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Evangelho Árabe da Infância
Madeleine Scopello. Les évangiles Apocryphes - Nouvelle édition Revue et Augmentée. 1st ed ed. Québec: Presses de la Renaissance, 2017.
- O Evangelho Árabe da Infância, elaborado a partir de um modelo siríaco e transmitido por manuscritos do século XIII, contém tradições dos primeiros tempos cristãos e recorre a uma profecia de Zoroastro para conferir ao texto uma aparência de antiguidade.
- Zoroastro — figura fundadora da religião persa, situado entre 600 e 1000 a.C. — é apresentado como contemporâneo de Moisés
- A profecia anuncia que uma virgem conceberá sem ter conhecido homem e sem que o selo de sua virgindade seja rompido
- A boa-nova trazida pela criança assim concebida alcançará as sete regiões da terra
- Tornando-se adulto, o filho será morto e crucificado, ressuscitará e subirá ao céu
- No discurso antecipatório, Zoroastro incitava os magos a se pôr a caminho para Belém a fim de oferecer dons à criança divina, guiados por uma estrela
A gruta e a Igreja dos anjos
- A gruta onde Maria dá à luz é descrita como repleta de uma luz mais bela que a das lamparinas e velas, iluminada em plena noite como pela claridade do sol, e tanto pastores quanto exércitos celestes acorreram para prestar homenagem à criança.
- O texto afirma que “a gruta se assemelhava naquele instante à Igreja do alto, pois as bocas celestes e as línguas terrestres glorificavam e magnificavam o nascimento do Senhor, o Messias” — Evangelho Árabe da Infância 4, 2, tradução de C. Genequand, Vida Árabe de Jesus, ou Evangelho Árabe da Infância, Escritos Apócrifos Cristãos, I, p. 213
- Essa imagem pode ser o indício de uma doutrina que estabelece uma comparação entre a Igreja terrestre e a Igreja celeste dos anjos, atestada tanto na teologia patrística quanto na gnose
Os magos e o dom da faixa de Jesus
- Num evangelho que se inicia com uma profecia de Zoroastro, a referência aos magos portadores de oferendas era inevitável, embora o texto vacile quanto ao seu número — três, doze ou dez —, e os apresente acompanhados de mil e duzentos serventes.
- O texto parece fazer deles reis, pois depositam suas coroas diante de Jesus
- Aos magos que se apresentam a Maria como persas, ela oferece em troca um dos cueiros de Jesus
- De volta a seu país, guiados pela mesma estrela que os acompanhara na ida, os magos mostram o cueiro e decidem celebrar uma festa em sua honra
- Durante uma cerimônia do fogo realizada segundo o costume persa, o cueiro não é destruído pelas chamas, mas sai delas intacto
- Maravilhados, os magos abraçam o pano sagrado, colocam-no sobre a cabeça e os olhos, reconhecem que é uma coisa divina e o conservam preciosamente — Evangelho Árabe da Infância 5, 5-6, 3
A fuga ao Egito
- O Evangelho Árabe da Infância concede grande espaço à fuga da Sagrada Família ao Egito para escapar dos soldados enviados por Herodes, e cada etapa da viagem a partir de Belém é marcada por um evento miraculoso.
- A chegada de José, Maria e Jesus a um lugar provoca às vezes um abalo maior — a terra treme, causando a destruição de ídolos, ou um demônio foge
- Maria realiza prodígios movida pela compaixão diante da aflição das pessoas, investida de poder sobrenatural por ser mãe de Jesus
- A simples presença de Maria ou a fragrância que emana de seu corpo suscita o milagre
- Todas as etapas da viagem são marcadas por episódios de cura que concernem ao corpo ou ao espírito
O jovem transformado em mula
- Um dos episódios mais surpreendentes é o do jovem que um ato de feitiçaria encomendado por inimigos ciumentos metamorfoseou em mula, e que vivia sob essa nova forma em sua rica casa, no meio de suas irmãs.
- Reconhece-se nesse episódio um tema do romance grego e latino de época imperial que devotou atenção às metamorfoses do homem em animal
- A expressão mais acabada desse tema encontra-se nas Metamorfoses de Apuleio, onde o protagonista é transformado em asno
- Os milagres de cura física ou psíquica não são os únicos a reter a atenção desse relato colorido — o das estatuetas de argila às quais Jesus dá vida poderia ser definido como um milagre inútil, segundo o ponto de vista de alguns escritos cristãos que atribuem esse tipo de prodígio a mágicos.
- No Romance Pseudo-Clementino estima-se que os milagres realizados por Simão, o mago, são uma vã demonstração de seus talentos
- O texto narra: “Com sete anos, Jesus fazia um dia com seus companheiros figurinhas de barro representando animais, asnos e bois; cada um elogiava suas próprias produções e achava seu trabalho o mais belo. Jesus disse: As estatuetas que fiz, quando eu lhes ordenar que andem, elas andarão. Os outros meninos disseram: Então tu és o filho do Criador? Jesus lhes ordenou que andassem e eis que elas começaram a correr. Se lhes ordenava que partissem, elas partiam e se lhes ordenava que voltassem, elas voltavam. Assim, ele fazia pássaros, ordenava-lhes que voassem e eles alçavam voo. Ordenava-lhes que poisassem em suas mãos e comessem. O mesmo se dava com os animais, asnos e bois; ele lhes dava cevada e palha e eles comiam e bebiam. Esses meninos foram contar isso a seus pais e estes os advertiram contra Jesus, dizendo: Guardai-vos de brincar com ele ou de frequentá-lo, pois é um mágico. Evitai-o. E os meninos cessaram de frequentá-lo” — Evangelho Árabe da Infância 35, 1-4, Escritos Apócrifos Cristãos, I, p. 226
- Outro milagre que retém a atenção é o realizado por um Jesus que se faz tintureiro, prodígio que veicula o tema da transformação das cores atestado pelas técnicas alquímicas antigas.
- O texto narra: “Um dia em que Jesus se passeava pelas ruas da cidade com seus jovens companheiros, passou diante da loja de um tintureiro chamado Salim. Viu em sua loja roupas que pertenciam às pessoas da cidade e que ele queria tingir. Jesus pegou todas essas roupas e as mergulhou em uma jarra de índigo. Salim se voltou contra Jesus e lhe disse: Filho de Maria, o que fizeste? Tu me arruinaste. E Jesus respondeu: Todas as roupas cuja cor querias mudar, eu as mudarei. E pôs-se a dar ao tintureiro cada roupa da cor que este queria. Quando os judeus testemunharam o milagre, louvaram a Deus” — Evangelho Árabe da Infância 35, 1-3, Escritos Apócrifos Cristãos, I, p. 226-227
- O motivo de Jesus tintureiro aparece também no Evangelho segundo Filipe — texto da gnose —, onde Jesus transforma tecidos coloridos em branco e vice-versa, sendo o branco símbolo da purificação do batismo
- Trata-se provavelmente de uma tradição alquímica comum sobre a transmutação das cores, à qual os dois textos fornecem uma interpretação espiritualizada
- Todos esses evangelhos concederam largo espaço ao maravilhoso, e sua extraordinária difusão é a melhor prova do sucesso que alcançaram apesar dos obstáculos encontrados no caminho, sendo escolhidos aqui como exemplos para introduzir o leitor nessa literatura ao mesmo tempo simples e complexa, onde se delineiam tradições cujas algumas permanecem vivas hoje na religiosidade cristã.
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