IMAGEM E SEMELHANÇA
Obras completas de Filon de Alejandría, en 5 volúmenes traducidos del griego al español por José María Triviño. De Opificio Mundi: vol. 1
Como já foi referido, Moisés diz que, depois de todas as outras criaturas, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1, 26). E diz isso com toda a razão, pois nenhuma criatura terrestre é mais semelhante a Deus do que o homem. Ninguém, porém, imagine que a semelhança reside nas características corporais. Nem Deus tem forma humana, nem o corpo humano se assemelha a Deus. O termo “imagem” se aplica aqui à parte governante da alma, a inteligência. E, de fato, a inteligência de cada uma das criaturas que sucessivamente passaram a existir foi conformada à imagem de uma única inteligência, aquela Inteligência do universo, que é como um arquétipo, sendo, de certa forma, um deus para aquele que a carrega e guarda reverentemente em seu espírito; porque, evidentemente, a inteligência humana ocupa no homem a mesma posição que o Grande Soberano ocupa em todo o mundo. Ela é, de fato, invisível, mas vê tudo; e sendo impossível perceber sua substância, ela apreende as substâncias de todas as outras coisas. Além disso, enquanto pela obra das artes e das ciências abre caminhos em todas as direções, todos eles largos, ela marcha pela terra e pelo mar investigando a natureza de cada uma das coisas.
E, numa segunda etapa, depois de remontar-se como criatura alada e contemplar o ar e suas mudanças, ela eleva-se ainda mais, em direção ao éter e às vias circulares do céu; e depois de vagar misturada nas danças que os planetas e as estrelas fixas realizam de acordo com os modos da música perfeita, seguindo o amor pela sabedoria que guia seus passos, deixando para trás toda a substância apreensível pelos sentidos, lança-se a partir daí em busca do que é apreensível pela inteligência. E ao contemplar naquela região as incomparáveis belezas que são os modelos e formas exemplares das coisas sensíveis que havia visto aqui, presa de uma sóbria embriaguez, como aqueles que experimentam o delírio dos Coribantes, sente-se inspirada; e cheia de um anseio distinto e de um desejo superior, pelo qual é conduzida à alta esfera das coisas apreensíveis pela inteligência, acredita ir ao encontro do próprio Grande Rei.
Mas, quando deseja vivamente contemplá-lo, raios puros e imaculados de claridade compacta se derramam como uma torrente, de modo que o olhar da inteligência é ofuscado pelo resplendor. Como nem toda imagem corresponde ao seu modelo e arquétipo, sendo muitas delas diferentes, Moisés completa o sentido da expressão “segundo a imagem” acrescentando “e semelhança”, para enfatizar que se trata de uma reprodução prolixa de nítida impressão.
