biblia:filon:feminino
MULHER
LÉVY, Benny. Le Logos et la lettre: Fílon d’Alexandrie en regard des pharisiens. Lagrasse: Verdier, 1988.
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A terra é associada à sensação e ao feminino em Fílon, configurando uma entidade obscura e ameaçadora cuja superfície mal dissimula suas fissuras.
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Filón de Alexandria equipara simbolicamente o espírito ao céu e a sensação à terra, aproximando o feminino da matéria corporal.
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Sartre é citado em epígrafe como voz moderna que ressoa essa associação entre o feminino, o buraco e o Nada.
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O corpo feminino é descrito por Fílon como atravessado de orifícios que ameaçam dissolver os limites entre interior e exterior, atraindo a perversão e o excesso.
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A matéria fêmea é caracterizada como apeiron e alogon, em formação e decomposição contínuas.
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A serpente é associada ao corpo feminino como símbolo da vida voltada ao devir, incapaz de ascensão.
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A abertura excessiva dos sentidos é comparada a um rio em cheia que submerge o espírito.
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O sacerdote Phineas representa, em Fílon, a vigilância sobre os orifícios do corpo e o controle do excesso sensível por meio do Logos.
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Phineas porta uma lança identificada com o Logos e transpassa a Madianita na própria matriz.
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A ação de Phineas é descrita como seção do órgão da geração, não apenas como ato moral mas como gesto metafísico.
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Abram abandona o corpo, a sensação e a palavra expressa ao partir de sua terra, mas se detém em Haran, cujo nome Fílon traduz por “creco” ou “buraco”.
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Haran representa a cavidade dos sentidos como etapa necessária de autoconhecimento, a exemplo do imperativo socrático.
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A permanência em Haran é provisória: Laban vive nela, Taré morre nela, mas Abraão e Jacó devem partir.
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O aprendizado em Haran conduz, segundo Fílon, da inspeção dos próprios sentidos ao reconhecimento de que o espírito humano não é senhor de si, pois é obra de um Outro.
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O perigo caínico consiste em concluir da soberania do espírito sobre os sentidos a autossuficiência do espírito.
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Abraham descobre que o Intelecto do universo é o Rei invisível dos sujeitos visíveis, dissolvendo qualquer arrogância do espírito.
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A fórmula de Fílon é: quem mais se conhece a si mesmo, mais desespera de si e, ao desesperar, conhece Aquele que é.
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O esquema da casa feminina como morada da alma resolve provisoriamente a tensão entre o feminino ameaçador e a receptividade necessária, opondo Caim a Abel na disputa pelo domínio da habitação interior.
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Caim representa o amor de si que habita a alma enquanto Abel, o amor de Deus, ainda não nasceu nela.
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As duas mulheres que habitam a alma de cada homem se odeiam e enchem a casa de cenas de ciúme.
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A mulher transita de figura do ilimitado ameaçador para figura da receptividade essencial, deslocando-se em direção à Ideia.
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A distinção entre Agar e Rebeca, figurada pela diferença entre a odre e o jarro, articula dois modos de receptividade: o corporal e o espiritual.
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Agar porta uma odre, símbolo do recipiente corporal necessário às etapas elementares do aprendizado.
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Rebeca porta um jarro, símbolo do princípio diretivo abundante como fonte, dispensando toda massa de pele.
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A água versada por Rebeca sem avareza figura o ensino como doação sem ciúme, em contraste com os sofistas que retêm o saber por mercantilismo.
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A receptividade espiritual plena exige, em Fílon, o devir-virgem da alma, pois o recipiente da Sabedoria não pode ser o corpo mas a alma que abandonou o que é particular às mulheres.
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Rebeca é virgem por natureza; Tamar é virgem apesar de se apresentar como prostituta; Sara retorna à virgindade.
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Quando Deus tem comércio com a alma, desfaz nela os desejos sem nobreza que a efeminavam, reconstituindo a virgindade.
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Phineas, vigilante dos orifícios, acerta com um único golpe o vaso certo, a matriz, sem se perder no labirinto dos orifícios.
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Rachel constitui o ponto de complicação irredutível no sistema de Fílon, pois não pode ser integrada ao esquema do devir-virgem nem simplesmente descartada.
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Fílon descreve Rachel como a sensação que seduz pelo prazer e é odiada por Léa, a virtude sem paixões.
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Rachel simula ter suas regras diante do pai Labão, e Fílon a reprova como sensibilidade sentada sobre os ídolos.
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Elohim ouviu Rachel e lhe abriu a matriz, versículo que Fílon não comenta, omissão que não é isolada.
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Rachel oscila em Fílon entre a crítica do sensível e a mera etapa propedêutica, sem jamais alcançar o estatuto de virgem nem o de morada da alma.
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O nome de Rachel pode ser interpretado como “visão de profanação”, o que permitiria lê-la como crítica da idolatria do sensível.
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Jacó a amaria como a uma pedra de afiar, instrumento que afia o espírito pelo atrito, não fim em si mesma.
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Fílon recua e reinsere Rachel no lugar de Agar, etapa dos estudos elementares antes da filosofia.
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O texto reconhece em Rachel o lugar em negativo de um corpo que seria sede de crítica da idolatria e de inspiração, mas o pensamento falha: um corpo espiritual só pode ser pensado por Fílon como virgindade, e Rachel não pode ser virgem.
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