4ª Centúria
1. A pessoa que rompeu os vínculos da amizade lisonjeira de seu intelecto pela carne fez morrer os maus atos do corpo por meio do Espírito vivificante.
2. Não penses que o intelecto esteja livre de seu apego à carne enquanto ainda for perturbado pelas atividades que pertencem à carne.
3. Assim como os sentidos e os objetos sensíveis pertencem à carne, também o intelecto e as realidades inteligíveis pertencem à alma.
4. Retira tua alma da percepção dos objetos sensíveis, e o intelecto se encontrará em Deus e no âmbito das realidades inteligíveis.
5. As naturezas inteligíveis, que só podem ser apreendidas pelo intelecto, pertencem ao âmbito da divindade, enquanto os sentidos e os objetos sensíveis foram criados para o serviço do intelecto.
6. Usa os sentidos e os objetos sensíveis como meio para a contemplação espiritual, mas, ao contrário, não uses aquilo que provoca o desejo da carne como alimento para os sentidos.
7. Foi-te ordenado mortificar os atos do corpo, para que, uma vez morta a alma para o prazer, possas reconduzi-la à vida por meio de teus labores ascéticos.
8. Sê governado por Deus e governa teus sentidos; e, estando em nível superior, não concedas autoridade ao que te é inferior.
9. Deus, que é eterno, ilimitado e infinito, prometeu bênçãos eternas, ilimitadas e inexprimíveis àqueles que lhe obedecem.
10. A função do intelecto é viver em Deus e meditar sobre ele, sobre sua providência e seus temíveis juízos.
11. Tens o poder de inclinar-te para cima ou para baixo: escolhe o que é superior e submeterás o que é inferior.
12. Porque são obras de Deus, que é ele mesmo bom, os sentidos e os objetos sensíveis são bons; mas de modo algum podem ser comparados ao intelecto e às realidades inteligíveis.
13. O Senhor criou seres inteligentes e noéticos com capacidade para receber o Espírito e alcançar o conhecimento dele mesmo; ele trouxe à existência os sentidos e os objetos sensíveis para servir tais seres.
14. Assim como é absurdo submeter um bom senhor a um servo indigno, também é absurdo submeter o intelecto deiforme ao corpo corruptível.
15. Um intelecto que não controla os sentidos cairá no mal por causa deles: enganado pelo prazer dos objetos sensíveis, deprava-se a si mesmo.
16. Enquanto controlas teus sentidos, controla também tua memória; pois, quando suas predisposições são excitadas pelos sentidos, elas incitam as paixões.
17. Mantém teu corpo sob controle e ora constantemente; desse modo, em breve estarás livre dos pensamentos que surgem de tuas predisposições.
18. Dedica-te incessantemente às palavras de Deus: a aplicação a elas destrói as paixões.
19. A leitura espiritual, as vigílias, a oração e a salmodia impedem que o intelecto seja iludido pelas paixões.
20. Assim como a primavera estimula o crescimento das plantas, também a impassibilidade estimula o intelecto a alcançar o conhecimento espiritual dos seres criados.
21. Guarda os mandamentos, e encontrarás paz; ama Deus, e alcançarás o conhecimento espiritual.
22. Foste sentenciado a comer o pão do conhecimento espiritual com fadiga, luta e suor de teu rosto.
23. A negligência levou nosso primeiro antepassado a transgredir, e, em vez de desfrutar o paraíso, foi condenado a morrer.
24. Também tu deves manter Eva sob controle; e deves vigiar a serpente, para que ela não seja enganada por esta e te dê o fruto da árvore.
25. Assim como, por natureza, a alma dá vida ao corpo, também a virtude e o conhecimento espiritual dão vida à alma.
26. Um intelecto presunçoso é uma nuvem sem água, levada pelos ventos da vanglória e do orgulho.
27. Ao controlar tua vanglória, guarda-te da impureza, para que não evites o louvor apenas para cair na desonra.
28. Rejeitando a vanglória, volta-te para Deus e guarda-te para que não te tornes presunçoso ou impuro.
29. Um sinal da vanglória é a ostentação; do orgulho, a cólera e o desprezo pelos outros.
30. Ao extirpar a gula, guarda-te de buscar a estima dos outros, exibindo a palidez de teu rosto.
31. Jejuar bem é desfrutar alimento simples em pequenas quantidades e evitar a estima dos outros.
32. Depois de jejuar até tarde no dia, não comas até a saciedade, para que, fazendo isso, não reedifiques aquilo que derrubaste.
33. Se não bebes vinho, tampouco te empanturres de água; pois, se assim fizeres, estarás fornecendo a ti mesmo o mesmo combustível para a impureza.
34. O orgulho priva-nos da ajuda de Deus, tornando-nos excessivamente confiantes em nós mesmos e arrogantes para com os outros.
35. Há dois remédios contra o orgulho; e, se não te valeres deles, encontrar-te-ás entregue a um terceiro, muito mais doloroso de suportar.
36. A oração com lágrimas e a ausência de desprezo por qualquer pessoa destroem o orgulho; mas também o fazem os castigos infligidos contra nossa vontade.
37. O castigo por meio das provações que nos são impostas é uma vara espiritual, que nos ensina a humildade quando, em nossa insensatez, pensamos demasiado de nós mesmos.
38. A tarefa do intelecto é rejeitar qualquer pensamento que secretamente difame um semelhante.
39. Assim como o jardineiro que não remove as ervas daninhas de seu jardim sufoca suas hortaliças, também o intelecto que não purifica seus pensamentos desperdiça seus esforços.
40. Sábio é aquele que aceita conselho, especialmente o de um pai espiritual que o aconselha segundo a vontade de Deus.
41. Um homem entorpecido pelas paixões é impermeável ao conselho e não aceitará nenhuma correção espiritual.
42. Aquele que não aceita conselho jamais seguirá pelo caminho reto, mas sempre se encontrará entre penhascos e desfiladeiros.
43. O intelecto verdadeiramente monástico é aquele que renunciou aos sentidos e não suporta nem mesmo o pensamento do prazer sensual.
44. O intelecto verdadeiramente médico é aquele que primeiro cura a si mesmo e depois cura os outros das doenças de que foi curado.
45. Busca a virtude e não sejas privado dela, para que não vivas sordidamente e morras de morte miserável.
46. Nosso Senhor Jesus concedeu luz a todos os homens, mas aqueles que não confiam nele trazem trevas sobre si mesmos.
47. Não penses que a perda da virtude seja coisa menor, pois foi por meio de tal perda que a morte veio ao mundo.
48. A obediência aos mandamentos é a ressurreição dos mortos, pois, por natureza, a vida segue a virtude.
49. Quando o intelecto foi entorpecido pela ruptura do mandamento, a morte do corpo foi consequência necessária.
50. Assim como Adão, ao transgredir, tornou-se sujeito à morte, também o Salvador, pela obediência, pôs a morte à morte.
51. Faz morrer o mal, para que não ressuscites morto e, assim, passes de uma morte menor a uma morte maior.
52. Por causa da transgressão de Adão, o Salvador tornou-se homem, a fim de que, anulando a sentença pronunciada contra nós, ressuscitasse todos nós.
53. Aquele que fez morrer suas paixões e venceu a ignorância passa de vida em vida.
54. Examina as Escrituras e encontrarás os mandamentos; faze o que elas dizem e serás libertado de tuas paixões.
55. A obediência a um mandamento purifica a alma, e a purificação da alma conduz à sua participação na luz.
56. A árvore da vida é o conhecimento de Deus; quando, sendo purificado, participas desse conhecimento, alcanças a imortalidade.
57. O primeiro passo na prática das virtudes é a fé em Cristo; sua consumação, o amor de Cristo.
58. Jesus é o Cristo, nosso Senhor e nosso Deus, que nos concede fé nele para que vivamos.
59. Ele manifestou-se a nós em alma, corpo e divindade para que, como Deus, pudesse libertar alma e corpo da morte.
60. Adquiramos a fé para que alcancemos o amor; pois o amor dá nascimento à iluminação do conhecimento espiritual.
61. A aquisição da fé conduz sucessivamente ao temor de Deus, à abstenção do prazer sensual, à perseverança paciente no sofrimento, à esperança em Deus, à impassibilidade e ao amor.
62. O amor genuíno dá nascimento ao conhecimento espiritual do mundo criado. A isso sucede o desejo de todos os desejos: a graça da teologia.
63. Quando o intelecto controla as paixões, sem dúvida o faz por temor, pois crê nas ameaças e promessas de Deus.
64. Quando te foi dada a fé, exige-se de ti o autocontrole; quando o autocontrole se tornou habitual, ele dá nascimento à perseverança paciente, disposição que aceita alegremente o sofrimento.
65. O sinal da perseverança paciente é a alegria no sofrimento; e o intelecto, confiando nessa perseverança paciente, espera alcançar o que foi prometido e escapar do que foi ameaçado.
66. A expectativa das bênçãos reservadas liga o intelecto àquilo que ele espera. Quando medita continuamente sobre essas bênçãos, esquece as coisas deste mundo.
67. Aquele que provou as coisas pelas quais espera desprezará as coisas deste mundo: todo o seu anelo será gasto naquilo que espera.
68. É Deus quem prometeu as bênçãos reservadas; e a pessoa autodisciplinada que tem fé em Deus anela por aquilo que está reservado como se estivesse presente.
69. O sinal de que o intelecto habita entre as bênçãos pelas quais espera é seu total esquecimento das coisas mundanas e o crescimento de seu conhecimento daquilo que está reservado.
70. A impassibilidade ensinada pelo Deus da verdade é uma qualidade nobre; por meio dela, ele cumpre as aspirações da alma devota.
71. As bênçãos reservadas aos herdeiros da promessa estão além da eternidade, antes de todos os séculos, e transcendem tanto o intelecto quanto o pensamento.
72. Regulemos nossas vidas segundo as regras da verdadeira fé, para que não nos desviemos para as paixões e, assim, deixemos de alcançar aquilo que esperamos.
73. Jesus é o Cristo, um da Santa Trindade. Estás destinado a ser seu herdeiro.
74. Se Deus te ensinou um conhecimento espiritual dos seres criados, não duvidarás das palavras da Escritura acerca das bênçãos reservadas.
75. Segundo o grau em que o intelecto é despojado das paixões, o Espírito Santo inicia o intelecto nos mistérios da era vindoura.
76. Quanto mais o intelecto é purificado, tanto mais à alma é concedido o conhecimento espiritual dos princípios divinos.
77. Aquele que disciplinou seu corpo e habita em estado de conhecimento espiritual descobre que, por meio desse conhecimento, é purificado ainda mais.
78. O intelecto que começa a buscar a sabedoria divina parte da fé; em seguida, passa pelos estágios intermediários até chegar novamente à fé, desta vez, porém, do tipo mais elevado.
79. Inicialmente, nossa busca da sabedoria é impelida pelo temor; mas, à medida que alcançamos nossa meta, somos conduzidos adiante pelo amor.
80. O intelecto que inicia sua busca da sabedoria divina com fé simples finalmente alcançará uma teologia que transcende o intelecto e que se caracteriza pela fé incessante do tipo mais elevado e pela contemplação do invisível.
81. Os princípios divinos contemplados pelos santos não revelam a essência de Deus, mas as qualidades que lhe pertencem.
82. Dos princípios que pertencem a Deus, alguns devem ser compreendidos afirmativamente e outros negativamente.
83. Por exemplo, ser, divindade, bondade e tudo o mais que atribuímos a Deus de modo positivo, ou catafaticamente, devem ser compreendidos afirmativamente. A ausência de origem, a infinitude, a indefinibilidade e assim por diante devem ser compreendidas de modo negativo, ou apofaticamente.
84. Uma vez que a divindade mais íntima da Santa Trindade é uma única essência que transcende o intelecto e o pensamento, o que acaba de ser dito, bem como outras afirmações semelhantes, refere-se às qualidades que pertencem à essência, e não à própria essência.
85. Assim como falamos da única Deidade da Santa Trindade, também glorificamos as três Pessoas, ou hipóstases, da única Deidade.
86. As qualidades afirmativas e negativas mencionadas acima devem ser compreendidas como comuns à santa e consubstancial Trindade, e não como indicadoras das características individuais das três Pessoas. A maioria dessas características individuais deve ser compreendida afirmativamente, embora algumas devam ser compreendidas negativamente.
87. As características individuais das Pessoas divinas são a paternidade, a filiação, a processão e tudo o mais que delas se possa dizer individualmente.
88. Uma pessoa pode ser definida como uma essência com características individuais. Assim, cada pessoa possui tanto aquilo que é comum à essência quanto aquilo que pertence individualmente à pessoa.
89. Das qualidades comuns à Santa Trindade, aquelas predicadas dela negativamente aplicam-se mais apropriadamente do que aquelas atribuídas positivamente. Mas isso não ocorre com as características individuais. Como se observou, algumas delas são expressas afirmativamente e outras negativamente; geração e não geração são, respectivamente, exemplos de ambas. Assim, a não geração difere da geração apenas quanto ao significado, não quanto à propriedade: o primeiro termo exprime o fato de que o Pai não foi gerado, e o segundo, que o Filho foi gerado.
90. Verbos e substantivos são usados, como se disse, para indicar os princípios que, na contemplação, apreendemos como pertencentes à essência da Santa Trindade, mas não se referem à própria essência. Pois os princípios da essência não podem ser conhecidos pelo intelecto nem expressos em palavras: são conhecidos somente pela Santa Trindade.
91. Assim como se diz que a única essência da Deidade existe em três Pessoas, assim também se confessa que a Santa Trindade possui uma só essência.
92. Considera-se o Pai como sem origem e como fonte: sem origem porque não é gerado, e fonte porque é o gerador do Filho e aquele que envia o Espírito Santo, ambos os quais são, por essência, dele e nele desde toda a eternidade.
93. Paradoxalmente, o Um move-se de si mesmo para os Três e, contudo, permanece Um, enquanto os Três retornam ao Um e, contudo, permanecem Três.
94. Ademais, o Filho e o Espírito são considerados não sem origem e, contudo, desde toda a eternidade. Não são sem origem porque o Pai é sua origem e fonte; mas são eternos porque coexistem com o Pai, um gerado por ele e o outro procedente dele desde toda a eternidade.
95. A única divindade da Trindade é indivisa, e as três Pessoas da única divindade são inconfusas.
96. As características individuais do Pai são descritas como ausência de origem e não geração; as do Filho, como copresença na fonte e como ser gerado por ela; e as do Espírito Santo, como copresença na fonte e como proceder dela. A origem do Filho e do Espírito Santo não deve ser considerada temporal: como poderia sê-lo? Ao contrário, o termo origem indica a fonte da qual sua existência é eternamente derivada, como a luz do sol. Pois eles se originam dessa fonte segundo sua essência, embora de modo algum sejam inferiores ou posteriores a ela.
97. Cada Pessoa preserva suas características individuais de modo imutável e inamovível; e a natureza comum de sua essência, isto é, sua divindade, é indivisível.
98. Confessamos a Unidade na Trindade e a Trindade na Unidade, dividida mas sem divisão, e unida mas com distinções.
99. O Pai é a única origem de todas as coisas. Ele é a origem do Filho e do Espírito como seu gerador e fonte, coeterno, coinfinito, ilimitado, consubstancial e indiviso. Ele é a origem das coisas criadas, como aquele que as produz, por elas provê e as julga por meio do Filho no Espírito Santo. Pois todas as coisas são dele, por meio dele e têm nele seu fim. A ele seja a glória por todos os séculos. Amém.
100. Ademais, diz-se que o Filho e o Espírito Santo são coeternos com o Pai, mas não co-sem-origem com ele.
São coeternos porque coexistem com o Pai desde a eternidade; mas não são co-sem-origem porque não são sem fonte: como já se disse, são derivados dele como a luz do sol, ainda que não sejam inferiores nem posteriores a ele. Também se diz que são sem origem no sentido de que não têm origem no tempo. Se assim não fosse, seriam concebidos como sujeitos ao tempo, ao passo que é deles que o próprio tempo deriva. Assim, são sem origem não quanto à sua fonte, mas quanto ao tempo. Pois existem antes de todo tempo e de todos os séculos, e os transcendem; e é deles que todo tempo e todos os séculos derivam, juntamente com tudo o que está no tempo e nos séculos. Isso porque são, como se disse, coeternos com o Pai; a ele, com eles, sejam a glória e o poder por todos os séculos. Amém.
