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Livro 1 (151 a 180)

I, 151: O homem é para a eternidade.

QUANDO Deus fez nascer o seu Filho pela primeira vez,
escolheu-nos, a ti e a mim, como leito de nascimento.

I, 152: Tu mesmo deves ser Cordeirinho de Deus.

QUE Deus seja um cordeirinho não te vale, cristão,
se tu mesmo também não és um cordeirinho de Deus.

I, 153: Deves tornar-te criança.

HOMEM, se não te tornares criança, jamais entrarás
onde estão as crianças de Deus: a porta é muito pequena.

I, 154: A virgindade mística.

QUEM é límpido como a luz, puro como a fonte,
é escolhido por Deus como virgem.

I, 155: Aqui se deve começar.

HOMEM, se queres estar junto ao Cordeirinho de Deus eternamente,
deves já aqui seguir os seus passos.

I, 156: O próprio Deus é o nosso prado.

VEDE o milagre! Deus comunica-se tanto,
que quer ainda Ele mesmo ser prado para os cordeiros.

I, 157: O estranho parentesco de Deus.

DIZE, ó grande Deus, como estou aparentado contigo,
que me chamaste Mãe, Noiva, Esposa e Criança?

I, 158: Quem bebe da fonte da vida?

QUEM pensa sentar-se lá junto à fonte da vida
deve antes aqui exalar a própria sede.

I, 159: O vazio é como Deus.

HOMEM, se estás vazio, a água mana de ti,
como da fonte da eternidade.

I, 160: Deus tem sede, dá-lhe de beber.

O PRÓPRIO Deus se queixa de sede: ai, que o mortifiques assim,
e não lhe dês de beber como aquela mulher, a Samaritana!

I, 161: A luz eterna.

SOU uma luz eterna, ardo sem cessar:
meu pavio e meu óleo é Deus, meu espírito é o vaso.

I, 162: Tens de ter a filiação.

SE queres chamar ao Altíssimo Deus teu Pai,
tens antes de confessar que és o seu filho.

I, 163: Deve-se amar a humanidade.

TU não amas os homens, e fazes bem;
é a humanidade que se deve amar no homem.

I, 164: Com abandono contempla-se a Deus.

O anjo contempla a Deus com olhos serenos;
eu, porém, ainda muito mais, se posso abandonar Deus.

I, 165: A Sabedoria.

A Sabedoria encontra-se à vontade onde estão os seus filhos.
Por quê? (ó milagre!), ela mesma é uma criança.

I, 166: O espelho da Sabedoria.

A Sabedoria contempla-se no seu espelho.
Quem é? ela mesma, e quem pode tornar-se Sabedoria.

I, 167: Quanto tu em Deus, tanto Ele em ti.

QUANTO a alma em Deus, tanto repousa Deus nela;
nem mais nem menos — crê-o, homem —, assim Ele será para ti.

I, 168: Cristo é tudo.

Ó milagre! Cristo é a verdade e o Verbo,
luz, vida, alimento e bebida, caminho, peregrino, porta e morada.

I, 169: Não desejar nada é beatitude.

OS santos estão cingidos pela paz de Deus
e têm beatitude, porque nada desejam.

I, 170: Deus não é alto nem profundo.

DEUS não é alto, não é profundo; quem diz o contrário
ainda tem da verdade uma lição muito má.

I, 171: Não buscando encontra-se Deus.

DEUS não está aqui nem ali; quem deseja encontrá-Lo,
que se deixe amarrar mãos e pés, corpo e alma.

I, 172: Deus vê antes que tu penses.

SE Deus desde a eternidade não vê os pensamentos,
tu és antes que Ele: Ele ponto, tu limites.

I, 173: O homem não vive só de pão.

O pão não te nutre: o que no pão te alimenta
é o Verbo eterno de Deus: é vida e é espírito.

I, 174: Os dons não são Deus.

QUEM pede dons a Deus está muito mal situado:
adora a criatura e não o Criador.

I, 175: Ser filho já é bastante.

FILHO é a palavra mais preciosa que Deus pode dizer-me;
se Ele a diz, pode faltar-me o mundo e até o próprio Deus.

I, 176: Um como o outro.

O inferno torna-se reino celeste, ainda aqui na terra
(e isto parece estranho), se o céu pode tornar-se inferno.

I, 177: No fundo, tudo é um.

Fala-se de tempo e lugar, de agora e eternidade;
mas que são tempo e lugar, e agora e eternidade?

I, 178: A culpa é tua.

DE que tua vista se cegue ao olhar o sol,
são culpados os teus olhos, e não a intensa luz.

I, 179: A fonte de Deus.

VISTO que as torrentes da divindade hão de manar de mim,
devo ser uma fonte; se não, elas se esgotariam.

I, 180: Um cristão é igreja e é tudo.

QUE sou eu afinal? Devo ser a igreja e a pedra,
o sacerdote de Deus e também a oferenda.

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