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Universo e Homem

PERNOUD, Régine. Hildegarde de Bingen: conscience inspirée du XIIe siècle. Monaco: Ed. du Rocher, 1994.

  1. Mais de três séculos antes de Leonardo da Vinci, a visão do homem com os braços estendidos sobre o globo terrestre já estava presente na obra de Hildegarde, mas enquanto Vinci foi amplamente estudado e celebrado, a obra da visionária e sua época permaneceram esquecidas e desconhecidas — imagem que sintetiza o que ela revela sobre o cosmos.
  2. O essencial e o mais surpreendente da obra de Hildegarde reside na apreensão do mundo por meio de suas visões, expressas sobretudo no Livro das obras divinas, o mais acabado e completo de seus três grandes escritos, acessível hoje graças ao trabalho de Bernard Gorceix, e cujas visões cosmológicas revelam um universo que permanece aceitável à luz das descobertas modernas, sem que seja necessário esclarecer suas implicações científicas, pois sua originalidade e força poética são por si mesmas suficientes para despertar o interesse.
  3. O Livro das obras divinas se abre sobre a imagem suntuosa de um personagem de aparência humana com três cabeças e quatro asas em tons de escarlate, cujo rosto é de beleza e clareza tão ofuscantes que seria mais fácil olhar para o sol do que para ele, tendo sobre a cabeça um largo círculo de ouro com um segundo rosto de ancião, asas que se elevam de cada lado do pescoço — a da direita com cabeça de águia, a da esquerda com cabeça de homem luminoso como estrelas —, e duas asas que descem dos ombros até os joelhos, enquanto os pés pisoteiam um monstro negro e um serpente.
  4. A figura fala e declara ser a energia suprema e ígnea que inflamou toda centelha de vida, a ordenadora universal na sabedoria, identificando-se com a vida eterna sem origem nem fim que é o próprio Deus — Pai como eternidade, Filho como Verbo, Espírito Santo como sopro que une os dois —, e afirmando que o homem, criado à imagem de Deus e depositário de toda a criação, é o ser por meio do qual Deus garante o florescimento de todas as suas obras.
  5. Uma voz celeste complementa a visão declarando que Deus criou o homem à Sua imagem com tanto amor que lhe reservou o lugar do anjo caído, atribuindo-lhe toda a glória e honra que esse anjo perdera, e que a figura contemplada simboliza esse amor do Pai celeste, sendo sua aparência humana sinal de que o Filho de Deus se revestiu de carne para arrancar o homem da perdição.
  6. Hildegarde abre suas visões pela Santíssima Trindade — Eternidade, Verbo e Sopro —, significando que Deus é Vida e Amor, e que a energia suprema ígnea suscitou a criação do homem como corpo, alma e espírito, tudo procedendo dessa vida que libera uma tríplice energia de amor da qual o homem é reflexo, expresso com uma vivacidade e senso de beleza que a própria visionária situa no limite do que o homem pode contemplar.
  7. A segunda visão desenvolve a primeira com maior complexidade e detalhe, retomando a imagem trinitária e a visão em forma de ovo já presente no Scivias, para descrever o homem ao centro do mundo rodeado por seis círculos concêntricos — fogo negro, fogo claro, éter puro, ar úmido, ar branco e denso, e uma camada aérea tênue com nuvens —, formando uma espécie de roda gigante ao redor da figura humana com os braços estendidos em cruz.
  8. A visão da roda cósmica é percorrida por sopros que emanam de quatro grupos de cabeças de animais — leopardo, lobo, leão e urso, além de caranguejo, cervo, serpente e cordeiro —, ao passo que sete planetas reluzem sobre a cabeça da figura humana, dezesseis estrelas principais distribuídas entre as cabeças dos animais trocam raios entre si e atingem a camada aérea, e dois jatos de luz, à direita e à esquerda, se derramam sobre a roda e sobre a figura humana.
  9. O universo evocado não é estático, pois ações e interações se opõem e se equilibram — a energia ígnea é temperada pelo círculo úmido —, e os ventos o percorrem com funções precisas: o do sul traz calor e grandes inundações, o do norte traz raios, trovões, granizo e frio, e os ventos secundários sopram constantemente como zéfiros, reservando-se as energias terrivelmente poderosas dos ventos principais para o Juízo Final.
  10. As paixões que agitam o homem são comparadas aos ventos que penetram o corpo sem encontrar obstáculo e que a alma acolhe e direciona naturalmente para os membros correspondentes à sua natureza, de modo que quatro energias interiores — pensamento, palavra, intenção e vida afetiva — correspondem aos quatro ventos principais, podendo a alma, pela ciência natural, escolher o bem ou o mal tal como cada vento sopra para a direita ou para a esquerda.
  11. A noção de virididade — do latim viridis, verde, vigoroso — emerge como uma das ideias preferidas de Hildegarde para designar a energia interna que faz crescer as plantas e pela qual o homem se desenvolve, ameaçada pelo Aquilão, vento do norte perigoso e nocivo que afeta igualmente o sopro quente do sol e a virididade dos frutos campestres.
  12. A alma está presente no corpo como um vento cujo sopro não se vê nem se ouve, aérea e invisível, capaz de se expandir em todas as direções — as obras santas a elevam até as estrelas pelo louvor de Deus e as obras más do pecado a precipitam nas trevas —, e ela possui quatro asas: os sentidos, a ciência, a vontade e a inteligência, enquanto suas energias jorram dela como ramos de uma árvore e suas obras se assemelham aos frutos dessa árvore.
  13. Deus criou o homem à Sua semelhança com tanto agrado que o destinou a proclamar por meio de sua voz racional a totalidade das maravilhas divinas, e lhe deu a mulher como auxílio e espelho, de modo que homem e mulher se unem para realizar mutuamente sua obra — o homem designa a divindade e a mulher a humanidade do Filho de Deus —, sendo impossível a existência de um sem o outro.
  14. Todas essas visões reúnem em profunda unidade Deus e Sua obra, tanto o homem quanto o cosmos, e a alma, enquanto está no corpo, sente a Deus porque d'Ele provém, mas só ao deixar o corpo e ser confrontada com Deus conhecerá sua natureza, aguardando com avidez o último dia para recuperar o corpo amado e ver com os anjos a face gloriosa de Deus, pois na forma do homem Deus consignou a totalidade de Sua obra.
  15. A sexta visão, consagrada quase inteiramente aos anjos, descreve uma grande cidade quadrada cercada por um muro de esplendores e trevas, com uma alta montanha de pedra branca ao leste cujo cume projeta um espelho mais claro que o sol, de onde uma pomba está prestes a voar, e acima de uma nuvem branca e negra resplandece toda uma coorte angélica — uns como fogo, outros como claridade, outros como estrelas.
  16. Os anjos de fogo contemplam sem cessar a face de Deus e nada os abala; os anjos de claridade são comovidos pelo serviço das obras humanas que apresentam a Deus, oferecendo seu suave perfume ao escolher o que é útil e rejeitar o inútil; os anjos semelhantes a estrelas sofrem com a natureza humana, apresentam-na a Deus como um livro e dirigem aos homens palavras de razão segundo a vontade divina, celebrando Deus pelas ações boas e desviando-se das más.
  17. A quinta visão retoma a Apocalipse para evocar os diversos tempos da história — o de Adão, o do Dilúvio, o da espera do Cristo —, até chegar ao tempo do cavalo verdoengo que designa a época em que tudo conforme à lei e à justiça de Deus será tido por nada, com combates por toda a terra, desaparecimento dos frutos, mortes súbitas, inversão da ordem social e proliferação de vícios, terminando com a evocação da vitória da Virgem sobre o antigo serpente mediante a encarnação do Filho de Deus.
  18. A nona visão, uma das mais surpreendentes, apresenta no leste uma figura radiante de sabedoria vestida de seda branca e manto verde ornado de gemas, e no norte uma figura estranha sem cabeça mas com uma esplendor ofuscante no lugar dela, com cabeça de homem de cabelos grisalhos no ventre, pés semelhantes a garras de leão, seis asas e o corpo coberto de escamas como um peixe, portando nas asas da nuca cinco espelhos com inscrições relativas à via, à verdade, aos arcanos de Deus, às boas intenções dos eleitos e ao povo de Israel.
  19. A explicação da nona visão identifica a figura radiante com a sabedoria da verdadeira bem-aventurança, o manto verde com o cuidado que a sabedoria dedica às criaturas que protegem o homem pela alimentação, as escamas de peixe com o mistério do nascimento do Filho de Deus em natureza estranha e distinta, as seis asas com os seis dias da obra e da invocação divina, e os cinco espelhos com os cinco luminares das diferentes épocas da humanidade — Abel, Noé, Abraão, Moisés e o Filho de Deus —, cuja Paixão abriu o acesso às alegrias celestes.
  20. A visão se encerra com a frase que resume toda a concepção hildegardiana da humanidade e que uma mão anônima, talvez no século XIII, transcreveu no manuscrito de Lucca ao final da nona visão: Homo est clausura mirabilium Dei — o homem é o encerramento das maravilhas de Deus.
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