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AMIGOS DE DEUS

ANSTETT, Jean-Jacques. Une Théologie Germanique. Traduction du Manuscrit de 1497. Paris: PUF, 1983

Tanto leigos quanto religiosos, provenientes de diversos meios sociais, os Amigos de Deus não formavam uma congregação organizada. Por meio de uma intensa piedade pessoal, à qual não era estranha uma certa lassidão pela escolástica, eles pretendiam reagir contra a mediocridade da vida espiritual entre os fiéis e no clero, bem como contra os desordens dos quais a Igreja não estava isenta. Foi permanecendo na Igreja e no mundo que tentaram uma regeneração do corpo cristão: Cristo não havia pedido que seus discípulos e amigos fossem retirados do mundo (João 15, 14; 17, 15) e, longe de serem favoráveis ao monaquismo, consideravam que valia mais socorrer os pobres do que construir conventos. Os Amigos de Deus tinham uma comunidade importante em Estrasburgo na época em que Tauler pregou ali (1347); ela recebia boa parte de seu alimento espiritual de obras de um misterioso Amigo de Deus do Oberland, do País do Alto. Esse personagem fictício, que vivia em uma região elevada tanto geograficamente quanto, sobretudo, espiritualmente, era provavelmente o rico cambista de Estrasburgo Rulman Merswin (1307-1382): após uma crise religiosa, ele havia renunciado aos negócios, um pouco como Pedro Valdo dois séculos antes, para dedicar sua existência às coisas de Deus; teve Tauler como diretor e, inversamente, teria sido o responsável por uma segunda conversão do dominicano, se, pelo menos, dermos algum crédito ao que relata O Livro do Mestre, atribuível em parte a Merswin, onde um eremita, Amigo de Deus, converte um mestre em teologia sagrada a uma fé mais interior e mais viva; mas a crítica estabeleceu que, nesse texto, as intenções edificantes superam de longe a fidelidade à realidade e que se trata, em suma, de um romance piedoso. É importante ressaltar que o autor ou os autores de dois outros textos muito difundidos entre os Amigos de Deus, o Livro das Nove Rochas e o Livro dos Cinco Homens, estipulam que seus leitores não devem procurar saber por intermédio de quem Deus fez redigir essas obras: humildade? receio de dificuldades com o magistério eclesiástico? Amigo de Deus, o autor da TG permanece assim desconhecido para nós, e o redator desta nota biográfica introdutória também respeita essa vontade de anonimato, como observa igualmente Lutero em sua edição de 1518: considere o que Deus faz dizer e não por quem Ele o faz dizer.

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