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SER E ESSÊNCIA

GILSON, Étienne. L’être et l’essence. 3. éd., 3. tirage ed. Paris: Vrin, 1994.

As dificuldades da metafísica derivam da substituição do ser, como princípio primeiro, por aspectos particulares estudados pelas ciências naturais, o que levanta o paradoxo de que tantos filósofos, inclusive os maiores, se desviem justamente do princípio que deveria ser evidente.

  • O ser é o primeiro princípio do conhecimento e, portanto, deveria estar incluído em todas as representações.
  • Ao longo da história, o temor do primeiro princípio da sabedoria parece ser o próprio início da sabedoria.
  • A preocupação constante dos filósofos, já apontada por Aristóteles, é a questão: o que é o ser?

O ser é o que é, mas as dificuldades começam quando se busca definir o sentido do verbo “é”, pois a existência não é representável por conceito nem dentro de conceito algum.

  • Kant demonstrou, na Crítica da razão pura, ao tratar da prova ontológica da existência de Deus, que o ser não é um predicado real acrescentável ao conceito de uma coisa.
  • O conceito de um objeto real não difere em nada do conceito do mesmo objeto pensado como simplesmente possível.
  • Kant afirmou: “Quaisquer que sejam os predicados que atribuo a uma coisa, e fossem eles numerosos o bastante para determiná-la completamente, nada lhe acrescento ao acrescentar que a coisa existe.”

Kant reconheceu também o aspecto existencial do problema, admitindo que as ordens do real e do possível são incomensuráveis, de modo que a existência não é um atributo entre outros, mas o próprio ato pelo qual uma coisa e todos os seus atributos se afirmam como reais.

  • O próprio exemplo dos cem táleres, usado por Kant, revela que não é a mesma coisa ter cem táleres possíveis no espírito e cem táleres reais no bolso.
  • Dizer de uma coisa que ela existe não é acrescentar o atributo da existência aos demais; é dizer que a própria coisa, com todos os seus atributos, é um sujeito tão real quanto aquele que a pensa.
  • Não se pode dizer corretamente que Deus seja sábio, bom, onipotente, infinito e existente como se a existência fosse um atributo de mesma ordem que os outros — se Deus não existisse, não teria atributo algum.

A raiz dos paradoxos que afligem o uso filosófico da noção de ser está na neutralidade existencial de todos os conceitos, pois nossa representação conceitual do real é congenitamente cega à existência, e isso vale inclusive para o próprio conceito de “ser”.

  • Nada é mais importante, acerca de um objeto qualquer, do que saber se ele existe ou não.
  • Todos os conceitos apresentam o mesmo caráter de neutralidade existencial — nenhum representa uma coisa com ou sem a existência.
  • Kant observou: “O que quer que contenha nosso conceito de um objeto, somos sempre obrigados a sair dele para atribuir-lhe a existência.”
  • Conceber algo como um ser não equivale a pensar que ele existe; é completamente indiferente ao conceito de ser que aquilo que é seja ou não seja.

A obra de Émile Meyerson fornece a epígrafe do livro porque sua demonstração irrefutável identifica uma ilusão que é a própria vida da ciência, ao passo que essa mesma ilusão representa a morte da metafísica.

  • Meyerson, autor de Identidade e realidade, disse, como todos os filósofos, apenas uma única coisa, mas a demonstrou de modo irrefutável.
  • O autor declara ter tido razões para crer que Meyerson teria se recusado a tomar posição sobre a questão metafísica central do livro.
  • O pensamento de Meyerson esteve presente durante os anos de preparação da obra, justificando ao menos a inscrição de seu nome nela.

A metafísica parte de palavras da língua comum, não de termos técnicos, e se pergunta se essas palavras exprimem ou não um conhecimento real, o que não é uma reflexão sobre palavras vazias, mas sobre as condições de possibilidade da própria linguagem.

  • Palavras como “é”, “por causa de” e “a fim de” são usadas em incontáveis frases e dissimulam, sob sua aparência ordinária, os três problemas metafísicos do ser, da causalidade e da finalidade.
  • O verbo “ser” e o nome “ser” não são termos eruditos criados por filósofos, mas palavras encontradas na língua comum pelos primeiros metafísicos.
  • A questão é saber se a palavra “ser” tem apenas valor de algoritmo lógico ou se exprime uma propriedade fundamental realmente atribuível àquilo de que se diz que “é”.

A objeção de que a metafísica seria dependente de uma língua particular não invalida seu alcance, pois investigações distintas sobre diversas famílias linguísticas podem se completar mutuamente e produzir conclusões de abrangência verdadeiramente geral.

  • Famílias linguísticas diferentes podem propor o mesmo problema de maneira diferente, sem que isso torne suas propostas metafisicamente inválidas.
  • Não há razão para supor que cada metafísico deva descobrir, sozinho e de uma vez por todas, o segredo do ser a partir apenas das línguas que conhece.
  • A reflexão do metafísico deve inicialmente se vincular às línguas que conhece e, particularmente, àquela que usa.

A linguagem, por sua função prática e histórica, dobra o sentido das palavras em direções inesperadas e irracionais, de modo que a reflexão metafísica deve necessariamente assumir a forma de uma crítica da linguagem para dissociar os elementos de conhecimento filosófico que ela possa conter.

  • As línguas não são obra de metafísicos e sua função habitual não é exprimir conhecimentos metafísicos.
  • Os usos práticos das palavras agem sobre elas para dobrar seu sentido nas direções menos racionais e, por vezes, mais inesperadas.
  • Não é certo nem que a linguagem contenha elementos de conhecimento filosófico, nem que não os contenha — mas, se os contém, a tarefa primeira do metafísico é deles a dissociar.

A palavra “ser” sofre de uma ambiguidade estrutural entre seu uso verbal e seu uso nominal, ambiguidade que não afeta todas as línguas da mesma forma e que gerou, em francês e em inglês, soluções distintas para distinguir o ato de ser da coisa que é.

  • Em latim técnico, a partir de Boécio, o verbo esse se distinguia nitidamente do nome ens; em grego, não se confundia o verbo com o nome equivalente.
  • Em inglês, distinguem-se nitidamente o verbo to be e o nome being.
  • Em italiano, tolera-se falar em essere tanto como verbo quanto como nome, embora puristas prefiram ente no sentido nominal.
  • No século XVII, Scipion du Pleix, em sua Metafísica — cuja edição revista por ele mesmo foi publicada em 1617 — intitulou o Livro II “O que é o ente?” e distinguiu o uso verbal do uso nominal da palavra.

O neologismo “étant” — ente — proposto no século XVII para traduzir com exatidão o latim ens não prevaleceu no uso filosófico francês, o que gerou a anfibologia duradoura da palavra “ser”, que oscila entre designar o ato de ser e designar a coisa que é.

  • Scipion du Pleix reservou o termo étant “puramente para o uso nominal”, tomando-o por qualquer coisa que seja, desde que seja realmente e de fato, como Anjo, Homem, Metal, Pedra.
  • O nome être acabou suplantando étant e significa, segundo os dicionários franceses, “tudo aquilo que é”.
  • O que há de mais importante em “aquilo que é” é o próprio fato de que ele seja — aquilo que não é tampouco é um “aquilo que”; simplesmente não é nada.

A tendência natural do intelecto é pensar o ser pelo prisma daquilo que a coisa é, e não pelo fato bruto de que ela seja, o que leva à confusão entre ser e ente, entre o ato de ser e a coisa que é.

  • É mais fácil conceber aquilo que uma coisa é do que o fato bruto de que ela seja.
  • Quando se cede a essa inclinação, “ser um ser” e “ser” parecem se confundir — mas falta muito para que as duas fórmulas sejam equivalentes.
  • Se é verdade que algo seja um ser, disso não resulta imediatamente que ele seja, exceto no sentido indeterminado de que é um ser real ou possível.
  • A própria linguagem reagiu a essa confusão duplicando o verbo “ser” com outro verbo encarregado de assumir a função existencial que “ser” progressivamente deixou de exercer.

Em francês, o verbo “existir” foi encarregado de expressar o puro fato de ser, função que o verbo “ser” progressivamente deixou de exercer, e o mesmo fenômeno, de forma menos nítida, ocorre em inglês com fórmulas do tipo “God is, or exists”.

  • Numa língua em que a mesma forma verbal significa “ser” e “um ser”, era praticamente inevitável que uma forma verbal distinta fosse empregada para dizer de um ser não apenas que ele é “um ser”, mas que ele é.
  • Em inglês, o verbo to be está tão ligado à sua função de cópula — anunciando um atributo — que, para compensar o desapontamento de seu emprego puramente verbal, frases inglesas o duplicam com outro verbo.

O verbo latino exsistere — composto de ex e sisto — significava originalmente menos o fato de ser do que a referência a uma origem, e os escolásticos o entenderam como “subsistir a partir de outro”, sentido bem distinto do uso moderno que o faz equivaler simplesmente a “ser”.

  • Os sentidos mais frequentes de existere em latim clássico são aparecer, mostrar-se, sair de — como em Lucrécio, para quem “os vermes nascem do esterco”: vermes de stercore existunt.
  • Ricardo de São Vítor, em seu De Trinitate, pergunta: “O que é existere, se não ex aliquo sistere, isto é, ser substancialmente a partir de algo?”
  • Egídio Romano ensinou que a existência aparece com a união da essentia e do esse, precisamente porque resulta dela.
  • Os escolásticos resistiram por muito tempo à tentação de substituir esse por existere, mantendo na noção de existência a conotação de origem.

No século XVII, existentia já se havia especializado na significação do puro fato de ser, e Descartes empregou “existir” simplesmente como equivalente de “ser”, o que se confirma pelo próprio título de suas Meditações e pela Terceira Meditação, “De Deus, que ele existe”.

  • Scipion du Pleix lamentava, em 1617, que o francês não tivesse um termo equivalente ao latim existentia, que significava “a entidade nua, o ser simples e nu das coisas”.
  • Para Scipion du Pleix, existentia já designava o puro fato de ser, ao passo que essentia marcava “a natureza da coisa” e, portanto, a ordem ou posição que ela ocupa entre as outras coisas.
  • Fénelon, ao escrever sobre a existência de Deus, empregou “existência” no sentido de “ser” — ao passo que “uma carta sobre o ser de Deus” deixaria o leitor na incerteza sobre se o tema era a prova de que Deus é ou um estudo sobre o que ele é.

O deslize de sentido que transforma existere em simples substituto de esse se explica pelo fato de que, na experiência sensível, todos os seres conhecidos alcançam o ser em virtude de certa origem, tornando a existência o único modo de ser de que temos experiência direta.

  • Na experiência sensível, todos os seres diretamente apreendidos existem, pois alcançam o ser em virtude de certa origem.
  • Uma metafísica tecnicamente rigorosa diria de cada ente que ele “é” em consequência de sua “existência”, em vez de dizer que ele “existe” para significar que ele “é”.

O Dicionário de Littré atesta uma desvalorização do verbo “ser” em proveito de “existir”, ao declarar que o sentido próprio e primitivo de “ser” é o de ligar o atributo ao sujeito, e não o de significar a existência.

  • Segundo Littré, ao se dizer que “a Terra é redonda” ou que “Luís XIV foi rei da França”, o verbo “ser” é empregado em seu sentido próprio e primitivo.
  • Pelo mesmo critério de Littré, dizer que “a Terra é” ou que “Luís XIV foi” já não corresponderia ao sentido próprio e primitivo do verbo.
  • Numa língua em que o sentido existencial de “ser” se obscureceu a tal ponto, recorreu-se a “existir” para remediar tal carência.

Os existencialismos contemporâneos tentam dissociar novamente as noções de ser e existência — que o francês clássico havia fundido desde o século XVII — mas introduzem nova confusão ao tomar a existência como modo de ser ligado à duração e à origem, e não como o puro fato de ser.

  • Os diversos movimentos reunidos sob o nome de “existencialismo” concordam ao menos em que a existência se distingue do ser a ponto de, em certos casos, opor-se a ele.
  • Se Deus é, a partir de que existiria? — daí resulta, no existencialismo contemporâneo, a consequência de que, se Deus “é”, Deus não existe.
  • Dizer que um ser “existe” pode significar simplesmente que ele “é”, ou que ele alcança o ser a partir de sua origem; dizer que um ser “é” pode significar simplesmente que ele “existe” ou, caso não tenha origem, que ele não existe.

O existencialismo elimina o ato de ser da metafísica ao essencializá-lo — seja pela confusão do ser com o ente, seja pela confusão do ser com o modo de ser próprio ao devir —, e sua contribuição legítima seria uma fenomenologia do ente, não uma metafísica do ser.

  • O ato de ser se encontra radicalmente eliminado da metafísica tanto pela sua absorção na essência do “aquilo que é” quanto pela sua confiscação em proveito da existência.
  • O existencialismo não propõe o problema da existência no sentido clássico — seu objeto próprio é uma nova essência, a do ser em devir no tempo.
  • O nada que o ser do existencialismo não cessa de ultrapassar, até que enfim sucumba a ele, nunca é senão um nada interior ao próprio ser, que por sua vez não é objeto de nenhuma questão.
  • O único erro do existencialismo é o de tomar-se como uma metafísica e esquecer a presença do ato em virtude do qual o ente existe.
  • A verdadeira metafísica do ser jamais teve a fenomenologia à qual tinha direito; a fenomenologia moderna não tem a metafísica que é a única a poder fundá-la e guiá-la.

O nome “essência” deriva do latim essentia — neologismo que Sêneca considerava indispensável para traduzir o grego correspondente, e que Santo Agostinho ainda reconhecia como estranho à língua antiga — e designou originalmente o ser atual, mas progressivamente passou a designar aquilo que faz uma coisa ser o que ela é, dissociando-se assim do puro ato de ser.

  • Sêneca, em Carta a Lucílio 58,6, considerava essentia um neologismo indispensável, pois nenhuma outra forma latina traduzia com exatidão o equivalente grego.
  • Santo Agostinho ainda falava de essentia como palavra estranha à língua antiga, reconhecendo-lhe exatamente a mesma função de designar o ser.
  • Para Santo Agostinho, dizer que Deus é summa essentia significa manifestamente que Deus é o ser supremo ou o supremamente ser.
  • Para Scipion du Pleix, a existência significa o fato bruto de que uma coisa seja; a essência marca “a natureza da coisa” — distinguindo-as como o real do abstrato.
  • A essência, assim entendida, permanece a mesma quer a coisa exista quer não — o que revela a dissociação progressiva entre essência e ato de ser.

As variações da linguagem metafísica em torno de “essência”, “existência” e “ser” traduzem as variações reais do pensamento em seu esforço para definir a natureza do objeto, e o uso que cada filósofo faz dessas palavras é suficiente para situar sua filosofia.

  • O intelecto parece ter procurado na essentia o meio de dissociar o ser do próprio fato de que ele existe.
  • Aquilo que é visto pode, sozinho, ocultar o resto — deve haver no próprio ser algo demasiado visível para que o resto seja facilmente percebido.
  • Uma experiência histórica muitas vezes secular permite, se interpretada em seu conjunto, colocar sob a luz adequada aquilo que o entendimento tende espontaneamente a deixar na sombra.

A via proposta é a do “ser e da essência”, em que “ser” designa ao mesmo tempo o ente — a essência concretamente atualizada pelo ato de ser — e o próprio ato de ser que a essência especifica e do qual a existência manifesta no tempo a fecundidade, reservando-se ao existencialismo o direito legítimo sobre o termo “existência” tal como o legou o gênio de Kierkegaard.

  • A via do “ente e da essência” — de ente et essentia em latim — seria mais precisa, mas o “ser” ao qual se pretende chegar não se limita ao ens da metafísica latina clássica.
  • A via do “ser e da existência” seria possível, mas o existencialismo tem direitos legítimos de propriedade sobre o termo “existência”, que lhe advém do gênio de Kierkegaard.
  • O existencialismo dispensa abundantemente sagacidade e talento em suas análises do ente, mas aplanam em algumas páginas problemas metafísicos cujas conclusões comprometem a exatidão de suas análises e falseiam sua interpretação.
  • A verdadeira metafísica do ser e a fenomenologia moderna necessitam uma da outra — a metafísica como prolegômeno e fundamento, a fenomenologia como desenvolvimento — e é desejável que os dois métodos filosóficos terminem por se confundir.
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