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JOSÉ PABLO MARTÍN

JOSÉ PABLO MARTÍN — FÍLON DE ALEXANDRIA E A GÊNESE DA CULTURA OCIDENTAL

1. Há dois milênios

  • As opiniões sobre o lugar de Fílon na história da cultura divergem amplamente, indo desde considerá-lo um pregador medíocre do helenismo até o fundador da filosofia pós-grega.
  • É indiscutível que os dois milênios desde seu nascimento produziram sistemas de interpretação da realidade com características comuns aos esboços filosóficos de Fílon, inexistentes antes dele.
  • Seus escritos estão num cruzamento de caminhos, sendo considerados um elo entre platonismo e neoplatonismo, rabinismo e cabala, judaísmo e cristianismo, filosofia grega e moderna.
  • H. Wolfson propôs a tese de que em Fílon se encontra a fundação da filosofia religiosa no judaísmo, cristianismo e islamismo, tese completada ao longo das conclusões de cada capítulo.
  • A concepção resultante dessa fundação teria sido desagregada apenas na filosofia de B. Spinoza.
  • O presente trabalho, sem pretender projetar-se tão definidamente sobre toda a história da filosofia, quer ingressar no texto do alejandrino para descrever movimentos conceituais que nele se operam.
  • Esses movimentos vão de pressupostos gregos, hebreus e helenistas em direção a uma nova maneira de pensar, que se expandiria na história europeia.
  • Escreve Fílon em De Somniis, I, 60: “em efeito, quando (Abraão) se houvera conhecido ao máximo, então ao máximo se desconheceu a si mesmo, a fim de chegar a um exato conhecimento do que em verdade é”.

2. Fílon de Alexandria

  • Fílon tinha cerca de quinze anos quando começava a era cristã, vivendo ainda quarenta ou cinquenta anos mais, tendo recebido na juventude a mais esmerada educação ou paideia grega, prolongada depois nas escolas de filosofia.
  • De família judia, herdou a Lei mosaica e as tradições da Diáspora, comprometendo-se ao longo de sua vida com a sorte de seu povo.
  • Mostrou predileções pela vida monástica e descreveu detidamente dois movimentos monacais judeus: os essênios, da Palestina, e os terapeutas, do Egito.
  • Pertenceu a uma rica família relacionada com a classe comerciante de Alexandria, com a corte imperial de Roma e com a dos Herodes da Palestina.
  • Presidiu a embaixada que os judeus de Alexandria enviaram ao imperador Calígula, que não aceitou os pedidos e mostrou ter mudado negativamente sua vontade em relação aos hebreus.
  • Com o assassinato de Calígula durante sua estadia em Roma, o novo imperador Cláudio estabeleceu o “Edito de Cláudio”, um esquema jurídico para lograr a convivência dos diversos grupos étnicos, não muito distante das ideias políticas de Fílon.
  • Alexandria era então o porto mais importante do Império, capital intelectual do mundo romano, onde pululavam sábios, escolas e religiões.
  • A comunidade judaica de Alexandria era a mais numerosa e florescente da época, centro da chamada cultura judaico-helenista, onde surgiriam as primeiras escolas teológicas do cristianismo.
  • É decisivo compreender Fílon em suas duas pertenças: a alexandrina e a judia, sendo que a tradição alexandrina já tinha três séculos quando ele nasceu.
  • O ideal alexandrino pretendia recolher todas as manifestações da sabedoria, literatura e ciências dos povos em um círculo humano universal, sendo a língua e a cultura gregas os veículos e as tradições particulares os conteúdos.
  • Nesse ambiente surge a “escola judia”, à qual Fílon pertence explicitamente depois de mais de dois séculos de trajetória, cuja ideia central reside em projetar a doutrina de Moisés de uma compreensão particular para uma universal.
  • Para tanto, não basta a tradução idiomática da “Lei” de Moisés (Septuaginta), sendo necessária a transposição do gênero literário, ou seja, da linguagem narrativa para a conceitual filosófica.
  • Fílon se apresenta como um exegeta da Bíblia grega, convertendo o texto em um grande sintagma contínuo e pondo em jogo o acervo da hermenêutica alexandrina.
  • Muitos críticos concluíram que, em vez de um sistema filosófico, existe apenas verborragia, mas uma leitura mais atenta mostra certa regularidade ou coerência na organização simétrica de questões dispersas.
  • O estudo dessas organizações hermenêuticas faz descobrir um conceito, se bem que não um sistema em sentido estrito, que é o que dá razão dos sucessivos passos interpretativos.

3. Sua obra

  • Fílon escreveu cerca de 50 livros, cobrindo mais de três mil páginas atuais, a maioria dos quais chegou até nós, sendo conhecida no idioma original, o grego koiné.
  • O grupo mais numeroso de seus escritos pode ser agrupado sob o título de “interpretação alegórica do Gênesis”, com 19 tratados que sucedem temática e exegeticamente.
  • É apresentada esquematicamente a concatenação desse grupo orgânico de tratados, com abreviação, título completo em latim, passagens do Gênesis e tema exegético-filosófico de cada um.
  • Nesse conjunto, a interpretação alegórica incorporou a história espiritual do homem, que desde sua obscuridade inicial acede à sabedoria divina, ao quadro exegético dos temas do Pentateuco.
  • Próximos aos tratados anteriores existem outras obras exegéticas cujo texto é o Gênesis, como De Somnis I e II e, principalmente, De opificio mundi, a obra mais conhecida de Fílon.
  • Outro grupo de tratados descreve as figuras dos Patriarcas como arquétipos da vida humana elevada para Deus, incluindo De Abrahamo, De Josepho e De vita Mosis I e II.
  • Outros títulos se detêm na observância legal, expondo a lei e as tradições judias, como De decalogo, De specialibus legibus (I a IV), e as Quaestiones et solutiones in Genesim e in Exodum.
  • Um grupo de títulos tem características apologéticas, de exposição ou defesa da doutrina judia, incluindo De virtutibus, De praemii et poenis, De vita contemplativa, De Providentia e Hypothetica.
  • Existem também ensaios de caráter filosófico onde se expõem opiniões das escolas da época, especialmente estoica, platônica e aristotélica, sem citar textos bíblicos: Quod omnis probus liber sit e De aeternitate mundi.
  • Foram conservadas duas obras históricas de grande importância onde se narram as turbulências antijudias da Alexandria do século I e a embaixada que Fílon presidiu: In Flaccum e Legatio ad Caium.
  • A edição crítica principal é a alemã de Cohn, sendo de utilidade também a inglesa de Colson, e a mais consultada para este trabalho é a francesa, dirigida por Arnaldez-Pouilloux-Mondésert.
  • Os leitores de língua espanhola possuem uma tradução do texto grego integral publicada por José M. Triviño, que será seguida por geral, salvo quando for necessário um reflexo imediato do texto original.
  • Existe uma dificuldade na tradução da palavra-chave nous, que pode aplicar-se a Deus e ao homem, tendo-se preferido o castelhano “intelecto” para este termo.

4. A crítica

  • Sendo Fílon um escritor tão complexo e tendo vivido em tempos de confluências e fermentos, é fácil compreender que entre os estudiosos modernos se originem juízos discrepantes sobre sua obra.
  • Discute-se se Fílon é um pensador definido, criador de um sistema coerente, ou se é um retórico sincrético sem ideias vertebrais.
  • Em caso de lhe ser atribuída alguma filiação definida, discute-se a identidade histórica de seu pensamento: se é um filósofo helênico, se é um crente judeu que expressa a concepção bíblica em um marco helenista, ou se há uma transposição do judaísmo à mística oriental.
  • Ocorre também uma interpretação de Fílon pelo que viria depois dele, como fundador da filosofia religiosa no judaísmo, cristianismo e islamismo.
  • Não existe ainda um estudo global e sistemático da linguagem filoniana, nem se resolveu o problema da relação entre forma e conteúdo de sua particular maneira de discorrer.
  • Muito se estudou sobre o caráter exegético de sua obra, e algo se disse sobre seu estilo.
  • Entre os estudos mais importantes que tentaram uma interpretação global do pensamento do filósofo, destacam-se as obras de Bréhier (1908), Heinemann (1932) e Wolfson (1947).
  • As conclusões importantes de Bréhier resumem-se assim: a ideia central é a relação da alma com Deus; o encontro com Deus outorga um reconhecimento da própria nada e da nada do mundo, mais do que uma episteme no sentido clássico; a suprema sabedoria é o autoconhecimento, ou seja, saber-se criado por Deus; Fílon preanuncia a era moderna com Descartes; essa transformação não se explica pelo judaísmo nem pelo platonismo, mas sim pelo ambiente alexandrino e pela teoria estoica dos intermediários.
  • A obra clássica de Heinemann afirma que o acercamento entre o helenismo eclético de Fílon e sua fé judia se dá a um alto preço: o esquecimento da “história sagrada” e a consequente perda da adesão concreta à Lei e ao seu culto.
  • Wolfson, em sua obra monumental, conclui que Fílon seria o fundador da filosofia religiosa que dominaria toda a Idade Média até a chegada de Spinoza, sendo o motor dessa transformação não o helenismo nem as religiões alexandrinas, mas a fé judia.
  • O interesse por Fílon concentrou-se tradicionalmente em áreas culturais específicas: na Alemanha (maioria dos estudos e primeira edição crítica), na França (investigações notáveis nas últimas duas décadas), na área inglesa e americana (relativo despertar de estudos), e em hebraico.
  • Na área de língua espanhola não existem estudos originais sobre Fílon, gozando-se, no entanto, da versão integral do texto grego publicada em Buenos Aires por J.M. Triviño em 1975.

5. O método

  • O início metodológico apoia-se na constatação de supostas “contradições” no texto de Fílon, às quais se agregam as opostas interpretações dos críticos, preferindo-se chamá-las de antinomias.
  • Escolhendo o campo antropológico, parte-se da bipolaridade de conceitos que problematizam a compreensão do homem, como “alma - corpo”, e prossegue-se estudando outras bipolaridades que se aparentam à mencionada.
  • A partir das antinomias estudadas em vários temas, trata-se de descobrir as gravitações de conceitos com os quais Fílon formula leis mais gerais.
  • Para entender as leis dessas correlações, propõe-se o conceito metodológico de gravitação, com o qual se trata de dar conta do comportamento diverso das oposições semânticas conforme os níveis em que se colocam.
  • Este estudo é mais um estudo do resultado que Fílon alcançou ao recontextualizar o variado material de sua cultura judaico-helenista do que uma análise de suas fontes.
  • O problema do intérprete moderno consiste na comprovação de que para o alejandrino existem regras de lógica, de dialética e até de gramática que têm uma legalidade restrita: valem até certo nível, depois devem ser negadas.
  • A pergunta sobre se essa aparente arbitrariedade pode, por sua vez, ser compreendida com base em regras encontrará uma complexa resposta nas páginas seguintes.
  • Fílon pode ser lido como quem quer filosofar com método rabínico ou como quem quer conduzir o caminho religioso e ético do homem concreto mediante a diáfese platônica.
  • A presente leitura trata de definir o conceito que resulta de conduzir a hermenêutica de Moisés por sucessivas, recursivas e intermináveis oposições semânticas.
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