Livro 1
I, 001: O que é fino permanece.
PURA como o ouro mais fino, firme como uma rocha,
límpida como cristal deve ser a tua alma.
I, 002: A morada da quietude eterna.
QUE outro se mortifique por seu sepulcro
e consagre aos seus vermes o edifício orgulhoso.
Eu não me preocupo com isso: meu túmulo, meu zelo e caixão,
no qual repousarei eternamente, deve ser o coração de Jesus.
I, 003: Só Deus pode dar satisfação
FORA, fora, serafins, não podeis vós apagar a minha sede;
fora, fora, santos, e o que em vós resplandece;
de vós nada quero: apenas me lanço
ao mar increado da mera divindade.
I, 004: Deve-se ser inteiramente divino.
SENHOR, não me basta servir-te como anjo
e verdejar diante de ti na perfeição divina:
é demasiado vil para mim e exíguo para o meu espírito:
quem quer servir-te retamente deve ser mais do que divino.
I, 005: Não se sabe o que se é.
NÃO sei o que sou, não sou o que sei:
uma coisa e não uma coisa; um ponto e um círculo.
I, 006: Deves ser o que Deus é.
SE devo encontrar o meu último fim e o meu primeiro princípio,
devo aprofundar-me em Deus, e a Deus em mim,
e tornar-me o que Ele é: devo ser brilho no brilho,
Verbo no Verbo, (a) Deus em Deus.
(a) Tauler, Instit. Espir. c. 39.
I, 007: É preciso ainda ultrapassar Deus.
ONDE está a minha morada? Onde tu e eu não estamos.
Onde está o meu último fim, para o qual devo encaminhar-me?
Ali onde não há nenhum. Para onde devo então ir?
Devo marchar ainda (b) além de Deus, em direção a um deserto.
(b) isto é, além do que se conhece em Deus, ou do que se pode pensar d’Ele, segundo a contemplação negativa, sobre a qual cf. os místicos.
I, 008: Deus não vive sem mim.
SEI que sem mim Deus não pode viver um instante;
*) se eu for aniquilado, Ele deve necessariamente expirar.
*) cf. o prólogo.
I, 009: Eu o tenho de Deus, e Deus de mim.
QUE Deus seja e viva tão venturoso, sem desejo,
tanto Ele o recebeu de mim quanto eu d’Ele.
I, 010: Eu sou como Deus, e Deus como eu
SOU tão grande quanto Deus: Ele é tão pequeno quanto eu;
Ele não pode estar acima de mim, nem eu abaixo d’Ele.
I, 011: Deus está em mim, e eu n’Ele.
DEUS é em mim o fogo, e eu n’Ele o brilho:
não somos intimamente comuns um ao outro?
I, 012: É preciso lançar-se mais além.
HOMEM, se lançares o teu espírito para além do tempo e do lugar,
podes estar na eternidade a cada instante.
I, 013: O homem é eternidade.
EU mesmo sou eternidade, quando abandono o tempo
e me recolho em Deus, e a Deus em mim.
I, 014: Um cristão tão rico quanto Deus.
SOU tão rico quanto Deus, não pode haver grão de pó
que (crê-me, homem) eu não tenha em comum com Ele.
I, 015: A Sobre-divindade.
O que se disse de Deus ainda não me basta:
a Sobre-divindade é a minha vida e a minha luz.
I, 016: O amor obriga a Deus.
SE Deus não quiser levar-me para além de Deus,
eu o obrigarei com puro amor.
(a) Ver n.º 7.
I, 017: Um cristão é filho de Deus.
EU também sou filho de Deus; Ele me tem em suas mãos:
seu espírito, sua carne e seu sangue são conhecidos n’Ele em mim.
I, 018: Eu me igualo a Deus.
DEUS me ama acima de si: se eu o amo acima de mim,
dou-lhe tanto quanto Ele me dá de si.
I, 019: O silêncio bem-aventurado.
QUÃO bem-aventurado é o homem que não quer nem sabe!
*) que não dá a Deus (compreende-me bem) nem elogio nem louvor.
$1)
quanto mais procuras agarrá-lo, mais Ele se subtrai a ti.
$1)
*) isto é, entregar corpo e alma ao mais extremo perecimento por amor de Deus: como se ofereceram Moisés e Paulo, e muitos outros santos.
I, 029: A morte eterna.
A morte da qual não floresce uma nova vida
é aquela que a minha alma foge entre todas as mortes.
I, 030: Não há morte.
NÃO creio na morte: se morro a cada hora,
encontro a cada vez uma vida melhor.
I, 031: O morrer perpétuo.
MORRO e vivo para Deus: se quero viver para Ele eternamente,
também o espírito devo entregar-lhe eternamente.*)
*) em sentido místico, isto é, resignar.
I, 032: Deus morre e vive em nós.
EU não morro nem vivo: (a) o próprio Deus morre em mim;
e o que eu devo viver, (b) também Ele o vive sem cessar.
(a) porque d’Ele flui originariamente a virtude da mortificação; do mesmo modo segundo Paulo: 2 Cor. 3, 10, a mortificação de JESUS.
(b) vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim.
I, 033: Nada vive sem morrer.
DEUS mesmo, se quer viver para ti, deve morrer:
como pensas, sem morte, herdar a sua vida?
I, 033: Nada vive sem morrer.
DEUS mesmo, se quer viver para ti, deve morrer:
como pensas, sem morte, herdar a sua vida?
I, 034: A morte te deifica.
QUANDO estás morto, e Deus se fez a tua vida,
só então entras na ordem dos altos deuses.
I, 035: A morte é a melhor das coisas.
DIGO que, pois só a morte me liberta,
ela é a melhor coisa entre todas as coisas.
I, 036: Não há morte sem vida.
DIGO que nada morre: apenas que outra vida,
mesmo a dos tormentos, é dada pela morte.
I, 036: Não há morte sem vida.
DIGO que nada morre: apenas que outra vida,
mesmo a dos tormentos, é dada pela morte.
I, 037: A inquietação vem de ti.
NADA há que te mova: tu mesmo és a roda
que gira por si mesma e não tem repouso.
I, 038: A indiferença faz a paz.
QUANDO tomas as coisas sem nenhuma distinção,
permaneces calmo e igual no amor e na dor.
I, 038: A indiferença faz a paz.
QUANDO tomas as coisas sem nenhuma distinção,
permaneces calmo e igual no amor e na dor.
I, 039: O abandono imperfeito.
QUEM no inferno não pode viver sem inferno,
ainda não se entregou por completo ao Altíssimo.
I, 040: Deus é o que Ele quer.
DEUS é algo milagroso: é o que Ele quer,
e quer o que Ele é, sem nenhuma meta nem medida.
I, 041: Deus não conhece fim de si mesmo.
DEUS é infinitamente alto (homem, crê-o prontamente),
Ele mesmo não encontra eternamente o fim da sua divindade.
I, 042: Como se funda Deus?
DEUS se funda sem fundamento e se mede sem medida!
Se és com Ele um espírito, homem, o compreenderás.
I, 043: Ama-se ainda sem conhecer.
AMO uma só coisa, e não sei o que é:
e porque não o sei, é que a escolhi.
I, 044: Deve-se deixar o algo.
HOMEM, se amas algo, por certo não amas nada:
Deus não é isto ou aquilo, deixa por isso o algo.
I, 045: A impotência potente.
QUEM nada deseja, nada tem, nada sabe, nada ama, nada quer,
ainda assim muito tem, sabe, deseja e ama.
I, 046: A nada venturosa.
SOU algo bem-aventurado, se posso ser um nada,
nem manifesto nem partícipe de tudo o que existe.
I, 046: A nada venturosa.
SOU algo bem-aventurado, se posso ser um nada,
nem manifesto nem partícipe de tudo o que existe.
I, 047: O tempo é eternidade.
O tempo é como a eternidade, e a eternidade como o tempo,
se tu mesmo não fizeres uma diferença.
I, 048: O templo e o altar de Deus.
DEUS se oferece a si mesmo: eu sou a cada instante
o seu templo, o seu altar e o seu genuflexório, se repouso.
I, 049: A quietude é o Bem supremo.
A quietude é o Bem supremo; e se Deus não fosse quietude,
eu fecharia diante d’Ele mesmo os meus dois olhos.
I, 050: O trono de Deus.
PERGUNTAS tu, cristão, onde Deus assentou o seu trono?
Ali onde Ele te ilumina em ti o seu Filho.
I, 051: A igualdade de Deus.
QUEM na dita, na dor e no tormento permanece imóvel:
esse já não pode estar longe da igualdade de Deus.
I, 052: O grão de mostarda espiritual.
O meu espírito é um grão de mostarda: se o seu sol o transluz,
cresce igual a Deus, com jubilosa delícia.
I, 053: A virtude está na paz.
HOMEM, se praticas virtude com trabalho e esforço,
ainda não a tens: ainda lutas por ela.
I, 054: A virtude essencial.
EU mesmo devo ser virtude e nada saber de acaso,
se de fato as virtudes hão de fluir de mim.
I, 055: A fonte está em nós.
NÃO precisas clamar a Deus: a fonte está em ti;
se não fechas a saída, ela flui sem cessar.
I, 056: A desconfiança ofende a Deus.
SE suplicas ao teu Deus por desconfiança
e não o deixas velar por tudo: cuida de não o ofender.
I, 057: Na fraqueza encontra-se Deus.
QUEM dos pés é coxo e dos olhos cego,
que vá e veja de encontrar Deus em algum lugar.
I, 058: O egoísmo.
HOMEM, se buscas a Deus por causa da quietude, ainda não estás no certo;
buscas a ti mesmo e não a Ele: ainda não és filho, apenas servo.
I, 059: Como Deus quer, assim se deve querer.
SE eu fosse Serafim, preferiria ser
o mais vil dos vermes, para agradar ao Altíssimo.
I, 060: Corpo, alma e Divindade.
A alma é um cristal, a Divindade é o seu brilho:
o corpo em que vives é o cofre de ambas.
I, 061: Deus deve nascer em ti.
SE Cristo nascesse mil vezes em Belém,
e não em ti, permanecerias perdido eternamente.
I, 062: O exterior não te vale.
A cruz do Gólgota não pode redimir-te do mal,
se ela não se ergue também em ti.
I, 063: Levanta-te tu mesmo dentre os mortos.
DIGO: de nada te vale que Cristo tenha ressuscitado,
se jazes sempre cativo do pecado e dos vínculos da morte.
I, 064: A semeadura espiritual.
DEUS é um lavrador, o grão é o seu Verbo eterno,
o seu Espírito é a relha do arado, o meu coração a sementeira.
I, 065: A pobreza é divina.
DEUS é a coisa mais pobre: está inteiramente nu e livre;
por isso digo com toda razão que a pobreza é divina.
I, 055: A fonte está em nós.
NÃO precisas clamar a Deus: a fonte está em ti;
se não fechas a saída, ela flui sem cessar.
I, 066: O meu coração é o lar de Deus.
SE Deus é um fogo, o meu coração é o lar
onde Ele consome a lenha da vaidade.
I, 067: A criança clama pela mãe.
COMO uma criança desmamada chora por sua mãe,
assim clama por Deus a alma que quer somente a Ele.
I, 068: Um abismo chama ao outro.
O abismo do meu espírito invoca sempre em alta voz
o abismo de Deus: dize, qual é mais profundo?
I, 068: Um abismo chama ao outro.
O abismo do meu espírito invoca sempre em alta voz
o abismo de Deus: dize, qual é mais profundo?
I, 069: Leite com vinho, forte e genuíno.
A humanidade é o leite, a divindade é o vinho;
se queres fortalecer-te, bebe leite misturado com vinho.
I, 069: Leite com vinho, forte e genuíno.
A humanidade é o leite, a divindade é o vinho;
se queres fortalecer-te, bebe leite misturado com vinho.
I, 070: O amor.
O amor é o nosso Deus, tudo vive por amor;
quão ditoso seria o homem que permanecesse sempre nele!
I, 071: É preciso ser a essência.
EXERCITAR o amor é grande esforço: não devemos apenas
amar, mas ser, como Deus, nós mesmos o amor.
I, 072: Como se vê a Deus?
DEUS habita numa luz à qual falta todo caminho;
quem não chega a ser ele mesmo a luz, jamais O verá.
I, 073: O homem era a vida de Deus.
ANTES de chegar a ser algo, eu era a vida de Deus:*)
por ele se entregou tudo por mim.
$1) a mergulhar-se essencialmente n’Ele.
*) Verdadeiramente, por inteiro, intimamente; em suma, recolhimento essencial em L. de Blois, Inst. cap. 3, n.º 8.
Notas a I, 080
Cf. IV, 32.
I, 075: O teu ídolo, o teu desejo.
SE algo desejas junto de Deus, digo-te clara e francamente
que isso é o teu ídolo (por santo que sejas).
I, 076: Não querer nada torna igual a Deus.
DEUS é a eterna quietude, porque nada quer nem busca;
do mesmo modo tu, se nada queres, serás muito.
I, 077: As coisas são exíguas.
QUÃO pequeno é o homem que tanto valoriza alguma coisa
e não se instala acima de si, no trono de Deus!
I, 078: A criatura é apenas um ponto.
VÊ: tudo o que Deus criou é tão pequeno para o meu espírito,
que lhe parece ser nele apenas um pontinho.
I, 079: Deus dá frutos perfeitos.
QUEM quisesse negar-me a perfeição de Deus
teria antes de arrancar-me da sua cepa.
I, 079: Deus dá frutos perfeitos.
QUEM quisesse negar-me a perfeição de Deus
teria antes de arrancar-me da sua cepa.
I, 080: Cada um no que é seu.
A ave repousa no ar, a pedra sobre a terra,
no água vive o peixe, o meu espírito na mão de Deus.
Notas a I, 080
Cf. IV, 32.
I, 081: Deus floresce de seus ramos.
SE nasceste de Deus, Deus floresce em ti;
e a sua divindade é a tua seiva e o teu ornamento.
I, 082: O céu está em ti.
DETÉM-te, aonde corres? O céu está em ti;
se buscas a Deus noutro lugar, jamais o encontrarás.
I, 083: Como se pode gozar de Deus.
DEUS é um Único Um; quem quer gozar d’Ele
deve incluir-se, não menos que Ele, n’Ele.
I, 084: Como se chega a ser igual a Deus?
QUEM quer ser igual a Deus deve tornar-se desigual a tudo,
estar vazio de si mesmo e livre de pesares.
I, 085: Como se ouve a palavra de Deus?
SE queres ouvir dizer em ti a Palavra Eterna,
deves despojar-te antes de toda inquietação.
I, 086: Sou tão vasto quanto Deus.
SOU tão vasto quanto Deus, nada há em todo o mundo
(ó milagre!) que me contenha em si.
I, 087: Na pedra angular está o tesouro.
COMO podes, ó homem, desejar alguma coisa,
se abarcas em ti a Deus e todas as coisas?
I, 087: Na pedra angular está o tesouro.
POR que atormentas o metal? Só na pedra angular
estão o ouro, a saúde e todas as artes.
I, 089: A alma é igual a Deus.
VISTO que a minha alma está em Deus fora do tempo e do lugar,
deve ser igual ao Lugar e ao Verbo eterno.
I, 090: A deidade é o que verdeja.
A deidade é a minha seiva: o que em mim verdeja e floresce
é o seu Santo Espírito, pelo qual o rebento acontece.
I, 091: Deve-se agradecer por tudo.
HOMEM, se ainda te acostumas a agradecer a Deus isto ou aquilo,
ainda não transpuseste as barreiras da tua fraqueza.
I, 092: Quem está inteiramente deificado.
QUEM é como se não fosse, e jamais tivesse chegado a ser:
esse, (ó bem-aventurança!), tornou-se puro Deus.
I, 093: Em si, ouve-se a Palavra.
QUEM está em si, ouve a Palavra de Deus,
(nega-o quanto quiseres) ainda sem tempo e sem lugar.
I, 093: Em si, ouve-se a Palavra.
QUEM está em si, ouve a Palavra de Deus,
(nega-o quanto quiseres) ainda sem tempo e sem lugar.
I, 094: A humildade.
A humildade é o fundo, a cobertura e o cofre,
no qual se erguem e se encerram as virtudes.
I, 095: A pureza.
QUANDO, por meio de Deus, cheguei a ser pureza,
não me dirijo a lugar algum para encontrar a Deus.
I, 096: Deus nada pode sem mim.
DEUS não pode, sem mim, fazer um só verminho;
se eu não o sustento com Ele, ele se desfaz de imediato.
I, 097: Estar unido a Deus é bom para a dor eterna.
A quem está unido a Deus, Ele não pode condenar:
Ele mesmo se lançaria à morte e às chamas.
I, 098: A vontade morta reina.
TÃO logo a minha vontade está morta, Deus deve fazer o que quero:
eu mesmo Lhe prescrevo o modelo e a meta.
I, 099: Para o abandono tudo é igual.
ABANDONO-ME a Deus por inteiro; se Ele quisesse dar-me penas,
eu Lhe sorriria tanto quanto pelas alegrias.
I, 100: Um sustenta o outro.
IMPORTO tanto a Deus quanto Ele a mim,
ajudo-O a guardar a sua essência, como Ele a minha.
I, 101: Cristo.
OUVI o milagre! Cristo é o cordeiro e também o pastor,
quando Deus nasce homem na minha alma.
I, 102: A crisopeia espiritual.
O chumbo torna-se ouro, o acaso caduca,
quando, com Deus, sou transmutado em Deus por Deus.
I, 103: Sobre a mesma.
EU mesmo sou o metal, o Espírito é fogo e lar,
o Messias é a tintura que transfigura corpo e alma.
I, 104: Também sobre a mesma.
TÃO logo posso ser fundido pelo fogo de Deus,
tão logo Deus imprime em mim a sua própria essência.
I, 105: A imagem de Deus.
EU porto a imagem de Deus: se Ele quer contemplar-se,
isso só pode acontecer em mim e naquilo que se me assemelha.
I, 106: Um é no outro.
EU não sou fora de Deus, nem Deus fora de mim;
eu sou o seu brilho e a sua luz, e Ele é o meu ornamento.
I, 107: Tudo ainda está em Deus.
SE a criatura se derramou de Deus:
como a mantém Ele ainda então, encerrada no seu seio?
I, 108: A rosa.
A rosa que aqui vê o teu olho exterior
floresceu assim desde a eternidade em Deus.*)
$1)
*) idealiter.
I, 109: As criaturas.
VISTO que as criaturas permanecem na Palavra de Deus:
como poderiam jamais perder-se e perecer?
I, 110: A busca da criatura.
DESDE o seu primeiro princípio, e ainda até hoje,
a criatura nada busca senão a paz do seu Criador.
I, 111: A deidade é um Nada.
A terna deidade é um Nada e Sobrenada:
quem em tudo não vê nada — homem, crê-o —, vê-a.
I, 111: A deidade é um Nada.
A terna deidade é um Nada e Sobrenada:
quem em tudo não vê nada — homem, crê-o —, vê-a.
I, 112: É bom estar ao sol.
QUEM está ao sol não carece da luz
que falta àquele que, extraviado, anda fora dele.
I, 113: Jeová é o sol.
TIRA-ME a luz do sol: Jeová é o sol
que ilumina a minha alma e a enche de gozo.
I, 113: Jeová é o sol.
TIRA-ME a luz do sol: Jeová é o sol
que ilumina a minha alma e a enche de gozo.
I, 114: O sol já é bastante.
A QUEM o seu sol brilha, não precisa olhar
se, em algum lugar, a lua e outros astros resplandecem.
I, 115: Tu mesmo deves ser sol.
EU mesmo devo ser sol, devo pintar com os meus raios
o incolor mar da deidade inteira.
I, 115: Tu mesmo deves ser sol.
EU mesmo devo ser sol, devo pintar com os meus raios
o incolor mar da deidade inteira.
I, 116: O orvalho.
O orvalho refresca o campo: se há de corroborar o meu coração,
deve cair do coração de Jesus.
I, 117: Nada doce no mundo.
QUEM pode chamar algo no mundo de doce e encantador
deve ainda ignorar a doçura que é Deus.
I, 118: O espírito permanece livre em todo tempo.
APRISIONA-ME com o rigor que quiseres em mil ferros,
que estarei por inteiro livre e sem cadeias.
I, 119: Deves ir à origem.
HOMEM, na origem a água é clara e pura;
se não bebes da fonte, estás em perigo.
I, 120: A pérola nasce do orvalho.
O caracol lambe o orvalho, e eu, Senhor Cristo, o teu sangue:
em ambos nasce um bem precioso.
I, 121: Pela humanidade, à divindade.
SE queres receber o orvalho de pérolas da nobre divindade,
deves apegar-te, inamovível, à sua humanidade.
I, 122: A sensualidade traz o sofrimento.
UM olho que jamais se priva do prazer de ver
acaba por cegar-se por inteiro e já não se vê a si mesmo.
I, 123: Deus geme por sua esposa.
A rola geme porque perdeu o esposo,
e Deus, porque escolheste a morte antes d’Ele.
I, 124: Deves sê-lo por tua vez.
DEUS fez-se homem por ti; se não te fazes por tua vez Deus,
profanes o seu nascimento e zombas da sua morte.
I, 125: A indiferença não tem penas.
A QUEM tudo é indiferente, nenhuma pena o toca,
ainda que esteja no lamaçal do mais profundo inferno.
I, 126: O desejo aguarda concessão.
HOMEM, se ainda tens desejo e saudade de Deus,
é porque ainda não estás por Ele cingido por completo.
I, 127: Para Deus tudo é igual.
DEUS não faz distinção: tudo é um para Ele;
tanto se comunica à mosca quanto a ti.
I, 128: Tudo repousa na receptividade.
SE eu pudesse receber de Deus tanto quanto Cristo,
Ele me faria aceder a isso no mesmo instante.
I, 129: O mal nasce de ti.
DEUS não é nada além de bem: condenação, morte e suplício,
e o que se chama mal deve estar, homem, somente em ti.
I, 130: A nudez repousa em Deus.
QUÃO venturosamente repousa o espírito no seio do Amado,
quando está nu de Deus, e de todas as coisas, e de si mesmo.
I, 131: O Paraíso no tormento.
HOMEM, se és fiel a Deus e queres somente a Ele,
a maior miséria será para ti um paraíso.
I, 132: É preciso provar-se.
HOMEM, não se vai ao Paraíso sem ser provado;
se queres entrar nele, deves passar pelo fogo e pela espada.
I, 133: Deus é um eterno Agora.
SE Deus é um eterno Agora, o que impede então
que tudo já possa ser em mim tudo em tudo?
I, 134: A morte imperfeita.
SE ainda te move e aflige isto ou aquilo,
ainda não estás com Deus metido por completo na tumba.
I, 135: Junto a Deus está apenas o seu Filho.
HOMEM, nasce de Deus! Junto ao trono da sua divindade,
não há ninguém mais senão o Filho unigênito.
I, 136: Como repousa Deus em mim?
DEVES ser inteiramente puro e estar num agora,
se Deus há de contemplar-se em ti e repousar suavemente.
I, 137: Deus não condena ninguém.
POR que te queixas de Deus? Tu mesmo te condenas;
Ele não o quereria fazer, tem isso por certo.
I, 138: Quanto mais sais, mais Deus entra.
QUANTO mais podes expulsar-te e derramar-te de ti,
tanto mais deve Deus fluir em ti com a sua divindade.
I, 139: Porta e é portada.
A Palavra que porta a ti, e a mim, e a todas as coisas,
é por sua vez portada e guardada por mim.
I, 140: O homem é todas as coisas.
O homem é todas as coisas; se lhe falta alguma,
ele certamente não conhece a sua própria riqueza.
I, 141: Há muitos milhares de sóis.
DIZES que no firmamento há um só sol;
eu digo, porém, que há muitos milhares de sóis.
I, 142: Quanto mais alguém se entrega, mais é amado.
POR que é o Serafim mais amado por Deus
do que um mosquito? Porque ele se entrega mais.
I, 143: O apego a si condena.
TÃO logo o diabo pudesse sair do seu apego a si,
tu o verias ocupar o trono de Deus.
I, 144: Só o Criador pode.
COMO imaginas contar a multidão das estrelas?
É só o Criador quem pode contá-las todas.
I, 145: Em ti está o que tu queres.
O céu está em ti, e também o suplício do inferno;
o que escolhes e queres, tens por toda parte.
I, 146: Nada Deus ama fora de Cristo.
TÃO grata é para Deus uma alma no brilho e na luz de Cristo,
quanto ingrata é para Ele se Cristo lhe falta.
I, 147: A Terra virgem.
O mais fino no mundo é a pura Terra virgem;
diz-se que dela nasce o Menino dos Sábios.
I, 148: A alegoria da Trindade.
O Sentido, o Espírito e o Verbo ensinam clara e francamente
(se podes apreendê-lo) como Deus é trino e um.
I, 149: Não se pode delimitar.
TANTO ignoras a vastidão de Deus,
quanto te enganas ao dizer que o mundo é uma esfera.
I, 150: Um no outro.
SE a minha alma está no corpo, e assim por todos os membros,
digo com ciência certa que o corpo está por sua vez nela.
(entenda-se idealiter.)
I, 151: O homem é para a eternidade.
QUANDO Deus fez nascer o seu Filho pela primeira vez,
escolheu-nos, a ti e a mim, como leito de nascimento.
I, 152: Tu mesmo deves ser Cordeirinho de Deus.
QUE Deus seja um cordeirinho não te vale, cristão,
se tu mesmo também não és um cordeirinho de Deus.
I, 153: Deves tornar-te criança.
HOMEM, se não te tornares criança, jamais entrarás
onde estão as crianças de Deus: a porta é muito pequena.
I, 154: A virgindade mística.
QUEM é límpido como a luz, puro como a fonte,
é escolhido por Deus como virgem.
I, 155: Aqui se deve começar.
HOMEM, se queres estar junto ao Cordeirinho de Deus eternamente,
deves já aqui seguir os seus passos.
I, 156: O próprio Deus é o nosso prado.
VEDE o milagre! Deus comunica-se tanto,
que quer ainda Ele mesmo ser prado para os cordeiros.
I, 157: O estranho parentesco de Deus.
DIZE, ó grande Deus, como estou aparentado contigo,
que me chamaste Mãe, Noiva, Esposa e Criança?
I, 158: Quem bebe da fonte da vida?
QUEM pensa sentar-se lá junto à fonte da vida
deve antes aqui exalar a própria sede.
I, 159: O vazio é como Deus.
HOMEM, se estás vazio, a água mana de ti,
como da fonte da eternidade.
I, 160: Deus tem sede, dá-lhe de beber.
O PRÓPRIO Deus se queixa de sede: ai, que o mortifiques assim,
e não lhe dês de beber como aquela mulher, a Samaritana!
I, 161: A luz eterna.
SOU uma luz eterna, ardo sem cessar:
meu pavio e meu óleo é Deus, meu espírito é o vaso.
I, 162: Tens de ter a filiação.
SE queres chamar ao Altíssimo Deus teu Pai,
tens antes de confessar que és o seu filho.
I, 163: Deve-se amar a humanidade.
TU não amas os homens, e fazes bem;
é a humanidade que se deve amar no homem.
I, 164: Com abandono contempla-se a Deus.
O anjo contempla a Deus com olhos serenos;
eu, porém, ainda muito mais, se posso abandonar Deus.
I, 165: A Sabedoria.
A Sabedoria encontra-se à vontade onde estão os seus filhos.
Por quê? (ó milagre!), ela mesma é uma criança.
I, 166: O espelho da Sabedoria.
A Sabedoria contempla-se no seu espelho.
Quem é? ela mesma, e quem pode tornar-se Sabedoria.
I, 167: Quanto tu em Deus, tanto Ele em ti.
QUANTO a alma em Deus, tanto repousa Deus nela;
nem mais nem menos — crê-o, homem —, assim Ele será para ti.
I, 168: Cristo é tudo.
Ó milagre! Cristo é a verdade e o Verbo,
luz, vida, alimento e bebida, caminho, peregrino, porta e morada.
I, 169: Não desejar nada é beatitude.
OS santos estão cingidos pela paz de Deus
e têm beatitude, porque nada desejam.
I, 170: Deus não é alto nem profundo.
DEUS não é alto, não é profundo; quem diz o contrário
ainda tem da verdade uma lição muito má.
I, 171: Não buscando encontra-se Deus.
DEUS não está aqui nem ali; quem deseja encontrá-Lo,
que se deixe amarrar mãos e pés, corpo e alma.
I, 172: Deus vê antes que tu penses.
SE Deus desde a eternidade não vê os pensamentos,
tu és antes que Ele: Ele ponto, tu limites.
I, 173: O homem não vive só de pão.
O pão não te nutre: o que no pão te alimenta
é o Verbo eterno de Deus: é vida e é espírito.
I, 174: Os dons não são Deus.
QUEM pede dons a Deus está muito mal situado:
adora a criatura e não o Criador.
I, 175: Ser filho já é bastante.
FILHO é a palavra mais preciosa que Deus pode dizer-me;
se Ele a diz, pode faltar-me o mundo e até o próprio Deus.
I, 176: Um como o outro.
O inferno torna-se reino celeste, ainda aqui na terra
(e isto parece estranho), se o céu pode tornar-se inferno.
I, 177: No fundo, tudo é um.
Fala-se de tempo e lugar, de agora e eternidade;
mas que são tempo e lugar, e agora e eternidade?
I, 178: A culpa é tua.
DE que tua vista se cegue ao olhar o sol,
são culpados os teus olhos, e não a intensa luz.
I, 179: A fonte de Deus.
VISTO que as torrentes da divindade hão de manar de mim,
devo ser uma fonte; se não, elas se esgotariam.
I, 180: Um cristão é igreja e é tudo.
QUE sou eu afinal? Devo ser a igreja e a pedra,
o sacerdote de Deus e também a oferenda.
I, 181: É preciso usar a violência.
QUEM não se violenta para ser o filho amado do Altíssimo,
fica no estábulo, onde estão os criados e o gado.
I, 182: O mercenário não é filho.
HOMEM, se serves a Deus por bens, pela beatitude, pela retribuição,
ainda não O serves como filho, movido por amor.
I, 183: As núpcias místicas.
QUE alegria deve ser, quando Deus desposa a sua amada,
pelo seu Espírito, no seu Verbo eterno.
I, 184: Deus é para mim o que eu quero.
DEUS é o meu cajado, a minha luz, o meu caminho, a minha meta, o meu jogo,
meu pai, irmão, criança, e tudo o que quero.
I, 185: O próprio lugar está em ti.
NÃO és tu que estás no lugar; o lugar está em ti:
se o expulsas, já está aqui a eternidade.
I, 186: A casa da eterna Sabedoria.
A eterna Sabedoria edifica; eu serei o palácio,
quando eu encontrar repouso nela, e ela em mim.
I, 187: A vastidão da alma.
O mundo me é muito estreito, o céu muito pequeno;
onde haverá ainda espaço para a minha alma?
I, 188: O tempo e a eternidade.
DIZES: transporta-te do tempo para a eternidade;
há então alguma diferença entre a eternidade e o tempo?
I, 189: O homem faz o tempo.
TU mesmo fazes o tempo: o relógio são os sentidos;
se apenas deténs o volante, o tempo morre.
I, 190: A igualdade.
NÃO sei o que fazer! Tudo me é igual:
lugar e não-lugar, eternidade, tempo, noite, dia, dita e sofrimento.
I, 191: Quem há de contemplar a Deus deve ser tudo.
QUEM não é ele mesmo tudo é ainda muito pequeno
para ver-Te, meu Deus, e para ver todas as coisas.
I, 192: Quem está verdadeiramente deificado.
HOMEM, só quando chegaste a ser todas as coisas
estás no Verbo e na ordem dos deuses.
I, 193: A criatura está de fato em Deus.
A criatura é mais em Deus do que em si;
se perece, não obstante permanece n’Ele eternamente.
I, 194: Que és tu diante de Deus?
HOMEM, não te ensoberbeças de tuas obras diante de Deus,
pois a ação de todos os santos é diante de Deus um jogo.
I, 195: A luz perdura no fogo.
A luz dá força a tudo: o próprio Deus vive na luz;
mas se Ele não fosse o fogo, ela logo pereceria.
I, 196: O cântaro do maná e a arca espiritual.
HOMEM, se é de ouro o teu coração e pura a tua alma,
podes também tu ser a arca e o cântaro do maná.
I, 197: Deus faz ser perfeito.
QUE Deus seja todo-poderoso não o crê aquele
que me nega a perfeição, como Ele a quer.
I, 198: O Verbo é como o fogo.
O fogo castiga todas as coisas e, no entanto, não se move;
assim é o Verbo eterno, que tudo agita e eleva.
I, 199: Deus fora da criatura.
VAI para onde não podes; vê onde não vês;
ouve onde nada soa nem se escuta, e estarás onde Deus fala.
I, 200: Deus não é nada (quanto à criatura).
Notas a I, 200
Pensamento muito audaz, de origem sem dúvida weigeliana, cf. Weigel: Do Lugar do Mundo, cap. XVII: «Embora Deus nada queira em si mesmo, chega apenas à vontade na criatura». É possível que essa corrente de pensamento tenha chegado a Scheffler por meio de Czepko: cf. a Sextilha de Czepko (citada por Ellinger, p. XXIX): «Deus não é Deus por si; Ele é o que é; só a criatura O escolheu Deus». Não obstante, o pensamento de Silesius afasta-se de Weigel e de Czepko num ponto essencial: Deus torna-se «algo», isto é, determinação, vontade, não pela primeira criação, mas pela criação da graça, «elegendo» o homem; a posição da «criatura» fora d’Ele mesmo é substituída pelo seu ato de amor por esta criatura: mudança característica de Silesius.
DEUS de fato não é nada; e se é algo,
é-o apenas em mim, quando me escolhe para Si.
I, 201: Por que nasce Deus?
Ó mistério inconcebível! Deus perdeu-Se a Si mesmo,
por isso quer renascer em mim.
I, 202: A alta estima.
Ó alta estima! Deus salta do seu trono
e me senta sobre ele no seu Filho amado.
I, 203: Sempre o mesmo.
CHEGUEI a ser o que era, e sou o que fui,
e sê-lo-ei eternamente, se corpo e alma forem curados.
I, 204: O homem é a mais alta das coisas.
NADA me parece alto: eu sou a coisa mais alta,
porque até Deus, sem mim, é pequeno para Si mesmo.
I, 205: O Lugar é o Verbo.
O Lugar e o Verbo são um; e se não houvesse Lugar,
(pela eternidade eterna!) não haveria Verbo.
I, 206: Como se chama o Homem Novo?
SE queres conhecer o Homem Novo e saber o seu nome,
pergunta primeiro a Deus como costuma nomear-Se.
I, 207: O festim mais belo.
Ó doce festim! O próprio Deus será o vinho,
o alimento, a mesa, a música e o servidor.
I, 208: A bem-aventurada intemperança.
DEMAIS nunca é bom! odeio a intemperança;
mas quisera estar tão cheio de Deus quanto Jesus.
I, 209: Como a boca, a bebida.
A prostituta Babilônia bebe sangue e bebe morte;
ó grande diferença! Eu bebo sangue e bebo Deus.
I, 210: Quanto mais entregue, mais divino.
OS santos estão tão ébrios da divindade de Deus
quanto estão n’Ele perdidos e abismados.
I, 211: Dos violentos é o reino dos céus.
NÃO é Deus quem dá o reino dos céus: tu mesmo deves atraí-lo
e lutar por ele com toda a força e zelo.
I, 212: Eu como Deus, Deus como eu.
DEUS é o que Ele é; eu sou o que eu sou;
mas se conheces bem um, conheces a mim e a Ele.
I, 213: O pecado.
A sede não é uma coisa, e no entanto pode atormentar-te;
como então não há de o pecado roer o mau eternamente!
I, 214: A doçura.
A doçura é veludo, no qual Deus jaz e repousa;
se és ela, Ele te agradece por Lhe dares a sua almofada.
I, 215: A justiça.
QUE é justiça? Aquilo que a todos por igual
se dá, ordena e perdoa, aqui e no reino dos céus.
I, 216: A deificação.
DEUS é o meu espírito, o meu sangue, a minha carne e os meus ossos;
como não hei de estar então com Ele, deificado por inteiro?
I, 217: Agir e repousar é próprio de Deus.
PERGUNTAS o que Deus ama mais, agir para Ele ou repousar?
Eu digo que o homem, como Deus, deve fazer ambas as coisas.
I, 218: A visão divina.
QUEM no próximo não vê senão Deus e Cristo,
vê com a luz que floresce da divindade.
I, 219: A simplicidade.
A simplicidade é tão preciosa que, se faltasse a Deus,
Ele não seria Deus, nem luz, nem Sabedoria.
I, 220: Eu também à direita de Deus.
VISTO que o meu Redentor acolheu a humanidade,
também eu cheguei n’Ele à direita de Deus.
I, 221: A fé.
A fé, grande como um grão de mostarda, leva a montanha ao mar;
pensai o que poderia fazer, se fosse abóbora!
I, 222: A esperança.
A esperança é uma corda; se um condenado pudesse tê-la,
Deus o tiraria do pântano em que se afoga.
I, 223: A certeza.
A certeza é boa, e a confiança é bela;
mas se não és justo, ela te levará ao suplício.
I, 224: O que Deus é para mim, eu sou para Ele.
DEUS é para mim Deus e homem; eu sou para Ele homem e Deus;
eu apago a sua sede, e Ele me vale na miséria.
I, 225: O Anticristo.
POR que olhas espantado, homem? O Anticristo e a besta
(se tu não estás em Deus) estão ambos em ti.
I, 226: A Babel.
TU mesmo és Babel; se não sais de ti,
continuarás sendo o bordel do diabo eternamente.
I, 227: A sede de vingança.
A sede de vingança é uma roda que nunca se detém;
quanto mais gira, porém, mais foge de si.
I, 228: O abominável da maldade.
HOMEM, se chegasses a ver em ti as imundícies,
terias horror de ti, como do diabo.
I, 229: A ira.
A ira é fogo infernal; quando se acende em ti,
é profanado ao Espírito Santo o terno leito em que repousa.
I, 230: A beatitude é fácil de alcançar.
PARECE-ME mais fácil lançar-se ao céu
do que penetrar o abismo à força de pecados.
I, 231: Os ricos amantes do mundo.
CRISTÃO, quando passar uma corda pelo olho da agulha,
dize que o rico voou ao reino dos céus.
I, 232: Senhor, faça-se a tua vontade.
O que Deus ouve de ti com mais agrado
é quando dizes de coração: seja louvada a sua vontade.
I, 233: O eco de Deus.
O meu amor e todas as coisas são o eco de Deus,
quando Ele me ouve gritar: meu Deus e todas as coisas.
I, 234: Deus por Deus.
SENHOR, se amas a minha alma, deixa-a abraçar-te;
por mil deuses, ela jamais te abandonará.
I, 235: Tudo com Deus.
ADORO a Deus com Deus, desde Ele e n’Ele;
Ele é o meu espírito, o meu verbo, o meu salmo e todo o meu poder.
I, 236: O espírito nos representa.
DEUS ama-Se e louva-Se a Si mesmo tanto quanto pode;
ajoelha-Se e inclina-Se, adora-Se a Si mesmo.
I, 237: No interior ora-se bem.
HOMEM, se queres saber o que significa orar sinceramente,
entra em ti e pergunta ao Espírito de Deus.
I, 238: A oração essencial.
QUEM vive puro de coração e segue o caminho de Cristo
adora essencialmente a Deus em si mesmo.
I, 239: A Deus louva-se no silêncio.
CRÊS, ó pobre homem, que o alarido da tua boca
seja o canto de louvor justo para a silenciosa deidade?
I, 240: A oração silenciosa.
DEUS está de tal modo em toda parte que nada se pode dizer;
por isso, melhor O adoras com o silêncio.*)
*) Veja-se Maximiliani Sandæi, Theologia mystica, livro 2, comentário 3 por inteiro, e Baltasar Álvarez, na sua Vida, escrita por Ludovicus de Ponte.
I, 241: O sustento vitalício de Deus.
O meu corpo (ó esplendor!) é o sustento vitalício de Deus;
por isso Ele não o tem por pouco para nele morar.
I, 242: A porta deve estar aberta.
ABRE a porta, e entrará o Espírito Santo,
o Pai e o Filho, trino e um.
I, 243: A morada de Deus.
CRISTÃO, se amas Jesus e tens a sua doçura,
Deus encontra em ti a sua morada, a sua paz e o seu repouso.
I, 244: O amor é a pedra filosofal.
O amor é a pedra filosofal: separa o ouro da escória,
do nada faz algo e me transforma em Deus.
I, 245: Deve haver união.
SE o amor há de tirar-te do suplício,
deve antes a tua humanidade tornar-se uma com a de Deus.
I, 246: A tintura.
O Espírito Santo funde, o Pai consome,
o Filho é a tintura que faz o ouro e transfigura.
I, 247: O que era antes desapareceu.
TÃO pouco quanto podes chamar o ouro de ferro e negro,
tão pouco conhecerás lá o homem no homem.
I, 248: A união exata.
VÊ como está altamente unida a auricidade ao chumbo,
e o deificado à essência de Deus!
I, 249: A auricidade e a deidade.
A auricidade faz o ouro, a deidade faz Deus;
se com ela não te tornas um, serás sempre escória e chumbo.
I, 250: Como a auricidade, assim a deidade.
VÊ como a auricidade é o fluxo, o peso e o fulgor do ouro;
assim também a deidade será tudo no bem-aventurado.
I, 251: O menino dileto de Deus.
DIZE: como posso ser do Pai o menino dileto?
— Se Ele encontra a Si mesmo e a tudo, e a deidade, em ti.
I, 252: A filiação divina.
SE não participo intimamente da deidade de Deus,
como posso então ser seu filho, e Ele meu Pai?
I, 253: Dos meninos é o reino dos céus.
CRISTÃO, se podes de todo o coração tornar-te criança,
o reino dos céus já é teu aqui na terra.
I, 254: A infância e a divindade.
VISTO que a divindade se me manifestou na infância,
estou igualmente inclinado à infância e à divindade.
I, 255: Criança e Deus.
CRIANÇA ou Deus, tanto faz: se me chamaste criança,
reconheceste Deus em mim e a mim em Deus.
I, 256: A filiação e a paternidade recíprocas.
SOU criança e filho de Deus; Ele, por sua vez, é meu menino;
que sucede, que somos ambos ambas as coisas!
I, 257: A Trindade na natureza.
QUE Deus é trino e um, mostra-to cada erva,
onde enxofre, sal e mercúrio se veem em um.
I, 258: A tintura.
CONTEMPLA a tintura, e verás nitidamente
como é a tua redenção e como a deificação.
I, 259: A deidade e a humanidade.
A eterna deidade está com a humanidade tão obrigada,
que sem ela carece até de coração, de coragem e de sentido.
I, 260: Hoje é o dia da salvação.
LEVANTA-TE, esposa, o esposo chega! Não se entra com ele,
se não se consegue estar pronta no mesmo instante.
I, 261: As bodas do Cordeiro.
O festim está pronto, o Cordeiro mostra as suas feridas;
ai de ti, se ainda não encontraste Deus, teu esposo.
I, 262: A veste nupcial.
A veste nupcial é Deus e o amor do seu Espírito;
veste-a, e afastar-se-á de ti o que turva o teu espírito.
I, 263: Deus nunca acaba de explorar-Se.
A eterna deidade é tão rica em atos e razões
que ainda nunca Se explorou a Si mesma por completo.
I, 264: As criaturas são o eco de Deus.
NADA desdobra o seu ser sem voz: Deus ouve por toda parte,
em todas as criaturas, o seu eco e o seu louvor.
I, 265: A harmonia.
AI, que nós, os homens, não cantemos juntos,
como as avezinhas do bosque, cada um a sua nota com prazer!
I, 266: Para o zombador nada é bom.
SEI que o rouxinol não censura a nota do cuco;
tu, porém, se não canto como tu, zombas da minha.
I, 267: Uma só coisa raramente agrada.
AMIGO, se sempre cantássemos todos uma coisa só,
que coro seria esse, e que canção?
I, 268: A variação enfeita.
QUANTO maior diferença pode expressar-se nas vozes,
tanto mais maravilhoso costumo ouvir o canto.
I, 269: Para Deus tudo é igual.
DEUS presta exatamente tanta atenção ao grasnar
quanto ao gorjeio que a cotovia lhe dedica.
I, 270: A voz de Deus.
AS criaturas são a voz do Verbo Eterno;
Ele canta e ressoa para Si, na graça e na ira.
I, 271: Em Deus não há nada da criatura.
SE ainda amas algo em Deus, dizes com isso
que Deus ainda não é para ti Deus e todas as coisas.
I, 272: O homem é semelhança de Deus.
O que Deus por toda a eternidade pode desejar e ansiar,
Ele o contempla em mim como em sua semelhança.
I, 273: Eleva-te acima da santidade.
A santidade é boa; quem pode ultrapassá-la
encontra-se excelentemente com Deus e com o homem.
I, 274: O acaso deve desaparecer.
O acaso deve desaparecer, e toda falsa aparência;
deves ser absolutamente simples e essencial.
I, 275: O homem leva tudo a Deus.
HOMEM, tudo te ama: tudo se aglomera ao teu redor;
tudo corre a ti para alcançar a Deus.
I, 276: Um do outro, princípio e fim.
DEUS é o meu último fim; se eu sou o seu princípio,
Ele desdobra o seu ser a partir de mim, e eu me dissipo n’Ele.
I, 277: O fim de Deus.
QUE Deus não tenha fim, não to concedo;
pois vê: acaso Ele não me busca para repousar em mim?
I, 278: O outro-Ele de Deus.
EU sou o outro-Ele de Deus; Ele encontra somente em mim
o que Lhe será igual e semelhante para sempre.
I, 279: O Eu nada consegue.
COM o teu eu tentas ora isto, ora aquilo;
ai, se deixasses Deus agir segundo a sua vontade!
I, 280: A verdadeira pedra filosofal.
A tua pedra, alquimista, nada é; a pedra angular que quero
é a minha tintura de ouro e a pedra de todos os filósofos.
I, 281: Seus mandamentos não são penosos.
HOMEM, se vives em Deus e morres para a tua vontade,
nada te será tão fácil quanto cumprir o seu mandamento.
I, 282: Em Deus, a melhor posição.
DE que me vale que as estrelas da manhã louvem o Senhor,
se não estou acima delas elevado a Ele?
I, 283: Deus é sobre-santo.
GRITAI, serafins, o que de vós se lê;
eu sei que Deus, meu Deus, é ainda mais que santo.
I, 284: É preciso ultrapassar todo conhecimento.
O que o querubim chega a conhecer não pode bastar-me;
quero voar acima dele, para onde nada se conhece.
I, 285: O cognoscente deve tornar-se o conhecido.
EM Deus nada se conhece: Ele é um Único Um.
O que se conhece n’Ele deve sê-lo a própria pessoa.*)
$1)
*) Cristo é o nosso fim supremo.
I, 287: A beleza.
A beleza é uma luz; quanto mais careces de luz,
tanto mais horrendo és de alma e corpo.
I, 288: A beleza abandonada.
HOMENS, aprendei com as florzinhas do prado
como podeis agradar a Deus e, no entanto, ser belos. (a)
(a) Pois elas não se preocupam com a sua beleza.
I, 289: Sem porquê.
A rosa é sem porquê, floresce porque floresce;
não cuida de si mesma, não pergunta se é vista.
Notas a I, 289
Sem porquê: «Ohne warumb». L.G.: «Um terminus technicus da mística especulativa dominicana medieval, especialmente de Meister Eckhart. O sonder waeromme já se encontra antes, com certeza, nos escritos da cisterciense Beatrij van Nazareth (morta em 1268). Presumivelmente, traduz com ele o incomparável ‹Amo quia amo, amo ut amem› (‹Amo porque amo, amo apenas para amar›), cunhado no comentário do Cântico dos Cânticos por Bernardo de Claraval…. A fórmula tornou-se uma determinação fundamental de toda a mística da Idade Média.»
I, 290: Deixa que Deus providencie.
QUEM enfeita os lírios? Quem nutre os narcisos?
Por que então, cristão, estás tão dedicado a ti mesmo?
I, 291: O justo.
QUE o homem justo cresça como uma palmeira
não me maravilha; apenas que ainda encontre espaço.
I, 292: A recompensa dos bem-aventurados.
QUAL é a recompensa dos bem-aventurados? O que haverá
depois do combate?
— Os lírios da pura divindade.
I, 293: Quando se está deificado.
HOMEM, quando nem o amor te toca nem o pesar te fere,
entraste verdadeiramente em Deus, e Deus em ti.
I, 294: Deus é sem vontade.
ORAMOS: faça-se, meu Senhor e meu Deus, a tua vontade;
e vê: Ele não tem vontade*); Ele é uma calma eterna.
*) Entenda-se uma vontade contingente, pois o que Deus quer, quer-o essencialmente.
I, 295: Antes deve estar em ti.
HOMEM, se o paraíso não está primeiro em ti,
crê-me: certamente jamais entrarás nele.
I, 296: Os companheiros de jogo mais próximos de Deus.
NÃO tudo está próximo de Deus: a virgem e a criança,
só eles dois são companheiros de jogo de Deus.
I, 297: Não nu, e contudo sem vestido.
NU não posso apresentar-me a Deus; e, no entanto,
tenho de entrar
sem vestido no reino dos céus, porque Ele não tolera nada
estranho.
I, 298: O reino dos céus está dentro de nós.
MEU cristão, para onde corres? O céu está em ti.
Por que então o buscas à porta de outro?
I, 299: Com o silêncio se ouve.
A Palavra ressoa mais em ti do que na boca do outro.
Se podes fazer-lhe silêncio, ouvi-la-ás no mesmo instante.
I, 300: Bebe do teu próprio poço.
QUÃO insensato é o homem que bebe do charco
e deixa a fonte que jorra em sua casa.
Notas a I, 300
Alusão a Prov. 5, 15; mas com sentido diverso: o «charco» impuro representa as alegrias do mundo; a fonte que brota, o Espírito de Deus.
I, 301: Os filhos de Deus.
VISTO que os filhos de Deus não gostam de andar por si mesmos,
são impulsionados por Ele e pelo seu Espírito.
I, 302: Deter-se é retroceder.
QUEM, nos caminhos de Deus, pensasse em deter-se,
iria para trás e para a perdição.
