ABUNDÂNCIA
Fuente: Filon. Obras completas de Filon de Alejandría, en 5 volúmenes traducidos del griego al español por José María Triviño. De Opificio Mundi: vol. 1
Esta é, aparentemente, a primeira razão pela qual o homem foi criado em última instância. Mas devemos mencionar uma segunda, que não carece de verossimilhança. A razão pela qual o homem teve à sua disposição todos os recursos necessários para a vida no momento em que surgiu pela primeira vez foi para instruir as gerações futuras, pois era quase como se a natureza proclamasse abertamente e em voz alta que, assim como o fundador da humanidade, elas deveriam viver sem trabalho nem preocupações, em meio à mais prodigiosa abundância de todas as coisas necessárias; o que teria ocorrido, se as paixões irracionais não tivessem dominado a alma, erguendo contra ela o muro da gula e da libertinagem; se os desejos de glória, riqueza e poder não tivessem roubado o controle de sua vida; se as penas não tivessem abatido e distorcido seu entendimento; se o medo, conselheiro funesto, não tivesse destruído seus impulsos para ações virtuosas; e se a insensatez, a covardia, a injustiça e a incontável multidão dos demais vícios não a tivessem assaltado.
Porque atualmente, quando prevalecem todos os vícios mencionados e os homens se entregam às paixões e aos impulsos incontroláveis e repreensíveis que nem é lícito mencionar, eles receberam o castigo merecido, a sanção por seus costumes ímpios. E esse castigo consiste na dificuldade de obter as coisas necessárias. E assim, arando laboriosamente a terra plana e irrigando-a com as correntes de fontes e rios, semeando e plantando, e suportando dia e noite, ao longo do ano, a fadiga dos trabalhos da terra, obtêm-se os mantimentos necessários, embora às vezes de qualidade insignificante e em quantidade não totalmente suficiente. Dano que lhes sobrevém por muitas causas; seja porque as torrentes de chuvas sucessivas arrasam as plantações; seja porque o peso do granizo se precipita em massa sobre elas e as destrói; seja porque a neve as congela; seja porque a violência dos ventos as arranca pela raiz, pois são muitas as maneiras pelas quais a água e o ar convertem a produção de frutos em esterilidade.
Por outro lado, se os impulsos desmedidos das paixões fossem apaziguados pela prudência; e as tendências para o crime e as ambições fossem apaziguadas pela justiça; e, para dizer em poucas palavras, se os vícios e suas práticas infrutíferas cedessem diante das virtudes e das ações virtuosas; eliminada a guerra do interior da alma, que é verdadeiramente a mais terrível e penosa das guerras; prevalecendo a paz íntima e proporcionando ela, com modos calmos e suaves, uma ordem bem regulada às faculdades do nosso ser, haveria esperança de que Deus, como amante da virtude, da retidão e também do homem, proporcionasse à espécie humana os bens sem necessidade de produzi-los e ao alcance de sua mão; que, evidentemente, seria mais fácil para Ele ainda proporcionar abundantemente, sem necessidade do trabalho agrícola, o produto de criaturas já existentes, do que trazer à existência aquelas que não existem. [Ou seja, se Ele foi capaz de criar a partir do que não existe, como não seria, com mais razão ainda, capaz de fazer com que o que já existe produza seus frutos espontaneamente, sem necessidade de cultivo?]
