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Livro 1 (180 a 210)

I, 181: É preciso usar a violência.

QUEM não se violenta para ser o filho amado do Altíssimo,
fica no estábulo, onde estão os criados e o gado.

I, 182: O mercenário não é filho.

HOMEM, se serves a Deus por bens, pela beatitude, pela retribuição,
ainda não O serves como filho, movido por amor.

I, 183: As núpcias místicas.

QUE alegria deve ser, quando Deus desposa a sua amada,
pelo seu Espírito, no seu Verbo eterno.

I, 184: Deus é para mim o que eu quero.

DEUS é o meu cajado, a minha luz, o meu caminho, a minha meta, o meu jogo,
meu pai, irmão, criança, e tudo o que quero.

I, 185: O próprio lugar está em ti.

NÃO és tu que estás no lugar; o lugar está em ti:
se o expulsas, já está aqui a eternidade.

I, 186: A casa da eterna Sabedoria.

A eterna Sabedoria edifica; eu serei o palácio,
quando eu encontrar repouso nela, e ela em mim.

I, 187: A vastidão da alma.

O mundo me é muito estreito, o céu muito pequeno;
onde haverá ainda espaço para a minha alma?

I, 188: O tempo e a eternidade.

DIZES: transporta-te do tempo para a eternidade;
há então alguma diferença entre a eternidade e o tempo?

I, 189: O homem faz o tempo.

TU mesmo fazes o tempo: o relógio são os sentidos;
se apenas deténs o volante, o tempo morre.

I, 190: A igualdade.

NÃO sei o que fazer! Tudo me é igual:
lugar e não-lugar, eternidade, tempo, noite, dia, dita e sofrimento.

I, 191: Quem há de contemplar a Deus deve ser tudo.

QUEM não é ele mesmo tudo é ainda muito pequeno
para ver-Te, meu Deus, e para ver todas as coisas.

I, 192: Quem está verdadeiramente deificado.

HOMEM, só quando chegaste a ser todas as coisas
estás no Verbo e na ordem dos deuses.

I, 193: A criatura está de fato em Deus.

A criatura é mais em Deus do que em si;
se perece, não obstante permanece n’Ele eternamente.

I, 194: Que és tu diante de Deus?

HOMEM, não te ensoberbeças de tuas obras diante de Deus,
pois a ação de todos os santos é diante de Deus um jogo.

I, 195: A luz perdura no fogo.

A luz dá força a tudo: o próprio Deus vive na luz;
mas se Ele não fosse o fogo, ela logo pereceria.

I, 196: O cântaro do maná e a arca espiritual.

HOMEM, se é de ouro o teu coração e pura a tua alma,
podes também tu ser a arca e o cântaro do maná.

I, 197: Deus faz ser perfeito.

QUE Deus seja todo-poderoso não o crê aquele
que me nega a perfeição, como Ele a quer.

I, 198: O Verbo é como o fogo.

O fogo castiga todas as coisas e, no entanto, não se move;
assim é o Verbo eterno, que tudo agita e eleva.

I, 199: Deus fora da criatura.

VAI para onde não podes; vê onde não vês;
ouve onde nada soa nem se escuta, e estarás onde Deus fala.

I, 200: Deus não é nada (quanto à criatura).

Notas a I, 200
Pensamento muito audaz, de origem sem dúvida weigeliana, cf. Weigel: Do Lugar do Mundo, cap. XVII: «Embora Deus nada queira em si mesmo, chega apenas à vontade na criatura». É possível que essa corrente de pensamento tenha chegado a Scheffler por meio de Czepko: cf. a Sextilha de Czepko (citada por Ellinger, p. XXIX): «Deus não é Deus por si; Ele é o que é; só a criatura O escolheu Deus». Não obstante, o pensamento de Silesius afasta-se de Weigel e de Czepko num ponto essencial: Deus torna-se «algo», isto é, determinação, vontade, não pela primeira criação, mas pela criação da graça, «elegendo» o homem; a posição da «criatura» fora d’Ele mesmo é substituída pelo seu ato de amor por esta criatura: mudança característica de Silesius.
DEUS de fato não é nada; e se é algo,
é-o apenas em mim, quando me escolhe para Si.

I, 201: Por que nasce Deus?

Ó mistério inconcebível! Deus perdeu-Se a Si mesmo,
por isso quer renascer em mim.

I, 202: A alta estima.

Ó alta estima! Deus salta do seu trono
e me senta sobre ele no seu Filho amado.

I, 203: Sempre o mesmo.

CHEGUEI a ser o que era, e sou o que fui,
e sê-lo-ei eternamente, se corpo e alma forem curados.

I, 204: O homem é a mais alta das coisas.

NADA me parece alto: eu sou a coisa mais alta,
porque até Deus, sem mim, é pequeno para Si mesmo.

I, 205: O Lugar é o Verbo.

O Lugar e o Verbo são um; e se não houvesse Lugar,
(pela eternidade eterna!) não haveria Verbo.

I, 206: Como se chama o Homem Novo?

SE queres conhecer o Homem Novo e saber o seu nome,
pergunta primeiro a Deus como costuma nomear-Se.

I, 207: O festim mais belo.

Ó doce festim! O próprio Deus será o vinho,
o alimento, a mesa, a música e o servidor.

I, 208: A bem-aventurada intemperança.

DEMAIS nunca é bom! odeio a intemperança;
mas quisera estar tão cheio de Deus quanto Jesus.

I, 209: Como a boca, a bebida.

A prostituta Babilônia bebe sangue e bebe morte;
ó grande diferença! Eu bebo sangue e bebo Deus.

I, 210: Quanto mais entregue, mais divino.

OS santos estão tão ébrios da divindade de Deus
quanto estão n’Ele perdidos e abismados.

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