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Mandeísmo

Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.

OS MANDEUS

  • A comunidade religiosa dos mandeus, também chamados de subba ('batistas') ou nasoreanos ('observadores'), é apresentada como um pequeno grupo étnico-religioso que vive no sul do Iraque e no Irã, distinguindo-se por sua religião e tradição escrita em um dialeto aramaico oriental.
    • O texto indica que eles se autodenominam Mandaye ('gnósticos') ou Nasoraye ('observadores'), sendo que este último termo atualmente designa apenas os iniciados e sacerdotes.
    • É mencionado que são conhecidos por suas habilidades como ourives, ferreiros, carpinteiros navais e, no passado, construtores de pontes.

Os Mandeus na Pesquisa Recente

  • As pesquisas sobre os mandeus, baseadas nos estudos fundamentais de Th. Noldeke e M. Lidzbarski, revelam que sua literatura é um testemunho importante da gnose da Antiguidade tardia, com origens possivelmente pré-cristãs e conexões com o ambiente oriental do cristianismo primitivo.
    • O texto cita que, embora as hipóteses que os associam às origens do cristianismo ou aos discípulos de João Batista não possam ser totalmente comprovadas, pode-se afirmar que os elementos mais antigos de sua literatura preservam um testemunho do ambiente oriental do cristianismo primitivo.
    • As investigações recentes de estudiosos como Schou Pederson, G. Widengren, E. S. Drower, R. Macuch, W. Baumgartner, E. Segelberg e K. Rudolph tenderam a confirmar esta visão.
    • É destacado que a estudiosa inglesa Lady Drower conseguiu, com habilidade e energia, abrir acesso às fontes orais quase inacessíveis da seita, publicando manuscritos desconhecidos e permitindo uma compreensão mais exata de sua área cultual e doutrinas secretas.

A Literatura Mandeia

  • A extensa tradição escrita mandeia, de caráter puramente religioso, inclui textos litúrgicos, comentários, lendas, tratados teológico-mitológicos e textos mágicos, caracterizando-se por um estilo uniforme, porém de conteúdo confuso e anônimo.
    • O texto observa que os hinos e canções tradicionais, nos quais a tradição mais antiga da comunidade certamente se preservou, possuem uma beleza singular, enquanto a literatura em prosa dá uma impressão confusa e cheia de especulações ousadas.
    • É dito que o material antigo e tardio está frequentemente entrelaçado, e que frases estereotipadas e um estilo fixo conferem à literatura mandeia uma aparência bastante uniforme, apesar da natureza confusa de parte de seu conteúdo.
    • A compilação de muitos escritos em “livros” completos já havia começado antes da entrada do Islã na Mesopotâmia, especialmente na esfera de importantes textos litúrgicos, o que levou a comunidade a ser aceita entre os “povos do livro”.
    • As obras mais importantes listadas são: o Ginza ('Tesouro'), o Livro de João, o livro de orações Qolasta, rituais de casamento, iniciação sacerdotal e batismo, a coletânea 'Mil e Doze Perguntas', o Díwān Abathur e o fragmento histórico 'Haran Gawaita'.
    • A cronologia da literatura é dificultada pela falta de referências históricas específicas, embora se possa datar com alguma precisão alguns tratados do Ginza e textos mágicos dos séculos III e IV d.C.
    • O texto menciona que o estudioso sueco T. Säve-Söderbergh provou, por comparação com salmos maniqueus paralelos, que elementos da literatura salmística mandeia já deviam existir no século III d.C.

A Comunidade e seu Culto

  • A comunidade mandeia divide-se em sacerdotes e leigos, com uma hierarquia que inclui sacerdotes comuns (tarmidé), bispos ou 'tesoureiros' (ganzibré) e um 'chefe do povo' (ris ama), sendo que o coração de sua religião reside no culto realizado em santuários junto a rios ou canais.
    • O texto descreve que o santuário atual consiste em uma pequena cabana de culto (manda, bit manda) diante da qual há uma piscina artificial com 'água corrente' (yardna), e toda a área (mandi) é cercada por uma cerca.
    • Os escritos mais antigos mencionam o termo maskna ('morada, templo'), que certamente foram outrora maiores e mais impressionantes do que as humildes cabanas de hoje.
    • Os principais ritos incluem o batismo (masbūtā), a missa pelos mortos (masīqtā), a consagração de padres e bispos, casamentos e ritos festivos.
    • O batismo (masbūtā) ocorre aos domingos em 'água viva' (rios ou piscina do mandi), que recebem o nome de 'Jordão' (yardna), e consiste em imersão tripla, unção com óleo, oferta de pão e água, e imposição de mãos, tendo como propósito a comunhão com o Mundo da Luz e a purificação.
    • O texto observa que a cerimônia batismal mandeia não surgiu como uma imitação do rito cristão-sírio, sendo possível demonstrar que certos traços remontam a um período pré-cristão e têm origem nas práticas lustrais e batismais do judaísmo não ortodoxo.
    • A missa pelos mortos (masīqtā) é a 'ascensão' da alma ao Mundo da Luz, exigindo rituais complexos, incluindo a preparação de pães achatados ungidos com óleo e carne de pombas, para fornecer alimento para a alma em sua perigosa jornada de quarenta e cinco dias.
    • O texto descreve que a alma, em sua jornada, enfrenta esferas demoníacas perigosas e 'lugares de detenção' (matarata), sendo que o mandeu nunca tem certeza de que alcançará o outro mundo e teme o castigo e o aprisionamento.

Mitologia e Teologia

  • A visão de mundo mandeia é marcada pelo dualismo gnóstico entre um Mundo de Luz (nhura) e um Mundo de Trevas (huka), com um ser supremo no topo do Mundo da Luz, cercado por inúmeros seres de luz (uthra), enquanto o Mundo das Trevas origina-se do caos e é governado pelo Senhor das Trevas (Ur).
    • O texto afirma que, no topo do Mundo da Luz, está um tipo de 'deus desconhecido' que carrega diferentes nomes, como 'Vida' (haiye) ou 'Grande Vida', 'Senhor da Grandeza' (mara drabuta) e 'poderoso Mana'.
    • O Mundo da Luz surgiu do ser supremo ('Primeira Vida' ou 'poderoso Mana') por meio de uma série de emanações ou criações designadas como 'Segunda', 'Terceira' e 'Quarta Vida', que possuem nomes pessoais como Tosanin, Abathur e Ptahil.
    • O texto descreve que o Mundo das Trevas começou na forma do Rei das Trevas emergindo das 'águas negras' ou como um produto de Ruha, a 'Espírito' caído, que então cria seus próprios mundos com seres demoníacos, incluindo os 'Sete' planetas e os 'Doze' signos do Zodíaco.
    • As relações hostis entre luz e trevas começam por um contato instigado por ambos os lados, levando o demiurgo híbrido Ptahil a preparar uma 'solidificação' nas águas escuras com a ajuda dos poderes das trevas, estabelecendo assim o mundo terreno (Tibil).
    • O ponto alto da criação é o primeiro homem Adão, cujo corpo foi produzido por Ptahil, mas cuja essência viva (a alma) foi derivada do Mundo da Luz, com Adão terrestre sendo visto como uma contraparte do Adão celestial (Adakas).
    • A maioria dos textos se ocupa da libertação dos elementos de luz (alma ou mana), sendo a ideia fundamental a missão de mensageiros da luz, como Manda dHaiye ('Gnose da Vida'), um 'Filho da Vida', para instruir os fiéis e redimir suas almas.
    • O texto afirma que, com uma única exceção, não se encontram casos em que os mensageiros da luz aparecem em um cenário histórico; a exceção diz respeito ao aparecimento de Anos ou Manda dHaiye em Jerusalém, onde encontram Cristo (msiha) e se opõem a ele como um profeta de mentiras.
    • A redenção consiste no retorno bem-sucedido da alma ao reino da luz, onde ela recebe uma roupa e uma coroa, e acredita-se que a alma também tem sua contraparte (dmuta) que se une à alma que retorna.
    • Além da escatologia individual, existe um Juízo Final, o 'grande dia do fim' ou do 'julgamento' (dina), quando as almas nos reinos infernais serão sentenciadas a cair no 'fogo ardente' ou no 'Oceano de Suf' e sofrer uma segunda morte.

Origem e História

  • A origem dos mandeus é traçada a partir de tradições que mencionam a perseguição de uma comunidade em Jerusalém e uma peregrinação de 360 'discípulos' (tarmidé) para o interior da Média sob o rei Ardban, sugerindo uma emigração de uma seita judaica herética da Jordânia para a Mesopotâmia durante o período parta tardio (primeiro ou segundo século d.C.).
    • O texto menciona a informação no Haran Gawaita sobre uma estadia dos nasoreanos no planalto montanhoso da Média ou 'Haran interior' (haran gawaita), para onde recuaram sob um rei Ardban antes da hostilidade dos governantes judeus.
    • A identificação deste Ardban (Artabanus) é difícil, mas parece tratar-se de uma tradição sobre a penetração da comunidade no que era então território iraniano durante o período parta tardio, com o rei Artabanus III, IV ou V sendo considerados.
    • João Batista (Yahya, Yohana) é mencionado como 'profeta de kusya' e 'mensageiro do Rei da Luz', sendo a figura histórica de fé única, embora não seja o fundador da comunidade, e é representado como o oponente de Cristo.
    • O texto afirma que a conexão com o cristianismo primitivo sírio-palestinense pode ser detectada, mas a forte hostilidade em direção ao cristianismo, especialmente em relação ao próprio Cristo, testemunha contra a visão de que se deva contar com uma fase anterior da seita que fosse cristã.
    • Por outro lado, o texto conclui que a origem judaica da comunidade não pode ser negada, tratando-se em última análise de uma seita judaica herética que se opunha ao judaísmo normativo e se abriu a fortes influências estrangeiras (principalmente iranianas e tendências gnósticas).
    • O êxodo do oeste deve ter ocorrido no mais tardar no curso do século II d.C., pois certos elementos mesopotâmicos e iranianos-partas nas regiões orientais pressupõem um período de residência bastante longo.
    • No início do século III d.C., Mani parece ter tido alguma associação com a comunidade mandeia, tendo assumido numerosas influências dela em seu trabalho posterior, como indicam os Salmos de Tomás maniqueus e o nono livro do Ginza.
    • O texto observa que, em contraste com os arsácidas partas, sob os quais a seita evidentemente prosperou, as relações com o estado sassânida não foram muito cordiais, havendo relatos de uma redução considerável dos templos mandeus e uma perseguição sob Sāhpūr I, e o Islã, apesar da tolerância concedida aos 'sabeus', trouxe mais opressão.

Sobre Esta Edição

  • A presente seleção de textos mandeus, baseada em uma nova tradução dos originais e na obra de Mark Lidzbarski, limita-se aos mais importantes para o caráter desta Gnose, visando fornecer uma visão do corpo de ideias mais antigo e significativo e do modo de vida dos nasoreanos.
    • O texto explica que numerosas expressões e termos técnicos foram mantidos na formulação de Lidzbarski ou deixados no original (como uthra, skina, mana) para evitar confusão e dar ao estudioso da Gnose uma visão do texto original.
    • A transliteração dos nomes próprios mandeus foi simplificada em comparação com a empregada por Lidzbarski, e uma lista de nomes próprios e termos técnicos mandeus é fornecida para explicação.
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