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mrf:eckhart:sermoes-tratados:sermoes:1:1-comentario

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Jeanne Ancelet-Hustache

Data desconhecida do sermão.

Se dirige às pessoas de bem, aquelas que realizam os deveres ordinários do cristão, com propósito de chamá-las para uma dignidade mais elevada. Como Cristo expulsa os vendedores do Templo (Purificação do Templo), a alma deve expulsar todo o criado para que Deus estabeleça nela sua morada.

Trata das relações íntimas da alma com Deus. Jesus se recebe a todo tempo e fora do tempo de seu Pai celeste, para refluir sem cessar a ele. Da mesma forma o homem liberado das obras e das “imagens”, quer dizer das representações intelectuais, recebe na intemporabilidade o dom Divino e o faz nascer por sua vez em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Alta nobreza da alma criada à imagem de Deus conforme o Gênesis.

  • Limite da semelhança entre a alma e Deus: a alma é criada enquanto Deus é incriado.

Eckhart tenta fazer compreender o que as palavras humanas não poderiam plenamente exprimir: “Quando a alma chega à luz sem mistura, ela penetra em seu nada, tão longe neste nada de seu algo de criado que ela não pode absolutamente retornar por sua própria força em seu algo de criado”. É preciso que Deus a reconduza aí.

  • A alma sai de seu estado normal para penetrar na “luz sem mistura”, quer dizer a natureza inefável de Deus, a Deidade, e não pode retornar senão sustentada pelo Deus incriado. Entendemos bem que este “nada” do qual Eckhart aqui fala não deve ser interpretado no mesmo sentido que o “nada” de todo criado. O contexto nos mostra que este “Nada” é o “algo” na alma que o mestre não costuma assim designar. Os termos são mesmo invertidos: a alma penetra em seu “nada” (nihtes niht), nada de nada, em seu “fundo” onde ela se une ao “fundo” divino. Ela correu o risco de se extinguir em Deus e é preciso que o Deus incriado a reconduza em seu “algo” (ihtes iht) de criado. Esta passagem trata portanto da identidade do “fundo”da alma e do “fundo de Deus.

Relações da alma com o Pai e o Filho. Jesus fala na alma, ou melhor é o Pai que aí imprime seu Verbo lhe dando sua natureza. Ao mesmo tempo que ele mesmo, o pai exprime todas as coisas criadas segundo suas “imagens”, sobretudo aquelas dos espíritos dotados de inteligência. Esta palavra “imagens” tem um sentido diferente daquele que o predicador lhe deu acima: trata-se aqui da forma que as coisas criadas têm de toda eternidade no intelecto do Criador. Na Medida onde elas permanecem “no interior” de Deus, estas imagens são indistintas, mas desde que elas são expressas na criação, elas não são mais idênticas ao Verbo, tendo adquirido seu ser próprio; no entanto, pelas podem obter pela graça uma similitude com o Verbo. Jesus fala na alma e revela o Pai com uma sabedoria e uma doçura infinitas. Esta união do verbo com a alma dissipa nela as trevas. Mais nada, nem alegria nem sofrimento, podem perturbá-la e ela progride em todas as virtudes.

“Então o Homem Exterior obedece ao Homem Interior até sua morte e está então em todo tempo em uma paz constante no serviço de Deus” (frase retida nos primeiros dois atos de acusação de Colônia).


O primeiro sermão de Eckhart na grande edição contém alguns dos principais temas do mestre. Não sabemos a data dele mais do que a dos outros sermões, mas seu conteúdo nos prova que Mestre Eckhart está em plena posse de sua doutrina.

Ele adverte seus ouvintes de que falará apenas de pessoas boas (von guoten liuten) e obviamente para elas: aqueles que cumprem os deveres ordinários do cristão, com a intenção de chamá-las a uma dignidade superior. Assim como Cristo expulsou os vendedores do Templo, a alma deve expulsar tudo o que é criado para que Deus possa estabelecer nela a sua morada.

Eckhart trata da relação íntima da alma com Deus. Jesus recebe a si mesmo em todos os momentos e fora do tempo de seu Pai celestial, para fluir incessantemente para ele. Do mesmo modo, o homem, liberto das obras e das “imagens”, isto é, das representações intelectuais, recebe na intemporalidade o dom Divino e o gera por sua vez em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Desde as primeiras linhas do sermão, Eckhart falou da alta nobreza da alma citando o texto do Gênesis que diz que ela foi criada à imagem de Deus. Só Deus está acima da alma humana, mas o mestre marca com uma palavra o limite da semelhança entre a alma e Deus: o fato de que a alma é criada enquanto Deus é incriado.

Encontramos então uma passagem em que Eckhart tenta transmitir o que as palavras humanas não podem expressar plenamente: “Quando a alma alcança a luz pura, ela entra em seu nada, tão longe nesse nada de seu algo de criado que ela absolutamente não pode retornar por sua própria força em seu algo de criado”. Deus tem que trazê-la de volta.

A alma sai do seu estado normal para entrar na “luz sem mistura”, ou seja, na natureza inefável de Deus, a Deidade, e só pode voltar apoiada pelo Deus incriado. Compreendemos claramente que este “nada” de que fala Eckhart aqui não deve ser interpretado no mesmo sentido que o “nada” de todo o criado. O contexto nos mostra que esse “nada” é o “algo” na alma que o mestre não costuma designar como tal. Os termos são até invertidos: a alma penetra em seu “nada” (nihtes niht), nada de nada, em seu “fundo” onde se une ao “fundo” divino. Ela correu o risco de se aniquilar em Deus e o Deus incriado deve trazê-la de volta ao seu “algo” criado (ihtes iht). Esta passagem, portanto, trata da identidade do “fundo” da alma e do “fundo” de Deus.

Eckhart então evoca a relação da alma com o Pai e o Filho. Jesus fala na alma, ou melhor, é o Pai que imprime ali a sua Palavra, dando-lhe a sua natureza. Junto a si mesmo, o Pai expressa todas as coisas criadas segundo suas “imagens”, especialmente as de espíritos dotados de inteligência. Esta palavra “imagens” tem um significado diferente daquele que o pregador lhe deu acima: trata-se aqui da forma que as coisas criadas têm desde toda a eternidade no intelecto do Criador. Na Medida em que habitam “dentro” de Deus, essas imagens são indistintas, mas assim que se expressam na criação, não são mais idênticas ao Verbo, tendo adquirido seu próprio ser; no entanto, eles podem obter pela graça uma semelhança com a Palavra. Jesus fala na alma e revela o Pai com infinita sabedoria e mansidão. Esta união da Palavra com a alma dissipa a escuridão dentro dela. Nada, nem alegria nem sofrimento, pode perturbá-la e ela progride em todas as virtudes.

“Então o homem exterior obedece ao homem interior até sua morte, e então ele está sempre em paz constante no serviço de Deus. »

Esta frase, uma das últimas do sermão, foi mantida nas duas primeiras acusações de Colônia.

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