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Batismo
ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 16 – BATISMO DE JESUS
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Nem todos os gnósticos se significaram igualmente em torno ao batismo de Jesus, embora algumas seitas o tenham celebrado com solenidade.
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Os adeptos de Basílides festejavam o dia do batismo de Jesus, passando a noite anterior em leituras, fixando a data no ano 15 de Tibério, nos dias 15 ou 11 do mês de Tybi, que correspondem a 10 de janeiro ou 6 de janeiro.
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Marción eliminou a cena do batismo do seu Evangelho para evitar a unção do Espírito e poder atribuir ao Salvador uma novidade absoluta, sem ligação com o Antigo Testamento, sendo seguido também por Apeles.
Entre os rigorosos gnósticos, silenciam sobre o mistério do Jordão os simonianos, Menandro, Saturnilo e Monoimo, assim como a maioria dos tratados de Nag Hammadi.-
A Hipóstase dos Arcontes, o escrito sem título (UW), o Apócrifo de João, o Apocalipse de Pedro, os dois Apocalipses de Tiago e o de Adão, a epístola a Regino Sobre a ressurreição e o Evangelho segundo Maria não mencionam o batismo.
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Apesar do silêncio sobre o fenômeno externo, o batismo de Jesus foi um dos mistérios mais estudados pelos gnósticos, com muitas derivações para outros mistérios.
1. Batismo de João
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O batismo de João seria de pouco interesse se o Salvador não tivesse se aproximado para recebê-lo, e os gnósticos aportam breves elementos para o seu estudo.
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Cerinto e a Pauli praedicatio mencionam indiretamente o batismo, enquanto os ofitas de Ireneu e os valentinianos indicam que o batismo de João era um batismo de penitência para remissão de pecados, ao passo que a redenção trazida por Jesus era para a perfeição.
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A Paráfrase de Sem condena o batismo de João como impuro, afirmando que as muitas águas agravam a mente e que o batismo na água não conduz a nada, sendo João o arconte do seio materno.
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O Testemunho da Verdade e o Segundo Logos de Set também são desfavoráveis ao batismo de João, enumerando-o entre os que não conheceram o Salvador e considerando-o um rito externo e imperfeito.
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Segundo os ofitas, o batismo de João era um batismo de metanoia, que servia para purificar o corpo material de Jesus antes que o Cristo superior e o Espírito Santo descessem sobre Ele.
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A Exegese sobre a alma oferece elementos valiosos, afirmando que o batismo de João é o princípio da salvação, mas que o Salvador aperfeiçoou o batismo de João através do seu próprio batismo, que remove os pecados através do poder divino.
2. Lugar e tempo do batismo de Jesus
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O Evangelho segundo Filipe afirma que Jesus manifestou, às margens do Jordão, o Pleroma do reino dos céus, e Heracleão é o primeiro testemunho da leitura “Betânia” em João 1,28.
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Os basilidianos fixavam o nascimento do Salvador em datas específicas e o batismo no ano décimo quinto de Tibério, no dia 15 ou 11 de Tybi, sendo uma tradição provavelmente anterior e pagã.
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Os valentinianos ofereciam elementos de outra índole, relacionando os trinta anos de Jesus ao número de trinta eões do Pleroma, e os docetas de Hipólito associavam os trinta eões às trinta formas que teriam de ser libertadas por Jesus.
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O valentiniano Marcos relacionava a lua, que percorre o céu em trinta dias, aos trinta eões, e o sol, com os seus doze meses, à dodécada, simbolizando os anos de Nazaré e o ano salutar de Isaías.
3. Restituição da cena
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Antes de estudar o alcance que as seitas deram ao batismo de Jesus, convém determinar a leitura sobre a qual discorrem e quantos batismos houve no Jordão.
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O escrito sem título (UW) menciona três batuismos: o primeiro espiritual, o segundo de fogo e o terceiro de água, correspondendo aos três gêneros de homem (espiritual, psíquico e terreno).
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O Livro segundo de Jehú atribui ao Salvador os três batismos (de água, fogo e Espírito Santo) num ritual posterior, não no Jordão, enquanto o Segundo Logos de Set menciona o “terceiro lavacro” numa imagem.
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A Valentim e seus seguidores é atribuída a doutrina de dois batismos (água e fogo), sendo que os valentinianos distinguiam dois batismos: o do Jesus visível, para remissão de pecados (animal), e a redenção do Espírito que desceu sobre Ele, para a perfeição (espiritual).
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Não se verifica entre os discípulos de Valentim a correlação entre os batismos de Espírito, fogo e água e os três linajens de homens, notando-se antes a inspiração nos dois batismos do Jordão.
B) O fogo e o Jordão
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Justino de Roma escreve que, ao descer Jesus na água, acendeu-se um fogo no Jordão, tradição também presente nos Oráculos Sibilinos e na Paráfrase de Sem.
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Os valentinianos atestariam essa tradição ao dizer que o batismo do Salvador nos livrou do fogo, e o Evangelho segundo Filipe afirma que um fogo iluminou Jesus naquele dia.
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A obra De rebaptismate menciona hereges que alegavam a Pauli praedicatio para as suas práticas batismais, onde se lia que, quando Jesus foi batizado, um fogo apareceu sobre a água.
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A Paráfrase de Sem descreve Jesus descendo à água, com redemoinhos e chamas de fogo a levantarem-se contra Ele, que sai da água após ter revestido a luz da fé e o fogo inextinguível.
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O batismo de fogo tem base escriturária em Mateus 3,11, e a tradição do Jordão em ebulição e fogo é independente do problema textual, significando para os gnósticos a presença do Espírito Santo ou, noutros casos, a reação dos maus espíritos.
C) O resplendor do Jordão
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A tradição do resplendor, muitas vezes associada à do fogo, é atestada pelo Evangelho dos Ebionitas, onde uma grande luz resplandeceu em torno do lugar, e por manuscritos da Itala.
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Comentadores sírios do Diatessaron e Santo Efrém confirmam a tradição siríaca do elemento luminoso, que também pode ser encontrada no Evangelho segundo Filipe.
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Os basilidianos de Hipólito descrevem a iluminação de Jesus no batismo como o resplendor da luz que desce da Ogdóada superior sobre Jesus, filho de Maria, que foi iluminado ao ser inflamado com a luz que brilhou no seu interior.
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O grande momento da vida de Jesus, o batismo do Jordão, é para Basilides a descida da luz (= Cristo superior) na carne do Logos, confirmando a tradição da iluminação e do inflamamento.
D) O aroma
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Os setianos de Hipólito mencionam o “bom odor do Espírito” que deve ser retido no interior, e a Paráfrase de Sem alude ao aroma no “poder do Espírito”.
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Barsalibi atribui ao Diatessaron a informação de que, no batismo, se espalhou um perfume agradável do Jordão, tradição presente na igreja siria e no mito de Sofia Acamot.
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Durante o batismo de Espírito no Jordão, o aroma desaparece ante a plenitude da luz, sendo considerado superfluo acentuar a fragrância do Espírito.
E) A pomba
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Nem todos os gnósticos davam importância à pomba, e muitos sequer a mencionam, como os naassenos, peratas, setianos, Justino gnóstico, simonianos, basilidianos e docetas.
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Cerinto conheceu a pomba, e os ofitas, através da Pistis Sophia, também a mencionam, embora Ireneu os resuma omitindo a pomba.
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A pomba é mencionada nos Atos de Tomé, onde se encontra a invocação: “Vem, sagrada pomba, que geraste os dois pombinhos”.
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A expressão “sagrada pomba que geraste os dois pombinhos” é explicada pelo esquema ofítico, onde a Primeira Fêmea (Espírito Santo) gera dois gêmeos: Cristo (perfeito, masculino) e Sofia Prunicos (imperfeito, feminino).
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O parentesco entre ofitas e valentinianos permite encontrar em Tolomeu e em Marcos elementos que explicam a pomba e os dois pombinhos, com Marcos demonstrando que o número da pomba (801) é igual a A + Ω, síntese do Pleroma.
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A epíclese dos Atos de Tomé dirige-se à pomba mãe (Primeira Fêmea ou Espírito Santo), da qual nascem como gêmeos o Cristo superior e a Sofia segunda (Espírito Santo filha), enviados na plenitude dos tempos a Jesus no batismo do Jordão.
4. Conclusão
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Marción ignorou o mistério do Jordão, enquanto as grandes famílias gnósticas (ofitas, basilidianos e valentinianos) lhe atribuíram excepcional importância.
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Os gnósticos dão poucas notícias sobre o texto canónico empregado, mas a restituição da cena do batismo de Jesus nos seus elementos prováveis passa pelo estudo do batismo de João.
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O Jordão representa, para os naassenos, o magno Jordão que flui do céu à terra e reflui por obra do Salvador, e os valentinianos distinguem entre o batismo de João (penitência) e a redenção trazida por Jesus (perfeição).
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A Heracleão se deve a notícia do lugar (Betânia), e aos basilidianos a data provável do batismo.
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Os hereges mencionam três batismos (água, fogo e Espírito) e tradições literárias comuns a hereges e eclesiásticos ecoavam epifanias como o fogo e a luz, que são analisadas separadamente.
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Os gnósticos praticamente deixaram cair o motivo da voz celeste, concentrando-se no mistério da pomba, cujo simbolismo, levado através das famílias basilidiana, ofítica e valentiniana, descobre panoramas soteriológicos.
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