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Método alegórico
LES IDÉES PHILOSOPHIQUES ET RELIGIEUSES DE PHILON D'ALEXANDRIE. PARIS: LIBRAIBIE ALPHONSE PICARD & FILS, 1908
CAPÍTULO III: O MÉTODO ALEGÓRICO
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O pensamento filosófico de Filon se apresenta de forma indireta, como uma perpétua exegese dos textos bíblicos.
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A interpretação alegórica é necessária para extrair teorias filosóficas do sentido literal da Bíblia, que não as contém.
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Para um leitor moderno, a alegoria parece arbitrária e fantasiosa, pois tenta expressar ideias abstratas por meio de imagens concretas.
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A imagem nunca consegue esgotar a ideia, servindo apenas como um signo para despertá-la, mas não sendo indispensável.
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A alegoria parte da imagem para reconstruir a ideia geradora, o que pode parecer arbitrário, como no caso de Filon diante dos textos de Moisés.
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A acusação de que Filon usou a alegoria para encontrar a sabedoria grega nos livros judeus não é justificada do ponto de vista de sua época.
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O método alegórico era muito comum no mundo grego na época de Filon.
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Antes dos estoicos, já era aplicado à mitologia grega e aos poemas homéricos.
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A escola estoica, desde seu início, empregou a alegoria para encontrar sua doutrina na mitologia popular, como visto no “Compêndio de Teologia” de Cornuto.
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Sêneca criticou a tendência de cada seita filosófica (estoica, epicurista, peripatética) de interpretar Homero de acordo com suas próprias doutrinas.
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O sincretismo filosófico era favorável à difusão da exegese alegórica, pois permitia que se aceitasse o método sem aderir a uma doutrina particular.
1. — O MÉTODO ALEGÓRICO ENTRE OS GREGOS
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A influência do helenismo sobre Filon pode ser precisada, especialmente em Alexandria, onde a alegoria tinha um tom mais religioso do que filosófico.
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Buscava-se, sob os relatos grosseiros da mitologia, o ser espiritual concreto e vivo, objeto de amor e culto.
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O próprio Filon é uma fonte importante sobre essa direção da alegoria nos círculos helênicos de Alexandria.
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Filon conhecia e aceitava as alegorias comuns da escola estoica, citando mitos como o de Mnemósine, Vesta, Urano, Hades, Ambrosia, Triptólemo, Linceu e as Sereias.
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Ele demonstra estima por Homero e Hesíodo como autoridades filosóficas, defendendo-os da acusação de impiedade em seu tratado “Sobre a Providência”.
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Filon via em Homero um estoico, um político monarquista e um pitagórico, chegando a aproximar episódios homéricos de passagens bíblicas.
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A influência alexandrina se mostra principalmente na mitologia abstrata dos intermediários e potências (Logos, Sabedoria).
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Essa mitologia resulta de um trabalho de interpretação alegórica do sincretismo religioso greco-egípcio, ao qual os filósofos estoicos tiveram grande participação.
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A religião egípcia, com seus deuses abstratos, se prestava a tais alegorias.
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Os neopitagóricos, cujo centro estava em Alexandria, influenciaram a maneira de alegorizar, como visto no pequeno tratado “O Quadro de Cébete”.
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Diferente da alegoria estoica, no “Quadro de Cébete” a imagem concreta é o meio indispensável para se chegar à doutrina moral.
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Surge a ideia de que a verdade deve estar escondida sob símbolos, ideia que parece ter nascido nos mistérios, particularmente nos órficos.
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A iniciação passou a designar menos o acesso material ao espetáculo do mito e mais a visão espiritual de seu significado oculto, reservada aos sábios.
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Plutarco, em seu tratado sobre Ísis, menciona razões de piedade e até gramaticais para esconder a verdade sob um véu.
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Filon compartilha da concepção de que a verdade não deve ser comunicada a todos, e que o sábio deve mentir por piedade e humanidade.
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A verdade só é conhecida por sinais nem sempre evidentes, aproximando o método alegórico da adivinhação.
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O “Quadro de Cébete” difere das alegorias estoicas porque seu fundo é exclusivamente moral, não físico.
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O autor vê em cada personagem o símbolo de um estado da alma humana (desejo, paixão, virtude).
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A história exterior torna-se a história interior das diferentes potências de uma alma.
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Filon considera um dos principais objetivos da alegoria transformar as pessoas dos relatos bíblicos em “maneiras de ser” boas ou más da alma.
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A trama do “Comentário Alegórico” da Gênese é a transformação da alma humana, onde cada etapa é representada por um personagem: Adão (alma neutra), Eva (sensação), a serpente (prazer), Caim (orgulho), Abel (bem), Enos (esperança), Enoque (arrependimento), Noé (justiça).
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O neopitagorismo influenciou as alegorias numéricas em Filon.
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Os números são interpretados alegoricamente como representando um ser diferente deles, uma virtude.
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O simbolismo de cada número reside em suas propriedades matemáticas ou na natureza dos seres afetados por esse número.
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O um é indivisível, princípio, elemento, medida, imagem da causa primeira, gerador da alma e da vida.
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O dois é, por oposição, divisível, princípio da discórdia; o mal é seu irmão.
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O número perfeito é aquele igual à soma de suas partes aliquotas, como 6 (=1+2+3) e 28 (=1+2+3+4+5+6+7).
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O número sete tem um lugar único na década por ser primo e não gerar outro número na década.
2. — O MÉTODO ALEGÓRICO ENTRE OS JUDEUS ANTES DE FILON
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Filon distingue três fontes para suas explicações alegóricas: a inspiração, a pesquisa pessoal e a tradição.
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Não se conhece a extensão dessa tradição, mas é certo que ela existia.
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Para determinar essa tradição, examina-se a literatura judaica (palestiniana e judaico-alexandrina) anterior a Filon e as alusões de Filon a alegoristas anteriores.
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O confronto das alegorias filonianas com a literatura palestiniana é cuidadoso, mas as semelhanças não provam necessariamente uma influência desta sobre aquela.
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Os textos rabínicos são difíceis de datar, e pode ter havido uma ação de retorno do filonismo sobre os exegetas palestinos.
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Friedländer confirma a possibilidade dessa influência mostrando a existência de uma comunidade judaico-alexandrina em Jerusalém na época dos apóstolos.
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O princípio da exegese rabínica é explicar a letra da Lei, sendo contrário ao método alegórico sistemático.
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Os vestígios da literatura judaico-alexandrina (historiadores, Sibilas, Eclesiástico, Sabedoria de Salomão, IV Macabeus, Carta de Aristeias) não mostram um gosto especial e marcado pela alegoria.
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No Eclesiástico, há uma única alegoria (Enoque como símbolo do arrependimento), que pode ser uma interpolação do tradutor alexandrino.
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A Sabedoria de Salomão interpreta a história de Israel em seu sentido literal, com raras alegorias (a vestimenta do sumo sacerdote como símbolo do mundo, a mulher de Ló como a incredulidade, a serpente de bronze como a salvação).
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Essas alegorias, comuns a Filon e ao pseudo-Salomão, são indicadas como correntes e difundidas, dispensando explicações.
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Acredita-se que esses autores tenham emprestado de alegoristas propriamente ditos, sem empregar o método sistematicamente.
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Os fragmentos de Aristóbulo, um judeu peripatético que pretendia mostrar Moisés como mestre dos filósofos gregos e evitar o antropomorfismo, são considerados inautênticos.
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Uma análise cuidadosa mostra que o autor (conhecido primeiro por Clemente de Alexandria) copiou Filon, abreviando-o, obscurecendo-o e muitas vezes sem compreendê-lo.
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O objeto principal do método alegórico em Filon (a história interior da alma) está totalmente ausente em Aristóbulo.
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A ideia de que a filosofia grega se origina em Moisés, central em Aristóbulo, é estranha a Filon, que afirma a originalidade e o alto valor dos pensadores gregos.
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Não restam, na literatura antefiloniana, fragmentos concebidos no método e espírito de Filon.
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A essência da doutrina filoniana é uma transformação, pelo método alegórico, da história judaica em uma doutrina da salvação, o que não se encontra em nenhum outro lugar.
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A opinião de que o filonismo é uma aparição sem precedente na história das ideias judaicas é exagerada; a opinião mais moderada é que ele se destaca do resto das doutrinas da diáspora, existindo apenas em um meio restrito.
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A comunidade dos essênios, conhecida pelos testemunhos de Filon, Josefo e Plínio, o Velho, é um meio judaico restrito onde, antes de Filon, se praticava o método alegórico.
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A comunidade essênia, já antiga na época de Filon, existia apenas na Palestina.
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Sua doutrina, com traços de influências externas (adoração do sol, teoria dos anjos, preexistência das almas), distingue-se do judaísmo ortodoxo.
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Em um de seus testemunhos, Filon afirma que os essênios, ao explicar as Escrituras no sábado, usam símbolos seguindo um gosto muito antigo, onde o centro de sua filosofia é uma educação moral baseada na exegese alegórica da lei.
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No entanto, o paralelismo entre a sinagoga essênia e as proséquitas alexandrinas pode indicar que Filon imaginou os hábitos dos essênios com base no que via ao seu redor.
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As outras fontes sobre os essênios não mencionam o ensino alegórico, e as ideias conhecidas do grupo não implicam ou até excluem essa exegese.
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Portanto, é incerto que os essênios empregassem a alegoria, e não se pode vê-los como representantes da tradição judaica que Filon invoca.
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Os terapeutas, outra comunidade, possuíam escritos antigos de seus chefes com documentos do gênero alegórico.
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Esses livros, transmitidos na seita, não tinham caráter secreto e impunham regras e limites aos exegetas.
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O tratado de Filon sobre os terapeutas é a única fonte sobre eles e, embora rico em detalhes sobre costumes e regras, quase nada contém sobre a doutrina.
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As duas explicações alegóricas presentes no tratado (o número cinquenta, a passagem do Mar Vermelho) também se encontram em Filon.
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O princípio da exegese dos terapeutas é que toda a legislação é como um animal: o corpo é a prescrição literal e a alma é a inteligência invisível nas palavras.
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As semelhanças com o filonismo são grandes: Filon também usa a comparação do animal e do espelho para explicar seu método e busca o símbolo antes da doutrina.
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Os terapeutas, espalhados pelo Egito e pelos países gregos ou bárbaros, podiam formar um partido judeu bastante extenso, em contato com o misticismo alexandrino.
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O gênero de vida dos terapeutas (abstinência e contemplação) é o dos padres egípcios descritos por Queremon.
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A obra de Filon se liga às mesmas influências, mas ele precisava de uma tradição propriamente judaica para conciliá-las com o judaísmo.
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Filon indica, em cerca de vinte passagens, explicações emprestadas de um alegorista anterior.
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Essas interpretações tradicionais, designadas às vezes pelo nome de “físicos”, versam sobre todas as partes do Pentateuco (Adão e o paraíso, José, Êxodo, milagres, oração de Moisés, ornamentos do templo).
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As interpretações tradicionais que Filon combate formam um grupo à parte: viam na lei uma doutrina fatalista à maneira dos estoicos e buscavam nela teorias físicas ou astronômicas.
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Há traços de um sistema de alegorias físicas e astronômicas (o mundo, os hemisférios celestes, os equinócios, as estações), que era tradicional.
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Filon sobrepõe a essa interpretação física tradicional uma interpretação espiritual, cujos objetos são o mundo inteligível ou os estados interiores da alma.
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Essa alegoria propriamente moral, que busca as relações íntimas da alma com o mundo inteligível, também é tradicional, pois nela se encontra toda doutrina importante do filonismo.
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Exegetas anteriores conheciam a teoria do Logos, o mundo das ideias, as potências despóticas e benéficas, a impotência radical da alma para a virtude, o culto espiritual e a imortalidade da alma pela piedade.
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O segundo gênero de interpretação (moral) não é novo com Filon; é o mesmo dos terapeutas.
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A originalidade de Filon reside em excluir da interpretação toda doutrina filosófica que não seja a moral.
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Ele mostra, na sucessão de eventos e prescrições da história judaica, o movimento interior da alma pecadora em direção à salvação.
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Se a tradição judaica se restringe aos terapeutas, o movimento alegórico foi pouco extenso no mundo judeu, mas importante por suas consequências.
3. — FILON E SEUS ADVERSÁRIOS JUDEUS
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Filon descreve três atitudes possíveis em relação à Lei: considerá-la um simples costume tradicional; desprezar a lei positiva e prestar a Deus um culto puramente espiritual; combinar o respeito pelas leis positivas com a busca de um sentido interior por meio da alegoria.
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O primeiro partido é acusado de ser de falsos legisladores, apegados aos bens exteriores, que preferem conformar suas leis ao costume do que à natureza, tirando o politeísmo da Escritura.
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Historiadores judeus como Artapano e Eupolemo, em fragmentos preservados por Eusébio, tentavam encontrar nas histórias dos patriarcas as lendas da mitologia grega e egípcia, reduzindo-as a relatos históricos à maneira de Evêmero.
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A obra de Filon contém razões para crer que, em sua época, havia um trabalho de sincretismo que identificava cada relato bíblico com mitos gregos, e ele não é totalmente hostil à ideia de que existem verdadeiros mitos na Bíblia.
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Muitas vezes, Filon ataca, sob o nome de interpretação literal, não a explicação literal simples, mas a explicação tendenciosa e mitológica.
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Diante de passagens bíblicas acusadas de mitologia (como o sacrifício de Isaac ou a confusão das línguas), Filon combate primeiro a interpretação mitológica em seu próprio terreno, usando a explicação literal.
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Os partidários da exegese mitológica, e não outros, são os “sofistas do sentido literal” que Filon persegue incessantemente.
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O verdadeiro perigo para Filon não são os judeus piedosos que observam rigorosamente a letra da Lei, mas aqueles que, seguindo os hábitos de sincretismo mitológico dos alexandrinos, rebaixam a Lei judaica a um simples relato mitológico.
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O objetivo de Filon com o emprego do método alegórico é a universalização da lei judaica, fazendo dos judeus alegoristas cidadãos do mundo.
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