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IMAGEM DE DEUS
JOSÉ PABLO MARTÍN, “FILÓN DE ALEJANDRÍA Y LA GÉNESIS DE LA CULTURA OCCIDENTAL”
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Duas tendências convergentes se abraçam constantemente no pensar filoniano: uma teologia que inclui em si o homem e uma antropologia que inclui em si Deus.
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Por um lado, separa-se cada vez mais Deus do não-divino; por outro, pensa-se esta separação nos esquemas do intelecto e da subjetividade humanos, unindo o que se separa e colocando o homem como o análogo fundamental de toda afirmação teológica.
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Ao descrever o homem, descrevem-se nele dois elementos (um racional e divino, outro somático e mortal), sendo o homem definido como uma presença extraterritorial do divino no cósmico.
3.1. Antropomorfismo e Teologia
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Para afirmar a transcendência de Deus, Filão recorre à fuga do nome segundo a tradição hebraica, pois não existe um nome próprio para Deus, sendo o termo theós frequentemente uma denominação de uma potência divina e não privativo do Criador.
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Deus é inefável em absoluto, estando além do Um e do Bem (Contempl 2), e toda denominação possível é incapaz de referir o Ser.
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Filão resolve a dificuldade dos textos bíblicos que falam da ira, do braço, dos pés de Deus deslocando a tensão ao nível humano: o homem imperfeito necessita de uma pedagogia onde Deus é como o homem, mas os perfeitos sabem que não existe paixão em Deus.
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Excluem-se de Deus as paixões e as partes orgânicas (pés, mãos, olhos, boca, narizes, inimizades, desejos), ou seja, o movimento físico, o movimento das paixões e das partes orgânicas.
O lugar central do intelecto no composto humano é um caminho analógico para falar de Deus, pois o intelecto humano, simples, indivisível, reitor e de natureza inteligível e livre, serve à filosofia para expressar como é Deus.-
A solidão do intelecto (Migr 191) é signo da solidão de Deus (192), dando-se, porém, profunda diferença, porque o intelecto não criou seu corpo como Deus criou seu mundo (193).
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Deus não é humano como o inferior do homem; Deus é divino como o superior do homem, e o amor e a inteligência são de por si divinos e não humanos.
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Para construir a teologia não servem os braços e os pés do homem, mas seu intelecto é indispensável.
O atributo da incognoscibilidade de Deus, característico do Deus transcendente, é também assunto do homem, pois o fundo último de seu ser é incognoscível.-
O intelecto humano é invisível e incognoscível, e assim como ninguém vê a Deus, ninguém vê o intelecto (Somn I 30-34), sendo a alma e o intelecto humano coisas invisíveis.
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Tanto o intelecto humano quanto Deus são conhecidos somente por seus efeitos, sendo aquele um fragmento divino (apóspasma theion, Somn I 36).
O encontro real e fusionante entre o homem e Deus não é o resultado de um mero ascenso intelectual nem de uma vontade criada que sobe pelo bem, devendo inteligência e vontade passar antes pelo momento negativo da incompreensibilidade de Deus e da nulidade do homem.-
Mais além da natureza das coisas, existe a possibilidade de um encontro gratuito e pessoal, no qual Deus incognoscível se manifesta e no qual o homem incapaz se diviniza.
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Tanto Deus como o homem, por debaixo de toda definição categorial, celebram um pacto porque chegaram a ser sujeitos não constituídos por atributos, tendo chegado a ser “Eu” e “Tu” (Mut 52).
3.2. É Próprio de Deus o Fazer
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Em Filão, o conceito de póiesis é deslocado para o nível mesmo de Deus, identificando-o com o de atividade e com o de criação, pois “é próprio de Deus o fazer” (Cher 77).
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Filão organiza as coisas dando a Deus o lugar originante de maneira solitária, sendo a matéria sua sombra absoluta e a total distância, e não uma companheira como no demiurgo platônico.
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Deus é o princípio determinante, mas absolutamente indeterminável; é como uma noite escura, ativa, incognoscível, mas dadora de inteligibilidade, fonte dos arquétipos e das ideias, que são concebidas como criaturas de Deus.
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O matrimônio de forma e matéria (Timeu) é transformado na pareja criadora “Deus - Sabedoria”, transferindo a tensão criadora para o âmbito do sujeito atuante e subordinando a ele também o substrato passivo.
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Para Filão, nem o mundo das ideias nem o sensível são “divinos” por direito próprio, podendo sê-lo por força de Deus, que trabalha na criação dos contrários arquetípicos (Opif 33-34).
Deus é a remota fonte de atividade e a única, sendo o mundo inteligível o conteúdo de um ato intelectivo da causa soberana, ao modo como o homem é dono da vida de sua mente.-
Deus não é medido por nada porque é a fonte de todas as medidas, e não é um ser expressável em categorias porque é a fonte delas.
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O princípio do verum ipsum factum (o verdadeiro é o próprio feito) encontra-se desenvolvido em Filão: o pai não pode ser ignorante daqueles que gerou, e o único que verdadeiramente conhece as coisas é Deus, porque as fez (Migr 40-42).
A matéria não é de nenhuma maneira um princípio externo a Deus que se lhe enfrente como a condição passiva posta ante a ativa, iniciando-se em Filão o caminho filosófico para o conceito de creatio ex nihilo.-
Filón distingue entre fazedor e criador, onde o Deus criador não somente dá a forma (ou a “luz”) mas também dá a existência (o “ser”) a coisas que antes não existiam.
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O filósofo evita atribuir à matéria a qualidade de causa ou concausa junto a Deus, pois o mundo não tem em si nenhum princípio (aítion) de geração ou de existência.
3.2.2. Os Arquétipos Criados
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O mundo dos intermediários desenhado por Filão é complexo, e a sucessão aparentemente desordenada de ideias bíblicas, tradições sapienciais e elementos helenistas faz muito árdua a interpretação dos aspectos particulares.
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Imediatamente depois de Deus transcendente e inefável atuam suas potências, entre as quais se destaca o logos de Deus, e estas potências sustentam o mundo inteligível ou das “ideias”.
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A oposição “inteligível - sensível” possui uma conotação essencial na pareja “imutável - mutável”, opondo-se o perfeito divino ao cambiante mortal.
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Nesta escala de gravitações, o arquétipo, além de modelo ideal, chega a converter-se no teleotipo ou estádio definitivo do regresso da criatura, atraindo e sendo a meta do caminho humano.
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O homem “genérico” ou arquetípico é o homem separado, o homem santo que chegou à imutabilidade de Deus, havendo uma progressão entre o homem carnal e o ideal como entre o exercitante e o músico perfeito (Leg I 94).
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O que Filão descreve mediante a oposição entre o homem arquetípico e o terrestre é a distinção entre o que progride e o perfeito, entre o submetido ao mal e o virtuoso.
O conceito platônico de “ideia” recebe uma dupla transformação: a) a ideia não é mais repouso eterno de uma forma cabe si mesma, mas o produto pensado de um pensador (Deus não está submetido ao sistema de Ideias, mas é seu “Senhor”); b) a ideia passa a ser o télos do homem de maneira radical, como o fim ou meta de um ser que caminhou através de todo o particular e se identifica com o Espírito do Deus supragenérico.-
O verdadeiro arquétipo do homem é Deus, e já não se trata do desdobramento até alcançar a estatura de uma forma, mas da ascensão do particular até a aquisição da imortalidade coeterna dos arquétipos cabe Deus.
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Da atividade do sujeito (divino) surgem as ideias; das ideias surgem as coisas; o homem deve refazer o caminho: das coisas às ideias, das ideias a Deus.
3.3. O Admirável Comércio
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O escambo de dons, no qual o homem e Deus se encontram, é a coroação do itinerário da alma, sendo a fase final de todo o comentário alegórico sobre o Gênesis, que chega a seu cume no De mutatione nominum.
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O escambo ou intercâmbio de dons é uma categoria chave para relacionar Deus, homem e mundo, onde todo o homem é um dom.
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Deus é o único que presenteia (Deus 87), não necessita nem pode receber nada (Cher 44), sendo a capacidade de doar superior à humana capacidade de receber (Mut 218).
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O mundo e o homem receberam tudo o que são como presente de Deus a si mesmos (Deus 107), e todas as criaturas são empréstimo umas para as outras (Cher 109-110).
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Existir é ser doado a si mesmo, e tudo o que existe fora de Deus se apoia ontologicamente sobre a ação divina dadora (panta charis, tudo é graça).
Apesar da afirmação absoluta da graça, o mal e a liberdade humana pugnam por limitá-la, sendo a solução encontrada no homem: “Em nós mesmos está o depósito dos males, já o disse, em Deus somente se encontra o dos bens” (Fug 79).-
Existe uma convergência de vontades (Deter 60) pela qual Deus coroa a busca do homem, sem borrar por isso a antinomia entre esforço e graça.
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O tema da graça impõe decisões graves no campo filosófico em duas direções principais e convergentes: na concepção do ente contingente e na concepção da subjetividade.
Em Filão e por influência bíblica, a concepção do sujeito se desloca desde o âmbito hilemórfico para o antropológico, desde o campo noético para o mais complexo da responsabilidade moral e do amor.-
O vínculo entre a insondável subjetividade e o sentimento de absoluta indigência, ligado ao tema do êxtase como experiência de Deus, abre caminho para a tematização da intersubjetividade.
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A relação “Eu-Tu”, já presente no discurso bíblico, é formalizada por Filão no conceito de aliança (diathéke), que é o resultado e a finalidade do admirável comércio.
3.3.2. Matrimônio e Filiação
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A linguagem nupcial é um dos modos privilegiados do discurso filoniano para expressar as relações entre Deus e o homem, onde Deus é denominado esposo e pai, e o homem, esposa e filho.
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Deus engendra o mundo no seio de sua sabedoria (Ebr 30), e nunca é esposo da matéria ou de nenhum princípio material, mas esposo de um princípio divino feminino concebido por ele mesmo como ciência própria.
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Se Deus é esposo e pai, então o homem é filho e esposa, sendo estas duas relações irredutíveis uma à outra, indicando uma paternidade sem dependência e um matrimônio sem fusão.
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As metáforas de pai e esposo se unem para sinalizar que Deus é criador e doador, implicando que o homem é amado sem chegar a ser nunca igual.
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O matrimônio com Deus não corrompe a feminilidade, mas a faz incorruptível; a alma fecundada por Deus se faz por isso mesmo virgem porque se faz incorruptível.
O caráter mediador do conceito de “pai” se evidencia na paternidade biológica e humana como reflexo da paternidade do Criador, que “dá o ser ao que não o tinha”, mas estes níveis de paternidade cessam ante a consideração da divina paternidade.-
O homem deve optar entre duas concepções opostas (Caim ou Abel), deixando-se seduzir pelo próprio brilho ou reconhecendo que é uma luz recebida do verdadeiro sol.
3.3.3. Sacrifício de Holocausto
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O culto verdadeiro e perfeito deve superar o ritualismo e a oferenda material, oferecendo o mais íntimo que o homem é, sendo o modelo deste sacerdócio total Abraão, disposto a sacrificar seu filho maior (fruto masculino de sua alma).
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A razão do culto total reside em que se deve devolver o dom, já que o homem inteiro é um regalo ou um empréstimo de Deus, sendo o mesmo ato de sacrificar considerado não um ato “da alma”, mas de Deus que faz aparecer nela a graça (Leg I 82).
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O herdeiro divino será o que faça de si mesmo o sujeito e o objeto da oferenda a Deus (Her 76), não conservando para si seu pensamento, sua inteligência, sua apreensão, mas levando-os e oferecendo-os à causa.
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O único e último rito da alma é a libação de si mesma, ou a ustão completa em “holocausto” (Leg III 141), onde a oferta única é a totalidade de si mesmo e o prêmio definitivo é a radicação do homem inseguro na eterna firmeza da Causa.
A doutrina do sacerdócio racional e do holocausto da alma encerra uma orientação filosófica que provém do total enfrentamento de todas as coisas com a única causa inefável e criadora, único porto para o qual pode dirigir sua rota a instabilidade humana.-
O conceito de “santidade” ingressa nos umbrais da ontologia como “separação” do causado e incausado, e a ontologia submete o conceito de ser ao desejo absoluto.
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O homem deve abandonar-se completamente a si mesmo para que Deus realize nele a transformação, e possuir o Absoluto é a contrapartida da absoluta abnegação (o “admirável comércio”).
3.4. O Cosmos, Primogênito de Deus
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Durante os inícios da era cristã, os esquemas cosmológicos (grego, persa, hebreu, gnóstico) se cruzavam e fusionavam, e a pergunta que se coloca é se na concepção global de Filão existe outro polo que se enfrente a Deus.
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Não se pode afirmar que Filão segue o esquema grego, pois a oposição inteligível-sensível já não soa como nos gregos; também não se pode colocá-lo no esquema dualista persa, pois a matéria não constitui um polo contrário, mas marca o vazio total que está frente a Deus.
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Não há dualismo nem dialética em Filão, pois o “não-ser” não tem positividade, e o único caminho possível para entender a natureza do cosmos é ascender até o Criador do cosmos.
A tese de H. Jonas de que Filão seria um antecedente do gnosticismo (pela quebra do sentido da virtude como positividade humana e pela acentuação da nulidade do homem) precisa ser matizada.-
A diferença fundamental entre Filão e o gnosticismo reside na afirmação da bondade da criação (Deus viu que era bom, Gênesis 1,31) e na afirmação de que o homem pode decidir-se pelo bem seguindo os mandamentos.
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O que poderia parecer um desprezo pelo mundo não é senão um aspecto do sistema antinômico no qual se move Filão, devendo-se aceitar o lugar privilegiado que Jonas atribui a Filão para a compreensão do gnosticismo, mas não se deve ler a ambiguidade filoniana a respeito do kósmos em sentido dualista.
O mundo se determina por suas relações: a primeira relação (autor-obra) diz que Deus é perfeito e sua obra é perfeita, sendo o mundo “a mais perfeita das coisas que chegaram à existência”.-
A segunda relação (mundo-homem) é pessimista e se dá quando o homem descabeça a obra criada e se esquece do autor, aparecendo então ao nu a inconsistência do criado.
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A terceira relação (Dios-mundo) se dá quando o mundo regressa a seu Criador como obra perfeita, e as imagens filonianas fazem confluir em uma só realidade as figuras do Logos santificador, o mundo e o homem.
A existência da criatura entre Deus princípio e Deus fim é um conceito expressamente pensado por Filão (Her 120-121), onde o homem e a criação ocupam o lugar intermediário entre princípio e fim, entre Deus e Deus.-
Todo o sentido do homem é aceitar os dons de Deus (aceitar-se a si mesmo como dom) para oferecer a libação de si mesmo ao doador (Her 184).
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A cosmologia de Filão é concebida desde a antropologia, e esta, desde a teologia.
3.5. A Gravitação Universal, ou a Chave do Edifício Filoniano
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O pensamento filoniano está tecido como um sistema de gravitações, e para buscar uma ordem nestes círculos gravitacionais mencionam-se três níveis de interpretação dos difíceis textos, sobre a base de três momentos ou princípios que regem as oposições.
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Primeiro princípio (Deus): Deus é um e é tudo, é o princípio e o fim, é puramente atividade, fonte inagotável que nada necessita do produzido, sendo anterior a todo conceito, a toda palavra, a todo movimento, anterior ao Um e ao Bem.
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Segundo princípio (Deus e criação): Da fecundidade absoluta de Deus toma origem o círculo das realidades intermediárias que se movem entre Deus e Deus, onde brilha o logos e todas as potências e o cosmos inteligível, e onde os polos são Deus e o homem.
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Terceiro princípio (O homem, entre o criador e o criado): O homem, cúspide e cifra da criação, é livre; Deus o atrai, mas o criado também; é um ser intermediário entre o bem e o mal, devendo recorrer o itinerário através de todas as coisas criadas até Deus em um progresso constante.
A função deste esquema com três níveis é a de guia hermenêutica para ler as antinomias e os deslocamentos de significados próprios de Filão, tratando-se de três níveis em que há que entender as coisas e três princípios do pensar mesmo para Filão.-
O primeiro princípio é o da solidão ontológica ou separação absoluta da Causa, mais além de toda categoria e de toda linguagem e, portanto, mais além dos contrários.
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O segundo princípio é o da semelhança, pelo qual tudo o que existe, no céu e na terra, se compõe de ícones ou reflexos sucessivos e hierarquizados da plenitude de Deus.
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O terceiro princípio é o da ambiguidade ética do homem, pelo qual todas as coisas recebem a mesma ambiguidade do que pode elegê-las desprezando a Deus.
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