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Árvore da Gnosis

COULIANO, Ioan P. The tree of gnosis: gnostic mythology from early Christianity to modern nihilism. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1992

Prefácio

  • Em aparência, o tema do livro é o estudo de certas correntes religiosas, filosóficas, literárias e científicas que partilham a premissa de que este mundo e seu Criador são, se não malignos, ao menos inferiores — mas a novidade fundamental da obra não reside na massa de informação reunida, e sim em seu método.
    • Steven Runciman — autor de O Medieval Maniqueu, obra clássica ora obsoleta, cuja versão atualizada os estudiosos da história medieval encontrarão neste livro
    • A visão histórica moderna é vaga e desatualizada, carecendo de revisão radical à luz do que ocorre em áreas mais sofisticadas do conhecimento, cujo horizonte começou a mudar há cem anos
    • A disciplina histórica não acompanhou essa transformação e não alterou explicitamente suas premissas gerais talvez por milênios
    • O remédio para esse estado de coisas deve ser muito mais radical do que a invenção de alguns rótulos da moda, em alemão ou mais recentemente em francês, que mantêm pesquisadores e público satisfeitos por algumas décadas
  • Uma objeção previsível ao livro é que ele não vai muito além da metodologia do estruturalismo, na medida em que seu maior mérito consistiria em mostrar que as ideias das diferentes correntes da Gnose dualista se sustentam por pertencer ao mesmo sistema gerado por premissas semelhantes, não podendo ser explicadas como derivadas umas das outras.
    • Claude Lévi-Strauss — praticou uma forma de estruturalismo que satisfaz o critério de complexidade necessário para identificar sistemas inteiros de ideias
    • Objetos ideais — sistemas de ideias que existem em sua “dimensão lógica” — interagem no tempo para formar a história; a mera “morfologia” de um sistema, objetivo do estruturalismo, integra-se num processo dinâmico de proporções extraordinárias
    • O processo de interação temporal de todos esses sistemas, com número infinito de dimensões, é o que se chama história
    • O que se visa é a “morfódinâmica” — o estudo de eventos no espaço-tempo —, com uma abordagem cognitiva que envolve a diacronia como dimensão obrigatória do mundo
  • O objeto principal da pesquisa é formado por correntes religiosas ocidentais habitualmente chamadas dualistas, do Gnosticismo aos Cátaros da Provença e da Lombardia, cuja semelhança genérica foi reconhecida pelos heresiologistas medievais e confirmada relutantemente pela erudição moderna.
    • Ignaz von Dollinger (1890) — pioneiro da confirmação moderna da semelhança entre as correntes dualistas
    • Na maioria dos casos buscou-se a descendência direta de uma corrente medieval a partir da que a antecedia cronologicamente — encontrada apenas por estudiosos inescrupulosos
    • Essa abordagem produziu resultados surpreendentes apenas quando se constataram enormes saltos cronológicos, como entre o Origenismo e o Catarismo — o que significava que antigas ideologias ascéticas eram simplesmente reinstauradas por movimentos revivalistas medievais
  • A busca pelos invariantes do “dualismo” levou à convicção de que as correntes dualistas ocidentais partilhavam traços como o anticosmismo, o antissomatismo e o encratismo — ascetismo que chegava a proibir o casamento e a procriação —, além de docetismo e vegetarianismo parcial ou total.
    • Anticosmismo — a ideia de que este mundo é mau
    • Antissomatismo — a ideia de que o corpo é mau
    • Encratismo — ascetismo que proibia o matrimônio e a procriação
    • Docetismo — a crença de que a paixão e a morte de Cristo na cruz eram ilusórias, assim como seu corpo, embora a extensão da ilusão permanecesse negociável
    • Desde todos os pontos de vista dos sistemas morais de diferentes períodos — romano, judaico e cristão —, essas correntes foram descritas como antinômicas, ou seja, opostas à ordem comum (nomos)
  • Uma vez descartada como ilusória a busca pelas origens “pré-cristãs” do Gnosticismo — que animou a hoje desacreditada Escola Alemã de História das Religiões — surge a questão legítima de saber se o dualismo ocidental é algo além de uma franja extremista do Cristianismo.
    • A escola alemã de história das religiões — religionsgeschichtliche Schule — está hoje inteiramente comprometida
    • Justino Mártir (morto por volta de 165) — proferiu a primeira condenação completa do Gnosticismo; via Marcion como gnóstico, o que não era
    • Ireneu da Ásia Menor, bispo de Lião na Gália romana, escreveu entre 180 e 185 sua longa “Exposição e Refutação da Falsa Gnose” — Elenchos kai anatrope tes pseudonymou gnoseos —, tornando os gnósticos a principal preocupação do Cristianismo dominante
    • Gerações de estudiosos alemães tentaram enfatizar as raízes iranianas do Gnosticismo e do Cristianismo — uma estranha opinião cujo vínculo com o Zeitgeist do qual mais tarde brotou o nazismo não deve ofender ninguém reconhecer
    • A tendência atual de fazer do Gnosticismo quase uma heresia judaica é um avanço apenas na medida em que os gnósticos usavam o Tanakh e talvez os primeiros midrachim tanto quanto os cristãos — porém a mitologia gnóstica original é tão pouco judaica quanto iraniana ou cristã
  • A questão de saber o que é a mitologia gnóstica revela que estudiosos do Gnosticismo, formados em filologia e teologia bíblicas, raramente conhecem como os antropólogos definem e analisam o mito, e por isso rejeitam as raízes meramente “dualistas” do mito gnóstico invocando sua superioridade semifilosófica.
    • Os antropólogos reconheceram há muito que o mito existe em inúmeras variantes que são transformações umas das outras e podem originar-se de forma independente nas operações da mente humana em qualquer contexto
    • O mito gnóstico é uma transformação particular pertencente a uma vasta série de mitos conhecidos como “dualistas”
    • A busca perene e frustrante pelas “origens” do mito gnóstico é descartada como redundante, pois qualquer transformação de mito tem por definição uma origem cognitiva
    • Birger Pearson — observou que o mito do Livro do Gênesis é o dado herdado mais comum do sistema gnóstico, o que explica por que o Gnosticismo partilha tanto com o judaísmo: os dados básicos vêm da Torá, mas o tipo de exegese a que são submetidos frequentemente contraria as premissas fundamentais da Torá
  • Os gnósticos não estabelecem uma tradição real baseada em continuidade hermenêutica que permitiria defini-los por “invariantes”, pois qualquer definição do Gnosticismo por invariantes está fadada ao erro, baseada apenas em inferência incompleta contrariada por setores inteiros dos dados disponíveis.
    • Nem todos os gnósticos eram anticósmicos, encratitas ou docetistas; nem todos criam no Demiurgo ou que este mundo era mau; nem todos criam na metensomatose ou reencarnação da alma preexistente
    • O sistema do dualismo ocidental parte de certas premissas e tem existência inegável em sua dimensão lógica — os gnósticos são definidos como recortes desse sistema, transformações uns dos outros na medida em que o próprio sistema o permite
  • Dois critérios gerais permitem compreender por que e em que medida o Gnosticismo foi revolucionário em seu contexto cultural: o critério da inteligência ecosistêmica e o princípio antrópico.
    • Inteligência ecosistêmica — o grau em que o universo pode ser atribuído a uma causa inteligente e boa
    • Princípio antrópico — a afirmação da comensurabilidade e do vínculo mútuo entre os seres humanos e o universo
    • Platonismo, judaísmo e Cristianismo — as propostas culturais mais importantes do início da era cristã — partilham ambos os princípios: o universo é criado por uma causa boa e altamente inteligente e é fundamentalmente bom, e se ajusta adequadamente a seus ocupantes humanos
    • O Gnosticismo rejeita ambos os princípios: mesmo quando o Demiurgo gnóstico é razoavelmente bom, permanece inferior e ignorante, enquanto os seres humanos não pertencem a este mundo
    • Essa posição, tradicionalmente definida como pessimista, representa na verdade uma forma radicalmente acósmica de otimismo: os seres humanos pertencem a um mundo superior e melhor
    • Hans Jonas — comparou Gnosticismo e filosofia existencialista; o existencialismo rejeita o princípio antrópico mas não postula consanguinidade entre os humanos e um mundo melhor — segundo o existencialismo, estamos simplesmente perdidos num mundo ao qual não pertencemos; segundo o Gnosticismo, estamos perdidos num reino inferior enquanto ignoramos que pertencemos a um superior
    • Comparado com as principais correntes que definem a cultura, o Gnosticismo é certamente um fenômeno de contracultura — situação que se mantém para todas as correntes dualistas ocidentais analisadas no livro
  • O sistema do Gnosticismo é extremamente complexo, implicando inúmeras transformações, e comparado a ele todas as demais correntes dualistas são mais simples, podendo ser encaradas como facetas diferentes de um único sistema maior.
    • Marcion — partilha as regras da exegese gnóstica sem ser gnóstico
    • Maniqueísmo — transformação ulterior de um certo tipo de Gnosticismo
    • Paulicianismo — transformação do Marcionismo
    • Bogomilismo — forma de Cristianismo ortodoxo, ainda que estranhamente arcaico
    • Catarismo — composto de duas doutrinas: o Bogomilismo clássico e uma transformação do Origenismo do século IV, sintetizada provavelmente num círculo de monges orientais revivalistas
    • Do início do século XV ao fim do século XVIII, o dualismo parece existir apenas como curiosidade histórica nos livros de heresiologistas e enciclopedistas; por volta de 1850, porém, já havia uma florescência inteira de mito Romântico com extraordinárias semelhanças com o mito gnóstico
    • O último capítulo do livro explora o mecanismo que produz cenários pseudognósticos como parte de um sistema posto em movimento pelo niilismo moderno
    • É preciso descartar energicamente a afirmação demasiado frequente de que existe uma correlação entre dualismo e “crise” social — a história é um mecanismo vasto demais para fornecer fórmulas secretas; pode ocasionalmente oferecer uma visão de sistemas de ideias em sua dimensão lógica, mas ainda retém de nós o mapa infinitamente complexo da interação de tais sistemas
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