User Tools

Site Tools


gnosticismo:orbe:aocg:docetismo

Docetismo gnóstico

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 12: O DOCETISMO GNÓSTICO

Os gnósticos docetas seguiram a tendência contrária dos ebionitas, fazendo de Jesus quase um fantasma (daimon), e não um homem. E alguns deles a JULGAR por acusações muito repetidas dos eclesiásticos, o consideraram só de aparência mortal, « putativos homo ».

Desde logo, o corpo ou carne de Jesus constituiu sinal de contradição.

Segundo os ebionitas, não se contentou Jesus em receber sua Carne de Maria, nasceu também de seu Pai São José. Segundo os docetas, nem de José nem de Maria recebeu nada corpóreo nem material.

Os eclesiásticos que faziam valer contra esses a virgindade de Maria para assegurar a natureza divina de Jesus, sublinharam, contra os docetas, o nascimento real, corpóreo, de mulher. Do contrário, teria sido Jesus um fantasma de homem.

Tertuliano indica um dos motivos: a realidade da Carne de Jesus dava vigor e unidade aos grandes mistérios do nascimento, paixão e ressurreição de Jesus, e em consequência, ao mistério da humana anastasis. Assim é que Tertuliano em sua obra « SOBRE A REENCARNAÇÃO », atenta muito mais em provar a Carne que o mistério da encarnação.

Não sendo carne nem osso como os demais homens, Jesus seria um fantasma incorpóreo, um daimon. Daí o empenho, entre os eclesiásticos, por urgir a solidez e firmeza de seu corpo.

São Inácio recorre a um apócrifo posto nos lábios do Senhor redivivo: « E, ao dirigir-se (Jesus) aos que cercavam Pedro, lhes disse: “Tomai e apalpai-me e vede, que não sou daimon incorpóreo”. Neste ponto o tocaram, e creram, unidos a sua carne e espírito ».

Um fantasma não se deixa tocar. Os discípulos duvidavam de se realmente havia ressuscitado em carne:

Por que duvidais ainda e estais sem Crer? Eu sou, o que os disse no tocante a minha carne, e minha morte, e minha ressurreição. E para que entendais que sou eu, ponha, Pedro, teus dedos nas marcas do cravos, de minhas mãos; e tu mesmo, Tomé, mete teus dedos na chaga da lança, de minha costela; e tu, André, olha meus pés e vê se tocam a terra. Porque escrito está no Profeta: « Uma fantasia de daimon não firma o pé na terra ». Mas nós o tocamos para reconhecer realmente se havia ressuscitado em carne, e caímos sobre nosso rosto, fazendo confissão de nossos pecados por haver sido incrédulos. (Ep. apostolarum, copta = etiópica)


Resumo

A análise do docetismo gnóstico revela que a acusação de considerar Cristo um homem apenas aparente (putativus homo) foi muitas vezes aplicada de forma indevida pelos heresiólogos, uma vez que a maioria dos gnósticos, ao contrário do que se afirmava, admitia a realidade da carne de Jesus, distinguindo apenas entre a sua natureza divina invisível e a sua forma humana visível.

  • Inácio de Antioquia (Smyrn. 3,2) relata que Jesus ressuscitado disse aos discípulos: “Tomai, palpa-me (pselaphestate me), e vede, que não sou demônio incorpóreo”, e ao ponto lhe tocaram (autou hepsanto) e creram, unidos à sua carne e espírito
  • A Epístola dos Apóstolos (c.11-12) afirma que para entenderem que era ele mesmo, Pedro deveria pôr seus dedos nas marcas dos cravos das mãos, Tomás meter seus dedos no buraco da lança do costado, e André olhar seus pés e ver se tocavam a terra, pois está escrito no Profeta: “Uma fantasia de daimon (daimon – phantasia) não afirma o pé na terra”
  • Tertuliano (De carne Christi 23,1) escreve que a Virgem Mãe é um sinal ao qual se contradiz (Lc 2,34): os marcionitas contradizem este sinal e dizem que ele não nasceu de mulher; os ebionitas contradizem o sinal, dizendo que nasceu de varão e mulher como nós nascemos
  • O mesmo Tertuliano (De carne Christi 1,1) afirma que os hereges inquietam a fé da ressurreição a ponto de negarem que esta esperança pertença também à carne, e por isso despedaçam com questões a carne de Cristo, dizendo ou que ela não existiu ou que foi de outro modo que não humano, para que, se se constatar que foi humana, não fique prejudicado contra eles que ela ressuscita de todo modo, já que ressuscitou em Cristo

1. O APARENTE E O REAL

Os docetas não eliminaram as aparições de Jesus ressuscitado nem os indícios “vulgares”, que só chegam ao aparente (dokein) e nunca à substância, considerando que o Salvador se acomodava à capacidade humana.

  • Os Atos de Pedro (20, 67,4ss) afirmam, em discurso de Pedro em casa de Marcelo, que o Senhor, movido por sua misericórdia, se mostrou em outra figura (in alia figura) e sob a aparência de homem (effigie hominis) para ser visto, porque cada um de nós via conforme podia captar
  • O Diálogo de Adamancio (De recta in Deum fide V c.4) apresenta Marino sustentando que, assim como os anjos que apareceram a Abraão comeram e beberam com ele, também Cristo o fez, e que se os anjos vieram em forma ou figura (typo), como comeram verdadeiramente ou não (erchon de alethen e ou)?
  • Tertuliano (De carne Christi 6) responde a Apeles e aos seus, que afirmavam que Cristo tomou carne dos astros (de sideribus) e das substâncias do mundo superior, que nenhum anjo desceu para ser crucificado, para experimentar a morte, para ser ressuscitado da morte; Cristo veio para morrer, por isso teve necessidade de nascer, pois não costuma morrer senão o que nasce (non enim mori solet nisi quod nascitur)
  • O mesmo Tertuliano (De carne Christi 15) enumera quatro espécies atribuídas pelos hereges ao corpo de Cristo: espiritual (spiritalis), animal (animalis), sidérea (siderea), imaginária (imaginaria), opondo-se todas à carne material (caro materialis)

2. FALSO DOCETISMO

Os heresiólogos confundem a aparição do Filho de Deus em forma humana com a “aparência” da própria forma, atribuindo docetismo a gnósticos que, na verdade, ensinavam a realidade das duas substâncias (divina e humana ou criada).

  • Irineu (I 23,3) afirma que Simão Mago desceu transfigurado e assimilado às Virtudes, Potestades e anjos, para que entre os homens aparecesse como homem (homo appareret), quando não era homem; contudo, a magna dynamis, transformada em homem realíssimo, não deixava de ser impassível, sendo o intelecto divino tão homem em Jesus quanto em Simão
  • O Segundo Logos de Set (NHC VII 2, p.51,24-52,1ss) declara que o Salvador buscava uma casa corpórea (somatikon); arrojou o que estava antes nela, e entrou em seu interior; era outro o que levou a cruz sobre seus ombros (Simão, o lavrador, o homem terreno), e outro sobre cuja cabeça puseram a coroa de espinhos; eu (Jesus, enquanto Filho impassível de Deus) me alegrava nas alturas sobre o reino todo dos arcontes
  • O mesmo escrito acrescenta que os arcontes não conseguiram de Jesus mais do que se tivessem levado à cruz ao pobre Simão; crucificaram o terreno do Salvador, não triunfaram de sua pessoa, e toda a multidão dos arcontes tremeu (Mt 27,51) ao ver o aspecto da imagem fraudulenta
  • Clemente de Alexandria (Strom. III 17,102,3) afirma que Casiano adota a dokesis (aparência), e também Marción a adota, e Valentim adota o corpo psíquico (to soma to psychikon), porque dizem (Salmo 48,13.21): “O homem assemelhou-se às bestas” vindo ao coito
  • O mesmo Clemente (Strom. III 13,92,1) chama Casiano de “o abandeirado da doutrina (ho tes dokeseos exarchon)”, o doceta por antonomásia, que procedia da escola valentiniana e condenava a humana gênese

3. A VERDADEIRA CARNE

Os gnósticos autênticos pouco se interessaram pela correlação física entre a carne de Adão e a de Jesus ou pela verdade de uma carne destinada a redimir o homem, pois consideravam que o sensível pertence ao reino da opinião (phantasia), da sombra (skia), do não-ser.

  • O Evangelho da Verdade (31,4ss) afirma que Jesus veio numa carne de semelhança (en sarki homoiotetos), sem que tenha havido obstáculo para seu caminho, porque lhe pertenciam (à carne) a incorruptela e a não-apreensão
  • Tertuliano (De carne Christi 16), comentando Romanos 8,3 (“Deus enviou seu próprio Filho em semelhança de carne de pecado”), refuta o valentiniano Alexandre que negava que Cristo assumiu o corpo de carne sujeito a pecado, afirmando que não se trata de uma semelhança de carne como imagem de corpo e não verdade, mas semelhança da carne pecadora, porque a própria carne de Cristo, não sendo pecadora, era contudo da mesma substância daquela em que estava o pecado
  • Irineu (V 1,2) declara vãos (vani) os que dizem que ele apareceu putativamente (putative), pois se aparecesse homem quando não era homem, nem o que era verdadeiramente perseveraria, nem haveria alguma verdade nele; e acrescenta que o mesmo é dizer putativamente que ele apareceu e que nada recebeu de Maria (to auto esti theousi legein peprophenai kai meden ek tes Marias eilephenai)
  • A Magna Apophasis simoniana (Hipólito, Ref. VI 9,5-10) ensina a respeito do fogo que o manifesto (to men phaneron) do fogo é o tronco, os ramos, as folhas e a casca que o rodeia, coisas que serão destruídas pela chama do fogo devorador, enquanto o fruto da árvore – se se configurar perfeitamente (ean eikoniothe) e adquirir a própria forma – é levado ao celeiro e não ao fogo

4. JULIO CASSIANO E O DOCETISMO

Julio Cassiano, encratita procedente da escola valentiniana, é chamado por Clemente de Alexandria “o abandeirado da doutrina” (ho tes dokeseos exarchon), embora seu docetismo se parecesse mais com o dos valentinianos (admitindo o nascimento virginal) do que com o dos marcionitas.

  • Clemente (Strom. III 14,95,1ss) indica que, a partir da constituição física de Jesus, Cassiano fazia dela norma do comportamento humano: assim como Cristo, de índole não carnal, viveu em estado de continência por encima das paixões da carne, assim o cristão, a pesar de sua condição carnal, deve viver em estado de continência como verdadeiro doceta (doketes)
  • Jerônimo (Comm. in Galatas VI 8) escreve que Cassiano, que introduz a carne putativa de Cristo (putativam carnem Christi), considera imunda toda conjunção de macho e fêmea, sendo o mais acérrimo heresiarca dos encratitas
  • Os docetas de Hipólito (Ref. VIII 10,7), ao contrário do que se poderia supor, ensinam que o corpo de Jesus foi gerado por Maria (egenethe to ex autes), fora de todo possível docetismo

5. FALSA ILACÃO

Os eclesiásticos faziam valer uma ilação – o corpo de Jesus era putativo, logo também impassível –, mas a maioria dos gnósticos (Simão Mago, Basilides) não considerava Jesus homem putativo, e sim hílico e de substância passível.

  • Inácio de Antioquia (Ad Polyc. 3,2) escreve: “Atende aos tempos. Aguarda a quem está por encima do tempo, ao intemporal; ao invisível, (feito) por nós visível; ao impalpável, feito por nós palpável; ao impassível, (feito) por nós passível; ao que por nós sofreu em todas as formas”
  • Ptolomeu (Irineu, I 6,1) retoma os mesmos epítetos de Inácio e os atribui também ao corpo do Salvador, afirmando que já desde o seio virginal de Maria se lhe dispôs com inefável artifício (aphrheto techne) um corpo para que resultasse visível, e palpável, e passível (horaton kai pselapheton kai patheton)
  • Os valentinianos itálicos, que denegavam ao Salvador um corpo de substância material, ensinavam as duas coisas: que o corpo visível de Jesus não era de índole carnal (hílica), e que por não o ser, havia sido inefavelmente adaptado (aphrheto techne), a partir de essência não-visível (animal ou espiritual), para as experiências hílicas e até a morte

6. CONCLUSÃO

O docetismo puro – a doutrina segundo a qual a humana aparência do Salvador é pura aparência sem realidade objetiva alguma – é raro entre os gnósticos do século II, ficando demonstrado apenas entre os valentinianos itálicos e personagens ou escritos dependentes deles.

  • Para um gnóstico que arranca do postulado da trindade de espécies humanas (espiritual, animal, material), sacrificar o ínfimo e umbrátil (o hílico) não significa sacrificar a salvação do verdadeiro homem, pois nada visível é bom, e a verdade do corpo do Salvador interessava-lhes tanto quanto aos eclesiásticos
  • Os valentinianos itálicos, partidários do origem per Mariam, invocam o milagre do Altíssimo na formação de um corpo real (sui generis) no seio da Virgem, com substância não-material e propriedades materiais, salvando a realidade objetiva das manifestações (desenvolvimento pleno, paixões, morte) de Jesus homem
  • A rica documentação induz a limitar consideravelmente o número dos rigorosos docetas (partidários do corpo não-material): aparte Marcion, Apeles e outros não estritamente gnósticos, só se demonstra o docetismo entre os valentinianos itálicos e personagens ou escritos pendentes deles (como Julio Cassiano e fragmentos dos Atos de João)
Search
gnosticismo/orbe/aocg/docetismo.txt · Last modified: by 127.0.0.1