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Livro 1 (211 a 240)

I, 211: Dos violentos é o reino dos céus.

NÃO é Deus quem dá o reino dos céus: tu mesmo deves atraí-lo
e lutar por ele com toda a força e zelo.

I, 212: Eu como Deus, Deus como eu.

DEUS é o que Ele é; eu sou o que eu sou;
mas se conheces bem um, conheces a mim e a Ele.

I, 213: O pecado.

A sede não é uma coisa, e no entanto pode atormentar-te;
como então não há de o pecado roer o mau eternamente!

I, 214: A doçura.

A doçura é veludo, no qual Deus jaz e repousa;
se és ela, Ele te agradece por Lhe dares a sua almofada.

I, 215: A justiça.

QUE é justiça? Aquilo que a todos por igual
se dá, ordena e perdoa, aqui e no reino dos céus.

I, 216: A deificação.

DEUS é o meu espírito, o meu sangue, a minha carne e os meus ossos;
como não hei de estar então com Ele, deificado por inteiro?

I, 217: Agir e repousar é próprio de Deus.

PERGUNTAS o que Deus ama mais, agir para Ele ou repousar?
Eu digo que o homem, como Deus, deve fazer ambas as coisas.

I, 218: A visão divina.

QUEM no próximo não vê senão Deus e Cristo,
vê com a luz que floresce da divindade.

I, 219: A simplicidade.

A simplicidade é tão preciosa que, se faltasse a Deus,
Ele não seria Deus, nem luz, nem Sabedoria.

I, 220: Eu também à direita de Deus.

VISTO que o meu Redentor acolheu a humanidade,
também eu cheguei n’Ele à direita de Deus.

I, 221: A fé.

A fé, grande como um grão de mostarda, leva a montanha ao mar;
pensai o que poderia fazer, se fosse abóbora!

I, 222: A esperança.

A esperança é uma corda; se um condenado pudesse tê-la,
Deus o tiraria do pântano em que se afoga.

I, 223: A certeza.

A certeza é boa, e a confiança é bela;
mas se não és justo, ela te levará ao suplício.

I, 224: O que Deus é para mim, eu sou para Ele.

DEUS é para mim Deus e homem; eu sou para Ele homem e Deus;
eu apago a sua sede, e Ele me vale na miséria.

I, 225: O Anticristo.

POR que olhas espantado, homem? O Anticristo e a besta
(se tu não estás em Deus) estão ambos em ti.

I, 226: A Babel.

TU mesmo és Babel; se não sais de ti,
continuarás sendo o bordel do diabo eternamente.

I, 227: A sede de vingança.

A sede de vingança é uma roda que nunca se detém;
quanto mais gira, porém, mais foge de si.

I, 228: O abominável da maldade.

HOMEM, se chegasses a ver em ti as imundícies,
terias horror de ti, como do diabo.

I, 229: A ira.

A ira é fogo infernal; quando se acende em ti,
é profanado ao Espírito Santo o terno leito em que repousa.

I, 230: A beatitude é fácil de alcançar.

PARECE-ME mais fácil lançar-se ao céu
do que penetrar o abismo à força de pecados.

I, 231: Os ricos amantes do mundo.

CRISTÃO, quando passar uma corda pelo olho da agulha,
dize que o rico voou ao reino dos céus.

I, 232: Senhor, faça-se a tua vontade.

O que Deus ouve de ti com mais agrado
é quando dizes de coração: seja louvada a sua vontade.

I, 233: O eco de Deus.

O meu amor e todas as coisas são o eco de Deus,
quando Ele me ouve gritar: meu Deus e todas as coisas.

I, 234: Deus por Deus.

SENHOR, se amas a minha alma, deixa-a abraçar-te;
por mil deuses, ela jamais te abandonará.

I, 235: Tudo com Deus.

ADORO a Deus com Deus, desde Ele e n’Ele;
Ele é o meu espírito, o meu verbo, o meu salmo e todo o meu poder.

I, 236: O espírito nos representa.

DEUS ama-Se e louva-Se a Si mesmo tanto quanto pode;
ajoelha-Se e inclina-Se, adora-Se a Si mesmo.

I, 237: No interior ora-se bem.

HOMEM, se queres saber o que significa orar sinceramente,
entra em ti e pergunta ao Espírito de Deus.

I, 238: A oração essencial.

QUEM vive puro de coração e segue o caminho de Cristo
adora essencialmente a Deus em si mesmo.

I, 239: A Deus louva-se no silêncio.

CRÊS, ó pobre homem, que o alarido da tua boca
seja o canto de louvor justo para a silenciosa deidade?

I, 240: A oração silenciosa.

DEUS está de tal modo em toda parte que nada se pode dizer;
por isso, melhor O adoras com o silêncio.*)
*) Veja-se Maximiliani Sandæi, Theologia mystica, livro 2, comentário 3 por inteiro, e Baltasar Álvarez, na sua Vida, escrita por Ludovicus de Ponte.

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