User Tools

Site Tools


theosophos:cabala-crista:francois-secret:pico

Pico della Mirandola

François Secret. Kabbalistes chrétiens de la Renaissance

Pico della Mirandola e o ambiente italiano da cabala cristã

A famosa “Oração sobre a dignidade do homem” de Pico della Mirandola tinha um título tornado célebre por Giannozzo Manetti, um hebraísta de valor que quis renovar a Vulgata e se cercou de mestres judeus.

  • Manetti escreveu um “Adversus Judaeos” e reuniu uma importante coleção de manuscritos que chegou à Biblioteca Vaticana, mas não parece ter preparado o desabrochar da cabala cristã na Itália.
  • Não se considera que figuras como Pietro Bruto, Marsílio Ficino (que conhecia um texto do Bahir) ou Ambrogio Traversari tenham tido um papel essencial nesse desabrochar.

Dois convertidos tiveram uma parte essencial no ambiente italiano: Flávio Mitridate (mestre de Pico) e Pablo de Heredia (de quem Pedro Galatino afirmou que também ensinou Pico).

  • Guilherme da Sicília (nome de batismo de Flávio Mitridate) era um judeu muito douto, batizado cerca de quatorze anos antes de 1481, que pregou em Roma perante o papa Sisto IV e o cardeal Giovanni Battista Cibo (futuro Inocêncio VIII).
  • Seu sermão sobre a Paixão de Cristo durou duas horas, foi apreciado pela curiosidade dos argumentos e pela sonoridade das palavras hebraicas e árabes, sendo aplaudido pelo papa e pelos cardeais.
  • Flávio Mitridate é provavelmente o convertido Juda Samuel ben Nissim Abul Farag de Girgenti, que tomou o nome de seu padrinho, Guilherme Raimundo Moncada, e fez carreira em Roma sob a proteção do cardeal de Melfi.
  • Após um crime misterioso (provavelmente um homicídio), Moncada teve que deixar Roma e a Itália em 1483, indo para a Alemanha, onde Rodolfo Agricola o elogiou como sábio em latim, grego, hebraico, caldeu e árabe.

Em 1486, Flávio Mitridate (já com esse nome) encontrou Pico della Mirandola em Perugia e tornou-se seu mestre de caldeu, após receber o juramento de que Pico não comunicaria a ninguém sua ciência.

  • Pico, na “Oração” de apresentação de suas teses (final de 1486), afirmou ter adquirido a peso de ouro os setenta livros cabalísticos de Esdras, que o papa Sisto IV teria mandado traduzir para o latim para a utilidade pública da fé.
  • A história dos livros traduzidos para Sisto IV parece ser uma invenção de Mitridate, e um estudo sério das traduções feitas para Pico nunca foi realizado.
  • Jaques Gaffarel, no início do século XVII, publicou o catálogo de três manuscritos que pertenceram a Pico (incluindo o comentário de Menahem de Recanati sobre o Pentateuco), comprados em Veneza.
  • Gaffarel relata que Pico cancelou seu próprio nome nos manuscritos onde o tradutor (Mitridate) o atacava, acusando-o de excessiva avidez de saber, sede de honras, falta de palavra, covardia, imodéstia, vaidade da beleza e outros vícios.

Pablo de Heredia, judeu de origem espanhola convertido na velhice, teve uma parte ainda mais importante na constituição da cabala cristã.

  • Suas duas obras são incunábulos difíceis de datar: a “Epístola dos segredos” (dedicada a Dom Íñigo Lopez de Mendoza, embaixador da Espanha em Roma entre 1486 e 1488) e “A Coroa do Rei” (sobre a Imaculada Conceição, dedicada ao papa Inocêncio VIII).
  • A “Epístola dos segredos” apresenta-se como a tradução de um texto hebraico chamado “Galli Razayà” (os mistérios revelados), atribuído a um rabino Neunias, filho de Hacana, que teria afirmado que o advento de Cristo ocorreria em cinquenta anos.
  • A obra cita um texto do Zohar interpolado e passou com o mesmo título para o “De arcanis catholicae veritatis” de Pedro Galatino (publicado em 1518), que teve extraordinária fortuna.
  • A fama de Shimôn bar Yochai (suposto autor do Zohar, que teria vivido na época de Jesus Cristo) foi tal que o Zohar foi editado por cristãos, enquanto outras obras da cabala eram queimadas com o Talmud.

A apologética antijudaica ganhou uma nova dimensão humanista com Pico della Mirandola, que preparou o programa da cabala cristã em sua “Oração”.

  • Pico afirmou ter lido os setenta livros de cima a baixo e encontrado neles não tanto a religião de Moisés, mas a religião cristã, incluindo o mistério da Trindade, a encarnação do Verbo, a divindade do Messias e o pecado original.
  • Declarou que não há ponto de controvérsia entre judeus e cristãos que não se possa combater e confundir os judeus com os livros dos cabalistas, não lhes restando nem um canto para se esconder.
  • A generosa audácia de Pico deve ser vista no contexto da tracotância de um jovem que apresentava novecentas teses sobre todas as ciências.

Pico dedicou-se ao estudo do hebraico, árabe e caldeu, e seu professor Elia del Medigo escreveu-lhe uma carta explicando os fundamentos da doutrina das Sefirot.

  • Elia del Medigo explicou que existem certas essências emanadas do “Infinito” (En-Sof), chamadas Sefirot ou numerações, que são de graus diferentes e agem pela potência de Deus.
  • Segundo os cabalistas, a ordem do mundo depende dessas Sefirot, enquanto do Infinito não se pode falar de pensamento, vontade ou qualquer determinação positiva.
  • Elia del Medigo citou como livros de cabala o “Sefer Hazzohar”, o “Me’irath ‘enayim” de Bahya ben Asher, o “Sha’aré ‘orah” de Yosef Gikatilia e o comentário de Menahem de Recanati sobre a Torá.

As “Conclusões” de Pico sobre a cabala se ordenam em duas séries: uma segundo a doutrina secreta dos sábios hebreus, e outra (72 conclusões) segundo a opinião própria do autor, confirmando a religião cristã a partir dos fundamentos dos sábios hebreus.

  • A famosa tese nona das “Conclusões mágicas” (que não há ciência que dê maior certeza da divindade de Cristo do que a magia e a cabala) foi considerada pela comissão de censura do papa Inocêncio VIII.
  • Tentativas de comentar sistematicamente as “Conclusões” foram feitas por Arcangelo da Burgonovo, Paolo Skalichius, Joseph de Voisin, o jesuíta Menocchio e Athanasius Kircher.
  • Gershom Scholem demonstrou que a tese 15 da primeira série de “Conclusões sobre Zoroastro” se explicava por um passo de um dos comentários traduzidos por Mitridate, e não pelo Bahir citado por Pico.

Entre os temas das “Conclusões” de Pico que chamaram a atenção dos cabalistas cristãos, destaca-se o dos segredos racionados na língua santa.

  • A conclusão 33 enuncia que não há nem uma letra em toda a Torá que não exponha os segredos das dez Sefirot, com sua forma, conjunções, separações, tortuosidade, direção, ausência, abundância, coroamento, fechamento, abertura e sequência.
  • Como exemplo, a conclusão 15 afirma que se ao nome de Abraão não tivesse sido acrescentada uma letra he, Abraão não teria podido gerar.

Sobre as Sefirot (numerações), Pico nunca deu uma enumeração completa, mas citou várias delas e estabeleceu correspondências com as esferas celestes.

  • A conclusão 4 da segunda série afirma que o En-Sof (Infinito) não é conectável às outras Middot, pois é a unidade abstrata, preliminar a elas, não coordenado nem conectado.
  • Pico citou Chokhmah (sabedoria), Tif’eret (glória ou beleza, chamado de “grande Adão”), Chesed (clemência) e Din (juízo), e estabeleceu que as dez Sefirot correspondem às dez esferas celestes, com Júpiter como quarta, Marte como quinta, o Sol como sexta, etc.
  • A conclusão 35 da primeira série afirma que nenhuma entidade espiritual que desça ao mundo terreno opera sem um “abito” (vestimenta), e que Deus, quando criou o mundo, se revestiu de dez abitos.

O tema das trinta e duas vias da sabedoria (dez Sefirot mais as vinte e duas letras do alfabeto) se completa com o das cinquenta portas da inteligência.

  • A conclusão 13 da primeira série enuncia que quem conhecer o mistério das portas da inteligência conhecerá o mistério do grande Jubileu.
  • As conclusões 68 e 69 da segunda série explicam que, a partir do fundamento do número dez e do primeiro número esférico, se pode conhecer o segredo das cinquenta portas da inteligência de Deus, da milésima geração e do reino de todos os séculos.
  • A conclusão 16 da segunda série afirma que, a partir do mistério das três letras contidas na palavra “shabbat”, se pode esclarecer que hoje se “sabatiza” o mundo porque o Filho de Deus se fez homem, e que no fim será o sábado, quando os homens forem regenerados no Filho de Deus.

A conclusão 9 da segunda série propunha um cálculo para a consumação dos séculos: dentro de 514 anos e 25 dias (a partir de 1486).

  • Nas “Disputationes adversus Astrologos” (1489), Pico zombou dos astrólogos que anunciaram o fim do cristianismo ou a vinda do Anticristo, embora no “Heptaplus” tenha calculado as idades do mundo em 6000 anos segundo a “profecia de Elias”.
  • Mellin de Saint-Gelais notou a contradição entre o “Heptaplus” (que se funda nas qualidades dos planetas) e as “Disputationes” (que impugnam a astrologia judiciária).
  • A conclusão sobre o cálculo do fim do mundo teve fortuna posterior: Theodorus Gramineus (1570) afirmou que Pico fixara a consumação no ano de 1586, e Gregório Michael (1676) concluiu que o dia pantocrítico cairia no ano de 1986.

Um número importante de “Conclusões” foi dedicado aos nomes divinos.

  • A conclusão 56-57 da segunda série afirma que quem puder transformar o número quatro no número dez poderá deduzir, a partir do nome inefável, o nome de 72 letras.
  • As conclusões 6-7 da segunda série estabelecem uma correspondência dos três grandes nomes de Deus de quatro letras com as três pessoas da Trindade: Eheyeh é o Pai, YHWH é o Filho e Adonai é o Espírito Santo.
  • A conclusão 14 afirma que pela letra Shin, que está no centro do nome de Jesus (Yeshu), se comunica cabalisticamente que o mundo esteve integralmente em paz, atingindo sua perfeição, quando o Yod se conjungiu com o Waw, o que aconteceu em Cristo.

As “Conclusões” convergiam no nome de Jesus e apresentavam um vocabulário novo (nomes de anjos, termos como Keneset Yisrael, Binsica).

  • A conclusão 14 interpreta o nome de Jesus (Yeshu) como significando “Deus filho de Deus e sabedoria do pai pela terceira pessoa da divindade, que é ardentíssimo fogo de amor”.
  • Um comentário anônimo do início do século XVII mostra as dificuldades dos leitores de Pico, que não sabiam onde encontrar os nomes dos anjos “Hagot” e “Thephsraim” e consideravam as conclusões sobre o nome de Jesus como futulidades arbitrárias.

Uma carta preciosa de um “amigo desconhecido” (1487) atesta a curiosidade despertada pelas “Conclusões” e interroga Pico sobre suas fontes.

  • O amigo desconhecido pergunta sobre a conclusão 15 da segunda série, que afirma que o nome inefável YHWH é o nome do Messias que deve vir, e que por ele se compreende que ele seria Deus filho de Deus pelo Espírito Santo.
  • O amigo desconhecido baseia-se no que leu no “comentário do primeiro capítulo das Lamentações”, onde o rabino Abba pergunta com que nome será chamado o Messias, e a resposta é “Adonai é o seu nome” (com o Tetragrama escrito em lugar de Adonai).

Após o escândalo de Roma, a retratação de 31 de março de 1487 e o processo por heresia, Pico retirou-se para Florença, onde escreveu o “Heptaplus”, o “De ente et uno” e as “Disputationes adversus astrologos”.

  • Em Ferrara, após a morte de Lourenço de Médici (1492), Pico estudou dia e noite livros hebraicos pertencentes a um judeu da Sicília recém-expulso dos domínios espanhóis.
  • O papa Alexandre VI, por carta de 18 de junho de 1493, absolveu Pico da culpa cometida pela publicação da “Apologia” e das “Conclusões”, sem retratar a condenação de seu predecessor Inocêncio VIII.
  • Pico morreu em 17 de novembro de 1494, enquanto Carlos VIII entrava em Florença.

Um eunuco espanhol, Clemente Abraão (chamado primeiro Isaque, rabino versado nas letras hebraicas), que serviu a Pico, entrou em São Marco após o batismo (23 de junho de 1493) e foi mestre de Sante Pagnini.

  • Savonarola considerava que seu convento tinha três homens notáveis nas três línguas (latim, grego e hebraico), sendo Pagnini o especialista em hebraico, sinal da eleição de sua ordem para o renovamento da Igreja.

A obra de Pico publicada por seu sobrinho (1498) difundiu o tema da “morte por meio do beijo” (mors osculi), já presente na conclusão 13 da segunda série.

  • A conclusão 13 afirma que quem opera mediante cabala sem a presença de estranhos, se se exercitar por muito tempo, morrerá em êxtase, mas se errar algo ou não se aproximar em estado de pureza, será devorado por Azazel.
  • O tema talmúdico foi retomado por Maimônides (morte por beijo de Moisés, Arão e Miriam), por Leão Hebreu, Jean Bodin, Johannes Reuchlin, Francesco Zorzi, Agrippa e Giordano Bruno.
  • Guy Le Fèvre de La Boderie, em sua tradução poética da “Harmonia” de Zorzi, escreveu: “Desse beijo de Deus, Enoque o consagrado foi daqui arrebatado”.

No “Heptaplus”, Pico referiu-se ao “antiquíssimo Simeão” (suposto autor do Zohar) e utilizou a profecia de Elias, além de apresentar uma longa exegese da palavra “Bereshith” (primeira palavra do Gênesis).

  • A conclusão 24 da segunda série faz referência ao Zohar, afirmando que, pela resposta dos cabalistas à pergunta sobre por que o passo da morte de Maria está unido ao da novilha vermelha em Números, fica demonstrado que a morte de Cristo ocorreu para expiar os pecados do gênero humano.
  • A teoria dos quatro mundos no “Heptaplus” (que desenvolve a imagem do Tabernáculo e do Candelabro) iluminou toda uma perspectiva da cabala cristã.

Conclui-se que, embora Pico della Mirandola tenha sido apenas um elo no desenvolvimento da cabala cristã no Renascimento, a lenda fez dele justamente o pai.

  • Pico abriu ao mundo humanista o caminho de tesouros fabulosos que seus maiores sucessores tentaram reencontrar.
  • A biblioteca de cabala de Pico foi comprada pelo cardeal Domenico Grimani, cuja parte foi posteriormente adquirida pelo Vaticano.
/home/mccastro/public_html/cristologia/data/pages/theosophos/cabala-crista/francois-secret/pico.txt · Last modified: by 127.0.0.1