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Prefácio

NICOLESCU, Basarab. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.

  • A obra de Jacob Boehme (1575-1624) é apresentada não como estudo erudito nem como divulgação, mas como uma leitura pessoal que oferece uma porta de entrada ao pensamento de um gigante do pensamento ocidental, escrita por um homem de cultura moderno interessado no advento de uma nova racionalidade.
    • Alexandre Koyré escreveu La Philosophie de Jakob Boehme e Pierre Deghaye escreveu La Naissance de Dieu — as duas análises críticas disponíveis ao público mais amplo na França
    • A especialidade do autor situa-se no campo da ciência, não da filosofia ou da história do pensamento
  • Boehme não é propriamente um místico, mas um representante do pensamento gnóstico, e sua obra integra o cerne da cultura ocidental como influência reconhecida sobre figuras das mais diversas orientações intelectuais.
    • Hegel o chamou de “o primeiro filósofo alemão”
    • Entre os influenciados por Boehme figuram Newton, Novalis, Schlegel, Goethe, Fichte e Schelling
    • O diálogo entre diferentes formas de conhecimento é considerado mais necessário hoje do que nunca
  • O encontro com os escritos de Boehme, há mais de quinze anos, revelou-se uma revelação — pois, uma vez adotada a chave de interpretação simbólica, sua linguagem aparentemente obscura torna-se cristalina e pode ser lida com a fluidez de um romance policial sobre tudo o que existe ou é concebível: divindade, cosmos e o próprio ser humano.
    • A reputação de obscuridade de Boehme dissolve-se quando o enquadramento simbólico — o único adequado — é aplicado
    • O alcance temático abrange a divindade, o cosmos e o ser humano
  • A leitura de Boehme alimentou uma questão já formulada anteriormente — como a ciência moderna nasceu no Ocidente — diante da insuficiência das explicações históricas e econômicas para responder a uma interrogação de tamanha amplitude.
    • O livro anterior em que essa questão foi formulada é Nous, la particule et le monde
    • A corrente orientalista contemporânea sustenta que conceitos orientais se assemelham aos fundamentos da física moderna, mas a ciência moderna nasceu no Ocidente
    • O estudo aprofundado de um modo de pensar e imaginar característico de uma época é indispensável para uma abordagem rigorosa da questão
  • A obra de Boehme revela-se um caso exemplar que ilustra o ambiente espiritual e cultural do qual a ciência moderna emergiu como semente, evidenciando um elo estrutural entre a Tradição ocidental e a física moderna — elo que persiste a despeito da ruptura declarada entre ciência e Tradição.
    • A ruptura entre ciência e Tradição é frequentemente absolutizada, como se qualquer aproximação entre ambas fosse perigosa e ilusória
    • Charles Morazé, em Les Origines sacrées des sciences modernes, identificou constantes estruturais — como figuras de três e quatro lados — que atravessam as fronteiras entre ciência e Tradição
    • A obra de Boehme permite ampliar esse quadro e descobrir, por metodologias distintas, uma continuidade em nível superior de uma verdadeira visão de mundo
  • Boehme é situado firmemente na modernidade — não como precursor da filosofia moderna, mas como filósofo moderno ele mesmo — e sua sabedoria deve ser considerada por si mesma, desembaraçada da literatura romântica e da filosofia idealista, e sobretudo de Hegel.
    • Pierre Deghaye afirma: “Não fazemos de Boehme o precursor da filosofia moderna. Consideramos sua sabedoria por ela mesma… Para redescobrir Boehme, devemos nos libertar da literatura romântica e da filosofia idealista. Devemos sobretudo esquecer Hegel.”
    • Deghaye também escreve que “Boehme não é de modo algum um filósofo moderno. Seu pensamento não se desenvolve no plano do pensamento abstrato” — posição com a qual há discordância
    • A filosofia ocidental, em grande parte, ignora o vivido, o experiencial — e especialmente ignora a ciência
  • A ciência contemporânea é capaz de oferecer nova inspiração à filosofia, pois não se reduz ao pensamento abstrato — ela se ocupa essencialmente da resistência da Natureza às nossas representações e experiências, constituindo assim momentos da história da realidade.
    • Uma filosofia moderna que ignore a história da realidade torna-se inconcebível
    • A maioria dos filósofos ou ignora completamente a ciência, reduzindo-a a receitas técnicas sem alcance ontológico, ou a invoca ocasionalmente como ilustração passageira
  • Os escritos de Boehme são vivos como todos os grandes textos da humanidade — fundados em experiência vivida que talvez transcenda o espaço geográfico e o tempo histórico, mas que oferecem uma visão da dupla natureza da Natureza: ao mesmo tempo eterna e ancorada no tempo.
    • A obra de Boehme nutre-se do tempo e da história
    • A Natureza é apresentada como simultaneamente eterna e temporal
  • Como um físico moderno, Boehme é assombrado pela ideia da invariância dos processos cósmicos e pela coexistência paradoxal de unidade e diversidade — tudo é movimento, criação e aniquilação contínuas, uma gênese perpétua onde nada é estável, mas esse movimento é estruturado por uma ordem complexa e perceptível.
    • Boehme enuncia: “até mesmo Deus é gerado por esse movimento, ele nasce não no mundo, mas com o mundo”
    • O movimento não é caótico nem anárquico — é organizado por uma ordem certamente complexa e sutil, mas ainda assim perceptível
  • A ausência de um sistema de valores adaptado à complexidade do mundo moderno pode conduzir à autodestruição da espécie humana, tornando a formulação de uma nova filosofia da Natureza uma urgência imediata — e é nessa busca que Jacob Boehme se revela um contemporâneo.
    • A formulação de uma nova filosofia da Natureza é considerada de urgência imediata
    • Boehme é proclamado contemporâneo nessa busca
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