Cosmologia
NICOLESCU, Basarab. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.
Uma cosmologia da autocriação é necessariamente trágica?
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Segundo Jakob Boehme, toda criação começa com sofrimento e pela “roda da angústia”, incluindo o próprio Deus, que precisa morrer para si mesmo para nascer e se autoconhecer.
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A cosmologia científica moderna, baseada na teoria do “big bang”, também descreve um universo que emerge de uma “bola de fogo” infernal e potencialmente contém tudo, evoluindo por meio de um resfriamento contínuo.
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A complexificação do universo passa por “janelas” extremamente estreitas, sugerindo um “princípio antrópico” que indica uma vasta autocoerência regendo a evolução cósmica.
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Questões fundamentais persistem, como o surgimento do tempo a partir do não-tempo e a finalidade dos ajustes finos entre parâmetros físicos, que parecem levar à morte térmica do universo.
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Steven Weinberg e Edgar Morin questionam o caráter absurdo ou trágico do universo, enquanto a ciência moderna, por sua metodologia, não pode responder a tais perguntas, tornando necessária uma nova Filosofia da Natureza.
a) Da necessidade do espelho: a dupla natureza da Natureza
Existe uma dupla acepção da palavra “natureza” na obra de Jakob Boehme, cuja negligência gera confusões.
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O “Imotivado” está “fora de toda natureza” e, ao consentir em se autoconhecer, morre e renasce conforme uma natureza divina regida pelo ciclo septenário.
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Citação: “O Pai é chamado de Deus santo somente no Filho … No fogo, Ele se chama Deus irado; mas na luz ou fogo do amor, Ele se chama Deus santo; e na natureza tenebrosa, Ele não se chama Deus.”
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A “substância divina, que é a carne celeste na Sabedoria” confere materialidade ao corpo de Deus, condicionando o ciclo septenário e a comunicação entre todos os níveis da Realidade.
A necessidade do espelho surge com a criação de outros níveis de Realidade que refletem, com deformação, a vida divina.
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Existem duas naturezas: uma “íntegra” (eterna e não criatural) e outra “criatural”, sendo que não distinguir ambas leva ao panteísmo, segundo Antoine Faivre.
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A interação entre as duas naturezas explica o “Deus revelado” e a grandeza do mundo exterior, onde tudo se torna “signo” de uma evolução possível e de uma coerência cósmica.
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Citação: “… toda a natureza, com todas as potências que nela estão; a largura, a profundidade, a altura, o céu, a terra e tudo o que ela contém… todas estas coisas são o corpo de Deus…”
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O corpo de Deus manifesto no mundo é uma imagem por isomorfismo do corpo na natureza divina, cuja pureza depende da capacidade humana de explorar e viver a própria natureza.
A unidade e a diversidade coexistem contraditoriamente, manifestando-se na confrontação entre um centrum naturae (concretização) e um centrum de luz (espiritualização).
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O equilíbrio contraditório entre os dois centros faz do homem o espelho do universo.
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Citação: “… ele encontra tudo neste mundo, especialmente em si mesmo, assim como em tudo o que vive e se move … o poder divino se espelha em todas as coisas…”
b) Instantaneidade e não separabilidade na cosmologia boehmiana
O ciclo septenário descrito linearmente se metamorfoseia em um círculo onde as sete qualidades-energias são interdependentes e devem ser concebidas em sua simultaneidade.
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Citação: “… a divindade é como uma roda formada de sete rodas uma dentro da outra, onde não se vê nem começo nem fim.”
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As sete qualidades-energias se engendram mutuamente, permanecendo distintas, com predominância de uma ou outra tendência na manifestação.
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A imagem da divindade como uma “roda” é poética, simbólica e racional, conforme descrito em “A Aurora Nascente”.
A roda fechada como um “globo esférico” é simultaneamente aberta, pois os intervalos de descontinuidade permitem que ela se engate em todas as outras rodas dos ciclos septenários em diferentes níveis da Realidade.
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Um fluxo de vida e informação se transmite a todos os níveis, enquanto a divindade se alimenta da vida desses níveis, realizando sua verdadeira autoconsciência.
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A visão de uma grande cadeia cósmica, um Todo em perpétuo movimento, aproxima-se do pensamento sistêmico contemporâneo.
A instantaneidade e a não separabilidade caracterizam o universo boehmiano.
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A unidade do encadeamento indefinido dos ciclos septenários escapa ao espaço-tempo de cada nível.
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Citação: “… a roda da divindade não cessa de parecer admirável em sua ascensão, e no entanto ela permanece igualmente em seu lugar.”
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A não separabilidade quântica, descoberta em escala microscópica, pode ser interpretada como um “signo” de uma não separabilidade generalizada, sem confundir os níveis de Realidade.
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A dinâmica dos ciclos septenários é um instrumento simbólico para decifrar o mundo, onde tudo é “signo” da interação do conjunto dos cosmos.
c) A unidade na diversidade e a diversidade pela unidade
A conciliação entre “unidade” e “diversidade” em Boehme é compreendida pelo conceito de “corporação”, onde o corpo resultante do ciclo septenário varia conforme as leis de cada cosmos.
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Os diferentes corpos (de Deus, anjos, demônios, humanos) são intercomunicantes e formam um só corpo.
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Citação: “Pois, na geração mais interior, a divindade superior e inferior é um só corpo. Tudo está aberto.”
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Citação: “… o corpo terrestre que carregais faz um só com a totalidade do corpo inflamado deste mundo… Tudo isso faz um só corpo.”
A liberdade e a não determinação em cada cosmos permitem que o processo do ciclo septenário tome diferentes direções.
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Deus não previu a queda de Lúcifer, mostrando que nem tudo é predeterminado.
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A unidade diz respeito ao cumprimento de todos os ciclos septenários, enquanto a diversidade aparece no processo particular de cada ciclo, com suas flutuações e deformações.
A proliferação de teorias de “unificação” na física de partículas, como a teoria das supercordas, ressoa com a visão boehmiana de um todo interconectado.
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A hipótese do “bootstrap” (uma partícula é o que é porque todas as outras existem) e a hipótese “Gaia” (Terra como organismo vivo) são exemplos de ideias de interdependência universal.
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Citação: “O sol é gerado e produzido de todas as estrelas… ele é ligado com as outras estrelas, como não fazendo com elas todas senão uma única estrela.”
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O fluxo energético que atravessa todos os cosmos para assegurar sua interação implica que nada é “vazio”.
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Na cosmologia boehmiana, é o amor que é a “fonte da unidade da intercomunicação”, enquanto a energia física do universo, inclusive a quântica, parece derivar da primeira tríade do ciclo septenário, a “roda da angústia”.
d) Espaço e tempo: realidade e ilusão
Cada ciclo septenário se desenrola em seu próprio tempo, mas a unidade de todos os ciclos se opera em um não tempo.
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O tempo bem determinado é uma aproximação, uma seção no não tempo.
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Citação: “o tempo se encontra na eternidade.”
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O espaço de cada cosmos é uma aproximação, uma seção no não espaço que caracteriza a unidade de todos os cosmos.
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Citação: “Pois o verdadeiro céu está em toda parte, mesmo no lugar onde você está e onde você anda.”
A cosmologia boehmiana fala da possibilidade da evolução da alma humana para a abolição do espaço e do tempo, mas se trata de uma potencialidade que exige um caminho no tempo.
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Sem sofrimento e passagem pela “roda da angústia”, a luz não poderia surgir.
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Boehme reconhece o valor do tempo como mediador entre o Indeterminado e seu espelho, tornando o mundo um lugar de reparação, não de queda.
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O tempo da natureza, da história e da evolução humana tem um sentido (significação e direção), que é o de seu próprio abolimento progressivo pelo cumprimento do ciclo septenário.
