-50)
E a multidão estava sentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te procuram. Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos! E olhando em redor para os que estavam sentados à roda de si, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe. (Mc 3,32-35)
Foi-lhe dito: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora, e querem ver-te. Ele, porém, lhes respondeu: Minha mãe e meus irmãos são estes que ouvem a palavra de Deus e a observam. (Lc 8,20-21)
Roberto Pla
O mais significativo do logion é que esses irmãos e essa mãe, que para efeitos exortativos, são mencionados, “estão fora”, ao invés de “estar aqui”, juntos com os que cumprem a vontade do Pai.
A diferença entre “estar fora” ou “estar aqui” é muito importante, porquanto “estar aqui”, significa que o Cristo interior, oculto, foi percebido, descoberto, pela consciência e que, portanto, sua presença de recém nascido, aqui, em si mesmo, começou a progredir em sabedoria, em estatura e em graça de Deus. Este é o cumprimento da vontade do Pai.
E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens. (Lc 2,52)
Tudo isto significa que há quem chega a receber a “presença” de Cristo oculto em si mesmo — aqui — pois quando vem a fé difunde a bem-aventurança sobre aquele que é capaz de crer sem ver. Logo, por uma ação comum de ressonância “em espírito”, é possível respirar o aroma de Cristo oculto interior, — no “aqui” — de todos os seres, pois odor de Cristo somos que da vida leva à vida.
A contemplação da “presença” no “aqui” do mundo é o primeiro passo importante da vida religiosa segundo a exegese oculta, pois equivale a contemplar a essência do deus único, do que se disse “que Ele é único e que não há outro fora dele”. E se Deus não tem fora, que mãe e que irmãos são esses que se apresentam de fora?
Ao que lhe disse o escriba: Muito bem, Mestre; com verdade disseste que ele é um, e fora dele não há outro; (Mc 12,32)
Segundo o Evangelho de Lucas, os que “estejam fora” devem bater à porta, pois o Cristo assegura: “Ao que venha a mim não fecharei a porta. E adiciona: Se alguém não permanecer em mim, é jogado fora, como o sarmento”.
Quando o dono da casa se tiver levantado e cerrado a porta, e vós começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos; e ele vos responder: Não sei donde vós sois; (Lc 13,25)
Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. (Jo 6,37)
Quem é deixado fora é o Príncipe deste mundo, e permanecer fora, atado, sem liberdade, junto à porta, como aquele jumentinho que mandou buscar Jesus o Vivente, para entrar em Jerusalém montado nele, como se fosse seu corpo (vide Domingo de Ramos).
Quem não permanece em mim é lançado fora, como a vara, e seca; tais varas são recolhidas, lançadas no fogo e queimadas. (Jo 15,6)
É certo que nem o Príncipe deste mundo, nem o jumentinho junto a porta, vão a Cristo; mas a mãe e os irmãos de Jesus vão a Cristo, só que se apresentam fora, à porta. Isto explica que há uns que buscam a Cristo fora, segundo a ordem manifesta, e há outros que buscam respirar sua presença “aqui”, segundo a doutrina oculta.
Disso é do que fala Jesus no logion. Não é só que há uns laços de parentesco carnal que Jesus pospõe aos de parentesco espiritual, o qual é uma verdade tímida, insuficiente. Quando Jesus diz, segundo o texto de Lucas, que se alguém pretende ir a ele, deve “odiar” a seu pai, a sua mãe, a sua mulher, a seus filhos, a seus irmãos, a sua mãe e até sua própria alma (Odiar tua alma), o que menciona é um fato universal bem notório pelo qual muitos hão de passar.
Para quem percebe o aroma de Cristo e o respira como o “aqui” de todos os seres, resulta que todos eles, os irmãos, a mãe, etc…, são “amados”, não pelo que eles parecem ser por fora, senão pelo Cristo interior, oculto, cuja presença é percebida por eles.
Então advém um “desapego”, pelo qual há que passar, e que o evangelho denomina figuradamente “ódio”, para com todas as envolturas que impedem a contemplação direta do “aqui” de todos, e não é “ódio”, pois não caberia, senão um saber olhar como ao transluz, para ver somente através da opacidade das vestimentas a luz de quem disse: “Eu sou a luz”.
Sem dúvida, há uma alegria intensa “sempre”, quando se contempla a “presença” e ao portador da “presença” de Cristo oculto no interior dos seres, de todos os seres; de onde todos eles são em definitivo, irmãos, mães, etc …, parentesco “em espírito”, ainda que estejam “em carne”; mas uns levam ao Cristo adormecido, sepultado no sepulcro caiado, e outros o ressuscitaram como um Cristo novo.
Quando o aroma do Cristo vivo é percebido em alguém que está “aqui”, esse é teu irmão, tua mãe e tu mesmo, com plenitude de alegria.
Puech
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Assim como Jesus é qualificado de “Vivente” ou “Vivo” (copto etoneh), os Espirituais — tidos como seus “irmãos” — são “Viventes”, do Deus Vivente (pshere empetoneh), atribuído a Jesus no Evangelho de Tomé - Logion 36-37, aplica-se aos mesmos Espirituais.
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Convém lembrar o que é a qualificação de “irmão” de Jesus e “Vivente (Logion 11, Logion 52 e Logion 59) ou de “Pai que é o Vivo” (Logion 3, Logion 50, Logion 37), de “Vivente originário do Vivente” (Logion 111), o “Eleito” — este personagem de exceção que é o Espiritual, o “gnóstico” que se “achou”, conheceu ele mesmo e se identificou ao monachos, àquele que “de dois fez um”, superou toda dualidade para restabelecer nele a unidade, se tornando “Filho do Homem” (shere emprome), quer dizer partilhando com Jesus um título e uma condição cujo privilégio é reservado à Jesus.
Leloup
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Variante em Leloup:
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“Teus irmãos e tua mãe encontram-se fora…
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De novo, Jesus relativiza as ligações de parentesco e de família. As ligações carnais não são suficientes. Elas se encontram fora do Reino.
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É preciso o acordo das inteligências e a orientação comum do coração em direção ao essencial e ao Único Necessário…
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No reconhecimento de nossa filiação compartilhada que nos tornamos irmãos…
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O que torna possível a fraternidade, é o Pai…
Gillabert
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Variação: “Aqueles que nestes lugares fazem a vontade de meu Pai…”
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Jesus não é o personagem que os discípulos creem ver e ele os recorda. Só sua palavra exprime sua identidade real (Logion 43)
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Seu aspecto não é sua realidade. Gnóstico por excelência, não é identificado a seu corpo nem a seu mental. Isto é difícil compreender para os que o cercam…
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Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Mas, sabendo Jesus em si mesmo que murmuravam disto os seus discípulos, disse-lhes: Isto vos escandaliza? Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. Mas há alguns de vós que não creem. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar. E continuou: Por isso vos disse que ninguém pode vir a mim, se pelo Pai lhe não for concedido. Por causa disso muitos dos seus discípulos voltaram para trás e não andaram mais com ele. (Jo 6,60-66)
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Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou. (Jo 8,58)
