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A DIGNIDADE DO CRISTIANISMO — A INDIGNIDADE DOS CRISTÃOS V

Os homens de nossa época que estão afastados do cristianismo afirmam de bom grado que a Igreja cristã deve ser composta por homens perfeitos, santos, e a acusam de abrigar em seu seio tantos pecadores, tantas almas imperfeitas, tantos pseudocristãos. É o argumento costumeiro contra o cristianismo. Todavia, isso é não compreender a natureza da Igreja e esquecer sua essência, pois a Igreja existe, antes de tudo, para os pecadores, para os seres imperfeitos e perdidos. A Igreja desce ao mundo e opera em meio a elementos submersos no pecado. Celeste por sua origem e eterna por seu princípio, opera na terra e no tempo; não permanece nas cúpulas, afastada do mundo pecador que luta com seus sofrimentos; a Igreja deve, antes de tudo, socorrer este mundo, salvá-lo para a vida eterna e elevá-lo até o céu. A essência do cristianismo reside na união da eternidade e do tempo, do céu e da terra, do divino e do humano, e não na sua separação. O humano, o temporal, não deve ser negado e rejeitado, mas esclarecido e transfigurado.

Nos primeiros séculos do cristianismo, houve um movimento sectário chamado montanhismo, que afirmava que a Igreja deve compor-se exclusivamente de seres perfeitos e santos, e que exigia que os pecadores e os seres imperfeitos fossem arrojados de seu seio. Para os montanhistas, a Igreja era uma comunidade que havia recebido dons especiais do Pneuma Hagion; de modo que a maior parte da humanidade pecadora achava-se desterrada da cristandade. A consciência eclesiástica condenou o montanhismo e admitiu a Igreja dos pecadores arrependidos. Os santos são a defesa e o esteio da Igreja na terra, mas esta não depende exclusivamente deles, pois a humanidade inteira, a humanidade que busca sua salvação, pertence-lhe em todos os seus graus de aperfeiçoamento. A Igreja na terra é a Igreja militante, que luta contra o mal e o pecado; mas não é ainda a Igreja glorificada. Cristo mesmo juntava-se aos publicanos e aos pecadores, embora os fariseus o censurassem por isso. E sua Igreja deve, nisso, ser semelhante a Ele; não pode consagrar-se unicamente aos seres puros; tem que estar com os que se perdem. Um cristianismo que não reconhecesse mais do que seres perfeitos seria um cristianismo farisaico. A compaixão, a indulgência e o amor ao próximo, com todos os seus defeitos e seus pecados, são obra do amor cristão e o caminho de seu aperfeiçoamento. Acusar o cristianismo pela sombra que veio eclipsar a Igreja em seu destino também é um farisaísmo. Nem se demonstra, ademais, que seus acusadores sejam, eles próprios, tão puros e tão perfeitos.

O montanhismo é um exemplo de falso maximalismo no cristianismo, e este reflete sempre uma falta de amor, um orgulho espiritual, uma falsa moralidade. Sua mentira consiste em exigir o máximo dos outros homens e não o exigir de si mesmo. Acusam-se os outros de não terem realizado a pureza, a perfeição, a santidade, e não se pensa sequer em realizá-la em si próprio. Aqueles que chegaram realmente à perfeição e à santidade não costumam acusar os outros. Os santos, os startsy, são indulgentes para com os homens. Deve-se ser exigente consigo mesmo e não com os outros, evitando-se deste modo a hipocrisia e o farisaísmo. O cristianismo é a religião do amor; reúne em si a austeridade, a severidade e a exigência para consigo mesmo, e a indulgência, a caridade e a doçura para com o próximo.

O cristianismo distingue-se claramente do tolstoísmo, que é um moralismo abstrato. Tolstói julga severamente o chamado cristianismo histórico e sua crítica, apoiada em fatos, é frequentemente justa. Tolstói pretende que se confessava o cristianismo como uma doutrina abstrata, sem realizá-la na vida, sem seguir seus mandamentos. Para ele, todo o cristianismo reduz-se ao ensino moral de Cristo, aos seus preceitos; e seu lado misterioso e místico é-lhe desconhecido e hostil. Ele estimava que tudo depende da verdade da concepção e que é fácil pôr em prática o que se concebeu. Se se reconhece a lei verdadeira, a do Dono da vida, isto é, de Deus, será fácil, em virtude desse mesmo reconhecimento, realizá-la. Mas esse era o erro de sua consciência demasiado racional, que permanecia inacessível ao mistério da liberdade e da caris. Este otimismo contradizia a profundidade trágica da vida. O apóstolo Paulo diz-nos: Porque não faço o bem que quero; mas o mal que não quero, este faço. E se faço o que não quero, já não o opero eu, mas o pecado que habita em mim. Este testemunho de um dos maiores cristãos descobre-nos o profundo do coração humano; faz-nos compreender que a bancarrota do cristianismo é uma bancarrota humana e não um fracasso divino. Tolstói não reconhecia a liberdade do homem e não via o mal que existe no profundo da natureza humana. Ele via a origem do mal na consciência, e não na vontade e na liberdade. De modo que, para vencer o mal, não recorria à ajuda divina, à caris, mas exigia somente uma modificação de consciência. Para ele, Cristo não era o Redentor e Salvador; era o grande educador da vida, o promulgador das leis, dos mandamentos morais. E Tolstói considerava fácil a realização do cristianismo na vida, porque é mais fácil, mais vantajoso e mais prudente viver conforme a lei do amor do que segundo a lei do ódio adotada pelo mundo. Pensava Tolstói que Cristo nos ensina a não cometer erros e estimava que, se o cristianismo não se realizou na vida, se os preceitos de Cristo não foram postos em prática, a falta recai sobre um ensino teológico que dirige toda a sua atenção sobre o próprio Cristo, edificando tudo sobre o resgate efetuado por Ele, sobre a caris divina. Tolstói abalava em seus fundamentos a Igreja Cristã.

Diz a verdade Tolstói quando exige que se tome a sério o cristianismo; quando pede o cumprimento, na vida, dos mandamentos de Cristo; mas equivoca-se ao imaginar que uma consciência clara basta e que se pode chegar a ela sem Cristo, o Salvador, sem a caris do Pneuma Hagion. Tolstói, ao exigir dos homens esse esforço, cai no erro de um maximalismo moral. Ele não considerava como autêntico senão seu cristianismo pessoal e acusava de imoralidade a maioria dos homens porque não renunciavam aos seus bens, porque não trabalhavam manualmente, porque comiam carne, porque fumavam. Mas não teve a força de realizar em sua vida esse maximalismo. O amor, para ele, transformou-se em uma lei desprovida de caris, em um manancial de acusações. Havia em Tolstói um espírito crítico muito justo; ele desmascarou muitos pecados, descreveu o caráter não cristão da sociedade e da cultura. Mas não percebeu o cristianismo que se oculta para além dos pecados, das imperfeições e das deformações dos cristãos. O orgulho de sua razão impediu-o de receber interiormente Cristo. Era um homem genial e seu anseio de buscar a verdade divina era sincero; mas um grande número de homens que não possuem nem seu gênio nem sua sede de Verdade atacam igualmente o cristianismo e os cristãos sem tratar de realizar em sua existência nenhuma perfeição, sem que o problema do sentido e da justificação da vida os faça sofrer minimamente.

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