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PLA, ROBERTO
PLA, Roberto. El hombre, templo de Dios vivo: exegesio oculta de la religión de Cristo, a partir de comentarios al evangelio según Tomás S. II. 1a ed ed. Málaga, España: Editorial Sirio, 1990.
I
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A investigação cristológica parte de duas vertentes distintas: a esfera manifiesta, que estuda Jesus em sua dupla natureza humana e divina tornada uma só em Jesus Cristo, e a esfera oculta, que busca apreender o Cristo preexistente e eterno enquanto Filho do homem, de que todas as escrituras dão testemunho.
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A cristologia manifesta é praticada desde os primórdios do fato cristiano e por ela a cristandade ama e conhece Jesus de Nazaré, nascido de Maria Virgem em Belém de Judá, crucificado no Gólgota e ressuscitado ao terceiro dia.
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A investigação da vertente oculta — o Cristo preexistente de que as escrituras dão fé — permanece quase inteiramente inexplorada.
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O propósito desse escrito é oferecer os primeiros sinais básicos para que a investigação oculta, indispensável para revelar o Cristo inteiro, encontre avanço efetivo nos tempos vindouros.
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Um projeto dessa natureza não pode nem poderá jamais ser dado por concluído, devendo permanecer aberto às descobertas que uma investigação mais concentrada e concreta venha a aportar no futuro.
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O que se oferece é uma soma de sugestões primeiras a esse tipo de exegese do Novo Testamento, limitada à aplicação do método oculto em seu sentido objetivo, isto é, indireto.
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A maneira mais cômoda de expor o método teria sido a concentração em espaços monográficos reduzidos para depois desdobrá-los sucessivamente, mas o querigma cristão consiste em uma sucessão de elos encadeados de forma tão inextricável que não é possível iluminar um deles sem que os demais resultem automaticamente tocados e mergulhados em aparente incongruência.
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Foi imperioso efetuar um voo geral, ainda que demasiado vivo, sobre a totalidade da lição evangélica.
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A grande extensão do terreno a rever constituiu por si mesma um obstáculo que impediu contemplar com a devida atenção os muitos relevos próprios de cada uma das paisagens delimitadas.
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A aplicação do método oculto à exegese da Bíblia não pretende apresentar-se como uma descoberta, pois em sua hermenêutica para relatar os fatos é necessariamente tão antiga quanto a própria Bíblia.
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O evangelho proclamado por Jesus foi narrado por aqueles que, transformados em puros servidores da Palavra e contempladores de sua Glória, quiseram que as ensinamentos do Cristo completo fossem conhecidos por muitos.
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Para explicar o Cristo completo em sua dupla vertente, os hagiógrafos neotestamentários praticaram um método hermenêutico que continha igualmente os dois sentidos — o da esfera cristológica manifesta e o da oculta — sem que nenhum dos dois perdesse sua condição própria e genuína.
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Os dois modos de exegese praticados pelos primeiros cristãos para interpretar o Antigo Testamento configuraram neles a mentalidade necessária para a hermenêutica que os hagiógrafos neotestamentários pretendiam desenvolver, com a qual o cristianismo primitivo atualizava sua interpretação do texto bíblico em harmonia com as revelações proporcionadas por Jesus.
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Os escribas paleocristãos mostraram-se tão hábeis quanto os soférim judeus — os sábios antecessores testamentários de quem tecnicamente dependem os hagiógrafos cristãos — na arte de conferir pluralidade de sentidos a um texto sem prejuízo da autenticidade de nenhum deles.
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Um velho rabino explicava esse procedimento com as seguintes palavras: “Como um martelo faz saltar infinidade de faíscas, assim cada Escritura se exprime em multidão de sentidos.”
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O resultado dessa mentalidade foi a aplicação de uma hermenêutica dual, pela qual as perícopes de duplo sentido — manifesto e oculto — conformam a significação total dos textos neotestamentários, e somente quando essa leitura dupla é praticada em seu conjunto se revela o Cristo completo.
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A investigação da hermenêutica dual paleocristã não deseja penetrar em seus próprios possíveis vínculos com os procedimentos praticados em Qumran, pois uma investigação dessa espécie, historicista e cultural, é manifesta e se distrai nas preocupações pela ciência acessória, olvidando a pura revelação do saber oculto que o texto propõe.
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Em Qumran a investigação se ordenava a conhecer as coisas ocultas que só se revelavam progressivamente aos que recebiam os ensinamentos da seita.
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Segundo os textos de Qumran, as Escrituras expressam-se em mandamentos classificáveis em manifestos e ocultos — os primeiros já revelados, os segundos acessíveis apenas aos eleitos que recebiam o ensinamento.
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A doutrina dos mandamentos desenvolvida em Qumran coincide em grande medida com a hermenêutica dual que os primeiros hagiógrafos cristãos praticavam.
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Nos textos neotestamentários pertencem à ordem manifesta as expressões que se dão em uma primeira e não muito difícil leitura, cujo valor sábio e moral se revela por si só; as expressões de ordem oculta só podem ser alcançadas mediante uma releitura difícil que descobre nelas um valor gnoseológico que por si só é transformador.
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O conhecimento de ordem oculta subjaz na camada manifesta e há que descobri-lo mediante uma investigação direta, em que o investigador se identifica com a coisa investigada de forma tão íntima e fundida que o conhecedor e a coisa conhecida perdem sua significação separada na unidade do puro conhecimento.
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Quando esse método de revelação direta é aplicado à investigação do Cristo oculto, interior e eterno, é possível reconduzir a investigação à essência do objeto investigado, o qual, então, por si mesmo — como ocorre com a semente marcana que cresce sem que o lavrador saiba como —, se revela por si só.
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Um importante texto do ciclo henóquico enuncia esse mistério: “Desde o princípio esteve oculto o Filho do homem e o Altíssimo o guardou por seu poder e o revelou aos eleitos.”
II
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O método oculto só é aplicável quando o investigador tem notícia de que os hagiógrafos cristãos praticaram uma hermenêutica dual pela qual eram explicadas simultaneamente, em um mesmo texto, as duas vertentes — manifesta e oculta.
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Esse saber prévio funciona como uma tomada de consciência que, uma vez instaurada, permite descobrir em cada texto já conhecido segundo a vertente manifesta uma leitura nova, não entrevista até então, que abre uma nova interpretação em conformidade com a vertente oculta.
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Assim como a cristologia manifesta não estuda só o ser e a pessoa de Cristo, mas também sua obra salvadora — explicada como cristologia soteriológica —, também na cristologia oculta é possível distinguir, só para efeitos de análise e sem que isso afete a unidade indivisível de Cristo, dois capítulos ou etapas metodológicas.
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O primeiro capítulo metodológico — denominado de atualização indireta — consiste em efetuar, por seleção natural e espontânea, uma releitura de cada texto não condicionada pelas interpretações fornecidas durante séculos pela exegese manifesta, as quais se interpõem entre o texto e o verdadeiro conhecimento do que ele exprime em sua vertente oculta.
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À medida que a atualização indireta é praticada, é possível adquirir o hábito formal para descobrir a expressão oculta que subjaz na camada superficial manifesta.
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Por meio dessas expressões de signo oculto chega-se a adquirir um conhecimento indireto do Cristo completo, que enriquece por si só o saber acerca do conteúdo dual das escrituras e permite contemplar gradualmente uma imagem mais totalizadora de Cristo do que aquela que proporciona a simples cristologia manifesta.
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Os métodos de exegese do Novo Testamento segundo a ciência manifesta — o filológico, o de história das formas, o de história da redação e o midrásico-derásico — não passam de instrumentos técnicos de trabalho, cuya aplicação resulta vazia enquanto não se preenche de sentido com um material entregue pelo conhecimento.
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Nem a história de um termo, nem a classificação da forma, nem o processo redacional do texto, nem o conhecimento dos procedimentos derásicos, nem a história das fontes rabínicas em relação ao Novo Testamento bastarão por si sós para decifrar o sentido completo de um texto; servirão apenas para confirmar ou descartar hipóteses prévias.
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O conhecimento prévio de que os textos neotestamentários foram elaborados de acordo com uma hermenêutica dual serve necessariamente para decifrar seu sentido completo, pois ambas as vias — manifesta e oculta — são chamadas a completar-se no sentido absoluto, como síntese última prevista pelo hagiógrafo.
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A dupla cristologia — manifesta e oculta — que se revela simultaneamente pela hermenêutica dual pode ser ilustrada com uma perícope do quarto evangelho: “A Palavra se fez carne e pôs sua morada entre nós.”
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Segundo a ordem manifesta, o Filho único, invisível, revelou-se ao mundo em Jesus de Nazaré, o Cristo visível — essa é a exegese tradicional da cristologia manifesta.
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Segundo a ordem oculta e a vertente do Cristo eterno, a Palavra, enquanto Filho do homem invisível, revelou-se desde o princípio em distintas épocas e lugares aos eleitos ungidos pelo Espírito de Deus.
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A Palavra foi semeada em cada homem ao nascer, e é isso que em ordem oculta quer dizer o texto ao afirmar que “pôs sua morada entre nós” — a Palavra semeada é o Filho do homem, oculto e desconhecido pela consciência da maioria dos homens, até que um dia se revela ao eleito em cumprimento da sentença evangélica: “nada há oculto senão para que seja manifestado.”
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As duas vertentes da exegese exigem um mesmo grau de fé, ainda que de natureza distinta: a Palavra, eterna e invisível, é a essência ubérrima de Cristo, e esta é também a essência de cada homem, que pode ser revelada como o Filho do homem invisível e eterno.
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Para a interpretação cristológica oculta o evangelho fornece abundantes testemunhos, e alguns desses passos podem ser aduzidos como primeira prova testemunhal.
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No evangelho lucano narra-se que Jesus de Nazaré, o Cristo ressuscitado e portanto já puramente eterno e preexistente, abordou dois discípulos que iam a Emaús e lhes explicou, começando por Moisés, o que havia sobre ele em todas as escrituras — chamando-os antes de insensatos e tardos de coração.
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Em ordem oculta também há que interpretar a afirmação de que o Dia do Filho do homem foi visto por Abraão, o qual o viu e alegrou-se: não se trata de uma antecipação clarividente do nascimento messiânico de Jesus, mas do dia em que o Cristo oculto — que nasce na alma purificada como revelação que vem de cima — passou a viver no profeta como presença permanente de Deus.
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O filho da promessa de Davi foi por descendência manifesta da dinastia davídica Jesus, o Cristo manifesto e oculto a um tempo, mas Jesus cuida de que fique consignado no evangelho que Davi nomeia o nascido do céu não como filho, mas como seu Senhor.
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Antes de que Abraão existisse e também nos tempos de Davi, a Palavra já se havia feito carne e havia posto sua morada entre nós, como confirma a afirmação: “Antes de que Abraão existisse, Eu Sou.”
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Isaías viu a glória de Cristo e falou dele — a exegese oculta enxerga no filho profético de Isaías não apenas uma prefiguração do messias manifesto em Jesus, mas a realidade do Cristo oculto e eterno, o Filho do homem sempre uno e o mesmo, que se revela ao eleito como um segundo nascido em espírito.
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O que Isaías descreve com o nascimento do filho é o sinal de Deus — o nascido da donzela virginal que o profeta denomina Emanuel, Deus conosco —, e desde a vertente manifesta esse texto serve no evangelho de Mateus como derás cristológico, quando o evangelista recorre a Isaías.
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O quarto evangelista não diz que Isaías viu o Filho, mas que viu sua glória; e sempre que os evangelistas se referem à Vinda do Filho do homem descrevem sua chegada com grande poder e glória — Marcos acrescenta: “para reunir seus eleitos.”
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Na teofania da transfiguração, Moisés e Elias aparecem em glória com Jesus: Mateus descreve “seu rosto brilhante como o sol e seus vestidos brancos como a luz”, Lucas menciona “brancura fulgurante” e Marcos “resplendecente.”
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A presença de Moisés e Elias no alto monte em glória inseparável com Jesus — glória que não admite ser separada em tendas individuais — é testemunho da unicidade do Filho do homem em sua nudez pura de ser Glória, de ser o manto de luz em que o Pai se envolve.
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Os profetas Ezequiel e Daniel revelaram, no Dia de sua teofania, o Filho do homem enquanto ser verdadeiro — a essência nua da condição humana mortal: Ezequiel o descreveu como o fulgor do electro e Daniel como um rio de fogo.
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O Filho único, o manto de Glória em que se envolve o Pai, é o Filho do homem, a Palavra semeada como morador oculto em cada homem que vem a este mundo; quando se revela a uma alma purificada e virginal, descobre-se como o Cristo eterno e preexistente de que todas as escrituras dão testemunho, pois Cristo é sempre, desde o princípio, uno e o mesmo.
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O salmo testemunha o Filho do homem com estas palavras: “Sua salvação está próxima, sua glória habita em nossa terra.”
III
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O propósito perseguido nesse escrito é despertar em alguns a consciência de que os textos canônicos neotestamentários expressam-se de acordo com uma hermenêutica dual, pela qual — uma vez assimilada a leitura primeira, chamada manifesta — é possível enfrentar uma segunda leitura, mais difícil de ser apreendida, para encontrar por ela um novo sentido que os hagiógrafos cristãos denominavam oculto ou secreto.
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A prática da hermenêutica dual exigiu dos escribas cristãos primitivos uma interpretação prévia do Antigo Testamento com conhecimento dos procedimentos e escrituras postos em prática pelos soférim judeus desde o princípio, a fim de aplicar às grandes revelações proporcionadas por Jesus aquelas estruturas plurais da Bíblia.
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Parece verossímil que, como já vem sendo apontado por alguns investigadores atuais, se tenham formado diversas escolas de escribas paleocristãos — a escola palestinense de Mateus, muito relacionada aos métodos da comunidade de Qumran; a escola talmúdico-midrásica de João, em Éfeso; a elaboração peculiar de Lucas, ligada aos procedimentos de Paulo; e sobre tudo isso, a base hermenêutica geral fornecida com surpreendente agilidade pelo trabalho construtivo de Marcos.
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A linha oculta da hermenêutica cristã refere-se essencialmente a Cristo, não apenas porque foi explicado como o Cristo preexistente e oculto que subjaz no Cristo manifesto, mas porque Cristo, o Filho único, é a realidade, o tesouro oculto, uno com o Pai, que a todo amador e buscador de Deus cabe manifestar como via de salvação.
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Quando Mateus recopila os ensinamentos de Jesus sobre as obras de misericórdia — a esmola, a oração e o jejum —, assinala em cada caso que o Pai, que mora no oculto, vê, pois “está ali no secreto”; com o advérbio ali Mateus pode querer significar algo além da consciência cotidiana, na essência ou Ser verdadeiro do homem — um ali não reconhecido ainda pela consciência e portanto oculto e desconhecido.
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Na epístola aos Colossenses afirma-se que no mistério de Deus — que é Cristo vivo e eterno, pois Cristo é o Primeiro Mistério — “se acham ocultos todos os tesouros do conhecimento perfeito.”
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O livro de Enoc corrobora essa expectativa com as palavras: “Ele — o Filho do homem — revelará todos os tesouros do oculto.”
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Marcos recorda em um grito criador de esperança que “não há nada oculto senão para que seja manifestado.”
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No quarto evangelho aparece a pergunta incisiva posta na boca de Judas, irmão de Tiago, invadido de humildade: “Senhor, que acontece para que te vás a manifestar a nós e não ao mundo?”
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Em todos esses textos, nascidos de escolas diferentes, é clara a superposição do Cristo manifesto sobre o oculto — não manifestado ao mundo, mas apenas aos que amam e buscam o Cristo eterno —, e o designo que emerge é que o Cristo oculto seja ao fim manifestado, pois esta é a obra comum que Jesus ensinou e que a cada homem corresponde efetuar em si mesmo.
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A primeira epístola de João enuncia isso com precisão: “Agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que seremos. Sabemos que quando se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.”
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O reconhecimento e a investigação da hermenêutica dual pela qual pode ser descoberta a via oculta constituem o primeiro capítulo metodológico de aproximação ao Cristo oculto — denominado de atualização indireta —, cujo propósito é atualizar na consciência a existência de uma via subjacente nas escrituras por que é possível saber que os textos canônicos cristãos mencionam e esclarecem em boa medida o Cristo preexistente e eterno.
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Uma vez posto em marcha o estudo indireto, externo e intelectual da via oculta, é necessário entrar com resolução no segundo capítulo metodológico — designado como de revelação direta.
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Por revelação direta entende-se que o objeto de investigação parece estar no interior de si mesmo, pelo que o sujeito e o objeto, o conhecedor e o conhecido, começam por ser uma distinção pouco clara na consciência para depois cristalizar na realidade de ser uma só e mesma coisa.
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Paulo, no discurso dirigido aos atenienses no Areópago — conforme narra Lucas nos Atos —, argumenta que o Deus desconhecido mencionado pelos atenienses em uma inscrição diante de um altar se revelou em Cristo vivo, preexistente e eterno, no Senhor verdadeiro que não habita em templos fabricados por mão de homem.
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O templo em que o Deus vivo e verdadeiro põe sua morada em cada homem que vem ao mundo é o corpo — a carne psicofísica —, que não foi fabricado por mão de homem, e cujo hóspede sagrado e desconhecido é o Deus vivo, imanente e transcendente a um tempo.
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Paulo completa seu discurso sobre o Deus desconhecido afirmando que Deus, ao fazer o mundo, delimitou muito bem o lugar onde podia ser buscado — “para ver se a tateios o buscavam e o encontravam; por mais que não se encontra longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e somos.”
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Quando Paulo diz que Deus não se encontra longe, responde dentro da mais pura ortodoxia oculta aos termos do querigma de Jesus, no qual se afirma que o Reino de Deus está próximo — e Paulo o entende não como proximidade temporal, como muitos interpretaram e ainda interpretam, mas como contigüidade cognoscitiva, segundo se deve entender a via oculta.
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Na expressão “nele vivemos, nos movemos e somos” ficam implícitos dois níveis diferentes e sobrepostos do conhecimento do Ser: uma corrente de consciência superficial e manifesta, que cremos ser, e um ser verdadeiro, quieto e profundo, como o leito do rio, oculto pelas águas quando estas correm turbulentas.
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O fundo essencial e ignorado da consciência é o Deus desconhecido que só pode ser revelado diretamente — isto é, por uma ação de autobusca interior em que a totalidade do homem deve ficar implicada.
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Essa grande investigação constitui a parte principal do Evangelho, ou melhor, é o próprio Evangelho, e Jesus descreve a disposição para ela como uma metanoia — uma volta da mente sobre si mesma.
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Essa volta ou reflexão luminosa é necessária, e a partir dela uma longa purificação — um completo lavado interior — para que as águas do pensamento sosseguem suas turbulências e deixem em pura transparência o fundo inamovível do Deus vivo.
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Para obter a manifestação íntegra do oculto — o que será qualificado de ressurreição —, o evangelho propõe com insistência uma paciente e ininterrupta vigilância, um estado de alerta incessante pelo qual a presença anteriormente descoberta se estabiliza na nova consciência, universal, una, nascida do espírito.
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O primeiro passo, básico e fundacional, nessa busca interior é a percepção da presença do Espírito de Deus — a sekiná descrita pelos soférim judeus — cuja tenaz intuição inicial está chamada a florescer por si só se contemplada com amor e devoção diligente.
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Pouco a pouco essa flor misteriosa, não nascida de ventre de mulher, mas do espírito, chega a mostrar-se por si mesma como a Glória da presença — a iqar sekiná — que muitos profetas antigos viram e até foram eles mesmos, e cujo testemunho na escritura Jesus reivindica para si como Filho do homem.
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A primeira condição para que tal revelação ocorra vem sob o signo da fé — uma fé que se fortalece pouco a pouco por si só uma vez nascida, crescendo e se consolidando pela mirada do conhecimento vigilante, muito mais sólida e efetiva do que a mirada dos olhos.
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Dessa fé, que é firme convicção do Ser, falava Jesus quando dizia: “Se não credes que Eu-Sou, morrereis em vossos pecados.”
IV
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O Evangelho Segundo Judas-Tomás — cujas palavras o compilador anônimo qualifica de ocultas — é tomado como ordenador e guia para o presente escrito, cujo propósito é demonstrar que todos os textos do atual cânon neotestamentário expressam-se por meio de uma hermenêutica dual, na qual aparecem em difícil e meritório equilíbrio a significação manifesta e a oculta.
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A significação manifesta é a que a teologia manifesta estudou e explicou até hoje, sem que durante esse tempo tenham deixado de existir bons números de esforços isolados, nunca levados em conta, para ensinar alguns aspectos — nunca orgânicos, nunca sistematizados — do pensamento cristão oculto primitivo.
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O caminho aberto para a vertente oculta do pensamento cristão deve ser — ainda que primário e incipiente quanto à investigação exterior e indireta — sumamente global, como o desdobramento de um mapa geral sobre o qual futuras gerações investigadoras deverão aprofundar com eficácia os muitos problemas agora apontados.
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O Evangelho Segundo Tomás serve como um desenho básico providencialmente ajustado para esse desdobramento geral, sendo um dos 53 tratados encontrados em 1946 na população egípcia de Nag-Hammadi, a uns cem quilômetros ao norte de Luxor, junto ao antigo cenóbio de Quenobóskion.
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Sem muita prudência a totalidade da biblioteca de Nag-Hammadi foi classificada como gnóstica desde o primeiro momento, mas à medida que os tratados foram vindo à luz tornou-se impossível adscrever todas as obras a uma só corrente de pensamento cristão.
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O texto copto do manuscrito conservado atualmente no Museu Copto do Cairo Velho foi estabelecido pelo grupo de cinco investigadores conhecido como grupo Brill — nome da editora que publicou a tradução realizada por esses professores em 1959.
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Os tradutores explicaram que o tratado — uma coleção de logia, ou ditos de Jesus, diferenciados e numerados até 114 — é uma tradução ou adaptação em copta saidico de uma obra cujo texto primitivo deve ter sido redigido em grego por volta do ano 140, a partir de fontes ainda mais antigas.
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O professor francês Philippe de Suarez apresentou em 1975 uma tradução direta a partir dos textos coptas, com disposição paralela do texto em versos numerados que permite verificação textual escrupulosa; De Suarez assinala o caráter arcaico dos exemplos que conformam o Evangelho Segundo Tomás — os ditos de Jesus aparecem ali despojados de certas formas ornamentais e parecem superar em antiguidade primitiva a redação que oferecem em geral os sinóticos.
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Segundo a classificação proposta pelos estudiosos do gnosticismo e da gnose reunidos em Messina em 1966 para diferenciar os termos gnose e gnosticismo, nenhum dos ditos de Jesus reunidos no Evangelho Segundo Tomás dá motivo para afirmar seriamente que o tratado deve ser qualificado como gnóstico.
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O característico das seitas cristãs ou judeo-cristãs que florescem especialmente no século II e costumam ser qualificadas como gnósticas são as formulações em que se explica o universo por meio de uma complexa simbologia mítica repleta de éons, rangos, próbolos, arcontes, liturgos e muitas outras personificações maiores de difícil e pouco estudada significação real.
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As mitificações gnósticas não estão demasiado longe do mito cristão manifesto — que também possui formas de expressão manifesta, como as legiões de anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, dominações, principados, escadas, etc. —, e as correlações cristiano-gnósticas aparecem com frequência quando se esclarecem desmitificadas, mas exigem para ser aplicadas um certo estudo doutrinal e um longo trabalho exegético.
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A gnose — à qual o Evangelho Segundo Tomás deve ser decididamente atribuído — não implica um pensamento herético em relação ao cristianismo se este é explicado segundo sua hermenêutica dual; a gnose supõe estruturalmente a formulação de uma ciência pela qual é possível alcançar o conhecimento de Deus, do Ser absoluto imanente-transcendente — e em sentido ainda mais restrito, gnose é conhecimento puro, conhecimento de Deus.
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Os ditos do Evangelho Segundo Tomás tentam explicar de maneira aberta e decidida o querigma cristão desde a vertente oculta, como se não conhecessem a vertente manifesta, isto é, sem colocar a hermenêutica dual que os textos neotestamentários do cânon sustentam com tanto e difícil equilíbrio.
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O Evangelho Segundo Tomás emprega o sentido metafórico como modo habitual de expressão, e as figuras empregadas implicam quase sempre contradição, expressando suas sentenças com aparência de asserções inverossímeis ou absurdas.
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O estilo paradoxal é a forma própria de expressão do Evangelho Segundo Tomás, e é essa surpreendente sugestão lógica que obriga a meditar até descobrir a realidade escondida atrás de cada figura metafórica.
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Nos ditos de Jesus tal como os apresenta o Evangelho Segundo Tomás, confrontam-se em muitas ocasiões a figura e a realidade, mas nunca há uma realidade bifronte ou dual como nos escritos neotestamentários canônicos — há apenas aparição puramente linear e sempre dentro da vertente oculta.
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O Evangelho Segundo Tomás declara desde seu primeiro enunciado no Incipit que seu texto está construído com as palavras ocultas ditas por Jesus; o título “o Vivente”, aplicado a Jesus, revela com clareza que o personagem central é o Cristo eterno, preexistente, sempre vivo em seu templo humano não feito pela mão do homem — em todos os casos sempre o Cristo oculto e universal cujo testemunho aparece em toda a Escritura.
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Toda exegese bíblica costuma ser exegese aplicada no velho e tradicional sentido de que cada investigador pretende agregar ao grão de sua investigação própria o processo investigador acumulado de seus antecessores, em quem em certo modo se arropa e busca proteção, medindo-se cada obra pelo bagageiro intelectual creditado e cifrado em razão direta com as notas bibliográficas aportadas — mas nessa obra a situação é notoriamente distinta por vários motivos.
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O primeiro motivo de distinção é a natureza exígua do material que os textos antigos posteriores à Bíblia podem aportar à tese desse escrito, e os escassos descobrimentos investigadores que o precederam.
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Uma vez descartada por inadequada a bibliografia gnóstica — tão rica e sugerente após o aparecimento da biblioteca de Nag-Hammadi —, muito pouco material restava disponível para estudar as sendas do conhecimento que não fossem as que a própria Bíblia fornece.
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Os textos gnósticos expressam-se por uma complexa simbologia cuja explicação necessitaria de um esforço talvez maior do que o presente intento de introdução na vertente oculta dos textos canônicos neotestamentários.
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O projeto desse escrito não é tanto a atualização indireta da vertente oculta — para a qual poderiam valer referências externas — quanto a deflagração de uma revelação direta para que o Cristo oculto possa ser dado a conhecer por conhecimento próprio em quem estude o escrito; para chegar a essa meditação profunda e metanoética, ninguém precisa seriamente de outros apoios bibliográficos além do seu próprio conhecimento.
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Outro motivo para rejeitar quase sistematicamente todo testemunho que não venha diretamente da Bíblia está fundado em razões práticas: esse discurso está escrito para aqueles — não se sabe se poucos ou muitos — que não buscam mais sabedoria do que aquela que consiste em conhecer a Deus, o que está às vezes em oposição com a sabedoria dos sábios quando estes não intentam sobretudo o conhecimento de Deus.
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Para aproximar-se do conhecimento de Deus costuma ocorrer que a acumulação cultural estorva e o arropamento bibliográfico é desnecessário.
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O único propósito real ao escrever essa obra foi o de despertar o amor para com o Cristo completo — conjuntamente o Cristo que morreu pelos homens há quase dois mil anos em Jerusalém, cujo amor foi fomentado pela exegese manifesta desde o princípio do fato cristão, e ao mesmo tempo o Cristo preexistente e eterno, pois, embora ambos os Cristos sejam um só, não é possível prescindir do Cristo que, desde o princípio e desde que existiu o primeiro homem sobre a terra, jaz esquecido, desconhecido, “crucificado” no interior de cada homem, e que só espera, para revelar sua presença imortal, divina e inseparável, ser invocado pelo amor e pela fé.
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Então chegará ao interior de cada homem a bem-aventurança verdadeira de sua ressurreição.
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