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Sentido Literal (3)
Henri de Lubac — História e Espírito
- Orígenes parece ainda dirigir seu apelo aos leitores através dos séculos — “Segue-me, ó ouvinte, pelas linhas sutis da palavra, e mostrar-te-ei…” — mas é preciso admitir que às vezes se tem dificuldade em segui-lo através dos meandros de seu discurso, razão a mais para não acrescentar o risco de equívoco ao compreender mal certas formas habituais de seu falar.
- Um pouco de atenção ao contexto evitará o escolho das más interpretações.
- A terminologia de Orígenes é diferente da dos modernos — toda vez que encontra um antropomorfismo, uma metáfora, uma parábola ou uma expressão figurada, diz que é preciso tomá-la em sentido espiritual, recusando não “o sentido literal”, mas, segundo suas expressões mais habituais, o sentido “histórico” e “corporal”, ou “a letra”.
- Essas expressões podem ser traduzidas por “sentido literal próprio”, e seu “sentido espiritual” ou “alegórico” nesses casos equivale a um “sentido literal figurado”.
- O bispo Freppel admite que Orígenes “confundiu o sentido metafórico, que é um sentido literal, ainda que figurado, com o sentido místico” — mas acrescenta que ele “não desconheceu o valor de nenhuma dessas significações, embora não as distinga suficientemente uma da outra”, e que o erro, se erro há, “está mais na forma da linguagem do que no fundo do pensamento.”
- Como diz o Pe. Féret, “não é tomando-a ao pé da letra que se respeita o sentido literal de uma metáfora.”
- “Nossa convicção sobre a Escritura é que ela tem inteiramente um sentido espiritual, mas não tem inteiramente um sentido corporal”, pois frequentemente o sentido corporal se revela impossível.
- O Pe. Prat observa que “esse sentido corporal, designado ainda por uma dúzia de sinônimos, não é de modo algum nosso sentido literal” e que “Orígenes fala de outro modo querendo dizer a mesma coisa” que os modernos.
- Comentando a passagem do Gênesis em que Ismael bebe de um odre logo esgotado no deserto, Orígenes diz: “O odre é a letra da Lei da qual bebe esse povo carnal para dele extrair alguma inteligência; essa letra frequentemente falha e não pode ter explicação, pois em muitos pontos a interpretação histórica nada pode.”
- O próprio Orígenes se explica: “Nas Escrituras divinas, a sequência histórica — historialis consequentia — nem sempre se sustenta e às vezes falha, como quando se diz: espinhos nascerão na casa do homem bêbado (Prov. 26,9), ou, sobre o templo construído por Salomão: nem martelo nem machado foi ouvido na casa de Deus (I Rs. 6,7), ou ainda no Levítico, quando se ordena que os sacerdotes inspecionem a lepra das paredes, das peles e dos fios de tecido para curá-la.”
- “Ao ler que Deus se passeava à tarde no jardim e que Adão se escondeu sob a árvore, não há ninguém, penso, que não veja aí figuras e não busque sentidos ocultos num relato de aparência histórica, mas que não se passou corporalmente.”
- Sobre Isaías dizendo que o leão, o leãozinho e os dragões voadores carregam suas riquezas em dorso de asno e de camelo: “Evidentemente, o profeta enumera aqui no Espírito Santo as tribos hostis dos piores demônios” que sobrecarregam com seus enganos as almas desviadas.
- “Se passarmos ao Evangelho para aí fazer semelhante pesquisa, haveria coisa mais insensata que a palavra: não saudeis ninguém no caminho? Os simples imaginam que o Salvador deu realmente aos apóstolos essa ordem.” — o mesmo se aplica às “duas túnicas”, às sandálias, à face direita esbofeteada e ao olho direito que escandaliza.
- Trata-se de vocabulário inadequado e, se se quiser, de sutileza paradoxal — mas a constatação é muito tranquilizadora, pois quando o Periarchon distingue expressamente três espécies de textos, dos quais a terceira não deve ser entendida segundo a história ou segundo o corpo, mas somente segundo o espírito, não há razão para inquietação.
- A historicidade da Bíblia não está em perigo — excetuando-se os textos manifestamente a tomar em sentido figurado, trata-se mais de uma possibilidade teórica cujas aplicações práticas são raríssimas, mencionadas sobretudo por um cuidado de simetria.
- João Crisóstomo, um dos menos “alegorizantes” entre os Padres, encontra-se aqui com Orígenes ao dizer em termos quase idênticos: “Há na Escritura certos trechos que devemos entender apenas ao pé da letra, outros que é preciso tomar num sentido diferente da letra, e outros ainda que devemos tomar ao mesmo tempo no sentido literal e no sentido figurado pelas palavras.”
- Inácio de Loyola, distinguindo nos seus Exercícios três modos de “eleição”, inclui entre eles, para esgotar todas as possibilidades embora os casos mal sejam previsíveis, o modo por revelação divina.
- Outras palavras e expressões de Orígenes — frequentemente conhecidas apenas em traduções latinas — exigem igualmente atenção para não serem mal compreendidas.
- Quando declara certos episódios da vida dos profetas mais verdadeiros “juxta sacramentum quam juxta litteram” — segundo o sacramento do que segundo a letra — não contesta a verdade histórica desses episódios, mas sublinha seu alcance simbólico.
- Se o relato dos dois discípulos enviados pelo Salvador buscar um jumentinho lhe parece “magis ad altiorem intelligentiam quam ad simplicem historiam pertinere” — pertencer mais a uma inteligência mais elevada do que à simples história — isso não significa que o relato seja um conto.
- O deserto onde João Batista se retira tem, segundo Orígenes, “magis rationem, si mystice intelligatur” — mais razão de ser se entendido misticamente — mas nem por isso deixa de ser a seus olhos um verdadeiro deserto onde o Batista habitou realmente.
- A propósito dos madianitas, de seus reis e das guerras dos filhos de Israel contra eles, Orígenes dizia aos ouvintes: “Non tam regum quam vitiorum nomina, quae régnant in hominibus, et non tam gentium quam concupiscentiarum carnalium quae militant adversus animam, describuntur” — não tanto os nomes de reis quanto os de vícios que reinam nos homens, e não tanto de nações quanto de concupiscências carnais que militam contra a alma, são aqui descritos — e teria ficado espantado ao saber que um dia se acreditaria que ele negava a existência histórica dos reis de Madian.
- A fórmula “non historiae narrantur” — não se narram histórias — que embaraçou Dom de la Rue devia ser entendida no sentido que Huet lhe deu: “Assim entendo que histórias são narradas, mas não é tanto isso que se faz, quanto que mistérios se tecem.”
- O autor sagrado não narra os fatos pelo vão prazer de narrá-los — “non pro historia narrat” — mas a expressão negativa implica o contrário de uma negação do sentido histórico: “Não são histórias comuns que nos contam, relatos sem alcance, invenções; tal narrativa é séria, é bem real, e precisamente porque não é uma história ordinária.”
- O termo “historiae” no plural tem forte sabor pejorativo e é às vezes associado ao termo “fábulas” — “Pensas que ao nos contar isso na Escritura o Espírito Santo nos conta fábulas e histórias?” — onde Orígenes retoma uma palavra de polêmica usada por Apeles, discípulo de Marcion, que nos seus Silogismos pretendia, em tom de zombaria, que o Espírito Santo na Bíblia havia “contado histórias.”
- “Fábulas judaicas”, “narrações judaicas”, “mitologias dos judeus” — referências às “ioudaïkoi mythoi” da Epístola a Tito — designam a interpretação puramente literal da Lei: por tal interpretação, o que podia ser história real ou prática louvável em seu tempo torna-se judaico no sentido condenável que essa palavra reveste na economia cristã.
- “Transmitir as histórias corporais da Escritura” rejeitando “seu sentido espiritual” é trair sua “vontade”, sua intenção profunda — é voltar-se da Verdade e, por um retrocesso, tornar vã, como dizia Paulo, a cruz de Cristo.
- “Intelligere secundum historiam” — entender segundo a história — deve ser completado como o próprio Orígenes faz aqui e ali: “secundum historiam solam” — segundo a história somente — e a condenação desse gênero de interpretação, diretamente inspirada pela Epístola aos Gálatas e pela Epístola a Tito, não é condenação nem questionamento do sentido literal da Escritura.
- Outros atalhos de linguagem habituais em Orígenes devem também ser corretamente compreendidos, pois não implicam negação alguma da realidade histórica ou material dos fatos bíblicos.
- Quando declara “não foi um homem que escreveu essas coisas, foi o Espírito Santo”, não pretende negar a ação do escritor sagrado — tanto mais que é muito contrário às teorias extáticas da profecia e da inspiração.
- Quando diz que a árvore sob a qual Abraão ofereceu uma refeição ao Senhor era o próprio coração do patriarca, não volatiliza o carvalho de Mambré.
- Quando diz de Jesus que ele é “Moisés colocado junto de nós”, usa simplesmente um giro de linguagem análogo ao que Ambrósio de Milão usaria para falar de Melquisedec — imita Paulo, que dizia “essa pedra era Cristo”, e imita o próprio Jesus, que dizia “João Batista é Elias”, cuidando precisamente de combater os que tiravam dessa palavra a doutrina da transmigração das almas.
- Orígenes indica a analogia que funda esses atalhos ao comparar sutilmente, no Comentário do Cântico, um de seus termos aos ornamentos da esposa — esses ornamentos imitavam o ouro: “assim como não apenas a pedra é Cristo, mas o mar é o batismo, a nuvem é o Espírito Santo, o maná é a Palavra de Deus, o cordeiro pascal é o Salvador, o sangue do cordeiro é a Paixão de Cristo, o véu do santo dos santos é sua carne.”
- A frase da primeira homilia sobre o Êxodo — “Essas coisas não foram escritas para a história e não se deve pensar que o livro santo nos narra os atos dos egípcios” — deve ser entendida como afirmando que o propósito do Êxodo é a instrução espiritual, sem nenhum prejuízo de seu valor histórico.
- Quando uma homilia sobre os Números opõe às prescrições mosaicas sobre “os cordeiros, os bodes e os bezerros” “os verdadeiros sacrifícios que purificam o povo nos dias de festa”, a intenção não é contestar os fatos rituais da antiga lei nem sua legitimidade, mas extrair sua significação e mostrar “quão admiráveis e magníficas são as coisas significadas por tais relatos.”
- O próprio termo “alegoria”, cujo uso os alexandrinos eram censurados por Diodoro de Tarso, é, como ficou dito anteriormente, de origem sobretudo paulina — quando Paulo o empregou, sob sua forma verbal, numa passagem célebre da Epístola aos Gálatas, era ainda um neologismo.
- Plutarco escrevia em seu opúsculo Sobre a leitura dos poetas: “Para justificar as ficções de Homero, alguns recorrem ao que os antigos chamavam sentidos ocultos — hyponoiai — e que hoje se denominam alegorias.”
- O uso paulino do termo é original, e é de Paulo que a exegese cristã o receberá e no sentido de Paulo que o empregará mais frequentemente — isso se verifica em Tertuliano e também em Orígenes, para ambos os quais a filiação paulina é certa e direta.
- No quarto livro do Periarchon, fala-se de alegoria apenas uma vez — a propósito dos Gálatas e com referência ao texto de Paulo — e o mesmo ocorre no comentário de João e numa homilia sobre o Gênesis: “misteria legis et allegorias, quas ab Apostolo edocti sumus” — mistérios da lei e alegorias que aprendemos do Apóstolo.
- “Quem duvida da realidade dos fatos concernentes a Agar e Sara? O Apóstolo nos diz, contudo, que essas coisas são ditas em alegoria e as transforma em figuras dos dois Testamentos.” — e também: “As coisas que não se pode duvidar que se passaram na carne, o Apóstolo as diz alegóricas.”
- Diodoro de Tarso preferia usar o termo “teoria” ou “epiteoria” — mas havia razão para opô-los, como ele fez, um ao outro? Quando escreve “A divina Escritura não destrói de modo algum o fundamento prévio da história, mas nela vê ainda, pela teoria, outros acontecimentos semelhantes, sem destruir por isso a história” e acrescenta “O Apóstolo chama alegoria a teoria superior — epitheoria”, cria um conflito artificial entregando ao mesmo tempo ao leitor a chave para resolvê-lo.
- João Crisóstomo não recuará diante do emprego de “alegoria” no sentido em que Diodoro falava de “teoria” — de fato, as duas palavras podem ser tomadas como sinônimas, e não faltam textos onde são usadas uma pela outra ou simultaneamente em expressões redundantes, como em Dídimo de Alexandria, Hesíquio ou Eusébio.
- Orígenes mesmo não hesita em falar de “teoria” — no Periarchon, sobre “aqueles que, segundo o sentido dos Apóstolos, recebem a teoria das Escrituras”, e no Contra Celsum: “Somos ensinados pela contemplação mística — mystike theoría — da Lei e dos Profetas.”
- Paradoxalmente, o termo “teoria”, que teve todas as preferências de Diodoro e seus discípulos, não era nem verdadeiramente escriturístico nem verdadeiramente tradicional — nisso a escola de Antioquia mostrava-se mais dependente do que Orígenes do platonismo e da mística grega.
- Em muitos casos, o termo “alegoria” recorda sua origem gramatical — como quando Orígenes escreve sobre o texto de Ezequiel 16:7 “Mammae tuae erectae sunt” — “Teus seios se ergueram”: “Como isso pode ser entendido sem uma explicação alegórica?”, ou quando observa que o profeta “designa alegoricamente Jerusalém como uma jovem.”
- Às vezes o termo é tomado segundo a acepção da exegese pagã, usada também por certos gnósticos — mas nesses casos Orígenes é o primeiro a recusá-la, criticando os leitores “heterodoxos” do Evangelho de João que, a propósito dos milagres de Jesus ou de sua conversa com a samaritana, recorriam à “alegoria” para se livrar da letra.
- Resumir em uma única palavra a exegese origeniana — seja “alegoria” ou “teoria” — é em si mesmo muito discutível, pois nenhuma dessas palavras parece ser a preferida de Orígenes.
- Anagoge e anagein — elevação e elevar — são muito frequentes; tropologia e tropologein não são raros.
- Mas na exposição doutrinária do Periarchon sobre a interpretação das Escrituras, o termo técnico — que não é equivalente exato de nenhum dos dois anteriores — é noesis.
- Assim como à theoria do profeta ou de seu exegeta corresponde a allegoria no texto ou na coisa — ou antes entre as duas coisas, entre a coisa significante e a coisa significada, o typos e a aletheia — da mesma forma, e mais precisamente, à noesis no sujeito corresponde no objeto o noema.
- O vocabulário exegético de Orígenes é extremamente variado, ao mesmo tempo rico e flutuante — há cem maneiras diversas de introduzir o sentido “profundo”, “misterioso” — bathyteron, mystikoteron, aporrheton — que propõe.
- Há casos em que noesis e noema convêm, enquanto allegoria seria menos indicado — e entre outros termos, como dianoia, não se deve esquecer o mais importante, o mais significativo, o mais carregado de doutrina, essencialmente paulino também: o espírito — pneuma —, a inteligência espiritual — pneumatike endoche, pneumatike diegesis, pneumatike akolouthia, pneumatike didaskalia.
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