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biblia:filon:alegoria

EXEGESE FILONIANA, ALEGORIA FILONIANA

Excertos da excelente síntese de Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984).

Alegoria: ingenuidade, gênio, engenho

A obra de Fílon era um comentário da Bíblia… De qual Bíblia? Essa é uma questão que Fílon não se colocou; diante dele estava a Bíblia que ele lia diretamente em grego. Ele lia e explicava o texto grego. Ele pensa ingenuamente que a fibra e o tecido daquele grego formam um véu onde sopra um único Espírito, o sopro do logos. Ele recorre ao seu léxico para compreender melhor o hebraico que permanece ligado àquele grego nos nomes próprios, mas não se esforça para traduzi-lo melhor: o original hebraico não o preocupa, como preocuparia um filólogo. Ele lê o texto grego; compreende aquele sinal imenso que Deus faz à alma naquele texto obscuro; porque, embora o grego seja uma língua limpa, sua linguagem aqui é estranha. Mas ele sabe muito bem — onde aprendeu isso, como filósofo ou na sinagoga? — que a verdade está oculta. Trata-se, sem dúvida, de dizer tudo isso aos judeus menos cultos de Alexandria, em vez de aos outros, já que os alexandrinos se sentem naturalmente inclinados à análise, à minúcia, à sutileza, à ingenuidade. Fílon aplica com toda naturalidade seu aparato intelectual à Bíblia. Ele muitas vezes se apresenta como pregador, como se tentasse ir além da inteligência para convencer e edificar. Ele também se apresenta como uma espécie de trabalhador destinado à tarefa histórica de conjugar o espírito grego com a vitalidade da lei judaica.

Este judeu não sabia hebraico e, aparentemente, pelo menos não sentia muito essa ignorância.

Este grego, cidadão romano, também não tinha muita vontade de ser um imitador de Platão. Parece que os alexandrinos, por tradição intelectual, sabiam que em outros tempos devem ter chovido sobre a terra, lá em Atenas, alguns tesouros de beleza e verdade, e que cabia a eles recolher essas provisões. Sua missão era ventilar esses tesouros, conservá-los, dar-lhes brilho. A imensa autoridade da lei, para um judeu, encaixava-se perfeitamente naquele preconceito alexandrino onde a avareza se unia à humildade. Afinal, em vez de ser um exegeta eternamente inclinado diante do texto escrito por outros, por que Fílon não pensaria e desejaria ser um profeta, um sábio, um cronista inspirado, ou seja, novo!… No fundo, nada de profecia; na forma, nada do diálogo platônico. Devemos até dizer que Fílon se tornou quase ilegível para nós. É uma pena. E, em todo caso, é paradoxal.

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