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Corpo

ANTONIO ORBEANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU

CAPÍTULO II: ORIGEM DO CORPO

  • A análise da formação do primeiro homem (Adão) segundo 7 revela uma distinção entre a “imagem” e a “semelhança” de Deus, onde a “imagem” é conferida na criação inicial, enquanto a “semelhança” é uma perfeição a ser alcançada pelo homem no fim dos tempos mediante seu próprio esforço e imitação de Deus.
    • Orígenes, em De Principiis III 6,1, afirma que “a dignidade da imagem foi percebida na primeira condição; a perfeição da semelhança, porém, foi guardada para a consumação”, de modo que o próprio homem a adquire pelo estudo de sua própria indústria.
    • O autor bíblico distingue entre o anúncio de 26 (“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”) e a execução de 27 (“E fez Deus o homem, à imagem de Deus o fez”), que silencia sobre a semelhança.
    • Gregório de Elvira (Tract. I § 22) ensina que Deus fez o homem animal à imagem (da invisibilidade e imortalidade da alma), mas reservou a semelhança em Cristo, por meio de quem o que foi feito à imagem de Deus é reformado à semelhança.
  • A formação do corpo de Adão é descrita como uma “plasmas” realizada pelas mãos de Deus, o que constitui um privilégio exclusivo do ser humano, contrastando com a criação dos anjos e do restante do universo, que vieram à existência apenas pelo mandamento da voz divina.
    • Teófilo de Antioquia e Justino Mártir destacam que o homem foi feito pelas mãos de Deus para ser rei da criação, situando o homem material como fim e coroa da criação sensível.
    • Tertuliano (De Resurrectione 5,6ss) explica que a carne foi feita pela palavra de Deus “por causa da forma” (propter formam) e pela mão de Deus “por causa da primazia” (propter praelationem), para que o homem não fosse comparado ao resto das coisas.
    • Irineu, na Epideixis (10-11), afirma que Deus plasmou o homem com suas próprias mãos, tomando da terra o que há de mais puro e fino, e desenhou sobre a carne modelada sua própria forma, para que até o aspecto visível levasse a forma de Deus.
  • A intervenção dos anjos ou arcontes na formação do corpo humano é radicalmente negada por Irineu, uma vez que somente Deus podia comunicar ao barro a sua própria imagem e semelhança, e os anjos eram incapazes de imprimir a forma divina na carne.
    • Irineu (Adv. haer. IV 7,4) afirma que Deus não precisava de anjos para fazer o que havia predefinido em seu interior, pois sempre o assistem o Verbo e a Sabedoria, o Filho e o Espírito, por cujo meio e virtude fez todas as coisas livre e espontaneamente.
    • A incapacidade angélica reside no fato de que, mesmo que pudessem configurar a forma externa, jamais poderiam introduzir na carne a vida do Espírito, indispensável para a semelhança natural com Deus.
    • O corpo humano é plasmado “à imagem de Deus”, o que significa que o Criador desenhou sobre a carne modelada sua própria forma, fazendo do homem criado uma imagem de Deus posta sobre a terra.
  • A formulação da frase “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (26) é interpretada como um diálogo do Pai com o Filho e o Espírito Santo, considerados como “as duas mãos de Deus”, que atuaram instrumentalmente na formação do homem.
    • Irineu (Epid. 54-55) identifica o Filho como o “Admirável Conselheiro” e ensina que o Pai falou com o Filho e o Espírito ao dizer “Façamos”, sendo que com eles fez o Pai todas as coisas.
    • O Verbo (Filho) é a forma do Pai informe, configurando a matéria (o limo) segundo a forma do homem, dando-lhe o corpo ou carne; o Espírito Santo é a virtude ou vida do Filho, vestindo o corpo de Adão com a semelhança interna e a virtude divina.
    • Tertuliano (Adv. Prax. 12,1ss) e outros eclesiásticos entendem que o plural “Façamos” não se dirige a anjos (como pensavam os judeus), mas ao Verbo e ao Espírito, que são as mãos do Pai na criação do homem.
  • A matéria da qual foi formado o corpo de Adão é descrita como a própria terra visível e árida, e não uma substância invisível ou fluida como ensinavam os valentinianos; trata-se da terra “ruda” e “virgem” (rudis terra), que ainda não havia sido trabalhada pelo homem nem regada pela chuva.
    • Irineu (Adv. haer. III 21,10) afirma que o protoplasto Adão foi feito de terra ruda (de rudi terra), citando 5 (“não havia ainda Deus chovido, e o homem não tinha trabalhado a terra”).
    • Contra os valentinianos, que diziam que o homem não foi feito desta terra árida, mas de uma substância invisível, fluida e efusiva (ab invisibili substantia et effusibili et fluida materia), Irineu (V 15,4) rebate mostrando que do mesmo barro com que Jesus curou o cego de nascença foi formado Adão no princípio.
    • A terra é chamada “virgem” (Virgo erat adhuc terra) por Tertuliano (De carne Christi 17), porque ainda não fora comprimida pela obra do homem nem submetida à semente.
  • A tradição judaica (Fílon, Pirke de Rabi Eliezer, Targum de Jerusalém) e alguns escritos gnósticos (Justino, Hipóstase dos Arcontes) desenvolvem a ideia de que o pó para o corpo de Adão foi tomado das quatro partes do mundo ou dos quatro elementos, para que o homem fosse um microcosmo e senhor da criação.
    • Fílon de Alexandria (De opificio 136-137) afirma que Deus modelou o homem com esmero celeste, tendo cernido o melhor disposto da terra, que era de nova fundação, pura, não adulterada, maleável e fácil de trabalhar.
    • O Apocalipse de Adão (64,7ss) menciona que quando Deus fez Adão da terra e a Eva, mãe, eles se transformaram em glória e se tornaram superiores ao próprio Deus (Demiurgo) que os havia feito.
    • Zósimo (Comentário à letra Omega c.11) deriva o nome Adão das iniciais das quatro direções (anatole, dysis, arktos, mesembria), indicando que o corpo resume os elementos que compõem o mundo e os quatro pontos cardeais.
  • A exegese valentiniana sobre o pó do corpo de Adão (7) é refutada por Irineu, pois os discípulos de Valentin ensinavam que o homem não foi feito da terra árida, mas de uma “matéria múltipla e complexa” (tes polymerous kai poikiles hyles meros), invisível e fluida, da qual procede também a alma irracional dos brutos.
    • Irineu (Adv. haer. I 5,5) atesta que os valentinianos dizem que o Demiurgo fez o homem “não desta terra árida, mas de uma substância invisível, efusiva e fluida” (ab invisibili substantia, ab effusibili et fluida materia), insuflando nele um princípio psíquico.
    • Os Excerpta ex Theodoto (50,1) afirmam que o criador, tomando pó da terra, “não da seca, mas uma parte da matéria múltipla e complexa”, fabricou uma alma terrestre e material, irracional e consubstancial com a das bestas.
    • Irineu (V 15,2) demonstra a verdadeira doutrina pelo milagre do cego de nascença: Jesus fez lodo com a saliva e a terra visível, mostrando a antiga plasmas (de Adão) e manifestando a mão de Deus (o Verbo), que plasmou o homem do limo de terra árida.
  • Conclui-se que, para Irineu, o corpo de Adão foi formado da própria terra visível e árida (a “terra ruda” e “virgem”), sem qualquer diferença de essência entre o corpo do protoplasto e o dos demais homens, sendo a matéria do corpo humano um substrato determinado exclusivamente pelo Pai, que constitui o ponto de partida da economia salvífica.
    • A diferença entre o “corpo plasmado” e a “carne” visível (como queriam os valentinianos) é inexistente; o mesmo Verbo que plasmou Adão no princípio continua plasmando o homem no ventre materno, e o mesmo pó da terra que serviu para criar o primeiro homem serviu para Jesus curar o cego.
    • A expressão paulina “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus” (1Cor 15,50) não se aplica a uma suposta carne diferente da do primeiro homem, mas sim à carne mortal e corruptível que, pela ressurreição, será transformada.
    • A formação do corpo humano por Deus Pai, mediante o Filho e o Espírito Santo (suas duas mãos), representa o extremo mais humilde e material da economia, ao qual corresponde, no outro extremo, a efusão da vida eterna pelo mesmo Pai, abrangendo toda a história da salvação desde a primeira plasmas até a última anaplasis (reforma) do homem.
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