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Ascensão

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

A metensomatose ou reincorporação das almas no pensamento gnóstico e suas diferentes vertentes

  • A ascensão de Cristo, segundo determinadas famílias gnósticas, põe termo à metensomatose, conceito também designado como reincorporação, palingenesia ou trasvasamento.
    • A doutrina da transmigração da psique ou do pneuma humanos de um corpo a outro foi erroneamente atribuída por Irineu a Platão, enquanto Clemente de Alexandria a apontava nos antigos teólogos órficos e vates.
    • Tertuliano e Orígenes dedicaram-se ao tema do tratado Da alma, e os primeiros séculos do cristianismo já conheciam a doutrina incorporada a esquemas teológicos.
    • Vários passos do Antigo e Novo Testamento pareciam insinuar a transcorporação, interessando tanto a gnósticos quanto a eclesiásticos.
    • O judaísmo tardio dava difícil acesso à transmigração, mas os escritos pseudoclementinos e os elquesaitas a assimilaram.

A reincorporação entre os simonianos e a salvação da ovelha perdida

  • Os simonianos simpatizavam com a reincorporação, como mostra o caso de Ennoia, a primeira ideia do Deus supremo, que andou errante de corpo em corpo até ser encontrada por Simão em Tiro.
    • Ennoia (Helena) simboliza a ovelha perdida, a Igreja espiritual dispersa pelo mundo, cuja reincorporação afetava todos os filhos naturais de Deus.
    • Simão descobria na metensomatose o “erro” (he plane) ou perdição dos homens caídos do reino da unidade ao mundo da diáspora.
    • O Salvador vem para salvar a ovelha perdida; uma vez sacada do erro, a alma não voltará a passar de um corpo a outro.
    • A reincorporação simoniana afetava apenas indivíduos espiritualmente femininos, e o erro terminou com o advento de Jesus, sendo Simão quem continua e consuma a obra de redenção iniciada pelo Senhor.

Carpócrates e a necessidade de experimentar todas as ações da vida para a libertação da alma

  • Carpócrates ensinava que as almas devem experimentar toda a vida e todo ato (in omni vita et in omni actu fieri) antes de poderem ascender ao Deus supremo.
    • Se na prática uma só vida não basta para esgotar todas as experiências, a alma precisa reincorporar-se até que nada lhe falte.
    • Carpócrates aplicava a parábola de Mateus 5,25s ao fenômeno: o diabo é o adversário, o juiz é o demiurgo (Yahvé), e o anjo psicopompo introduz a alma em outro corpo até que ela pague o último quadrante.
    • A morte em cruz de Jesus tem valor normativo, ensinando o caminho para desprezar o regime do criador e superar as paixões, mas a estima de Cristo por Carpócrates era praticamente nula.

Basílides e a doutrina das reincorporações em corpos humanos e de bestas

  • Basílides concedeu particular relevo à doutrina da reincorporação, ensinando que as almas passam de um corpo a outro, inclusive a corpos de bestas.
    • Orígenes acusa Basílides de ter tomado o dito de Paulo “eu vivia outrora sem lei” (Romanos 7,9a) como prova da preexistência da alma em organismo não submetido à lei, como o de um pássaro ou de uma besta.
    • Basílides recorria à reincorporação para explicar o problema do sofrimento dos inocentes: a alma que cometeu pecado em outra vida sofre aqui o castigo.
    • O passo de Deuteronômio 5,9 (“Deus paga até a terceira e quarta geração aos incrédulos”) era interpretado pelos basilidianos como referência às (re)encarnações.
    • A expressão “até a terceira e quarta geração” poderia indicar o tempo dominado pelo demiurgo, o regime do Antigo Testamento, que cessaria com a vinda do Salvador.

Os docetas de Hipólito e o fim da metensomatose a partir do Salvador

  • Os docetas de Hipólito afirmavam que, até a aparição do Salvador, havia muito desconforto (pollé tis en plane) das almas por obra do demiurgo, deus ígneo, que as fazia mudar de uns corpos a outros.
    • O demiurgo, sendo de forma ígnea e não subsistindo pessoalmente, aprisiona as almas (caracteres eternos de luz) e as custodia, fazendo-as passar de corpo em corpo.
    • Dois testemunhos bíblicos eram alegados em favor das reincorporações: o oráculo de Job (“eu mesmo ando errante e passo de um sítio a outro”) e o dito do Salvador sobre Elias (Mateus 11,14-15).
    • A partir do Salvador, a metensomatosis cessou, e a nova fé acaba com o domínio do demiurgo sobre as almas, anunciando a remissão dos pecados sem necessidade de novas ensomatoses.

Os ofitas de Irineu, a sessão de Cristo à direita de Jaldabaot e o fim da reincorporação para os crentes

  • Segundo os ofitas de Irineu, após a ascensão, o Cristo animal toma assento à direita de seu pai Jaldabaot, por cima do criador, que o perde de vista.
    • Cristo senta-se à direita de Jaldabaot para enervá-lo, tirar-lhe a virtude sobre as almas e recolher em si as almas dos que reconheceram Jesus e Cristo, depositando a carne mundana.
    • Jaldabaot fica em detrimento, evacuado de sua virtude por meio das almas santas, que já não pode lançar de novo no mundo.
    • A metensomatosis, signo do domínio da ignorância e do demiurgo, desaparece para os crentes, mas as almas incrédulas, que procedem do sopro do criador, continuam sujeitas a ele.
    • Cristo se enriquece com as almas santas enquanto o pai (Jaldabaot) se diminui, preparando-se a consumação final quando toda a umectação do espírito de luz for recolhida ao eão da incorruptibilidade.

A Pistis Sophia e a interpretação da parábola do adversário como reincorporação purificadora

  • A Pistis Sophia, retomando elementos arcaicos, interpreta a parábola de Mateus 5,25s como descrição do processo de reincorporação das almas impuras após a morte.
    • O adversário (antidikos) é identificado com o espírito falsário (antimimon pneuma), o juiz (krites) com a Virgem da luz, e o ministro (hyperetes) com os paralemptai.
    • Quando a alma não conhece o mistério que a liberta do espírito falsário, esse espírito a conduz à Virgem da luz, que a julga e, se a acha pecadora, a entrega a um paralemptes para que a lance em um corpo.
    • O próprio Salvador autenticaria o fenômeno da reincorporação ainda após sua vinda, limitando-o às almas impuras e vinculando sua libertação à obra salvífica.
    • Diferentemente dos ofitas de Irineu, na Pistis Sophia o protarchon (demiurgo) perdeu todo poder sobre as almas, cedendo-o à Virgem da luz.

Conclusão: a ascensão e a sessão à direita como inauguração de um novo regime que termina com a reincorporação

  • Ao mistério da ascensão associa-se a ideia do triunfo sobre o demiurgo, com Cristo tomando assento à direita de Yahvé para inaugurar um novo regime e terminar com a reincorporação.
    • O Cristo (animal) liberta todos os devotos do Evangelho da verdade do círculo fatal das gerações, enquanto os incrédulos que perseveram em render culto a Yahvé continuam a reencarnar-se.
    • Durante o Antigo Testamento, Yahvé se apoderava de todos os homens após a morte e os obrigava a tomar novamente um corpo, perpetuando a cadeia da gênese.
    • A “sessio a dextris” do Messias, situado à direita de Yahvé com domínio sobre ele, consome a destruição de tal regime, iniciada com o advento de Jesus ao mundo.
    • A doutrina da reincorporação serve para definir a sorte das almas em um e outro Testamento, reabilitando a figura do Messias frente ao demiurgo Yahvé, que fica destituído do governo sobre o cosmos e enervado em sua lei e justiça.
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