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Visão de Mundo Religiosa

BENZ, Ernst. Emanuel Swedenborg: visionary savant in the age of reason. West Chester, Pa: Swedenborg Foundation, 2002.

  • A figura visionária de Swedenborg apresenta o enigma de um pensador que, até os quarenta anos, pareceu manter a religião em posição marginal, embora depois viesse a consagrar-se inteiramente à contemplação religiosa após sua vocação.
    • A correspondência e os muitos livros anteriores às grandes obras da década de 1740 quase não registram temas religiosos.
    • A atitude pessoal de Swedenborg diante da Igreja, do dogma e das confissões permanece ausente de suas declarações desse período.
    • A impressão produzida por essa fase inicial é a de uma indiferença religiosa notável, mesmo no contexto nascente do racionalismo.
  • As declarações tardias de Swedenborg sobre sua juventude associam sua formação religiosa a uma fé simples, avessa à teologia sistemática e centrada na caridade como vida da fé.
    • Gabriel Beyer perguntou a Swedenborg, em fevereiro de 1767, por seu juízo sobre os escritos do místico Jacob Boehme.
    • Swedenborg respondeu: “Não posso julgar os escritos de Boehme. Nunca os li, porque me foi proibido ler qualquer coisa além da teologia dogmática e sistemática antes que o céu se abrisse para mim.”
    • Swedenborg acrescentou que opiniões infundadas e invenções poderiam ter-se insinuado nele e depois se tornado difíceis de extirpar.
    • Em dezembro de 1769, Swedenborg escreveu ao mesmo Gabriel Beyer que, dos seis aos doze anos, seu maior deleite era conversar sobre a fé com clérigos.
    • Swedenborg afirmava aos clérigos que a bondade amorosa ou o amor era a vida da fé, e que tal bondade amorosa ou amor consistia apenas no amor ao próximo.
    • A fé concedida por Deus a todos era, para Swedenborg, aceita apenas por aqueles que praticavam efetivamente a bondade amorosa.
    • Swedenborg declarou não ter conhecido, na infância, outra fé além daquela segundo a qual Deus era criador e provedor da natureza e havia concedido aos homens razão, boas propensões e outros dons.
    • A fé dogmática segundo a qual Deus Pai imputa a justiça ou os méritos de seu Filho a quem quiser, mesmo ao impenitente, teria sido completamente incompreensível para Swedenborg.
    • Gabriel Beyer considerou esse relato tão notável que o comunicou ao pietista protestante Friedrich Christoph Oetinger, de Württemberg, defensor dos ensinamentos de Swedenborg na Alemanha.
  • As declarações de Swedenborg indicam que a forma eclesiástica tradicional da teologia e do dogma cristãos não o ocupou na juventude, embora ele interpretasse essa distância como preparação providencial para sua vocação visionária.
    • As cartas e os escritos do período científico confirmam a ausência de interesse pela teologia eclesiástica tradicional.
    • Swedenborg atribuía essa distância não à falta de interesse, mas a uma dispensação divina destinada a prepará-lo para sua vocação posterior.
    • Deus teria impedido que Swedenborg fosse aprisionado pela doutrina tradicional da Igreja.
    • Uma nova concepção da verdade do Evangelho pôde desenvolver-se livremente em sua mente infantil como em uma tábua rasa.
    • A mesma providência misteriosa teria afastado, mais tarde, livros teológicos capazes de familiarizá-lo com controvérsias correntes e desviá-lo da nova fé que nele despontava.
  • A reconstrução tardia da juventude de Swedenborg corresponde a uma releitura religiosa de sua própria formação, embora seja inexato afirmar que ele não tenha tido contato com a teologia dogmática.
    • Swedenborg cresceu em uma casa profundamente religiosa.
    • Jesper Swedberg assumiu sua função episcopal logo depois do nascimento de Emanuel e tornou-se centro da vida religiosa, eclesiástica e teológica de sua diocese.
    • A disciplina religiosa no lar era severa, e as crianças recebiam desde cedo instrução paterna na doutrina da Igreja.
    • A família reunia-se em oração pela manhã e à noite, antes e depois das refeições e nas ocasiões importantes da vida.
    • A família frequentava com assiduidade os ofícios religiosos.
    • Tios e outros parentes eram pastores e bispos, e os pastores predominavam entre os conhecidos e amigos da família.
    • Questões teológicas e eclesiásticas correntes na Suécia seriam inevitavelmente discutidas na casa do bispo Jesper.
    • À mesa e nas caminhadas familiares, o jovem Swedenborg poderia aprender sobre esses assuntos mais do que qualquer menino sueco de seu tempo.
  • Swedenborg não descreveu indiferença diante das conversas clericais da casa paterna, mas projetou retrospectivamente sua doutrina posterior sobre a infância ao apresentar-se como opositor da concepção dogmática da fé.
    • Swedenborg afirmou ter escutado com prazer os pastores e gostado de conversar com eles.
    • Sua lembrança destaca que ele contrapunha à concepção dogmática dos clérigos uma noção distinta de fé.
    • A segurança com que Swedenborg atribuiu à infância os fundamentos de sua doutrina posterior revela uma projeção retrospectiva.
    • A disputa com os pastores foi descrita por analogia com a conversa de Jesus com os sacerdotes no templo.
    • A criança aparece como instrutora dos sábios, e o espírito da revelação posterior já fala por meio dela.
  • A descrição tendenciosa da juventude de Swedenborg conserva um elemento verdadeiro, pois na casa do bispo Jesper predominava mais o espírito do Pietismo do que o da ortodoxia luterana contemporânea.
    • Jesper Swedberg combatia em seus sermões a atitude dos fiéis que se contentavam com possuir a fé correta e aderir exteriormente aos ensinamentos da Sagrada Escritura.
    • A ausência de uma centelha de amor cristão no coração era, para Jesper Swedberg, incompatível com a fé viva.
    • Entre paroquianos, colegas clérigos e em sua própria vida, Jesper Swedberg acentuava o dever de cumprir moralmente a fé em uma vida de amor.
    • A prática do amor cristão era vista como o único sinal de uma fé verdadeiramente viva.
    • Esse aspecto da pregação religiosa de Jesper Swedberg permaneceu precisamente no coração de Emanuel.
  • A experiência de Jesper Swedberg na França intensificou sua crítica à autossuficiência luterana e orientou sua ação episcopal para a transformação da fé formal em vida de caridade.
    • Jesper Swedberg começou a duvidar da atitude religiosa de seus compatriotas durante sua viagem à França.
    • Os católicos franceses praticavam, segundo sua constatação, muito mais obras de caridade do que os severos luteranos de sua pátria.
    • Os luteranos confiavam arrogantemente na justificação pela fé e julgavam poder dispensar as boas obras.
    • Jesper Swedberg escreveu em seu diário: “No erro de sua fé, os católicos simplesmente obedecem ao mandamento de Cristo. Em contrapartida, negligenciamos as obras de caridade em nossa ortodoxia.”
    • Durante seu episcopado, Jesper Swedberg procurou incessantemente abalar a segurança de seu rebanho e de seus pastores.
    • A vida formal da fé deveria converter-se em vida de amor.
    • Jesper Swedberg combateu sobretudo a “mera fé”, que chamava de “crença do cérebro e não do coração, sombra sem vida, fé antes morta que viva, fé do Diabo”.
    • A advertência que embalava os corações indolentes era: “Basta ir à igreja e à Ceia do Senhor no tempo prescrito, e pode-se continuar vivendo em todos os desejos pecaminosos e carnais. Não te preocupes! Sola fides, somente a fé, a ortodoxia basta!”
    • Essa disposição levou Jesper Swedberg a fortalecer o filho em uma piedade prática do coração e a não sobrecarregá-lo com disputas dogmáticas dominantes nos manuais religiosos.
    • Não há razão para duvidar de que o jovem Swedenborg tenha expressado essa atitude em conversas com os numerosos clérigos que visitavam a casa paterna.
  • A acusação de Pietismo contra Jesper Swedberg expressa o caráter renovador de sua pregação, que por vezes assumia tom revolucionário sem propor inovações institucionais imediatas.
    • O termo pietista funcionava na época como insulto e quase como acusação de heresia.
    • Jesper Swedberg queixava-se repetidamente de que não se podia levar uma vida piedosa, santificar o sábado e opor-se à embriaguez sem ouvir dos pastores: “Tu és um pietista!”
    • O impulso de renovação da Igreja assumia às vezes, nos sermões de Jesper Swedberg, um tom revolucionário.
    • Embora não desejasse introduzir inovações na prática eclesiástica vigente, Jesper Swedberg esperava uma futura renovação da vida cristã.
    • Em certas ocasiões, Jesper Swedberg predisse a vinda de um novo reformador capaz de infundir novamente o espírito do amor na ortodoxia do luteranismo contemporâneo.
    • Jesper Swedberg clamou: “Ó meu Deus! Tu, que outrora despertaste Lutero e o armaste com teu espírito de coragem para reintroduzir a doutrina cristã da fé. Desperta agora um novo Lutero, que introduza corajosamente uma vida cristã!”
  • As leituras devocionais feitas nas orações familiares reforçaram a piedade do jovem Swedenborg por meio de uma espiritualidade centrada na vida cristã efetiva.
    • As obras lidas eram O verdadeiro cristianismo, de Johannes Arndt, publicado em 1605, e O tesouro da alma, de Christian Scriver, publicado em 1675.
    • O livro de Johannes Arndt fora traduzido para todas as línguas europeias, inclusive o russo.
    • Ao longo do século XVIII, O verdadeiro cristianismo serviu a todas as confissões dos países europeus como livro muito lido de edificação.
    • O famoso trigésimo nono capítulo da obra de Johannes Arndt impressionou profundamente Jesper Swedberg e seu filho.
    • A formulação central era: “A sinceridade do ensinamento e da Palavra divina não se mantém apenas por disputas e muitos livros, mas pelo verdadeiro arrependimento e por uma vida santa.”
    • Johannes Arndt afirma: “É fácil escrever, pregar e disputar contra hereges e ralé para sustentar a doutrina pura e a verdadeira religião; mas isso se tornou tamanho abuso que a vida cristã, o verdadeiro arrependimento, a piedade e o amor cristão são esquecidos em todas as disputas violentas, sermões, escritos e réplicas.”
    • Johannes Arndt acrescenta que é como se o cristianismo existisse apenas na disputa e na multiplicação de polêmicas, e não na transformação do Santo Evangelho e do ensinamento de Cristo em vida santa.
  • A providência que Swedenborg mais tarde julgou tê-lo protegido das polêmicas dogmáticas pode corresponder, em termos históricos, à preferência paterna por livros pietistas de edificação.
    • Jesper Swedberg preferia obras de edificação pietista a compêndios controversistas da ortodoxia contemporânea.
    • O jovem Swedenborg foi educado em uma forma de cristianismo que despertou sua aversão à teologia polêmica de sua época.
    • Essa posição não era ainda um ponto de vista teórico plenamente desenvolvido por um menino.
    • A atitude de Swedenborg era antes uma resposta inconsciente à educação recebida no “cristianismo do coração” de Johannes Arndt.
  • A piedade juvenil de Swedenborg também se vinculava à convicção de que Deus era criador e provedor da natureza, no interior de uma tradição pietista e mística que reconhecia a natureza como livro divino.
    • Swedenborg afirmou ter tido “nenhuma outra fé além daquela segundo a qual Deus era o criador e provedor da natureza, e havia dado aos homens razão, boas propensões e outros dons”.
    • Esse traço provém da piedade encontrada em Johannes Arndt e em outros livros edificantes de misticismo pietista.
    • Na piedade de Johannes Arndt aparece o antigo ensinamento de Raimund von Sabunde e Jacob Boehme sobre os dois livros da ressurreição.
    • Essa doutrina inauguraria uma nova era de contemplação religiosa da natureza.
    • Além do livro escrito da revelação divina, a Bíblia, haveria um segundo livro divino, a natureza.
    • A natureza também é revelação de Deus, realização visível e representação do amor e da sabedoria divinos.
    • Essa ideia tornou-se a base religiosa da ciência moderna.
    • Johannes Kepler justificou a troca da carreira clerical pela nomeação como matemático e astrônomo afirmando servir à glória de Deus tanto ao proclamar sua fama pelo livro da natureza quanto pela Bíblia.
    • Jan Swammerdam compreendeu suas pesquisas científicas como sacerdócio sagrado e intitulou seu estudo sobre o mundo maravilhoso dos insetos Biblia naturae, publicado em 1737.
    • A ideia da tarefa sacerdotal do cientista reaparece em grandes fisiólogos da época, como Hermann Boerhaave, e em matemáticos importantes, como Newton e Leibniz.
    • O cientista interpreta as maravilhas de Deus no livro da natureza e proclama a honra de Deus ao estabelecer as ordens misteriosas do universo e de seus movimentos.
    • Não apenas o céu dos anjos e dos santos glorifica a honra eterna de Deus, mas também o céu das estrelas, os planetas, a terra e todas as criaturas.
    • Os animais e até os insetos descritos por Swammerdam revelam que mesmo uma pulga pode manifestar o esplendor de Deus.
    • Os maiores médicos do período também compreendiam a investigação do organismo humano como ofício sagrado para a glorificação de Deus.
    • Lorenz Heister, médico alemão célebre do século XVIII e autor do Compendium der Anatomie, publicado em 1717, foi frequentemente citado por Swedenborg em suas obras principais.
    • Lorenz Heister escreveu: “O propósito da anatomia é múltiplo, mas seu propósito principal é o conhecimento e a admiração das obras maravilhosas do Ser supremo no corpo do homem e de outras criaturas.”
    • Lorenz Heister acrescentou que a contemplação do organismo altamente artístico e da forma, ligação, comunicação, efeito e eficácia de cada uma de suas partes prova não apenas a existência, mas também a imensa e estupenda sabedoria de Deus.
    • A anatomia, para Lorenz Heister, convida à oração e à reverência, escarnece de todos os ateus e deve ter como propósito principal a glorificação de Deus.
    • Nesse sentido, a anatomia pode ser chamada de ciência filosófica, física e teológica, de grande benefício para todos os verdadeiros amantes da sabedoria e da teologia.
  • O desenvolvimento religioso do jovem Swedenborg prosseguiu em uma piedade que podia afastá-lo da vida eclesiástica externa sem romper sua convicção de harmonia entre a Bíblia e a ciência.
    • Swedenborg manteve essas concepções durante os estudos.
    • Essa atitude podia conduzir a um distanciamento da vida exterior da Igreja.
    • A piedade de Swedenborg podia assumir o caráter de um “cristianismo privado”, no qual o Livro da Natureza recebia prioridade provisória sobre a Bíblia.
    • Swedenborg permaneceu interiormente convencido de que não havia contradição fundamental entre as duas formas da revelação de Deus, em sua Palavra e em sua criação.
    • A harmonização da Bíblia com as descobertas da nova ciência parecia-lhe possível.
  • O “cristianismo privado” de Swedenborg e sua falta de participação eclesiástica durante os estudos podem ser compreendidos como reação à atmosfera religiosa de sua formação.
    • Há pouca evidência de sua participação na vida da Igreja durante o período de viagens de estudo.
    • Essa ausência não decorre de falta de informação pessoal disponível.
    • Caso a Igreja tivesse sido importante para Swedenborg, seus diários e cartas certamente teriam oferecido alguma indicação.
    • Os diários e cartas revelam outro quadro: um ardor verdadeiramente religioso anima o estudo das maravilhas da natureza por meio da matemática, da química, da geologia e da mecânica.
    • A atitude diante da Igreja, nesse período, permanece marcada pela indiferença.
  • Jesper Swedberg observou com grande preocupação o desenvolvimento científico do filho e temeu que o contato com as novas ciências estrangeiras o conduzisse ao ateísmo.
    • As insistentes súplicas paternas para que Swedenborg retornasse para casa não se explicavam apenas por problemas financeiros.
    • Jesper Swedberg temia que o filho se tornasse ateu sob a influência das novas ciências no exterior.
    • A preocupação devia aumentar quando as cartas do filho não mencionavam atividade eclesiástica.
    • Entre os homens célebres visitados por Swedenborg em Londres e na Holanda, nenhum teólogo é mencionado, exceto o “herético” William Whiston.
    • A controvérsia sobre o deísmo de John Toland e Matthew Tindal agitava a época.
    • A obra de John Locke sobre o racionalismo do cristianismo bíblico suscitava debates.
    • A questão europeia da tolerância religiosa era combatida dos púlpitos da Inglaterra e da Holanda.
    • François Fénelon pregava em Paris.
    • Leibniz defendia na Alemanha a união entre protestantes e católicos.
    • Swedenborg não escreveu uma só palavra sobre as questões religiosas que agitavam toda a Europa.
    • Sobre os acontecimentos eclesiásticos na Inglaterra, Swedenborg apenas relatou, em outubro de 1710, a amarga luta entre as Igrejas anglicana e presbiteriana.
    • Swedenborg escreveu que essas Igrejas “são inflamadas por um ódio quase mortal uma contra a outra. O tição e trombeta desse tumulto é um certo Dr. Sacheverell, cujo nome está nos lábios de todos em cada esquina, assunto de panfletos em toda livraria”.
    • As palavras de Swedenborg não indicam envolvimento nesses acontecimentos, mas no máximo aversão a essa contenda anticristã.
    • Na descrição da Abadia de Westminster, Swedenborg não mencionou ofício religioso algum.
    • A atenção de Swedenborg voltou-se antes para a homenagem prestada ao túmulo do humanista Casaubon.
    • Os santos de Swedenborg não eram os da Igreja, mas os da erudição e da ciência.
  • Os relatos das viagens posteriores de Swedenborg revelam a mesma falta de interesse pela Igreja, pois os templos aparecem como objetos artísticos e arquitetônicos, não como centros de vida religiosa.
    • Swedenborg visitava igrejas como se fossem museus.
    • A motivação de suas visitas era artística e arquitetônica.
    • Swedenborg nunca mencionou pregadores, embora pudesse ter ouvido os teólogos mais famosos da época na Holanda, na França e na Alemanha.
    • Ao passar por Copenhague em 1736, Swedenborg considerou a cidade “infectada de Pietismo ou Quakerismo”.
    • A menção a esse fato ocorreu apenas porque essa piedade havia produzido uma epidemia de suicídios.
    • O coração e a mente de Swedenborg estavam voltados não para assuntos eclesiásticos, mas para as artes e ciências modernas.
  • A atitude de Swedenborg não deve ser interpretada como ausência de sentimento religioso nem como rejeição da Igreja causada pelo contato com representantes da ciência.
    • Os grandes estudiosos que Swedenborg conheceu eram homens profundamente devotos.
    • Esses estudiosos tentavam harmonizar seu cristianismo privado e sua piedade pessoal com a forma eclesiástica tradicional da religião.
    • Entre os cientistas encontrados por Swedenborg na Inglaterra não havia adversário do cristianismo nem ateu.
    • Sir Isaac Newton tinha disposição eclesiástica e era cristão convicto.
    • Além dos estudos e experimentos preparatórios de sua obra sobre óptica, no início da década de 1690, Newton encontrou tempo para escrever um comentário sobre o profeta Daniel e o Livro do Apocalipse.
    • A destruição do trabalho inicial de Newton sobre óptica ocorreu enquanto ele frequentava a igreja.
    • Durante o ofício matinal de uma manhã de inverno em 1693, o pequeno cão Diamond derrubou uma vela sobre a escrivaninha de Newton, e os papéis que continham anos de estudo sobre óptica foram queimados.
    • A matemática francesa da época em que Swedenborg permaneceu em Paris tampouco havia perdido a herança da ligação interior de Blaise Pascal entre ciência e fé cristã.
  • Segundo declarações posteriores de Swedenborg, apenas Christopher Polhem pareceu integrar o grupo de cientistas modernos afastados interiormente não só da Igreja, mas também da fé cristã, embora suas próprias cartas contradigam essa imagem.
    • Nos relatos de suas visões, Swedenborg descreveu Christopher Polhem como ateu.
    • Polhem aparece como firmemente convencido de que não há Deus e de que todos os incidentes da vida têm natureza puramente mecânica.
    • Nessa descrição, seres humanos e animais seriam “máquinas cheias de ar”.
    • A afirmação de Swedenborg não se ajusta aos fatos, pois as cartas de Polhem apresentam outro quadro de sua atitude religiosa.
    • A correspondência de Christopher Polhem com o jovem Benzelius, mestre e amigo de Swedenborg, deixa claro que ele, mesmo como cientista, permanecia ligado à Bíblia.
    • Polhem escreveu: “Não convém a nenhum cristão duvidar das palavras de Moisés, ditadas pelo Espírito Santo, muito menos das próprias palavras de Cristo.”
    • Como seus contemporâneos alemães e ingleses, Polhem também compreendia a pesquisa científica como exposição racional da Palavra divina segundo o “Livro da Natureza”.
    • A pesquisa científica era, para Polhem, confirmação da salvação por meio das obras da criação.
    • Polhem sublinhou que “não havia a menor contradição entre as palavras de Moisés e as propriedades da natureza, uma vez concedidas aos homens algumas regras da razão, sem as quais eles seriam brutos sem alma”.
    • Ainda que sua aplicação das “regras da razão” às palavras da Escritura parecesse arbitrária, Polhem nunca demonstrou hostilidade à fé ou à Igreja.
  • A piedade fundada em uma nova sensibilidade à natureza atuava vigorosamente em Swedenborg e atravessava os escritos científicos de sua juventude.
    • Deus não era para Swedenborg um conceito vazio nem mera ideia filosófica.
    • Deus era o fundamento eterno e o criador de todo ser, de toda vida e de todo movimento.
    • A realidade da vida não se esgota na natureza e no universo visível, mas é nutrida pelo eterno e orientada para o infinito.
    • Swedenborg escreveu: “O movimento geométrico e a figura ou construção derivam daquilo que é menos construído, e isto, por sua vez, deriva do movimento e da figura simples e puros.”
    • Swedenborg acrescentou: “Mas o simples e o puro derivam do infinito. O infinito tem sua base em si mesmo, e isso nada mais é que Deus e o Divino, a origem e o ser de todas as coisas!”
  • As ideias neoplatônicas presentes nas formulações de Swedenborg foram preenchidas por um novo sentimento do mundo, intensificado pelas descobertas científicas sobre as dimensões imensuráveis do universo.
    • O telescópio e o microscópio revelaram novos reinos da vida.
    • Essas descobertas aprofundaram infinitamente a reverência humana pelas maravilhas da criação.
    • Ao mesmo tempo, tais instrumentos atribuíram à humanidade uma posição inteiramente nova no universo recém-descoberto.
    • Após descrever a imensa expansão dos céus visíveis a todos, Swedenborg exprimiu a mudança de visão de mundo.
    • Swedenborg escreveu: “Este firmamento incomensuravelmente distante talvez seja apenas uma esfera particular, da qual nosso próprio sistema solar é apenas uma única partícula, porque este universo finito repousa no infinito.”
    • Swedenborg admitiu que poderiam existir incontáveis esferas celestes semelhantes, tão numerosas e grandes que o firmamento conhecido seria apenas um ponto em comparação com elas.
    • Swedenborg declarou que todos esses firmamentos juntos, por mais numerosos que sejam, por serem finitos e limitados, nem sequer seriam uma partícula em comparação com o infinito.
    • Swedenborg perguntou: “Se todas as esferas e os exércitos dos céus nem sequer são uma partícula em comparação com o infinito, e todo o firmamento, que parece tão incomensurável aos nossos olhos, é apenas um ponto em comparação com o universo finito, e se nosso sistema solar é por sua vez apenas pequena parte desse firmamento, e nossa Terra apenas pequena parte de nosso sistema solar, que deve o homem pensar de si mesmo?”
    • Swedenborg prosseguiu: “Será ele realmente ainda aquilo que pensa ser? Criatura complacente, por que pensas tão alto de ti mesma e consideras tudo menos importante do que tu?”
    • Swedenborg advertiu: “Verme, por que te vanglorias e te gabas? Se observares a escala do firmamento e simultaneamente te comparares, oh, és apenas uma minúscula partícula do céu e da terra, pequeno homem!”
    • Swedenborg concluiu: “Tua grandeza só pode consistir em tua adoração do maior e do infinito!”
    • A descoberta do universo maior faz Deus crescer ainda mais no pensamento de Swedenborg.
    • A grandeza humana, reduzida a nada diante da nova compreensão da magnitude do universo, justifica-se apenas pela adoração de Deus, criador desse universo incomensurável.
  • A fé em Deus sustentou a tentativa de Swedenborg de reconciliar o conhecimento obtido no Livro da Natureza com os ensinamentos da Sagrada Escritura.
    • O princípio segundo o qual “nem a religião, nem a moral, nem o Estado têm algo a temer do verdadeiro conhecimento” orientou essa reconciliação.
    • Esse princípio, subjacente à ontologia e à cosmologia de Christian Wolff, foi decisivo em Primeiros princípios das coisas naturais, publicado por Swedenborg em 1734.
    • A mesma máxima tornou-se axioma do início do Iluminismo.
  • As doutrinas da revelação que levaram Swedenborg a estudar o Livro da Natureza são essenciais para compreender seu desenvolvimento posterior.
    • As questões sobre a evolução da Terra foram as que mais o levaram a estudar a narrativa bíblica da criação.
    • Swedenborg nunca criticou ensinamentos e noções bíblicas.
    • Swedenborg tampouco usou os ensinamentos bíblicos como base de sua pesquisa científica.
    • Swedenborg ocasionalmente assinalava quando uma de suas descobertas científicas confirmava a visão bíblica.
  • Os primeiros estudos de Swedenborg sobre a Terra, as marés, os planetas e a duração da vida humana procuraram iluminar a Escritura por meio da ciência natural.
    • A obra Sobre a altura das águas e as fortes marés no mundo primevo, de 1719, pretendia “conferir autoridade à Palavra divina e à verdade da questão”.
    • Em Observações diversas, de 1722, Swedenborg tratou sobretudo da origem e da evolução da Terra.
    • Nessa obra, Swedenborg procurou “reconciliar suas teorias sobre o caos primordial e a formação de estrelas e planetas com os oráculos divinos”.
    • Swedenborg buscou iluminar as palavras da Escritura por meio da ciência natural.
    • Em Sobre o movimento e a posição da Terra e dos planetas, de 1719, Swedenborg comparou sua teoria astronômica sobre a maior lentidão da Terra em sua órbita com relatos do Antigo Testamento sobre a maior longevidade das gerações humanas mais antigas.
    • Swedenborg mostrou como seus cálculos acerca do alongamento gradual do verão concordavam com a Sagrada Escritura.
    • Esse tema reapareceu mais tarde em suas visões, na doutrina do paraíso.
    • Swedenborg sustentou que a descoberta de órbitas terrestres mais longas ao redor do Sol podia explicar cientificamente a tradição do paraíso.
    • A ilustração foi relacionada ao antigo mito das idades de ouro, prata, bronze e ferro.
  • A teoria de Swedenborg sobre a antiga órbita anual da Terra permitiu-lhe imaginar um estado paradisíaco global, marcado por sucessões sazonais rápidas e equilíbrio térmico.
    • Swedenborg considerou possível que um vasto jardim se estendesse outrora por toda a Terra.
    • Também seria possível que toda a superfície terrestre tivesse sido adornada por jardins maravilhosos.
    • Naqueles dias, a Terra completava sua órbita anual ao redor do Sol em tempo relativamente curto.
    • As estações se sucediam em breves intervalos: o outono seguia rapidamente o verão, o inverno seguia o outono, e o verão sucedia a primavera.
    • O calor ardente do Sol no verão era imediatamente suavizado pelo frescor outonal.
    • O frio do inverno não se prolongava, pois era imediatamente compensado pela brandura da primavera e pelo calor do verão seguinte.
    • As curtas revoluções diárias ao redor do Sol produziam uma completa equalização da temperatura.
    • O frio noturno era frustrado pelo calor do dia, e o calor diurno era frustrado pelo frio da noite.
    • O frio mal começava a aumentar após o pôr do sol quando uma nova aurora e um novo nascer do sol se seguiam.
    • Nem o frio da noite nem o calor do dia tinham tempo suficiente para se difundir.
    • Da teoria de Swedenborg decorria que as condições então predominantes deviam ter-se assemelhado ao paraíso.
  • As reflexões de Swedenborg sobre a Idade de Ouro conduziram a um hino poético que antecipou o tom de O culto e o amor de Deus.
    • O culto e o amor de Deus foi publicado em 1745.
    • Na primeira idade, segundo Swedenborg, “a Natureza mostrava seu rosto mais amistoso em condições de suavidade e deleite”.
    • Swedenborg afirmou: “Nada havia no mundo que não florescesse na plena força da juventude.”
    • Na idade seguinte, as alegrias e os jogos da jovem Natureza transformaram-se em tristeza.
    • A Terra moveu-se gradualmente para cada vez mais longe do Sol.
    • As revoluções anuais e diárias da Terra ao redor do Sol alongaram-se.
    • Os intervalos entre inverno e verão, dia e noite, tornaram-se mais longos.
    • O frio tornou-se mais duro no inverno, e o calor, mais intenso no verão, em comparação com o estado anterior.
    • Gradualmente, o mundo entrou na “velhice”.
    • A velhice do mundo é definida como estado “no qual vivemos com menos alegria, ainda que nós mesmos sejamos jovens”.
  • O descontentamento com o mundo presente, perceptível em uma obra puramente científica, revela um sentimento decisivo para o desenvolvimento religioso posterior de Swedenborg.
    • O estudioso empenhado em decifrar as maravilhas deste mundo não se sente verdadeiramente à vontade nele.
    • O coração de Swedenborg conserva uma imagem do paraíso perdido.
    • Essa imagem torna deprimente o mundo envelhecido do presente, com suas tensões e conflitos.
    • O espírito de Swedenborg orienta-se para o mundo espiritual no Sol.
    • Nesse mundo espiritual, os opostos são superados, e os bem-aventurados vivem juntos sem cuidados.
  • As especulações sobre o paraíso continuaram em Primeiros princípios das coisas naturais, onde Swedenborg formulou a doutrina da primavera eterna da primeira época paradisíaca.
    • Os cálculos sobre a sucessão mais rápida do verão e do inverno em épocas anteriores fundamentaram essa doutrina.
    • A primavera eterna “prevaleceu sobre todo o globo e foi idealíssima para a reprodução e criação das coisas”.
    • Sem esse maio contínuo, nem as sementes teriam brotado, nem plantas e animais de todos os tipos teriam surgido.
    • Graças a essa primavera eterna, toda a Terra foi adornada como um paraíso.
    • Tudo estava no florescimento da juventude e em uma idade de alegre jogo.
    • Essa idade era a Idade de Ouro.
    • A descrição termina em oração: “Continua adorando e contemplando com assombro o infinito providencial. Todas as coisas são sinais de sua providência, todos os efeitos são provas esmagadoras de sua profecia.”
  • As especulações de Swedenborg mostram a fusão entre estudo científico, intuição religiosa e imaginação em seu pensamento juvenil.
    • A ciência depende da imaginação para perceber conexões na natureza.
    • Mesmo a ciência especializada contemporânea não pode prescindir dessa energia criadora.
    • A imaginação permite ao pesquisador resumir grandes períodos de desenvolvimento e traçar caminhos em campos inexplorados.
    • Nas fases iniciais da ciência, a imaginação desempenhava papel muito maior e mais universal.
    • Newton e Flamsteed, ao explorar pela primeira vez os céus estrelados com instrumentos sofisticados, precisavam da imaginação para conceber a unidade do universo.
    • Hawksbee e Woodward necessitavam da imaginação para reconstruir a evolução da Terra a partir de fósseis e estratos geológicos.
    • Swammerdam dependia da imaginação para apreender a evolução da vida no mundo animal inferior.
  • Swedenborg buscou iluminar cientificamente uma segunda área da doutrina bíblica: o reino dos mortos e o estado posterior à morte.
    • Esse problema encontraria solução posterior na “abertura da visão interior”.
    • A questão já havia surgido no primeiro período científico de Swedenborg.
    • Em carta enviada de Estocolmo a Benzelius em 26 de novembro de 1719, Swedenborg usou observações sobre vórtices e sobre a ação das energias centrífuga e centrípeta para confirmar ensinamentos da Escritura.
  • Swedenborg rejeitou a identificação do lugar dos condenados com o Sol e propôs que o Sol, por sua centralidade, luz e sutileza, fosse antes o lugar dos bem-aventurados.
    • Swedenborg escreveu a Benzelius: “Quanto ao lugar dos condenados e se este poderia ser o Sol, tenho pensamentos completamente opostos: a meu ver, o Sol é antes o lugar dos bem-aventurados.”
    • O primeiro motivo apresentado por Swedenborg é que o Sol constitui o ponto central de todo o sistema planetário, e o movimento, junto com a existência de tudo que está em sua esfera, tem origem nesse ponto central.
    • O segundo motivo é que o céu planetário está sempre dirigido para o Sol, e toda ascensão dentro de uma órbita solar ocorre sempre na direção do Sol.
    • A região inferior estaria sempre na direção dos extremos do vórtice, em direção a Saturno e Urano.
    • O terceiro motivo é que a luz principal e a claridade se encontram no Sol.
    • Onde o Sol está mais distante e quase não pode ser visto, predominam a escuridão e outros terrores.
    • O quarto motivo, considerado o principal, é que o Sol contém o ar mais puro e a substância mais sutil de todas, composta pelo menor número de elementos.
    • Quanto mais se aproxima do Sol, mais sutil tudo se torna.
    • No centro solar, provavelmente se encontraria tal grau de pureza e sutileza que as partes mal se manteriam coesas e perderiam a qualidade de matéria, bem como forma, peso e outras propriedades.
    • Seres mais sutis provavelmente habitariam o lugar de maior sutileza.
    • Deus, os anjos e tudo aquilo que nada tem de material em sua substância estariam ali em seu elemento.
    • O semelhante busca o semelhante, e o mais sutil naturalmente não busca o mais grosseiro.
    • Swedenborg concluiu haver mais razões para crer que Deus tem sua sede no Sol, como a Bíblia afirma.
    • Quanto ao fogo, Swedenborg considerou grosseira demais a noção de que os corpos dos condenados sejam ali torturados.
    • As dores da queima não ocorrem naturalmente sem causar destruição.
    • Quando o fogo queima, produz sensação de dilaceramento, dissolução e destruição.
    • Onde não há destruição, não pode haver dor resultante da queima.
    • As dores da consciência deveriam constituir fogo suficientemente ardente para esse fim.
    • Swedenborg concluiu: “Espero que meu filosofar sobre essa questão não seja mal compreendido, pois ele se baseia na Palavra de Deus.”
  • A reflexão de Swedenborg sobre o Sol, os mortos, os condenados e o fogo infernal antecipa problemas centrais de suas obras visionárias posteriores.
    • O reino dos mortos, o reino dos condenados e os fogos do inferno são fatos inabaláveis para Swedenborg.
    • Esses temas têm tal importância para ele que sua inteligência procura conciliá-los com a compreensão científica da matéria e dos movimentos do universo.
    • Dois grandes problemas de suas obras visionárias posteriores são a existência de um mundo espiritual dos mortos e condenados e a natureza de sua corporeidade.
    • Swedenborg já desenvolvia uma concepção de mundo espiritual desprovido das propriedades da existência material e, entretanto, dotado de caráter corpóreo real.
    • Essas ideias também antecipam uma terceira noção de sua visão posterior do mundo espiritual.
    • O fogo dos condenados não é fogo físico do inferno, mas fogo espiritual da consciência, que queima os condenados sem destruí-los.
    • O pensamento de Swedenborg já se orienta para os mistérios do mundo transcendental.
    • Nesse período, Swedenborg ainda procura desvelar tais mistérios por meio do conhecimento científico.
    • Mais tarde, Swedenborg os compreenderá de modo mais claro pelo caminho da intuição.
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