PÉROLA EVANGÉLICA
VIDAL, Daniel (org.). La perle évangélique: traduction française, 1602 [trésor incomparable de la sapience divine]. Tradução: Nicolaus Eschius; Tradução: Richard Beaucousin. Grenoble: J. Millon, 1997.
A Pérola evangélica é um texto flamengo “escrito pela mão de uma mulher”, provavelmente uma beguina ainda desconhecida na região de Brabante. Foi publicado em 1535 por iniciativa de Thierry Loher, cartuxo de Colônia. Outro cartuxo, L. Surius, fez a tradução para o latim em 1545. Finalmente, os cartuxos de Paris fizeram a tradução francesa em 1602, reeditada aqui. Não podemos deixar de nos congratular por isso. Com efeito, este escrito é herdeiro dos místicos flamengos, thiois e alemães, e mergulha imediatamente no coração do encontro entre Deus e o ser humano — onde as fronteiras entre eles se tornam indistintas.
Daniel Vidal. Terrível Golpe do Nada
I. Texto aberto da alma
1. Isenções
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A retidão do pensamento, o rigor do argumento e o domínio do conceito elevam o texto a uma injunção de sentido de profundo transtorno, sem êxtases, gemidos ou abandonos.
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O texto porta um brilho prateado da pérola já formada, levado até o próprio transpasse do conceito.
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Coexistem no texto preces de salvação, devoções ardentes vindas do fundo dos tempos religiosos e orações vacilantes e desejantes.
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O espanto do leitor contemporâneo nasce de uma compleição infinitamente delicada — um verbo altaneiro, imperativo, sem complacência, e uma vaga súbita e monótona de prosas carregadas do peso de um mundo instituído.
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O que desconcerta o olhar contemporâneo é a mescla de múltiplos registros: entrelaço de preces e vozes destruídas em seu princípio, prostituições de graça, e a surgência de um sujeito insuspeitado, portador de toda a nudez de uma alma devolvida à sua essência.
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Há bênçãos dirigidas a Deus, a seu filho inengendrado, à mulher de todas as paixões — e em seguida a ruína do destinador desses benefícios e dessas promessas.
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O texto jamais foi escrito, recomposto, reinscrito, desconstruído, inserido, deportado ou interpolado sem ser filtrado por uma instância de vigília e vigilância, à medida do que o próprio texto produziu como risco.
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Esse risco habita o mais profundo de todo enunciado místico e constitui sua razão e seu ponto de absoluta consumação.
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Mino Bergamo, em sua obra sobre a anatomia da alma, desenvolve a tese de uma solução de continuidade entre a conceptualização dos espaços e graus da alma na mística nórdica e na espiritualidade francesa gerada pela obra de São Francisco de Sales.
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A mística renano-flamenga trata do fundo da alma; a espiritualidade salesiana, da ponta do espírito.
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Essa mudança de qualificação atestaria uma mutação na representação do lugar onde se atam o desejo da criatura e a receptividade divina.
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Na mística renano-flamenga, esse lugar situa-se fora das regiões da alma concebida como matriz de consciência e supõe uma ruptura radical com ela.
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Na mística salesiana, o encontro da criatura e de Deus se efetua na extrema ponta do espírito, sob condição de um desconhecimento lógico, sem transbordar as fronteiras da consciência.
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Bergamo abre perspectivas inéditas sobre a inteligência da mística francesa no século XVII.
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A Pérola Evangélica, tratando do fundo da alma a partir da tradição renano-flamenga, aparece como resposta igualmente radical, identificando aí o próprio sítio do sujeito.
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Na leitura da Pérola, o fundo da alma — espaço em todos os pontos essencial, onde se consumam criatura e Deus — não é senão o regime de existência do que se pode nomear foro interior, razão íntima de todas as experiências interiores.
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O foro interior é o princípio de retorno da extrema intimidade do sujeito, doravante habitado pelo outro.
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A mística porta revelação do sujeito: levantamento do véu que o oprime como pessoa privada, quando ele pode doravante exibir-se como oferta pública.
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A Pérola não hesita em dizer o que acontece em Deus com a alma introvertida fora de si — alma paroxismo, alma paradoxo.
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Citação traduzida: “introvertida hors de soy” — introvertida para fora de si.
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A mística é a instituição do sujeito — mais ainda, a invenção de uma interioridade de tal tensão, vocação e disponibilidade que ela é, de imediato, operação, abertura, saída trabalhando em todo deserto, experiência em seu sentido original de passagem.
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A mística é a capacidade de dizer o último dobramento de uma consciência desamparada de seus referenciais de quietude e legitimidade.
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A mística não se funda como imperativo de inquietude, nem se deporta para as margens de incertezas que abrigam heterodoxias ou heresias.
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A mística só se entende como palavra presa a tal urgência de Deus que fende todo dizer até silenciá-lo, todo verbo até extinguir seu império, toda criatura até produzi-la pura vacância e vacuidade.
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A mística não é uma alternativa a uma palavra sobre Deus ou a uma teologia — ela instala no coração mesmo dessa instituição de palavra a objeção que a faz infinitamente tropeçar.
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A mística é a emboscada que forma círculo de crueldade no centro da fé e de seus enunciados, demitindo todo esse sistema de signos de qualquer competência para dizer seu deus.
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O que a mística coloca, enquanto obra nesse deus, não é mais uma criatura capaz de viver um mundo decaído, mas a decepção mesma como única guisa do sujeito, e a isenção como único recurso da consciência.
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Essa isenção é a última superfície, e nua, do que a mística nomeia alma — inteiramente liberada de toda intriga quanto ao século e às suas próprias qualidades, e contudo fonte permanente de recomeço.
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A mística não opõe ao século e ao seu povo um interdito de conhecimento, mas gera um deserto desse mundo e um não lugar a vir a tudo que tem lugar.
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A Pérola diz essa introversão essencial da alma e o dobramento da consciência onde nada se dispõe sem se apagar, onde nada tenta fazer memória sem se esquecer.
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A mística inventa continuamente, nessa lição de abismo, o foro interior como instância última no processo de desolação da criatura — tempo suspensivo de toda paixão e ação, e imperativo de alteridade.
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O foro interior não é íntima convicção — a mística é um rasamento demasiado crucial de toda vontade própria para deixar alguma chance a uma postura impossível.
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O dito místico tende a uma única finalidade: subtrair toda qualidade e valor de cada criatura, desfazer os laços que decidem de uma socialidade presente, e, nessa conjunção de uma nua-validade de si e de um desabrigo do mundo, levar a consciência ao seu último retrancamento, à sua extrema despossessão.
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O foro interior nomeia o que se instaura pela mística como sua exigência original, vindo assim ao nosso tempo como a sua hora exata e seu próprio encontro.
2. Dissoluções
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Na fragilidade do texto místico, um corte incessante que refunda sem cessar a fórmula inicial — a Pérola Evangélica dissolve toda obra anterior e a torna habitável por sua lenta posta em escrita.
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A Pérola é texto de sobremais: vem se acrescentar a outros já existentes, repercutindo mais uma vez a injunção mística, essa experiência de uma devorão íntima da criatura por seu Deus.
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Analisando a terminologia mística de Bento de Canfield — cuja influência a Pérola exerceu sobre seu argumento de aniquilação e essencialidade —, Paul Mommaers trata do desvanecimento do desejo na coisa desejada.
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Mommaers é, até hoje, o analista mais refinado e agudo da mística abstrata e de sua capacidade de dizer o outro pelo desvio da dição de Deus.
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Citação traduzida de Mommaers: o desejo desaparece “uma primeira vez enquanto 'demasiado' humano, para se tornar um desejo à medida do Outro.”
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A experiência dual e de ablação contínua não produz nenhum sujeito que não seja crisol onde vêm se consumar todos os valores e seus mundos circunstanciais, toda identidade e toda valência.
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O sujeito é essa coisa — esse nada — que vem no decurso de toda aventura do espírito: sem lugar para insistir, sem hora para permanecer, sem obra para se votar à assinatura.
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O que marca o sujeito como límpida devastação do eu inaugura imediatamente uma nova dada de sentido: essa absoluta deserção funda o sujeito em absoluto de liberdade.
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A mística vai até dizer jubilação — essa expansão sem reserva dos sentidos em seu mais vasto concerto —, em uma soberania e onipotência, sujeito insular e capaz de fazer nascer a seu olhar todo mundo em sua primeira clareza.
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Mommaers qualifica de espaço lúdico esse jogo, no coração mesmo da experiência amorosa do Outro, entre Deus mesmo e seu solicitante.
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A Pérola dispõe esse espaço de jogo como instância de constituição do sujeito, enquanto ele se autoriza de uma capacidade de entrar e sair de seu deus, de “querer querer.”
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Nenhuma restauração de uma identidade perdida é possível — mas uma absorção de tal urgência no que a mística nomeia o abismo da divindade que o sujeito, desprovido, acede à sua completude.
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A mística assina ao sujeito sua vocação de infinita potência.
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Deus não é, no caminho da criatura ao sujeito, senão uma frase que se cumpre no momento mesmo em que já é impronunciável porque obsoleta.
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A Pérola Evangélica não inventa uma nova via na mística do Ocidente — ela reúne o extremo horizonte de cada enunciado anterior, com heranças reescritas ou depositadas na trama da escrita.
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Sem ser apenas essa retomada em forma de paráfrase do que foi enunciado nos países renanos, nas Flandres de todos os desnudamentos da alma e nas terras brabançonas fecundas em devoções devoradoras, a Pérola teria seu posto entre os textos de mais forte tensão espiritual, mas valeria apenas como dito acrescentado.
3. Dobramento: foro interior [1]
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Ao circular pelo texto como em um espaço equívoco de rotas multiplicadas — onde se misturam propedêutica devota e verbo de pura ignição, horas canônicas e orações de vacuidade, ditos de aniquilamento e de completudes, bênçãos marianas e a nudez súbita daquele que se abandona o bastante a seu deus —, sabe-se que ele não é apenas enunciado encostado a outros.
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É texto em salência, como um último olhar contemplando o horizonte antes que uma paisagem se apague.
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É a última saída mística antes que a espiritualidade ocidental se cumpra como instituição de palavra em instância de sujeito — e dê lugar, ao longo do século XVII, à floração de textos que, de Bento de Canfield a Madame Guyon, sustentarão obras ao nada e a toda quietude.
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A Pérola Evangélica mantém essa postura de salência por sua capacidade de significar a última reserva da alma — nua e disposta a seu deus, despossessada de todo pensar e competência, aliviada de seus valores — que decide por fim de seu destino.
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Esse dobramento da consciência, esse fundo íntimo do espírito, essa retirada ao último jazimento da alma — um quase nada no seio mesmo do nada — é essa essência cumprida de que fala o texto místico, o foro interior que nos solicita hoje.
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A Pérola trabalha o próprio conceito de deus até declará-lo, romper o seu encerramento sem limite, levá-lo à paixão e crucificá-lo uma última vez.
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A alma é um agenciamento há muito formulado, nomeado e identificado, de sequências e segmentos — via real para Deus, que nela mais facilmente abunda quanto mais ela é a cintilante parcela desse deus, o emblema, a marca já presente.
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A Pérola registra o jogo dessas faculdades e sequências e diz a alma em todos os seus estados, fiel aos enunciados anteriores atentos a discernir por quais caminhos Deus procederia em direção à sua criatura.
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A Pérola desdobra esse itinerário até seu mais ínfimo horizonte e bruscamente fecha a descenção na alma em torno de um ponto de nenhum alhures e nenhum aqui — esse oco da alma, esse espaço neutro.
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A Pérola diz “fundo essencial” onde vêm à fusão o deus e seu testemunho, a criatura e sua deidade oceânica — não ajuntamento de contrários, mas indistinção do outro e do um, batimento indecidível, partilha da meia-noite, intervalo mudo.
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Essa pérola: esse espaço suficientemente interior para fazer insolência no centro de um verbo apropriado e imediatamente desertado, e para fundar, nesse deserto, a possibilidade mesma de um retorno.
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Na extrema complexidade da estrutura da alma, a Pérola expõe o encaminhamento em direção a Deus — e cada tempo da alma, cada suspiro, cada nota insurgente, é ocasião para Deus e sua criatura de um retiro, uma ausência, uma lamentação, uma noite de total obscuridade ou de uma luz súbita.
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Até que tudo, como em cruz, seja por fim cumprido, para quem aceita progredir no caminho de ablação e oferecer-se sem veste interior ao bisturi que abre àquele que se busca há tanto tempo.
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O fundo da alma é o princípio essencial, espaço inabitável pois é a morada apenas de Deus — a menos que se venha a ser esse deus.
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Nesse ápice, o texto explora todos os graus a transpor, todas as provas a atravessar, todos os caminhos a percorrer para aceder à região sem suspeição, sem categoria discriminante, sem potência — pois nela toda faculdade, todo vetor de forças, toda tensão da alma se apagam.
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Seria desejável dizer que aqui chega ao fim uma experiência do último limite — e sem dúvida a criatura em sua radical despossessão atinge o ponto lógico onde não há mais suplemento de rota a inventar, nem desejo a exciscar.
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O sujeito funda sua solidão — que é sua insolência e seu império — sobre esse defeito em absoluto.
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Na extrema ponta da alma, nesse espaço no mais profundo do espírito, nenhuma obra de contemplação que suponha uma imagem conjugada a outra: está-se em um registro de co-presença.
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Depois do deciframento da linha oblíqua em direção a Deus — que supõe uma leitura capaz de desdobrar todas as saídas da alma, suas estâncias e abordagens —, a busca do deus vem à sua transparência.
4. Foro interior [2]
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A alma é superfície límpida e não faz mais sobressaltos — um calma perfeita se expande, um silêncio pacificado; mas esse silêncio e essa paz só são possíveis como índices de uma reversibilidade de todo o dispositivo místico.
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Da alma a Deus, a distância é abolida — e de tal imediatidade que não há, em seu triunfo, mais relação propriamente dita.
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A alma e Deus são um. E esse um funda o sujeito como investimento desse deus que tem lugar do outro, desse deus como todo outro.
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A Pérola é, sem dúvida, o texto de excelência que soube conjugar até seus termos a busca de Deus e a surgência do sujeito, a busca de Deus como invenção do sujeito.
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Se o sujeito é o operador central da mística, não é segundo as categorias convencionadas da consciência e de suas qualidades, valores e ciências — pois isso é varrido pela prova mística.
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O nada percorre todos os enunciados da Pérola, e o texto não diz senão isso — furtando-se através dos enunciados de lealdade a Roma e a suas instituições de palavra, e pondo-os continuamente em perda.
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Ali, onde a criatura toda despossessada se oferece a seu deus como um nada a outro nada — de mesma não validade, de idêntico deserto, de exato repons de uma poética a outra da nudez, como Tauler o havia encantado —, produz-se um evento transfigurador: a explosão da alma fora da alma.
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O fundo íntimo da alma, o foro íntimo — que a mística renana definiu longamente como essência, extrema interioridade do que a consciência conhece de mais profundo e velado —, esse espaço interior faz retorno brusco e violento: reverte-se em si mesmo e, toda reversibilidade cumprida, desdobra-se no espaço aberto e oferecido ao mundo.
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Da intimidade mais fechada em sua própria vacância, desapropriada de toda qualidade que define a criatura, a mística opera uma basculação exemplar — o espaço interior, o fundo oculto da alma, surge como categoria social.
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O foro interior é esse dobramento da alma devastada que uma intimação de deus leva à alteridade que decide toda paixão social.
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O espaço interior — último abrigo onde se ordena o encontro da criatura desqualificada e de seu deus, razão de seu profundo nada — gira sobre o eixo que constitui essa fusão e, passando para o outro lado de sua forma, funda uma nova razão.
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Não mais o advento do último dobramento secreto da alma como espaço de pura exterioridade, nem a insistência de um momento da consciência de onde se engendaria um debate psicológico — mas o que permite a todo outro inventar, rigorosamente falando, um sujeito como abertura nua ao mundo, como essa abertura mesma, essa imensa lacuna pela qual esse mundo entra em germinação.
5. Alter ego, sed alter
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A mística da Pérola Evangélica, em seu princípio instituidor, rejeita todos os tergiversamentos do conceito e os gozos da certeza interior — a experiência de que ela fala trata precisamente do desafio de todos os tempos sociais da modernidade.
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Na estrutura ou anatomia da alma, nesse espaço interior onde se fomentam as erradicações mais nítidas de toda qualidade e vontade, vem ao seu cumprimento a certeza do sujeito, sua assertiva, sua assunção.
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A Pérola é o enunciado que vem depois desse golpe terrível do nada — a criatura desprovida, passada em pobreza, desidentificada, advém como sujeito.
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O sujeito se extingue como vetor de valor e deixa límpido o espaço lógico para a invenção do que aqui se nomeia sujeito — pois subtraído a tudo que se funda como mundo, como fórmula do século, como estância de agir e de padecer.
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O retrancamento, a ablação e o desconto revelam o sujeito jazendo nesse defeito — ele convém a esse defeito, é sua declinação, sua gramática, sua lei.
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Essa lei é esse nada de que magnificamente a Pérola diz a consonância exata com esse nada que é seu deus.
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Essa catástrofe, esse retorno, essa inflexão da extrema ponta de uma alma presa à sua própria gênese, é condição do sujeito por fim levado à sua fórmula inicial.
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O sujeito da Pérola é essa instância vazia que suporta todo o peso de um nada longamente trabalhado na mística renana — essa experiência essencial que assume todos os desertos da alma, todos os silêncios, todas as cinzas.
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A vacância do eu e a suspensão decidida do mundo cumprem na Pérola o itinerário da alma em sua última estrofe — e a mística diz que assim Deus pode habitar essa alma nua e simples, devolvida à sua origem.
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A Pérola diz também que é preciso uma alma desnuda para que seu deus faça dela seu abrigo — pois uma é então a possibilidade da outra, e esse deus e essa alma, chegados à sua completa fusão, passam em indistinção.
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O outro enunciado da Pérola — o mais perturbador — é que não há sujeito assim definido como aniquilamento da criatura senão para ilimintar seu jazimento último e disseminar-se em todo espaço assim novamente conquistado.
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Citação traduzida: “Sou, a partir do momento em que, reduzido a esse nada que foi de meu desejo antes de ser destino sem metro comum com esse eu que fui, resolvo-me em relações infinitas com todo outro.”
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O sujeito é essa expansão doravante sem fronteira de um espaço de absoluta interioridade como instância de alteridade — como injunção de alteridade.
6. Abstração
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Paul Mommaers propõe, em seus textos sobre a mística abstrata, uma interpretação fundadora — o essencialismo da mística renana e o conceito do fundo da alma implicam que o ser do místico passe todo inteiro no Outro, sem desaparecer enquanto ser humano.
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Mommaers evoca o jogo de passagem no Outro em que consiste o aniquilamento no nível essencial, e recorda a frase de Catarina de Gênova: “É preciso que eu viva sem mim mesma.”
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Em flamengo, wesen é “essência”, mas também “ser” — donde resulta que a essência da alma é essa experiência última, singular, singularizante, que se realiza como atividade, relação e ser.
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Mommaers nota que se trata de atividade humana concreta, ao mesmo tempo que “preponderância absoluta do Outro.”
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Se na Pérola, como em todo enunciado místico, trata-se de “viver no Outro e pelo Outro além de seu próprio ser humano”, é a necessidade desse além e sua vocação que definem um espaço decisivo de questionamentos.
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A mística da Pérola Evangélica coloca com acuidade esta questão: qual além do ser humano, senão todo outro que si mesmo?
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Mommaers escreve: “Deus é vulnerável”, pois “apreendido por uma Pessoa enquanto pessoa” — donde o jogo amoroso que de uma à outra se ata, se perde, se consome, abrindo a via real ao sujeito por fim vindo como resposta desejada.
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Mommaers nota: “Eu” ativo, sem que reste “nenhum eu.”
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Assim, o fundo da alma — “domínio absolutamente aberto onde o Outro faz sua morada incomensurável” — define esse espaço tão vasto, tão transbordante de sua própria interioridade, que absorve e desdobra o espaço exterior.
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Mino Bergamo propôs uma leitura renovada dessa expansão paradoxal: a inclusão do exterior na intimidade transtorna o modo de relação ao mundo e ao outro.
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A fruição — que Mommaers define como “posse do outro enquanto ele é absolutamente e sem retorno, outro” — funda o sujeito como depositário do outro e por isso responsável.
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Citação traduzida de Mommaers: “Posse do Outro e despossessão pelo Outro” — um intercâmbio interminável que se opera nessa aniquilação.
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A Pérola pode ser lida como hino ao nada, à pobreza, à redução implacável de tudo que poderia lembrar que um eu ronda ainda em todo tempo da busca de Deus.
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O imperativo de nudez e a súplica de aniquilação são operações inseparáveis de toda fórmula do foro interior.
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Citações traduzidas da Pérola: “à nua-pobreza de si mesmo” (i, 51); “livre de toda propriedade” (ii, 41); “afogar e submergir em sua nileidade” (ii, 30); “esse não-sei-quê de nu e informe” (i, 46); “no meio do silêncio” (iii, 25); “soberana pobreza” (iii, 58); “essa paz essencial” (i, 35); “escarvar até a pura areia” (iii, 70); “ruminar Deus” (i, 27); “ao íntimo sabá” (ii, 55).
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O ponto culminante — “quero querer” (iii, 30) — representa um deslocamento maior: a vontade falida, a consciência desarmada por ser despojada de suas próprias condições de exercício, implica sua absorção como vontade de outro destinador, inaugurando a economia nova do sujeito.
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Citação traduzida: “tirai-me a mim mesmo” (iii, 30).
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Esse outro destinador não é o deus que a mística conjunta à criatura devastada — é essa conjunção mesma, essa íntima nupcialidade onde nem a alma que goza de nada, nem seu deus que goza de si mesmo, podem ser discernidos.
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A Pérola designa o ponto de reflexão e retorno onde o que estava submetido à lógica destituinte da busca de Deus se declara o único real de pé após o naufrágio de tudo.
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Citação traduzida: “quero querer” significa — nesse ponto lavada de toda intenção e desejo, essa vontade que foi minha não me pertence mais, mas a esse outro que doravante finalmente sou, sujeito de um querer capaz de abraçar o mundo e de o inflamar.
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O sujeito esvaziado e soberano — a vacância perfeita — constitui um “eu” que é o possível do outro porque o outro é necessidade do “eu.”
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A Pérola não cessa de constituir esse espaço interior como morada do outro, como princípio de alteridade, nos próprios enunciados que tratam da pobreza, do aniquilamento, da extinção das faculdades da alma.
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Ela é o livro da desagregação e da presença — desqualificação da identidade e advento do outro como condição de si mesmo.
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A Pérola portou ao ponto de mais alta resolução essa aventura da razão mística, em sua crítica mesma, que assina a dissolução da cena teológica.
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O aniquilamento — essa êxtase pura que Hegel definia como a modalidade mesma do conceito, a conceptualidade vinda à sua forma mais epurada, simples e nua — não está na Pérola em forma de êxtases, mas de pura limpeza da criatura de toda sua mundanidade.
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Kierkegaard: para mergulhar até Deus, o eu deve ser transparente a si mesmo — não como reflexividade absoluta, mas como membrana imperceptível, fronteira ilegível, fechamento sem obstáculo.
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O eu só é transparente se for essa areia que a Pérola diz ao fim de seu caminho — ou seja, nada.
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Citações traduzidas: “morrer a todo outro amor” (i, 50); “perder totalmente sua alma” (i, 41); “morrer a toda deleção” (ii, 1); “limpar nossas almas” (ii, 13); “limpar a face de nossa alma” (i, 28); “abstrair de nós mesmos, desnudarmo-nos” (i, 45); “romper nossa própria natureza” (iii, 70); “não reputar todas as coisas mais que esterco” (ii, 33).
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Citação traduzida: “Uma coisa nos é totalmente necessária, que é a abstração das coisas criadas (que) poderiam impedir nosso amoroso acesso a Deus” (iii, 30).
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A obrigação de abstração se retoma, se exalta e se multiplica — “desenraizar-se”, “sair de si mesmo” (i, 18), “oferecer a Deus todos os dias várias mortes” (ibid), “ser inteiramente entregue nu de todas as coisas” (ii, 6).
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Citação traduzida: “Exterminae-me” diz a alma ainda plena das imagens do mundo (iv, 14).
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Citação traduzida: “que nosso fundo seja nu, é preciso que Deus no-lo conceda (…), pois aqui somos como aniquilados, e como despojados de nossa creaturidade” (iii, 4).
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Citação traduzida: “Crucificai, sufocai, fazei morrer em mim tudo que o mundo encontra de amável (…) a fim de que assim eu possa padecer inocentemente convosco” (ii, 26).
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Aquele que até essa extremidade de uma obra ao nada osa se expandir pode “sair inteiramente de si, sem nenhuma reserva para o futuro” (i, 33), morrendo o puro presente, não sendo senão esse morrer sempre contemporâneo do ato mesmo que o enuncia.
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Citação traduzida: “Ser absorvido, perder-se em Deus, transformar-se em Deus” (i, 42); “converter-se dentro de si mesmo 'no nu-conhecimento da alma, que nenhuma criatura jamais pôde alcançar, que é a própria habitação e morada de Deus'” (iii, 16).
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A Pérola não cessa de fechar esse argumento e de operar um vai-e-vem constante entre a íntima diluição da criatura em um deus vindo em sua vacância e a assunção do sujeito por isenção de deus levado à sua ausência.
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Toda a Pérola é clamor de pobreza — nudez da alma, essência da alma — essa virtude própria à mística de dessasir a alma de suas faculdades, forças e tensões em um transtorno de tal violência que se chega imediatamente ao dizer essencial, que é atribuição imediata da alma ao seu fundo.
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Citação traduzida: “Lá, estamos em uma nua e essencial pobreza de espírito” (i, 39).
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Citação traduzida: “Resignar-se todo inteiramente como uma pobreza a si mesmo” (i, 51) deve ser entendido como imperativo de toda mística abstrata.
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A Pérola diz que a criatura que tem vontade de Deus deve “seguir Deus em sua solidão de pobreza” (ii, 3), assumir Cristo em suas solidões e pobrezas (iii, 1) e por fim vir à “dei-passiva pobreza e liberdade de espírito” (iii, 66).
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A pobreza é essa fúria de nudez que faz de cada sujeito a incomparável assunção de seu deus — e por isso imediatamente a todo outro vindo como sua sombra límpida.
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Georg Simmel — evocado a propósito da individuação dos retratos em Rembrandt — fornece a expressão: a pobreza mística “se esgota completamente em cada ser isolado.”
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Não há sujeito senão no singular, pois absorvido e igual a seu deus, que é um — e portanto multiplicado em seu princípio mesmo, pois toda criatura pode, pela parte que lhe cabe, tornar-se por sua vez, a seu momento e a seu termo, sujeito.
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Citação traduzida: “Perseverando em uma verdadeira pobreza de espírito, ela (a alma) considera o quanto não é nada e mergulha a si mesma na essência divina, que crê firmemente estar dentro de si” (iii, 58).
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A alma cai em deus porque deus é possuído pela alma — o sujeito não está mais em questão: ele é a resposta.
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A questão é: qual lei de além-sentido governa o que se diz em abstração, pobreza, renúncia e abnegação, vacância de si?
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Citação traduzida da Pérola: “Devemos sempre nos estender na consideração de nosso nada, como aquele que não tem nada, não pode nada, não sabe nada, e não pode prevalecer-se de nada: pois é nesse nada que consiste toda a nossa salvação (…). Que se eu quero chegar a esse nobre nada e ser feito nada, é necessário que esse nada, isto é, minha alma, com nada, que é Deus, seja feito nada: pois Deus mesmo não é nada de todas as coisas que podemos dizer dele (…) E pondo de lado toda ação interior, lancemo-nos ao centro ou ponto da essência divina, de tal modo que nunca mais voltemos. Lá então será a essência compreendida da essência. Lá esse nada, isto é, Deus, é encontrado por esse outro nada, isto é, pela alma. Lá nada, que é essa alma, é envolto e afogado dentro do nada, isto é, Deus. Lá por fim o nada é absorvido e engolido pelo nada. Habitarei lá.” (i, 40).
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A alma inquieta e contudo sem lágrima deve “aniquilar toda pesquisa própria” (i, 42), e o homem da mística deve “ser reduzido ao nada, ser tornado mais imóvel que o nada” (i, 43).
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Citação traduzida: “humilhar-se, aniquilar-se e vilificar-se em todo tempo” (ii, 12), pois a humildade é o “centro do coração no qual a brasa ardente do amor divino é conservada e coberta” (ibid).
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Citação traduzida: “afogar e submergir em sua nileidade” (ii, 30), de tal modo que “a alma se deprime quase a si mesma até dentro do abismo da niléidade” (i, 23).
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Citação traduzida: “Assim a alma será transformada em Deus, e Deus nela (…) será feito nada” (iii, 65).
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Citação traduzida: “nesse aniquilamento e conhecimento de seu nada (nada da alma), Deus é conhecido e goza de si mesmo” (ii, 19).
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A vacuidade total — sem emoção, intimidade nua e absoluta, tornar-se coisa morta e insensível, brûlement até aniquilação — é a fórmula de aniquilamento e a gênese do sujeito.
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É preciso esse nada, essa lógica da despesa sem resto, para que “eu” possa dizer-se assim, “eu” — um “eu” tão despossessado de toda paixão de si para ser possuído de toda paixão do outro.
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A Pérola Evangélica é um dos textos, herdeiro direto das espiritualidades nórdicas, onde se formula mais nitidamente essa refração da criatura desapropriada em sujeito votado a seu destino de onipotência — pois habitado doravante de todo outro.
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Citação final da seção: “A Pérola Evangélica, ou a invenção continuada do sujeito como depositário de alteridade. Sua invasão como maior múltiplo comum.”
7. Imagem sem imagem
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A mística renana levou o nada ao seu mais alto grau de conceptualidade — o sujeito como resposta imemorial do mundo — e a Pérola dispõe a necessidade desse nada segundo um silogismo rigoroso.
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Citação traduzida da Pérola: Deus é a vida do espírito, o espírito é a vida da alma, a alma é a imagem de Deus (i, 14) — donde resulta que Deus é a imagem de Deus.
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O irrepresentável é imediatamente imagem e não pode “ser” senão tal — paradoxo da imagem onde nada faz de referencial, pois é o referencial mesmo que se refere a si em uma reflexividade absoluta.
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Imagem vazia — Deus sendo esse nada de que a alma perdidamente pede para contemplar a nua-validade.
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Uma imagem de imagem seria apenas ilusão, puro torvelinho do estilo no estilo, do rastro no rastro, do nada de Deus no nada da criatura.
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A cena mística é imediatamente o fundo nu de uma alma desnuda — e a Pérola nomeia imagem esse fundo e essa nudez: é também dizer que não há imagem senão de abstração.
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Citação traduzida: “É preciso que o que é feito à imagem convenha com a imagem” (i, 20).
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Citação traduzida: “a alma em seu interior se torna ela mesma nua e livre de toda imagem” — assim está em atração de Deus, vindo a “desvanecer a si mesma” (i, 29).
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Citação traduzida: “Além de toda razão, imagem e semelhança, (a alma) vê Deus essencialmente em sua essência nua” (ii, 17).
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Citação traduzida: “o fundo da alma é morada da imagem de Deus” (i, 4).
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Citação traduzida: “Quando pela imagem de Jesus Cristo entramos no abismo da alma, é preciso que todas as imagens permaneçam fora” (ii, 19).
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Citação traduzida: “Na imagem de nossa alma (Deus) está inseparavelmente unido (e) nunca quer e nunca pode separar-se dela” (i, 37).
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A imagem de Deus, que é Deus na alma, é o outro nome da essência de Deus — assim como a criatura se abstrai de todo valor para entrar na ordem do sujeito, a imagem de Deus se abstrai de toda referência para entrar na ordem da essência.
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Não há acesso à essência de Deus senão pelo acesso à sua imagem na alma, que é esse deus presente aqui e agora.
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Citação traduzida: toma “em teus interiores (…) essa amável imagem sem forma” em que Deus, “segundo sua divina natureza (…) corre e flui sem cessar no abismo divino” (iii, 7).
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Citação traduzida: “Mergulha-te nessa nobre e divina imagem (e Deus) te elevará em direção à sua imagem não pintada e sem forma” (ibid).
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Oximoro fundador da presença: “imagem não pintada” — como se diria desenho sem traço, como se dizia luz de sombra; “nudez não pintada”, “clareza muito límpida” (iii, 55).
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Sob o conceito de essência — conceito estranho que faz explodir todo fechamento ao qual obedece a própria razão do conceito — se declinam paisagens da alma e de seu deus até sua nudez perfeita.
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Citação traduzida: Deus é “essência de toda essência” (ii, 1), “essência essencial” (ibid), “vida superessencial” (ii, 12).
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Citação traduzida: “Essencialmente, verdadeiramente e nuamente, estais na essência de minha alma (…) a nua essência do espírito (…), a unidade da essência em que (Deus) habita propriamente, atualmente e fruitivamente sem imagem” (ii, 1).
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Citação traduzida: “Somos transferidos na contemplação superessencial. Pois não podemos, em lugar nenhum, encontrar Deus tão nuamente como nessa nua essência da alma” (iii, 39).
8. A razão do sujeito
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O sujeito pode então dizer-se — e a Pérola enuncia a soberania, a liberdade e o jogo do sujeito que, por fim, habita seu deus.
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Citação traduzida: “Que vossa divindade se deleite em habitar em mim” (i, 49).
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Citação traduzida: “estudar-se a frequentemente entrar e sair na divindade” (i, 48).
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Citação traduzida: A alma deve “assaltar” Deus e “feri-lo” até merecer ser “esgotada de seu amor atual” (i, 30).
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Citação traduzida: “Por mim entendo como Deus é incompreensível, dado que não posso compreender a mim mesmo” (i, 20) — proposição que está ali apenas para ser invertida: sou o único capaz de deus.
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Citação traduzida: Deus “é por ti tão dobrado (…) que parece pôr-se em esquecimento de si mesmo” (ii, 15).
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Citação traduzida: “vos escolherei e habitarei em vós, e vós em mim.”
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Citação traduzida: “Façamos então uma comutação e troca entre nós: vós cuidais de mim e eu cuidarei de vós” (iv, 13).
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No coração do enunciado místico vem, como seu cumprimento, a razão do sujeito — e se a Pérola insiste tanto no imperativo de abstração, no processo de essencialidade, na necessidade do nada, é para alojar no centro desse dispositivo teórico o espaço nu onde se segrega permanentemente a mutação da criatura em seu deus, do sujeito em seu outro.
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Esse espaço nu, esse fundo íntimo da alma, esse jazimento último do espírito deve tomar o nome de foro interior — pois aqui deve se tornar ato a figura do sujeito.
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O foro interior não é a fronteira da consciência que separa a íntima convicção da submissão a uma regra moral ou ética — ele concerne ao último dobramento do espaço interior onde se realiza a co-presença da criatura e de seu deus, e onde se enuncia a gênese contínua do sujeito como capacidade de alteridade.
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Citação traduzida: “Eles têm Deus plenamente em seu poder” (i, 38).
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Para que não haja, nesse querer do sujeito, nenhuma ocasião de fechamento sobre um si a todos os títulos desprovido, mas plena abertura à infinita liberdade de todo outro, a Pérola diz esse sujeito como passagem no próprio ato de sua reflexividade.
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O sujeito não é o conceito oriundo de Deus e nele fazendo estada de eternidade — é essa obra de reflexão e retorno que funda a possibilidade de um olhar claro sobre o mundo atravessado.
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Citação traduzida: é preciso que da criatura a Deus toda deleição se cumpra sem mediação, como amor muito puro (i, 7), “tranquila e manifesta fruição” (i, 55), em grande simplicidade de alma; no seu primeiro fundo, “a alma está lá, simplificada” e pode “contemplar Deus simplesmente sem obstáculo”, com “um olho simples” (ii, 30).
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Citação traduzida: “renovada em um certo 'agora' ou 'instante' eterno” (i, 31).
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Citação traduzida: “Entre o tempo e a eternidade, entre a morte e a vida” (i, 22), a alma é esse intervalo habitado de um sujeito de pura liberdade.
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Citação traduzida: “liberdade deífica” (i, 5); liberdade louca — ser “totalmente louco a si mesmo” (i, 42); “introversão” (i, 31) e jubilação do sujeito em sua ciência de si, que é nascimento comum do outro.
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O sujeito é passagem — em seu deus, no nu-fundo de sua alma, em seu horizonte de estrita nudez — e se engendra dessa lapidação: sujeito como transpassamento, travessia.
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Citação traduzida: sujeito “transradiado” (ii, 17), transverberação, trânsito. Sujeito: palavra-de-passe.
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Citação traduzida: A alma, “essa porta de Sião” (ii, 39), comunica com a essência de Deus em toda reversibilidade.
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Citação traduzida: “Sair de mim é entrar em Deus” (ii, 37); “entrar em mim é dar ocasião ao verbo de se dizer, a Deus de fazer presença.”
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Citação traduzida: “Esse Verbo vivo e engendrado dentro de nós” (i, 33) — o sujeito é o verbo, porque é essa passagem radical por onde se desdobra a palavra divina.
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Citação traduzida: “largo escoamento e abismo da divina doçura” (ii, 52) — o sujeito é a porta desvairada por onde Deus escoa, e que se abre a todo o real do mundo, entre tempo e eternidade, entre Deus e corpo (ii, 33).
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Citação traduzida final: “Quero querer” — postura eminente de soberania e vontade abrindo o sujeito ao talante de todo outro, sempre presente em si mesmo, fazendo irredutível precedência.
9. Teceduras
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O texto é de pleno horizonte, desde o início — livro que une sua origem à sua razão desde que se abre ao leitor, com esplendor do verbo e exatidão do enunciado místico.
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Há também uma impaciência de devoções que lhe assegurou em seu tempo a extrema atenção da Igreja e dos propagadores da fé — e que poderia hoje exasperar algum leitor.
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Devoções, rituais de orações, regulamentos de vida quotidiana e disciplinas a observar em sua estrita rigorosidade — toda essa glória, agora esbatida, de preces e cerimônias de salvação — talvez delineie um espaço de saber, uma ciência de si e de todo outro, inseparável de uma espiritualidade participante da mais irreversível das decisões.
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O livro deve ser lido e cifrado, decifrado e relido, para que se possa roubá-lo ao seu destino — que o assignava a enfrentar o desafio há muito suspeito e devastador da heresia luterana, monstro plural invadindo terras germânicas e flamengas.
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Todo texto que exaltasse a necessidade da Igreja e a observância dos atos e palavras de fé foi obstinadamente recomendado a um povo sempre pronto a se deixar seduzir ou a fazer revolta.
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As múltiplas edições da Pérola testemunham essa fúria de convencer cristãos invadidos de dúvida e de afirmar uma fé sem fiador.
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O texto é explodido — toda progressão argumentativa dilapidada por ser precipitado em demasia urgência em direção ao seu cumprimento — trama de enunciados acoplados e ajuntados que se podem restituir a seus destinadores.
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Quem definiria a origem sem antecedente de um dizer que corre pela Europa dos espirituais há mais de dois séculos antes que a Pérola se escrevesse?
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Tecedura e mescla que significam essa paixão de se hissar de um golpe ao mais vivo da espiritualidade, gerando a expressão mais acabada da grande mística da Renascença.
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O compósito da obra arriscava oberar sua capacidade de inventar um espaço de pura abertura fora dos fechamentos convencionados — mas ao contrário fundou, dos anos 1530 nas Flandres e nos países alemães até o pleno século XVII francês, o argumentário central da razão mística.
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A Pérola Evangélica é evento singular pela multiplicidade mesma das heranças que assume e dobra à sua própria rigorosidade — ela instaura um tempo novo na mística, exaltando toda lucididade dos tempos anteriores ao seu.
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Ela não conclui: abre permanentemente um questionamento capital, suficientemente inaudito para que se tenha podido ignorar seu imperativo, suficientemente afirmado para que se possa ler e apreender plenamente.
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A Pérola é herdeira de todas as místicas que se decidiram ao fio dos séculos nos países thiois, flamengos e alemânicos — herança literal, filiação conceitual.
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A espiritualidade não descreve uma progressão de fé, mas se porta de imediato ao ponto de acabamento do percurso — não definir exercícios e gradações, mas dispor-se o mais rápido possível no foco da busca mística, sua razão e seu ato.
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A Pérola deve ser entendida assim: exasperação espetacular das místicas precedentes, sua súbita imposição como textos dispersos vindos à convergência, e a moldagem de seu sentido em um enunciado emblemático.
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A Pérola não é término de uma história secular nem novação ex-nihilo — ela exalta os enunciados místicos em um lugar essencialmente não habitado até então, mas a condição expressa de atenuar as diferenças entre os enunciados de que se serve, até apagar as diferenças.
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Esse rasamento se faz, porém, pelo alto — quando a Pérola toma emprestado de tal Padre da Igreja e de tal místico de sua época ou ascendência, não é procedimento ilustrativo, menos ainda argumento de autoridade, mas apropriação singular de um fragmento de obra vindo aqui à sua completude.
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Autores mencionados: Boaventura, Eckhart, Harphius, Santo Agostinho, São Bernardo, Santo Anselmo, Ruusbroec, Alberto Magno.
10. A respiração capital
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Há no texto uma prática de fragmento que se experimenta como estilo de incomparável densidade — não um encaixe onde cada empréstimo viria em complemento de outro, mas o fragmento dado como escrita mesma, em sua insularidade, sua dição, seu teorema.
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Quando a Pérola diz a alma essencial, convoca um argumento fundamental da mística renana — mas trata-se, rigorosamente falando, de uma convocação sem apelo: o texto exige silêncio depois de ter formulado essa razão.
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A Pérola retorna sem cessar a esse dizer não por escrúpulo de melhor convencer, mas porque esse retorno ao gesto essencial é a marca escritural do ponto de efervescência e de nervosidade do texto.
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O texto, vindo à sua fórmula, se coloca em exterioridade absoluta em relação a tudo que o poderia assaltar de questões e dúvida.
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É um vertigem que toma o leitor quando entra nesse texto sem piedade — não um abalo de todos os signos, mas a singularidade que está em outro lugar: na obstinação em fundar um espaço extremo onde o sujeito se carrega de uma divinização que o propulsa na cena social em grande soberania.
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O texto gira, poder-se-ia dizer, em vazio e em vivo, sempre em torno de um ponto de grande decisão, o que o arrasta em uma fuga sem outro término que a reiteração de sua exposição — construção em espiral.
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Em outros enunciados de espiritualidade, tudo se compõe em gradação: a via da purgação, o tempo de iluminação e a fruição unitiva e deiforme.
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Todo texto místico se propõe como disciplina em três tempos — e esse sistema ternário constitui uma configuração invariante dessa ciência.
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A Pérola rompe esse encanto — esse encerramento da fórmula por uma série de cautelas e argumentos de prudência que instalam as núpcias em deus em um foco de sacralidade infigurada — e diz o que é preciso de desafeto e ruína de si para que se possa desdobrar a obra de Deus.
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A Pérola se dispõe de imediato nesse horizonte de colapso, onde da criatura ao seu deus nada mais permanece, salvo o nada.
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O texto é um texto maior em sua materialidade mesma, que é sua respiração capital: diz em inicial o que deve vir ao final — instala a fórmula essencial como duração mesma do enunciado e não cessa de a repetir e retomar, sem consideração pelo dano lógico que daí resulta.
11. O centro irradiante
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A Pérola é texto fora da lei — corrompe a lei do gênero, que já não conhecia outra senão a do mais profundo da loucura de Deus: é de dupla transgressão, pondo sua palavra ao desafio do olhar de Deus.
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Poderia ter acontecido que a escrita se tornasse atormentada à imagem da alma — grafia de inquietude, alta paixão, proclamação de desrazões fundadoras, belezas explosivas de incêndios de amor e gemidos trêmulos.
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Mas a Pérola é recusa mesma de todo enunciado de emoção — não se trata de trazer à superfície todas as desesperanças e alegrias, piedades e desordens, aventuras da alma ao diapasão de seu deus, mas de se portar ao mais límpido da obra, seu ponto de doação mais tranquilizado.
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Outros já tinham vindo e dito isso da mesma maneira — enunciado de fora de todo pathos, aliviado de toda emoção, límpido de todo afeto — e a Pérola é de bela herança, mas que se hissa de uma só decisão do verbo ao mais acabado dos enunciados emblemáticos.
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Ao longo do Reno, das Flandres e da Espanha, de menor amplitude vinda da Itália ou da França, toda a mística converge na Pérola — golpe de força, golpe de graça.
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A Quarta parte é de redação de mão terceira — a cada vibração de história, cada violência de heresia, cada tormento de Igreja e de fé, uma adição, a nova descoberta de uma sequência manuscrita, uma expansão de empréstimos.
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A Pérola não cessa de se escrever porque convoca uma espiritualidade toda nova, onde a criatura se desprende tanto mais de seu eu para atingir a seu deus quanto esse rapport funda, no instante mesmo em que se quer, a íntima razão do foro interior.
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A estrutura repetitiva e serena da enunciação decide da capacidade do texto de se situar fora de uma história de furor, longe de constituir uma figura militante.
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Assim, de uma assemblagem por princípio heteróclita, a Pérola tece uma rede cerrada de argumentos, inteiramente vertida à conta de um conhecimento de Deus que supõe a assunção definitiva do sujeito em sua dupla insolência — solidão vinda de seu perfeito desistimento, soberania essencial a partir do momento em que ao seu deus o sujeito se equivale.
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A Pérola diz à sua vez os caminhos a empreender para buscar um deus salvador, e as provas a superar para merecer o encontro inefável — mas isso não se enuncia segundo o modelo convencionado da aprendizagem dos iniciantes, o progresso dos avançados, o êxtase dos perfeitos.
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O dito místico aqui atravessa em uma só audácia de sentido e indisciplina o conjunto dos sítios onde toda criatura deve purgar suas paixões e se expandir na luz de seu deus.
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Chega-se então a se dispor no centro irradiante desse deus — que imediatamente se sabe ser esse outro mesmo de si —, inventando ao centro do sujeito investido de toda a história que o funda um espaço de pura desligação: espaço do quant-à-soi e de propensão do outro, mundo de troca livre consigo mesmo e com todo outro, dobramento de interioridade — foro interior, essa chance de alteridade.
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A Pérola — portadora desse desafio súbito e insatisfeito, em sua pressa de pôr em limpo tudo que se tramava há longa data na espiritualidade flamenga — pôs em consonância todo enunciado místico aparentado ao seu próprio querer-dizer.
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Lê-se nesse livro de todas as intranquilidades e de todas as transposições capítulos, fragmentos, construções e exemplos tirados daqui e de lá, no mais profundo da reflexão patrística, no mais autorizado da mística dos arredores, no mais partilhado das razões teológicas.
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Pouco importa — e pouco nos importa, a nós leitores de além-século — que tal autor seja devidamente referenciado, tal autoridade reconhecida, tal empréstimo estampilhado.
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O essencial permanece essa lapidação de sua gênese a que todo o texto se empenha — dizer de tudo que o precedeu o fim exato, o horizonte por fim alcançado, o sujeito por fim vindo à catástrofe de sua ciência, que é sua capacidade de habitar um lugar fora de toda história, fora do mundo, fora mesmo de si.
12. O murmúrio inessencial
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Fincados no coração da modernidade europeia em sua renascença plural, equívoca e instável, a Pérola e seu avesso, a mística e sua passagem radical — texto vindo tanto mais depressa à sua tensão quanto sob os tempos anteriores jazía essa alta figura do sujeito capaz de nada.
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A Pérola diz o sujeito capaz de íntima liberdade, em um transtorno generalizado das categorias e dos referenciais.
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Isso se formula com tanto mais refinamento e acuidade quanto esse dizer se coloca a si mesmo à prova — orações, preces, longos encadeamentos litânicos de devoções e prescrições morais — operando, em torno da palavra essencial, uma cenografia paradoxal.
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Desvio de sentido: é preciso, para garantir a credibilidade do dizer místico, assegurar sua ligação sem falha com os rituais discursivos da teologia mais inflamada, ao risco de ver essa palavra se extinguir sob a cinza dos palavras assim dispostos em seus arredores.
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Sem dúvida essa rede de preces e devoções, de relatos da Paixão e de glórias marianas, parece vir aqui como sobrecarga de obscuridade — mas onde, nesse emaranhado de signos convencionados e codificados, o falar místico poderia ainda se formular?
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Lição de trevas: a Pérola dispõe tudo o que é preciso de obstáculos à sua escuta, de ruídos ao contrário de seu dizer, de razões de obscurecimento contra seu brilho, para que a prova de que ela trata seja ao mesmo tempo a prova atravessada em sua escrita mesma.
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Era preciso, obstinadamente submetida às leis de um gênero ao qual ela se furtava porém, que se traçasse, no corpo mesmo dessa retórica, a necessidade de sua ruína.
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A Pérola é essa ferida que, desde então, calmamente escoa.
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Reivindicar para a Pérola uma unidade de composição é algo que evidentemente falta — foram evocados colagens e fragmentações, argumentos explícitos ou mascarados, adições terceiras e oblíquas.
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Mas não há incisas que não venha, de mão de autor ou de copista, de decifrador de parentesco ou de vigilante, se agregar à espiritualidade da Pérola como à sua chance de escuta mais estrita — nem herança que não conheça doravante essa majoração que a autoriza a durar.
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A Pérola responde assim a uma dupla exigência: incluir em seu enunciado, como sua sombra indelével, as mais altivas filiações pelas quais toda mística afflui em seu foco natural; instalar em torno de sua obra bastante de murmúrios doutrinários e digressões devotas para que a palavra capital se faça clamor, e não cesse de constranger ao silêncio todo murmúrio inessencial.
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